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Maquiavel e o “rei do camarote”

Durou pouco o reinado de Alexander Almeida. Da capa da Veja SP, passando pelo vídeo com mais de 4 milhões de exibições no Youtube, o “rei do camarote” logo se transformou em algo como o “bobo da corte” — ou ainda, o “bufão da internet”. Proliferaram como uma epidemia os memes e virais que tiravam um sarro do rei. Cansado de ser zoado, sua majestade retirou-se dessa vitrine da vida privada que é o Instagram.

Abstenho-me aqui de fazer mais uma crítica ao estilo de vida exuberante, para dizer no mínimo, do baladeiro que se tornou celebridade da noite para o dia. Além disso, não quero ser moralista, por mais estúpido que eu possa achar esse “personagem” da noite paulistana.

Tampouco vou investigar a origem desse dinheiro tão prodigamente incinerado. Se o que o nosso rei queria era chamar a atenção, parece que ele conseguiu. Os coletores de impostos já estão de olho nele.

No entanto, o que foi que deu errado se nosso “herói” seguiu à risca todos os mandamentos do consumismo desenfreado e do exibicionismo mais desavergonhado? De repente, fiquei pensando se o “rei do camarote” não poderia ter tirado proveito dos conselhos de Maquiavel antes de ter se transformado em motivo de chacota. Pois, bem, vejamos o que disse o pensador florentino em O Príncipe:

Sobre as amizades:

[…] as amizades que se adquirem por dinheiro, e não pela grandeza e nobreza de alma, são compradas mas com elas não se pode contar e, no momento oportuno, não se torna possível utilizá-las. (Cap. XVII)

Sobre os aduladores (vulgos puxa-sacos):

Refiro-me aos aduladores, dos quais as cortes estão repletas, dado que os homens se comprazem tanto nas suas coisas próprias e de tal modo se iludem, que com dificuldade se defendem desta peste e, querendo defender-se, há o perigo de tornar-se menosprezado. (Cap. XXIII)

Sobre a liberalidade (ou prodigalidade, gastança, esbanjamento, etc.):

E não há coisa que tanto se destrua a si mesma como a liberalidade, pois, enquanto tu a usas, perdes a faculdade de utilizá-la, tornando-te pobre e desprezado ou, para fugir à pobreza, rapace e odioso. Dentre todas as coisas de que um príncipe se deve guardar está o ser desprezado e odiado, e a liberalidade te conduz a uma e a outra dessas coisas. (Cap. XVI)

A julgar pelo que disse Maquiavel, o reinado de Alexander estava fadado a durar tanto quanto uma velinha de garrafa de champanhe. Bem que ele podia ter buscado uns conselhos em O Príncipe. Afinal, Maquiavel agrega a tudo!

O rei que virou bobo da corte

Veja: a ética da hipocrisia e o espírito da classe média

Ao abrir meus e-mails ontem, deparei-me com uma mensagem cujo remetente era a revista Veja. A princípio, pensei que se tratava de mais uma daquelas ofertas para assinatura da revista, com descontos generosos — o que parece indicar que as vendas não vão lá muito bem. Para minha surpresa, a mensagem trazia a carta ao leitor da revista — muito embora eu não seja leitor de Veja. Sendo assim, da mesma forma que a referida publicação tomou a liberdade de enviar sua carta ao leitor na minha caixa de e-mails, tomo a liberdade de reproduzí-la logo abaixo:

Um norte ético

Coube à imprensa livre revelar que no coração do governo do ex-presidente Lula funcionava uma impressionante máquina montada para desviar dinheiro dos cofres públicos e, com ele, subornar parlamentares e comprar partidos políticos. Coube ao Congresso Nacional esmiuçar em uma CPI os caminhos tortuosos do escândalo que ficou nacionalmente conhecido como mensalão, o maior caso de corrupção política da história recente. À justiça, cabe agora punir os envolvidos. Temia-se que a tradição de impunidade prevalecesse. Na semana passada, porém, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) anunciaram os primeiros veredictos, condenando cinco dos 37 acusados, entre eles o deputado João Paulo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados, o petista Henrique Pizzolato, ex-diretor de marketing do Banco do Brasil, e o empresário Marcos Valério, apontado como o operador do esquema. Suas penas só serão anunciadas no fim do julgamento, mas a decisão dos magistrados já começa a romper um dos mais vexatórios paradigmas da cultura brasileira: o de que prisão não é lugar para os poderosos, principalmente se os poderosos também são políticos. A porta da cadeia enfim foi aberta para eles.

Ao anunciarem seus votos, os ministros surpreenderam os mais incrédulos. Não se limitaram a fundamentá-los tecnicamente. Externaram também uma enfática indignação com a ousadia patrocinada pelos ladrões de dinheiro público. “Agentes públicos que se deixam corromper e particulares que corrompem são corruptos e corruptores, os profanadores da República, os subversivos da ordem institucional, os delinquentes, os marginais da ética do poder, infratores do Erário que trazem consigo a marca da indignidade, que portam o estigma da desonestidade”, disse o ministro Celso de Mello, o decano do STF. Ainda falta muito para saber se a impunidade será inteiramente derrotada, mas as primeiras condenações são exemplares em sua essência e trazem um sentimento de alívio e alma lavada à opinião pública, já que apontam o inédito caminho da prisão para os corruptos poderosos – um feito histórico, que pode fazer o Brasil finalmente reencontrar o rumo da ética e voltar a distinguir o certo do errado.

Como se vê, quem dispõe de um mínimo de senso crítico percebe o caráter abertamente parcial do texto: por um lado, se esmera em acusar e condenar os políticos ligados ao PT, estejam ou não comprovadamente envolvidos na prática de atos ilícitos; e, por outro lado, procura louvar o comportamento da “imprensa livre”, esta a conhecedora do “norte ético”, portadora da bússola que permite à sociedade discernir entre o bem e o mal.

A bem da verdade, o tal “norte ético” está mais para um moralismo cínico, quando não um maniqueísmo infantil. Com efeito, falar de ética implica tratar das razões que fundamentam a conduta do ser humano para a obtenção de uma vida boa, mediante uma ação livre e responsável. Entretanto, a ética do tal “norte ético” restringe-se muito mais a uma série de preconceitos, facilmente identificáveis na carta ao leitor. Como, por exemplo, quando diz que “À justiça, cabe agora punir os envolvidos.” Ou seja, justiça boa é justiça que condena no atacado (melhor ainda se os condenados forem do PT). Ora, essa concepção mostra-se impregnada pelo mais elevado autoritarismo, marca do nosso passado colonial e escravista. Qualquer um que viva num Estado Democrático de Direito — e não num Estado de Exceção — deve convir que à justiça cabe julgar com imparcialidade e isenção.

Mas a referida publicação, que tanto gosta de adjetivos e de fazer sua a “opinião pública” — segundo ela, agora de “alma lavada” — , certamente não resiste à tentação de fazer seu o veredicto da justiça. Por isso, o tom efusivo da carta ao leitor. Tom que só não foi mais festivo porque “ainda falta muito para saber se a impunidade será inteiramente derrotada”. É bem verdade que o texto tenta disfarçar seu autoritarismo, clamando por justiça contra os “poderosos”. Quando  os “poderosos” são “amigos”, porém, a indignação com a impunidade se arrefece. Não por acaso, o mesmo órgão de imprensa que faz tanto alarde para tratar do “escândalo do mensalão” (do PT), silencia quando o assunto em pauta é o “mensalão mineiro” (do PSDB) ou a “privataria tucana”. Curioso, não? O tal “norte ético” parece apontar claramente para a hipocrisia. (A esse respeito, Bob Fernandes escreveu um excelente texto, A farsa e os farsantes.)

De fato, no mundo ideal de Veja, todos os “petralhas” estarão atrás das grades. E é dessa forma que essa revista se identifica tanto com certos ideais de uma determinada parcela da população: a classe média tradicional. Procedendo como Max Weber, podemos perceber as “afinidades eletivas” entre os valores dessa classe média e a linha editorial dessa publicação.

Essa classe média, tão bem descrita por Marilena Chauí (veja o vídeo abaixo), é marcada por um caráter autoritário, hierárquico — e, portanto, antidemocrático — , moralista, que coloca os interesses privados acima do interesse público. Não por acaso essa parcela da população se delicia com qualquer possibilidade de que o ex-presidente Lula esteja envolvido no “escândalo do mensalão”. Afinal, o torneiro mecânico que teve o “atrevimento” de tornar-se presidente da república, mesmo sem ter um diploma universitário, merece ser condenado por essa ousadia. Do mesmo modo, esses “petralhas” que permitiram que 40 milhões de pessoas deixassem a linha de pobreza para “invadir” os aeroportos, até então redutos da “nata” da sociedade, não podem sair impunes. Ou seja, qualquer um que ameace a “ordem estamental de castas”, típica da sociedade colonial, merece ser castigado.

Não quero com tudo isso tentar isentar de culpa quem quer que tenha cometido atos ilícitos, entre os quais desvio de dinheiro público. Mas é preciso, diante desse oba-oba midiático em torno do julgamento do “mensalão”, adotar uma postura crítica frente a essa tentativa de promover uma condenação sumária, motivada claramente por interesses políticos. Afinal, o julgamento — absolver ou condenar — cabe aos juízes, constituídos para tal.

De todo modo, essa carta ao leitor mostra claramente a parcialidade da imprensa, bem como os valores sociais que amparam essa postura. Pois o jornalismo ruim é um sintoma de uma sociedade com problemas a resolver. E a julgar pela má qualidade da nossa imprensa, a sociedade brasileira tem sérios obstáculos a superar, para que um dia seja uma sociedade verdadeiramente democrática.

Para o divã — e não para as manchetes

As declarações do ministro do STF Gilmar Mendes nos últimos dias têm esquentado ainda mais a cena política, já em polvorosa com a CPMI do Cachoeira.

Segundo Mendes, o ex-presidente Lula o teria chantageado: em troca de um adiamento no julgamento do Mensalão, o ministro do STF seria “blindado” na CPMI. Essa chantagem teria se dado numa reunião informal ocorrida no escritório do ex-ministro Nelson Jobim.

Lula e Jobim desmentiram a versão de Mendes. Este, em entrevista concedida à GloboNews em 29/05, amenizou as acusações: agora, Lula teria “insinuado” o envolvimento do ministro com o contraventor Carlinhos Cachoeira, além de ter expressado a opinião de que o julgamento do Mensalão não teria objetividade. Ou seja, Lula teria feito, digamos, uma “chantagem subliminar”.

Depois dessa entrevista titubeante, Mendes voltou à carga de forma virulenta: passou a acusar a existência de um complô para desacreditar o STF, sobretudo a sua pessoa. Denunciou o que, segundo ele, é um esquema articulado por gângsters. Tudo para “melar” o julgamento do Mensalão.

Coisa de louco?

Não tivesse o ministro do STF tamanha consideração por parte da nossa grande imprensa, provavelmente ele seria encaminhado para o divã — e não para as manchetes.

Primeiro, porque me parece um caso clássico de mania de perseguição. Ao ouvir cuidadosamente as declarações de Gilmar, tem-se a clara impressão de um sujeito que acomoda todos os fatos num grande esquema conspiratório contra a sua pessoa. Da opinião para a insinuação e da insinuação para a chantagem, tudo se transforma em um piscar de olhos.

Em segundo lugar, Mendes parece um caso clássico de mitomania. Ele se mostra tão convencido de sua teoria conspiratória que é incapaz de aceitar que, talvez, não exista todo esse esquema e esses gângsteres que ele afirma existirem. Ou seja, talvez ele não tenha sequer consciência de que o que diz não corresponde à realidade. Se bem que existem os peritos de plantão que identificaram uma alta possibilidade de Gilmar ter mentido, em algumas declarações.

Por fim, resta clara a megalomania de Gilmar Mendes. Assim como Luís XIV afirmava L’État c’est moi, Gilmar parece acreditar que ele é o STF. Acusá-lo significa acusar todo o tribunal? Ora, o STF é um órgão colegiado. Sendo assim, por que motivo Lula tentaria influenciar no julgamento do Mensalão negociando justamente com um magistrado com quem poucas afinidades? Freud talvez explique.

Certo é que a importância atribuída à fala de Mendes, que está mais para um delirante do que para uma das autoridades mais importantes da República, assim como a credibilidade conferida à revista Veja, mostram o desespero de certos setores políticos e da grande mídia brasileira à medida em que a CPMI do Cachoeira vai trazendo à luz novos fatos. Acho que vai ter gente naufragando abraçada nessa cachoeira.

Uma ilha no Planalto

A presidenta Dilma estampa a capa da revista Veja desta semana, fato que pode ser entendido como mais uma aproximação do governo com a grande mídia do país.

De fato, os grandes veículos de imprensa têm sido particularmente generosos com a presidenta, apesar de não pouparem esforços para desestabilizar o governo — que o digam os ministros derrubados por denúncias de suposto envolvimento em esquemas de corrupção (sim, pois a mera suposição já era suficiente para a imprensa voltar seu arsenal midiático contra os acusados). Nesse processo, Dilma foi retratada como a “faxineira” que promovia uma “limpeza” dos maus elementos do governo.

Outro aspecto que sempre angariou grande simpatia da imprensa foi o “perfil técnico” da presidenta. Os grandes jornais sempre alimentaram a imagem de um Lula “fanfarrão”, que só se valia da sua habilidade política — e sorte — para conduzir um governo com elevadíssimo índice de aprovação. Dilma seria o contraponto a Lula, privilegiando o aspecto gerencial do governo, deixando de lado a política.

Nesse ponto, no que diz respeito à presidenta, a imprensa não deixa de ter certa razão. Mas as consequências dessa realidade são preocupantes para a agenda dos movimentos sociais e setores progressistas da sociedade. A falta de uma interlocução mais próxima do governo com esses setores já causa mal estar desde o primeiro ano do mandato presidencial — e se agrava a cada flerte do governo com setores conservadores, como a grande imprensa, por exemplo.

Porém, o “déficit político” do governo Dilma já causa dificuldades concretas. A “rebelião” da base aliada no Congresso, quando esta se recusou a votar a Lei Geral da Copa na semana passada, dá a medida das dificuldades que o Executivo pode enfrentar daqui para frente.

Dilma tem a intenção de promover a “moralização da política”, acabando com a lógica do “toma lá, dá cá” no jogo político. Em que pese a boa intenção da presidenta, me parece difícil que ela consiga, de uma hora para outra, por um fim a um modus operandi que toma conta da política brasileira desde seus primórdios — ou em algum momento da nossa história o interesse público esteve acima do interesse privado? Se o governo é pragmático o bastante para ser um governo de coalizão e estabelecer uma interlocução com setores conservadores (que, diga-se de passagem, se opuseram à candidatura de Dilma à presidência), me parece um pouco paradoxal esse “ímpeto moralizador”.

Essa postura do governo, a meu ver, provoca seu próprio isolamento. Por um lado, ele perde as alianças fracas, alimentadas pelo mero fisiologismo dos partidos “interesseiros” da base aliada (que é o caso do PMDB, por exemplo). Por outro lado, perde a sustentação forte da militância dos setores à esquerda e dos movimentos sociais, os quais apoiaram a candidatura de Dilma em 2010, a fim de evitar a eleição do projeto conservador representado por José Serra.

E, nesse cenário, quem restará para apoiar o governo? A grande imprensa defenderá a presidenta, como tem feito até agora?

Parece-me claro que não. A postura elogiosa à presidenta está mais para um canto de sereia — pelo qual o governo, lamentavelmente, parece estar sendo seduzido. Ao exaltar a postura “técnica” e “moralizadora” do governo, a imprensa incentiva o distanciamento do governo tanto em relação aos setores mais à esquerda quanto aos partidos fisiológicos, aliados de ocasião. Com isso, uma ilha vai se formando no Palácio do Planalto. E os barões da mídia só esperam o momento mais oportuno para afundá-la.