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Desigualdade na capa da EXAME: o efeito Piketty

Dias atrás, estava na biblioteca para ler o jornal do dia. Como já havia gente lendo os jornais, busquei alguma revista para ler. Passando os olhos pelas capas das revistas, uma delas imediatamente chamou minha atenção. A chamada da capa era: Por que o capitalismo é tão injusto? Algo que seria normal numa publicação mais alinhada à esquerda, como Caros Amigos, Fórum, Le Monde Diplomatique ou mesmo Carta Capital. Imaginem qual foi minha surpresa ao ver que o tema desigualdade estava na capa da EXAME. Isso mesmo, aquela revista de negócios voltada para um público empresarial – ou, mais claramente, para uma audiência burguesa. Não resisti à curiosidade e fui conferir se o editor da EXAME estava doente ou se, finalmente, teria percebido que o capitalismo não é lá aquela maravilha toda.

Nem uma coisa nem outra. Ingenuidade minha de acreditar que uma publicação tão alinhada com o pensamento do mercado fosse desmerecer o capitalismo. De fato, o autor da matéria não se cansa de ressaltar que o capitalismo é uma espécie de “mal necessário”. Não fosse ele, muitos progressos jamais teriam sido alcançados, justamente como reza o credo (neo)liberal. Apesar de a crença na santa lei da oferta e da procura e na competição como motor do progresso permanecer inabalada, a crescente desigualdade social parece ser uma realidade cada vez mais incômoda. Até para os mais ferrenhos defensores do liberalismo econômico.

Não se assuste. Eu também estranhei, mas essa é a capa da EXAME.

Não se assuste. Eu também estranhei, mas essa é a capa da EXAME – edição 1067, de 11/06/2014.

E isso se deve, fundamentalmente, ao sucesso estrondoso – e improvável – do livro Capital no século XXI, do até então pouco conhecido economista francês Thomas Piketty. Best-seller nos EUA, a obra de Piketty talvez tenha recebido tamanha atenção deste lado do Atlântico justamente por abordar uma realidade cada vez mais inegável na América. Os 1% mais ricos se apropriam da maior parte da renda gerada a partir da recuperação da crise de 2008. E aí entra o livro de Piketty, com uma fartura de dados para sustentar a tese de que a renda do capital tende a crescer mais que a renda do trabalho. Em outras palavras, a riqueza tende a se concentrar nas mãos de poucos.

Em que pesem as controvérsias acerca dos dados usados por Piketty, parece que a desigualdade é um problema que veio para ficar. Se já estava – e sempre esteve – na agenda da esquerda, a desigualdade também passa a fazer parte das preocupações da direita. E, nesse sentido, a matéria da EXAME ajuda a entender por que.

Quando a desigualdade chega a patamares tão elevados, fica difícil sustentar um dos pilares da ideologia liberal: a meritocracia. Num mundo tão desigual, a posição social dos pais torna-se um fator determinante para o lugar que os filhos ocuparão. Nada que seja novidade no nosso Brasil (embora as políticas públicas implementadas nos últimos anos tenham timidamente tentado reverter essa tendência). Mas é, para dizer no mínimo, constrangedor para um liberal defender a ideia de que ricos e pobres têm as mesmas oportunidades de se darem bem na vida, dependendo apenas dos seus esforços, quando nem nos países centrais do capitalismo isso se observa. Quando isso acontece, não é possível invocar o “atraso” como causa dessa baixa mobilidade social. Pelo contrário, essa rígida divisão entre ricos e pobres é consequência de um superdesenvolvimento do sistema capitalista.

Capa da edição americana do livro de Piketty. Um best-seller improvável.

Capa da edição americana do livro de Piketty. Um best-seller improvável.

É bem verdade que os liberais, a exemplo da revista EXAME, continuam a fazer seus malabarismos para tentar explicar as perversidades do capitalismo. Para eles, a incapacidade de o Estado prover educação de qualidade para todos é o principal fator que explica essa injustiça, ao impedir a igualdade de oportunidades. Não há dúvidas de que a educação deveria ser melhor – além de pública e universal (e não mais uma mercadoria). Difícil é imaginar como um Estado mínimo poderia prover melhores serviços públicos. Para bom entendedor, meia palavra basta: o que se defende nas entrelinhas é a privatização desses serviços, com base em mais um dos dogmas neoliberais, a saber, que a iniciativa privada é mais eficiente e provê melhores serviços. Basta citar que o setor de telefonia no Brasil, objeto das privatizações no governo FHC, é um dos líderes em reclamações pelos consumidores. Acho que não é preciso dizer mais nada sobre a falsidade desse dogma.

Outro ponto, não menos relevante, é a posição dessa publicação – e, portanto, da classe que ela representa – diante do “remédio” apontado por Piketty para enfrentar a desigualdade. O economista francês propõe a taxação dos fluxos de capital no mundo. Nessa esteira, poderíamos pensar também na tributação das grandes fortunas. Mas a palavra tributo continua sendo um sacrilégio no culto liberal. Pronunciá-la é um verdadeiro pecado, e logo o autor da matéria procura nos dissuadir dessa ideia diabólica. Afinal, que culpa os ricos têm de ser ricos? Ok, acho que esperei demais da EXAME.

Não li o livro de Piketty, para julgar a qualidade da obra. Aliás, aguardo ansiosamente pela tradução, que deve sair em breve no Brasil, pela Intrínseca. De qualquer forma, a obra já tem um grande mérito. Graças a ela, a desigualdade social ganhou status de verdade científica, não podendo ser varrida tão facilmente para baixo do tapete. Pelo contrário, a desigualdade está no centro dos debates. Afinal, no elevado grau em que se encontra, ela é uma ameaça real à ideologia do capital. E, a julgar pelas tendências do capitalismo, não vai ser em breve que ela deixará de assolar as nossas sociedades.

As feridas abertas de 64: 50 anos do golpe

 

Há 50 anos, o país era palco de um dos eventos mais traumáticos de sua História. Meio século atrás, instalava-se no Brasil uma ditadura civil-militar que durou 21 anos. E, em que pese a redemocratização, as feridas de 64 continuam abertas.

Por mais que a ditadura tenha sido derrotada, no plano político, seus resquícios e heranças malditas continuam a nos assombrar.

Ideologicamente, há ainda quem chame o golpe de revolução: a redentora, que livrou o país da “ameaça comunista”. Aliás, o fantasma vermelho é presença certa nos discursos de medo proferidos pela direita até hoje. Assim, subsiste uma diminuta minoria que insiste em louvar a ruptura da ordem democrática. Ao mesmo tempo, uma parcela nada desprezível sustenta que o golpe foi um “mal necessário”. A pergunta é: necessário para quem?

No plano das instituições, nenhuma é mais tributária daqueles anos de chumbo do que as Polícias Militares. Basta lembrar que uma das 18 estrelas do brasão de armas da PM de São Paulo homenageia o golpe de 1964. É preciso dizer mais alguma coisa?

Mas isso é só um reflexo, uma ondulação na superfície, de algo mais profundo: o autoritarismo e a violência presentes em nossa cultura. Nenhuma nação passa incólume por mais de três séculos de escravidão. Não se aprende, de uma hora para outra, a respeitar como sujeito um outro que até pouco tempo não passava de um objeto.

Quando não é preciso dialogar, nem ouvir as vozes dissonantes, essa violência pode ser exercida sem freios. Isso explica muita coisa daquele período tenebroso. Isso explica a censura. Isso explica os desaparecimentos de opositores. Isso explica a tortura. Tudo em nome do “progresso”. Mais uma vez: progresso de quem?

Pois se, como dizem alguns, a ditadura promoveu o crescimento econômico e a modernização do país, é certo que esse “progresso” não foi apropriado igualmente. Não há dúvida de que certos grupos empresariais foram os grandes beneficiários do regime, notadamente na área de comunicações –a nossa grande imprensa, que hoje faz um mea culpa não muito convincente, pelo apoio ao golpe num primeiro momento.

Todas essas dúvidas, fantasmas, arrependimentos insinceros, histórias mal contadas, corpos não localizados, tudo isso, enfim, são as feridas daquele tempo, que teimam em não cicatrizar. O remédio é apenas um, doloroso e amargo: enfrentar o passado, trazê-lo à luz e reconhecê-lo em sua miséria. As Comissões da Verdade têm tentado realizar essa tarefa –urgente, necessária e inadiável.

Pois enquanto não curarmos essas feridas de 64, os abusos e torturas cometidos por agentes do Estado continuarão presentes nas periferias e morros Brasil afora. Enquanto não nos reconciliarmos com nosso passado, sonhos golpistas continuarão a ser acalentados por aqueles que não suportam a ideia de um país mais igual. Em suma, enquanto não acertarmos nossas contas com esse período obscuro da nossa breve História, seremos incapazes de projetar a vida numa nação verdadeiramente plural e solidária –de cidadãos livres, sem senhores e escravos.

 

A família marcha-ré

Assistimos em diversas cidades do país a reedição da “Marcha da Família”, 50 anos após o Golpe de 1964.

Tanto hoje como há meio século atrás, os marchadores representam o que há de mais reacionário na sociedade brasileira. Tanto em 1964 como em 2014, a mesma histeria com a “ameaça comunista” – seja na “república sindicalista” de Jango, seja na “ditadura bolivariana” do PT, de Lula e Dilma. Tudo, evidentemente, fantasias delirantes de mentes doentias.

Porque o que há, tanto lá como cá, é ressentimento. As Reformas de Base anunciadas por Goulart, entre as quais a reforma agrária, eram a promessa de um país mais igual – ou menos desigual. A política de distribuição de renda dos governos petistas, cujo maior símbolo é o programa Bolsa Família – maldosamente chamado “Bolsa Esmola”, por essa gente que marcha -, contribuiu para a diminuição do abismo social no Brasil.

Na prática, uma sociedade mais igual, com maior mobilidade social, significa ameaça para os “estabelecidos”. O aeroporto deixou de ser lugar exclusivo para gente “importante” – ou seja, para a elite e seus puxa-sacos. A empregada doméstica deixou de ser aquele “membro da família”, dócil e obediente, para assumir o papel de uma trabalhadora com os mesmos direitos de qualquer outro trabalhador: horas extras, férias, fundo de garantia. O último refúgio dos “estabelecidos”, o shopping center, também não resistiu e foi “invadido” pela massa antes miserável, hoje remediada – a tal “nova classe média”.

Vendo seu lugar social ameaçado, os setores tradicionais mostram os dentes e rosnam. A direita mostra a sua cara, seja na mídia – cujo lugar de destaque é ocupado pela jornalista Raquel Sheherazade –, seja na política – com figuras como Jair Bolsonaro e Marcos Feliciano. O discurso é de defesa da família e dos valores morais. Mas o que se quer, sem sombra de dúvida, é perpetuar uma estrutura social marcada pela rígida estratificação.

Pois fala-se em defesa da família, por exemplo, opondo-se aos casamentos homoafetivos. Ora, uma família gay também não é uma família? Por que, para falar de família, temos de falar de um homem, uma mulher e seus filhos? Não vivemos na era das “famílias mosaico”? Essa insistência num modelo ideal de família revela a incapacidade de se lidar com os dilemas do nosso tempo, a partir daquilo que está dado em nossa época, apostando na possibilidade de se dar uma marcha ré na História, em busca de um tempo em que – supostamente – a vida era estável e feliz.

Ledo engano. Assim como se enganam aqueles que pensam termos vivido dias gloriosos na época da Ditadura, a despeito de “uma perseguição política ou outra” – afinal, segundo certo jornal, teríamos mesmo vivido uma “ditabranda”. Essa gente iludida agora clama pela volta dos militares, a fim de solucionar a “epidemia de corrupção” que tomou conta da política do país. Como se isso não existisse também durante o governo militar. A diferença é que nada se podia dizer a respeito. E, como diz o ditado, o que os olhos não veem o coração não sente. E, vamos combinar, existem certas coisas que determinadas pessoas preferem não ver.

Voltando à reedição da “Marcha da Família”, vejo uma diferença importante. Se em 1964 o movimento teve uma participação expressiva desses setores conservadores, em 2014 os reacionários que clamam por uma nova intervenção militar não passaram, em termos de representativade, de meia dúzia de gatos pingados. Oxalá tenhamos aprendido a lição depois de 21 anos de sofrimento. Tomara que os valores democráticos tenham fincado raízes profundas, quase três décadas após o fim do regime militar. E, assim, espero que a “Marcha da Família” edição 2014 não tenha passado de uma zombaria de mau gosto, um bloco carnavalesco de alienados, uma confraria de idiotas: a “família marcha-ré”.

Comentário de Bob Fernandes sobre a “Marcha da Família”

Polícia versus Black Blocs: o clássico da ignorância

 Nem começou a Copa do Mundo 2014 e o megaevento esportivo já nos proporciona um clássico. Só que não no campo de jogo.

Graças aos protestos contra o mundial de futebol, vemos cada vez mais acirrada a rivalidade entre duas “equipes” das mais truculentas.

De um lado, com uma longa tradição de desrespeito pelos direitos humanos – que passa pelo período da Ditadura Militar, chegando a episódios mais recentes como a desocupação da reitoria da USP, da “cracolândia” e do Pinheirinho –, está a Polícia, notadamente a Militar.

De outro lado, com um incrível retrospecto de destruição do patrimônio público e particular nas manifestações das quais participam, animados por um discurso que se diz anticapitalista, estão os black blocs.

Em comum, a intransigência. A polícia, com suas armas não-letais, não hesita em partir para o ataque antes de perguntar a quem – e por que – dirige sua violência. Os black blocs, tal como um exército messiânico contra o “sistema”, decreta: “Não vai ter copa”.

Eis a combinação perfeita para o clássico da ignorância. Um clássico em que, ao fim de cada embate, só há perdedores.

Perdem os manifestantes pacíficos, que – tenham ou não razão – estão nas ruas para exercer o seu legítimo direito de protestar e acabam sendo alvo das balas de borracha, cassetetes e bombas de gás lacrimogênio de policiais despreparados.

Perdem os cidadãos comuns, que vêm seu patrimônio, seja ele público ou particular (que o diga o dono do Fusca incendiado no protesto de 25/01), ser destruído pela estupidez de quem sequer tem a coragem de mostrar seu rosto – e, assim, se responsabilizar pelos seus atos.

Perde, enfim, a democracia. Uma questão que poderia gerar importantes debates sobre a gestão do dinheiro público acaba sendo obscurecida pela violência. E, assim, continuamos distantes de qualquer mudança efetiva na sociedade brasileira.

Fusca incendiado na manifestação contra a Copa de 25/01, em São Paulo. foto: Rodrigo Paiva/Estadão Conteúdo

Fusca incendiado na manifestação contra a Copa em 25/01, em São Paulo. foto: Rodrigo Paiva/Estadão Conteúdo

No mais, me parece insensato querer impedir a realização da Copa, ainda mais agora, nos 45 minutos do segundo tempo. Agora que a maioria das arenas já está pronta, e muitas obras em andamento, parar tudo é que seria um grande desperdício de dinheiro – justamente o que os protestos, ao menos explicitamente, dizem querer combater.

De todo modo, continuo sonhando com o dia em que vamos conseguir transformar todo esse voluntarismo em neurônios e, da maneira mais racional possível, vamos expor nossos pontos de vista divergentes e debater republicanamente o futuro do país.

Por enquanto, temos que aguentar mais algumas rodadas do clássico da ignorância.

A cosmopolita provinciana

É aniversário da cidade de São Paulo. A metrópole chega aos seus 460 anos exibindo um retrato curioso: o de uma cosmopolita provinciana.

Por um lado, a São Paulo cosmopolita: a cidade que abriga gente de toda a parte. Árabes, judeus, chineses, japoneses, coreanos, portugueses, italianos, espanhóis e tantos outros imigrantes. Não poderíamos esquecer dos nordestinos, grandes responsáveis por transformar a terra da garoa na grande metrópole que é.

De fato, o que reúne gente tão diversa é uma coisa só: o trabalho. Cada imigrante traz sua história de labuta, de persistência e luta por uma vida melhor. Da soma de tantas forças, a resultante aponta para a pujança econômica da metrópole – que assume a forma de belas avenidas e edifícios imponentes.

Essa é também a capital da gastronomia, onde os sabores se fundem numa colcha de retalhos para o paladar: pizza de carne seca, sushi de queijo com goiabada, pastel de sorvete, entre outras invenções gastronômicas que só o cosmopolitismo paulistano poderia explicar.

O mesmo se dá com a religião, os costumes, as artes, a moda. Dessa encruzilhada de influências culturais diversas, sempre há espaço para algo de original. Diante de tudo isso, causa espanto que haja lugar para o provincianismo nessa cidade.

Mas há, por outro lado, a São Paulo provinciana: a cidade da mentalidade privatista. Cada macaco no seu galho, digo, cada habitante no seu carro – lutando por uma faixa livre nas avenidas. Não importa se o resultado dessa decisão – não muito racional – é um desastroso congestionamento. Ainda assim, há algo no fundo da alma do paulistano dizendo que é preferível isso ao transporte público.

É a mesma cidade onde vale a equação: terra é igual a dinheiro. Sendo assim, para que árvores, praças, espaços de convivência, moradia para os pobres? Em relação a estes últimos, aliás, parece que há uma reação quase alérgica. Não podem nem se aproximar de certos “territórios civilizados”, que mexem com o sono dos mais bem arranjados. Logo eles passam a repetir o mantra “a Rota na rua”, para salvá-los desse pesadelo. As forças policiais, diga-se de passagem, não costumam frustrar essa expectativa – vide os últimos episódios nos “rolezinhos” e na “cracolândia”.

Mas não são apenas pobres e pretos que despertam o ódio dos setores mais conservadores da capital. A homofobia é também recorrente: basta lembrar das agressões a gays na região da Avenida Paulista e, mais recentemente, a morte em condições obscuras do garoto Kaique – negro, pobre e homossexual.

Por mais impressionante que seja, à primeira vista, a São Paulo cosmopolita e a São Paulo provinciana são como duas faces de uma mesma moeda. É a velha história do ornitorrinco do Chico de Oliveira. A riqueza da metrópole, inegavelmente, se originou do sangue, suor e lágrimas de muitos, que foram parar no bolso de alguns. A desigualdade, portanto, está inscrita no DNA dessa cidade.

Significa que São Paulo está fadada a ser sempre assim? Descolada e, ao mesmo tempo, careta? Vivendo num moderníssimo loft, apreciando o melhor da cultura e da culinária, enquanto defende a tradição, a propriedade e a família?

A cidade não pode ser diferente dos seus habitantes. Enquanto a maioria se preocupar mais com o “seu” do que com o “nosso”, a tendência é a perpetuação desse quadro. Felizmente, há quem se incomode com essa ambiguidade e lute para que São Paulo se torne, verdadeiramente, uma cidade cosmopolita: ou seja, de braços abertos para todos.

Viva o rolezinho! – ou, a gente não quer só comida

“Esse tal de  chopis centis / É muitcho legalzinho / Pra levar as namoradas / E dar um rolezinho”

Chopis Centis – Mamonas Assassinas

Com esses versos escrachados, os Mamonas Assassinas, pelos idos dos anos 1990, anteciparam o assunto do momento neste início de 2014: os rolezinhos nos shopping centers. Se naquela época o rolezinho era ridicularizado pela canção besteirol, hoje ele ocupa o centro das discussões mais acaloradas. De um lado, a elite e a classe média alarmadas, com medo de perder seu último “refúgio de tranquilidade”. De outro lado, os jovens da periferia tentando encontrar um lugar para se divertir.

De fato, as falas de quem participa dos rolezinhos parecem convergir num ponto: na falta de espaços de lazer, os jovens buscam compensar essa carência de opções indo aos shopping centers. Lá é possível encontrar os amigos e amigas, namorar, tomar um lanche…

Falando assim, você deve estar pensando: “mas o que há de tão ameaçador nesse divertimento juvenil?” É que estamos falando dos jovens da periferia: majoritariamente pobres e negros. E, por algum motivo, na cabeça de muita gente, negro e pobre é algo incompatível com o “ecossistema” do shopping center. A não ser, é claro, se estiver a serviço de alguém, empurrando um carrinho de bebê, limpando o chão ou cuidando da segurança. Qualquer situação diferente já é vista como um possível arrastão.

O pior de tudo é que essa gente que vê no rolezinho uma espécie de “invasão bárbara” é a mesma que entra em histeria com um possível aumento do IPTU. “Não, porque a prefeitura é incompetente e quer colocar a mão naquilo que é meu!” – assim pensa o “cidadão de bem”. Quando os jovens da periferia “invadem” seu shopping center, o mesmo sujeito – depois de chamar a polícia, é claro – reclama: “mas o governo não cuida desses meninos!” Também pudera: como fazer políticas públicas sem o dinheiro dos impostos? Acho que estou exigindo demais de quem só vê o Estado como provedor de segurança patrimonial. A julgar pelo comportamento da PM paulista no rolezinho do último fim de semana no Shopping Metrô Itaquera, há motivos para alimentar essa crença.

De qualquer forma, muito têm sido dito em favor dos rolezinhos, e eu tenho pouco a acrescentar. Só acho importante frisar que, embora originalmente não houvesse qualquer outra motivação além da busca de diversão, o rolezinho tornou-se um importantíssimo fenômeno social, com forte componente político.

Sim, pois embora não haja qualquer filiação político-partidária nesse movimento, ele coloca em questão a velha lógica de privilégios que está presente em nossa sociedade, desde que nos conhecemos por Brasil. O rolezinho perturba aquele sistema de valores fundado na divisão rígida entre a casa-grande e a senzala: um lugar para ricos, poderosos, dominantes; e outro para os pobres e subordinados. Os jovens da periferia, quando ocupam os shopping centers, recusam colocar-se no seu lugar, segundo a ordem tradicional. Assim, questionam esse lugar não só espacialmente, mas também seu estatuto na sociedade: não querem ser tratados apenas como mão-de-obra barata, como braços para trabalhar. Querem, também, o acesso ao consumo, à cultura e ao lazer. É como se entoassem os versos da canção dos Titãs:

“A gente não quer só comida/A gente quer comida/Diversão e arte”

Comida – Titãs

Maquiavel e o “rei do camarote”

Durou pouco o reinado de Alexander Almeida. Da capa da Veja SP, passando pelo vídeo com mais de 4 milhões de exibições no Youtube, o “rei do camarote” logo se transformou em algo como o “bobo da corte” — ou ainda, o “bufão da internet”. Proliferaram como uma epidemia os memes e virais que tiravam um sarro do rei. Cansado de ser zoado, sua majestade retirou-se dessa vitrine da vida privada que é o Instagram.

Abstenho-me aqui de fazer mais uma crítica ao estilo de vida exuberante, para dizer no mínimo, do baladeiro que se tornou celebridade da noite para o dia. Além disso, não quero ser moralista, por mais estúpido que eu possa achar esse “personagem” da noite paulistana.

Tampouco vou investigar a origem desse dinheiro tão prodigamente incinerado. Se o que o nosso rei queria era chamar a atenção, parece que ele conseguiu. Os coletores de impostos já estão de olho nele.

No entanto, o que foi que deu errado se nosso “herói” seguiu à risca todos os mandamentos do consumismo desenfreado e do exibicionismo mais desavergonhado? De repente, fiquei pensando se o “rei do camarote” não poderia ter tirado proveito dos conselhos de Maquiavel antes de ter se transformado em motivo de chacota. Pois, bem, vejamos o que disse o pensador florentino em O Príncipe:

Sobre as amizades:

[…] as amizades que se adquirem por dinheiro, e não pela grandeza e nobreza de alma, são compradas mas com elas não se pode contar e, no momento oportuno, não se torna possível utilizá-las. (Cap. XVII)

Sobre os aduladores (vulgos puxa-sacos):

Refiro-me aos aduladores, dos quais as cortes estão repletas, dado que os homens se comprazem tanto nas suas coisas próprias e de tal modo se iludem, que com dificuldade se defendem desta peste e, querendo defender-se, há o perigo de tornar-se menosprezado. (Cap. XXIII)

Sobre a liberalidade (ou prodigalidade, gastança, esbanjamento, etc.):

E não há coisa que tanto se destrua a si mesma como a liberalidade, pois, enquanto tu a usas, perdes a faculdade de utilizá-la, tornando-te pobre e desprezado ou, para fugir à pobreza, rapace e odioso. Dentre todas as coisas de que um príncipe se deve guardar está o ser desprezado e odiado, e a liberalidade te conduz a uma e a outra dessas coisas. (Cap. XVI)

A julgar pelo que disse Maquiavel, o reinado de Alexander estava fadado a durar tanto quanto uma velinha de garrafa de champanhe. Bem que ele podia ter buscado uns conselhos em O Príncipe. Afinal, Maquiavel agrega a tudo!

O rei que virou bobo da corte