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A cosmopolita provinciana

É aniversário da cidade de São Paulo. A metrópole chega aos seus 460 anos exibindo um retrato curioso: o de uma cosmopolita provinciana.

Por um lado, a São Paulo cosmopolita: a cidade que abriga gente de toda a parte. Árabes, judeus, chineses, japoneses, coreanos, portugueses, italianos, espanhóis e tantos outros imigrantes. Não poderíamos esquecer dos nordestinos, grandes responsáveis por transformar a terra da garoa na grande metrópole que é.

De fato, o que reúne gente tão diversa é uma coisa só: o trabalho. Cada imigrante traz sua história de labuta, de persistência e luta por uma vida melhor. Da soma de tantas forças, a resultante aponta para a pujança econômica da metrópole – que assume a forma de belas avenidas e edifícios imponentes.

Essa é também a capital da gastronomia, onde os sabores se fundem numa colcha de retalhos para o paladar: pizza de carne seca, sushi de queijo com goiabada, pastel de sorvete, entre outras invenções gastronômicas que só o cosmopolitismo paulistano poderia explicar.

O mesmo se dá com a religião, os costumes, as artes, a moda. Dessa encruzilhada de influências culturais diversas, sempre há espaço para algo de original. Diante de tudo isso, causa espanto que haja lugar para o provincianismo nessa cidade.

Mas há, por outro lado, a São Paulo provinciana: a cidade da mentalidade privatista. Cada macaco no seu galho, digo, cada habitante no seu carro – lutando por uma faixa livre nas avenidas. Não importa se o resultado dessa decisão – não muito racional – é um desastroso congestionamento. Ainda assim, há algo no fundo da alma do paulistano dizendo que é preferível isso ao transporte público.

É a mesma cidade onde vale a equação: terra é igual a dinheiro. Sendo assim, para que árvores, praças, espaços de convivência, moradia para os pobres? Em relação a estes últimos, aliás, parece que há uma reação quase alérgica. Não podem nem se aproximar de certos “territórios civilizados”, que mexem com o sono dos mais bem arranjados. Logo eles passam a repetir o mantra “a Rota na rua”, para salvá-los desse pesadelo. As forças policiais, diga-se de passagem, não costumam frustrar essa expectativa – vide os últimos episódios nos “rolezinhos” e na “cracolândia”.

Mas não são apenas pobres e pretos que despertam o ódio dos setores mais conservadores da capital. A homofobia é também recorrente: basta lembrar das agressões a gays na região da Avenida Paulista e, mais recentemente, a morte em condições obscuras do garoto Kaique – negro, pobre e homossexual.

Por mais impressionante que seja, à primeira vista, a São Paulo cosmopolita e a São Paulo provinciana são como duas faces de uma mesma moeda. É a velha história do ornitorrinco do Chico de Oliveira. A riqueza da metrópole, inegavelmente, se originou do sangue, suor e lágrimas de muitos, que foram parar no bolso de alguns. A desigualdade, portanto, está inscrita no DNA dessa cidade.

Significa que São Paulo está fadada a ser sempre assim? Descolada e, ao mesmo tempo, careta? Vivendo num moderníssimo loft, apreciando o melhor da cultura e da culinária, enquanto defende a tradição, a propriedade e a família?

A cidade não pode ser diferente dos seus habitantes. Enquanto a maioria se preocupar mais com o “seu” do que com o “nosso”, a tendência é a perpetuação desse quadro. Felizmente, há quem se incomode com essa ambiguidade e lute para que São Paulo se torne, verdadeiramente, uma cidade cosmopolita: ou seja, de braços abertos para todos.

A redescoberta das ruas

Junho de 2013. Um mês para ser lembrado. Dias que renderão algumas páginas da história dessas terras, em sua maioria, ao sul do Equador. Dias em que a multidão tomou conta das cidades brasileiras, movida por uma grande inspiração: a redescoberta das ruas.

Tudo começou com a luta contra o aumento das passagens do transporte público em São Paulo. A cada novo ato, o número de manifestantes aumentou. A cada novo ato, novas demandas foram se integrando à pauta de reivindicações. A cada novo ato, mais manifestações começaram a ocorrer em outros cantos do país: Brasília, Rio de Janeiro, Belém, Porto Alegre, Curitiba… o Brasil foi tomado por uma onda de protestos.

O que se vê hoje, dia 18, é uma grande efervescência social. O mito do brasileiro despolitizado e resignado foi, definitivamente, abalado. A passeata dos cem mil, a  campanha pelas Diretas Já, os caras pintadas pedindo o impeachment do presidente Collor já haviam caído no esquecimento de muitos. Mas agora todas essas mobilizações do povo brasileiro renascem na nossa memória.

O que há de novo nos protestos deste junho de 2013 é o seu caráter descentralizado, instantâneo e difuso. Vários grupos distintos e indivíduos atomizados se agregam, utilizando a internet e as redes sociais como instrumento de organização. O resultado são manifestações em que andam lado a lado as mais diversas agendas: a redução do valor da passagem de ônibus, a contestação dos gastos com a Copa do Mundo, a insatisfação com os impostos, o combate à corrupção, a oposição à PEC 37, a saída do Pastor Feliciano da CDHM, a democratização da mídia, a denúncia da violência da PM, etc.

O que pensam os manifestantes que sacodem o Brasil. Charge de Carlos Latuff.

O que pensam os manifestantes que sacodem o Brasil. Charge de Carlos Latuff.

Há, portanto, gente de toda parte do espectro político: de militantes de partidos a anarco-punks, passando por todo tipo de indignados. O que une toda essa gente é um sentimento de não representação nas instituições do Estado Democrático de Direito. Efetivamente, a democracia é subordinada ao poder econômico; e o Direito é, mormente, utilizado para reafirmar a dominação do capital. Essa realidade transparece nas opressões mais prosaicas da vida cotidiana: o transporte coletivo caro, ineficiente e desconfortável; um ícone da homofobia na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias; a Copa do Mundo que promove a remoção de milhares de pessoas de seus lares, para que o espetáculo da bola possa ocorrer. Uma hora, todas essas insatisfações, que não encontram um canal para se expressar, transbordam nas manifestações de indignação que assistimos agora.

Nesse sentido, apesar de todas as contradições presentes nessas manifestações — sem falar nas demonstrações de violência –, acho muito positivo que o povo tenha redescoberto as ruas. Que as pessoas tenham lembrado da possibilidade de agirem politicamente. Que o brasileiro tenha recordado que há vida além do espaço privado, em que pese nossa tradição ibérica. Enfim, que tenha ficado claro que o destino da sociedade não está traçado desde sempre, mas depende da participação ativa de cada um de nós.

Depois desse momento de catarse e de redescoberta das ruas, espero que os diferentes grupos consigam organizar-se politicamente de maneira mais consistente, a fim de se tornarem capazes de transformar efetivamente a nossa sociedade — e não apenas fazer barulho.

A banalização da truculência

Assistimos neste 13 de junho a mais um “espetáculo” deplorável da PM paulista. Desta vez, nem os repórteres dos grandes meios de comunicação foram poupados da truculência policial, velha conhecida de pretos, pobres, putas, moradores das periferias e marginalizados da nossa sociedade.

Chega a ser irônico: o editorial da Folha de São Paulo, que chegou às bancas pela manhã, clamava pela “força da lei” contra o “vandalismo” dos protestos na Av. Paulista. No mesmo dia, ao cobrir as manifestações contra o aumento das tarifas dos transportes, a repórter Giuliana Vallone, da Folha, é atingida no rosto — covardemente, segundo o relato de testemunhas — pelo tiro de uma bala de borracha da PM. Parece que a polícia entendeu, à sua maneira, o recado.  Mais que irônico: lamentável, já que a vítima estava apenas realizando o seu trabalho.

Repórter Giuliana Vallone é atingida por uma bala de borracha da PM.

Repórter Giuliana Vallone é atingida por uma bala de borracha da PM.

Mas não importa se o cidadão está trabalhando, protestando ou apenas “no lugar errado e na hora errada”, nada justifica a violência arbitrária e excessiva empregada pelo aparato policial. Nossa tradição autoritária, porém, explica muita coisa. Nenhum país passa incólume por uma Ditadura que cometeu graves violações contra os direitos humanos, ainda mais quando se esquiva de acertar suas contas com esse passado sombrio. A truculência da PM paulista — admirada, diga-se de passagem, pelos setores conservadores — é uma herança maldita desse passado.

O fato é que diante da banalização da truculência não podemos nos calar. Não podemos mais aceitar o abuso da força, assim como todas as tentativas de criminalizar os movimentos sociais. Não podemos, também, tolerar a covardia cúmplice daqueles que, em nome do pragmatismo político, assistem  em silêncio à institucionalização da violência.

Não podemos mais nos calar, pois quando nos dermos conta pode ser tarde demais. Uma situação que pode ser perfeitamente descrita pelos belos versos do poeta Eduardo Alves da Costa (versos que, erroneamente, foram atribuídos a Maiakovski, Brecht, García Márquez, entre outros):

“Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.”

Mexendo com a vaca sagrada

Nessa noite chuvosa, passeio pelas manchetes dos principais portais da internet. Em todos eles, invariavelmente, há uma chamada sobre o conflito entre PMs e manifestantes contra o aumento da passagem do transporte público na Avenida Paulista.

Nada é tão eficaz para dar visibilidade a uma demanda social quanto atrapalhar o trânsito: só mesmo mexendo com a vaca sagrada do apressado e cínico cidadão médio para fazê-lo perceber o mundo que existe além do próprio umbigo.

A grande impressa, como era de se esperar, coloca a ênfase na violência da manifestação: ônibus depredados, prédios pichados, fachadas de agências bancárias destruídas e por aí vai. Todos os manifestantes são colocados num mesmo balaio, sendo tratados como uma grande turba de vândalos aterrorizando o “cidadão de bem” da terra da garoa. A quem quisesse se dar o trabalho de entender o que acontecia, não seria difícil perceber a heterogeneidade da multidão, a despeito da reivindicação comum.

A propalada versão dos atos de vandalismo, por sua vez, serve de álibi à ação tradicionalmente truculenta da PM. Basta lembrar da ação espetaculosa para desocupação da reitoria da USP. Isso sem falar nas ações de reintegração de posse, que acontecem a todo o momento no Estado, aterrorizando a população pobre que é deslocada pela especulação imobiliária (quem não se lembra do Pinheirinho?). Mas os fins justificam os meios. E quando o fim é a proteção do direito de propriedade e do direito de ir e vir do “cidadão de bem”, nenhuma força é considerada excessiva — pelo menos é a impressão que a completa falta de indignação de amplos setores da sociedade diante deste tipo de ação policial me transmite.

A julgar pela fala do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, de que interromper o trânsito é “caso de polícia”, vê-se claramente que o direito de uns é mais importante que o direito de outros. Sim, pois o direito de ir e vir dos que se utilizam do transporte individual e motorizado não só é reconhecido como também é imediatamente restabelecido mediante o uso da força policial. Já o direito de ir e vir de quem depende do transporte público se vê subordinado ao interesse privado de empresários do setor de transporte. E qualquer tentativa de questionar efetivamente essa subordinação do interesse público ao privado, que constrange o exercício do direito de ir e vir, principalmente pelos mais pobres, é reprimida com cassetetes, gás lacrimogênio, balas de borracha, entre outros expedientes da PM.

Enquanto isso, no plano político partidário, o que se vê é um esvaziamento do debate de ideias, pelos menos entre os partidos detentores do poder. O pragmatismo político chega a níveis tão inimagináveis que é tarefa árdua apontar para diferenças práticas entre um partido e outro. Tudo fica reduzido ao plano da economia. Se ela vai bem, o eleitorado fica com o governo. Se ela vai mal, o eleitorado corre para a oposição. (Recomendo o comentário de Bob Fernandes sobre o assunto.)

O quadro, portanto, não é dos mais animadores. Os movimentos sociais, na condição de portadores e divulgadores de demandas da sociedade, se veem criminalizados por todos os lados — pelos grandes aparelhos midiáticos, pelo Estado, pelo cidadão médio. Além disso, os partidos políticos, mais preocupados com as receitas dos marqueteiros para manter a popularidade alta, se mostram em geral como canais pouco dispostos para a expressão das demandas sociais mais contestadoras da ideologia hegemônica. Diante dessa conjuntura, resta a alternativa de continuarmos saindo às ruas e mexendo com a vaca sagrada da nossa sociedade cínica e ensimesmada.

A abstinência do privilégio

Leio na internet, não sem uma dose de espanto, que a justiça paulista (a mesma do Pinheirinho) determinou que as empresas de transporte e caminhoneiros voltassem às atividades normais, a fim de evitar o desabastecimento de combustível na cidade de São Paulo.

Logo que me dei conta de que a ordem judicial, em que pese o pretexto de preservar o “interesse público”, quer mesmo é manter o privilégio de uma minoria, aquele espanto inicial passou. Lembrei-me que estou no Brasil. Mais que isso, que estou na terra dos bandeirantes — ou melhor, de gente que se orgulha desses “ilustres” homens que promoveram um verdadeiro etnocídio, varrendo do mapa quem lhe parecia diferente e inconveniente, os indígenas. Na prática, o comportamento do paulistano médio continua a refletir os ideais dos velhos bandeirantes.

Sexta-feira passada, a lógica do privilégio, que rege todo o mecanismo da circulação na capital paulista, fez uma vítima fatal. A bióloga Juliana Dias, que se deslocava com sua bicicleta, foi atropelada por um ônibus em plena Avenida Paulista. O fato mostra o quão incivilizadas são as relações no trânsito. Os veículos maiores, que a princípio deveriam zelar pela segurança dos menores, na prática adotam uma postura agressiva: quem quer que se coloque como obstáculo que saia da frente! (Por que será que os SUVs fazem tanto sucesso, apesar de as ruas estarem cada vez menores para tantos veículos?)

Há quem diga que a bicicleta não é um meio de transporte adequado para as vias de grande circulação. Então, qual a solução para o já tão caótico trânsito de São Paulo? Mais carros? E onde serão colocados esses milhares de novos automóveis que entram em circulação na métropole?

A resposta simplista do alcaide da capital é barrar a entrada de caminhões nos horários de grande circulação — além da já furada iniciativa de se fazer o rodízio de acordo com a placa dos veículos. Assim, em tese, haveria espaço para os novos carros que entram em circulação. Evidentemente, problema algum é resolvido com essas iniciativas. Quem sabe, a grande paralisação do trânsito de São Paulo é adiada por algum tempo. Até lá, Kassab já arranjou alguma boquinha em algum governo — tanto faz de que partido seja, já que a ideologia do seu PSD é estar no poder, esteja ele onde estiver.

Enquanto isso, a minoria privilegiada que faz uso do transporte motorizado individual vai — à maneira do prefeito paulistano — “empurrando com a barriga” a questão do transporte e da circulação na metrópole. Cada um busca sua própria solução individual, sem perceber que conjuntamente todos estão criando um problema coletivo. A ilusão do conforto, da potência e da individualidade proporcionada pelo automóvel parece falar mais alto.

Isso explica a histeria que tomou conta da “classe média sofredora” de São Paulo diante da ameaça de falta de combustível para abastecer os carros particulares. Diga-se de passagem, o abastecimento aos veículos dos hospistais, do SAMU, das polícias e outros serviços essenciais foi garantido pelo movimento grevista. Ainda, as empresas de transporte público contam com um suprimento próprio de combustível. O que efetivamente se viu prejudicado foi o abastecimento dos carros de passeio. O direito de ir e vir — a não ser dos transportadores — em momento algum se viu ameaçado.

Em suma, as reações iradas e a celeridade da justiça paulista — tão ciosa de proteger os privilégios de quem os detêm — só podem ter uma explicação: uma crise de abstinência do privilégio. Quando os motoristas individuais veem ameaçado seu privilégio de se impor aos outros agentes do trânsito mediante uma postura intransigente — que veio a resultar na morte da ciclista na Av. Paulista — , a frustração de não terem acesso àquela falsa liberdade proporcionada pelo automóvel se abate sobre eles.

E, desse modo, perde-se a oportunidade de se colocar em pauta um problema sério que afeta diariamente a qualidade de vida dos paulistanos, optando-se pela solução mais simples, que acalme os ânimos do “cidadão de bem”. De fato, a menos que se pense seriamente na melhoria do transporte público e em outras alternativas — entre elas, sim, a bicicleta — , será cada vez mais difícil se locomover na cidade de São Paulo. Boa parte dos paulistanos, ao que parece,  prefere esperar até o dia em que não consigam mais sair do lugar, dentro de seus carros, assistindo de camarote ao “grande congestionamento final”.

Bem-vindo a SP, Estado Policial

Domingo, 22 de janeiro de 2012. Um dia que jamais será esquecido.

Um dia de indignação, de dor e de revolta, que não podem ser representadas em palavras.

Infelizmente, o bom senso não prevaleceu e a PM paulista pôs em prática a operação para a desocupação do Pinheirinho, em São José dos Campos.

Não bastasse a imoralidade da reintegração de posse, que além de desalojar milhares de famílias pobres e trabalhadoras visa a devolver o terreno para a massa falida da empresa Selecta, do megaespeculador Naji Nahas; a ação da polícia contrariou uma ordem judicial da Justiça Federal, suspendendo a desocupação do Pinheirinho — ou seja, além de imoral foi também uma ação ilegal.

Vergonha

Ainda que tenha havido um conflito entre as esferas do judiciário federal — que suspendia a desocupação — e a estadual — que mantinha a reintegração — , a polícia do governador Geraldo Alckmin não teve dúvida: não esperou a resolução da controvérsia e não poupou a população do Pinheirinho e bairros vizinhos da violência. Com cerca de 2.000 homens, inclusive soldados da tropa de choque, a PM invadiu a Zona Sul de São José dos Campos e instalou um clima de guerra civil.

Essa operação da PM-SP no Pinheirinho é apenas a “cereja do bolo” entre as várias ações em que o aparelho repressivo do Estado mostra a serviço de quem está. Depois da covarde desocupação da reitoria da USP — com 400 homens para retirar 70 estudantes — , da expulsão dos dependentes químicos da região da Luz — vulgarmente chamada de “cracolândia” — , agora a violência estatal se volta contra trabalhadores pobres e suas famílias, a fim de garantir a “propriedade privada” de um “grande empresário” (tucanaram o especulador). É a polícia dos homens de bens.

E, como demonstra a desocupação do Pinheirinho, agora essa polícia nem precisa mais respeitar as leis. Basta que suas ações estejam de acordo com os interesses do tucanato que (des)governa o Estado há mais de 20 anos. Quem estiver contra que se prepare para os cacetetes, bombas de gás lacrimogênio, sprays de pimenta e toda uma série de armas que não-letais — armas que não matam; só nos alijam da cidadania.

Há ainda quem queira colocar a culpa nos moradores do Pinheirinho pelos carros queimados e pelo patrimônio público depredado durante a onda de violência. Gostaria de perguntar a essas pessoas o que é possível fazer numa situação em que não há lei a que recorrer. Os moradores reprimidos pela ação da PM deveriam se ajoelhar diligentemente para receber as cacetadas dos policiais, suponho. Afinal, “dor e sofrimento” é o mote que parece orientar o governo paulista (influência da Opus Dei?).

 Por isso, não é sem tristeza e indignação que lhe digo, caro leitor: Bem-vindo a São Paulo, Estado Policial.

O dia em que São Paulo parou

21 de janeiro de 2010. Às vésperas de completar 456 anos, no dia 25 próximo, a cidade de São Paulo, que ficou conhecida como “cidade que não pode parar”, ficou paralisada. Alagamentos em vias de todas as regiões da cidade comprometeram o trânsito. Desabamentos e a força da água fizeram novas vítimas. A CEAGESP, central de distribuição de alimentos, foi tomada pela água. O caos se instalou.

Culpar tão somente a chuva, que caiu num volume extraordinário — mas que já está se tornando rotineiro — , é uma maneira já ineficaz de tentar explicar essa situação caótica. Um processo histórico de crescimento urbano desordenado, conjugado com omissões do poder público, além da priorização do transporte rodoviário, são algumas das causas do que aconteceu hoje. A permanecerem esses fatores, é de se questionar se essa cidade completará outros 456 anos.

Caos em SP

O trânsito ficou complicado na avenida do Estado; imagem mostra alagamento na divisa entre São Paulo e São Caetano do Sul. Fonte: Terra. Foto: Amilton/vc repórter