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Acordar é um parto!

Num dia frio desses, me dei conta da grande similaridade entre o momento de despertar e o parto — do ponto de vista da criança que nasce. O ato de abrir os olhos e desfazer-se das cobertas numa manhã fria de inverno, para em seguida colocar-se de pé e perseguir um propósito qualquer, é uma experiência traumática (às vezes dá até vontade de chorar, não é mesmo?). Tão traumática quanto aquela do nascimento, em que o recém-nascido é invadido pela luz e pelos ruídos, deixa o calor do corpo da mãe e se depara com uma comitiva de seres estranhos e ameaçadores a contemplá-lo — em suma, uma experiência em que ele é violentamente confrontado com toda a absurdidade do mundo. Acordar, para mim, tem um pouco dessa experiência. Por isso, eu digo: acordar é um parto!

Evidentemente, tal qual o nascimento, acordar é condição necessária para que se faça algo nesta vida — a menos que exista um mundo de sonhos, uma realidade transcendente, o que eu sinceramente não consigo afirmar. Entretanto, da mesma forma que o bebê se vê arbitrariamente subtraído de uma situação de conforto e é colocado diante de um mundo absurdo, sem saber o propósito dessa violência; sentimo-nos igualmente violentados pela luz do dia e pelas obrigações — sociais, econômicas, morais, etc. — que nos tiram do nosso leito, quando não temos claramente estabelecido o propósito de nossa vida.

Você acorda de bom humor? Foto: Ruby Lane Photography

Sendo assim, do mesmo modo que não se escolhe nascer, não se escolhe acordar. Simplesmente, a certa altura do dia, de forma espontânea ou provocado por estímulos externos, nosso corpo se dá conta de que está imerso numa realidade. É bem verdade que a repetição contínua e sistemática, dia após dia, desse acontecimento faz com que muitos o tomem como algo natural e corriqueiro, nem se dando conta de sua arbitrariedade. De fato, talvez nem seja proveitoso ficar pensando nisso quando se tem um dia inteiro de obrigações pela frente. Mas eu não consigo evitar esse tipo de questionamento.

De qualquer maneira, já que não me foi dado escolher nascer ou acordar, só me resta tentar dar um sentido para a vida e para o dia que se impõem a mim. Muitos dias acabam se perdendo no desânimo, no tédio e na procrastinação. Melhor que se percam assim do que sejam desperdiçados com hipocrisias. Mas há aqueles dias em que é possível agir seguindo os seus princípios, dizer aquilo que se pensa, encarar o mundo de frente, olhá-lo em seus olhos e declarar: “eu existo!” É por conta desses dias que ainda vale a pena viver, abrir os olhos e despertar, desfazer-se das cobertas e apostar algumas fichas de esperança no dia que começa.

Bom dia!

Sem açúcar, por favor

Já faz algum tempo que comecei a tomar café puro, sem açúcar. A ausência do adoçante permite que se aprecie a bebida de forma mais completa: o aroma, o corpo, o sabor. A grande dificuldade de se abandonar o açúcar, porém, vem do fato de que nosso paladar não está bem adaptado ao sabor amargo. E eu diria que não apenas o nosso paladar.

De fato, a palavra “amargo”, além de designar esse sabor particular — característico do café — , tem sido usada comumente para indicar um comportamento ranzinza, cheio de ressentimento, enfim, infeliz. A palavra “doce”, por sua vez, costuma ser empregada para qualificar uma pessoa que demonstra ternura, calma, bondade.

O interessante dessa associação metafórica entre um certo paladar e um determinado comportamento é que ela vai muito além das palavras. Com efeito, essa associação repousa num sistema de valores que orienta nossas ações — entre elas, o hábito de adoçar as bebidas amargas (além do café, o chá também) e o “postulado social” de se buscar a felicidade.

Seja no café, seja na vida: sem açúcar, por favor.

Desse modo, uma atitude aparentemente inofensiva como tomar café sem açúcar (se bem que é quase inevitável a estranheza pela maior parte das pessoas) pode abrir caminho para algumas reflexões. Será que, do mesmo modo que descaracterizamos o sabor do café ao adoçá-lo, não descaracterizamos o sentido verdadeiro da vida ao submetê-la ao imperativo da busca da felicidade? Quem sabe, ao buscarmos adoçar artificialmente todos os momentos da nossa vida, não nos tornemos intolerantes ao amargo e, desse modo, não suportemos as frustrações? Ou ainda, não estamos nos tornando insensíveis àquelas pequenas — e verdadeiras — felicidades, insaciáveis em querer a vida cada vez mais e mais doce?

Não sei se essas perguntas farão sentido para a maioria das pessoas, mas para mim, fizeram e fazem todo o sentido. Por isso, decidi tentar viver sem falsas esperanças e sem expectativas desmedidas. Decidi tentar viver um dia de cada vez. Tristes, alegres, com ou sem esperança, do jeito que eles forem. Seja no café, seja na vida: sem açúcar, por favor.

Minha plantinha solitária

Não me lembro quando esse pensamnto me veio à cabeça. O fato é que em algum momento eu me recordei de uma plantinha que tenho, que fica no vitrô da área de serviço. Lembrei-me de como, apesar da minha negligência, ela sobrevive bravamente. Ela veio num vasinho, que ganhei da minha irmã, junto com outros cactos. Em consequência do meu descaso — a jardinagem passa longe de ser um hobby — , os cactos não resistiram, murcharam e morreram. A plantinha seguiu firme e forte. Até cresceu: brotaram novas “folhas” e alguns raminhos se espalharam. Curiosamente, esse crescimento parece ter sido maior justamente quando me esqueci dela e parei de colocar água. Parece-me que a pouca umidade e a água que passa pelo vitrô quando ocorrem chuvas fortes são suficientes, além, é claro, da luz solar. Esse meio limitado parece bastar a ela. Qualquer interferência, ao que tudo indica, inibe seu crescimento.

O milagre da vida independe de nós

De fato, só uma planta assim poderia sobreviver comigo. De certa maneira, penso que ela representa um pouco do que eu sinto: às vezes preciso ser deixado de lado, esquecido por um tempo, para que eu possa crescer. Não preciso de muito para encontrar satisfação. Às vezes sinto falta do silêncio. Não raro, a tentativa de me ajudarem acaba me atrapalhando. A preocupação com o fato de que eu esteja mal, por estar só, talvez leve as pessoas a se aproximarem e, aí sim, me sinto sozinho.

Logo que pensei na plantinha levando em conta o meu caso, enfim entendi o que até então me intrigava: como podia ela sobreviver com tamanho desleixo da minha parte? Finalmente compreendi que ela era uma plantinha solitária. E, assim como eu, ela só quer viver no canto dela, em paz.