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Raça e História — Claude Lévi-Strauss

Resenha do texto “Raça e História”, de Claude Lévi-Strauss

Lévi-Strauss inicia o texto procurando por um lado refutar a ideia de existirem diferenças psicológicas e de aptidões entre os diferentes grupos étnicos humanos (“raças” biológicas), ideia igualmente contestada pela genética moderna; e por outro lado ressaltar que existem grandes diferenças entre as sociedades humanas, isto é, há uma grande diversidade cultural. O objetivo dessa abordagem é impedir que os preconceitos racistas sejam apenas retirados de sua base biológica, ressurgindo no âmbito sócio-cultural.

Isto porque seria inútil conseguir que o homem do povo renuncie a atribuir um significado intelectual ou moral ao fato de ter a pele negra ou branca, o cabelo liso ou crespo, para ficar em silêncio diante de outra questão à qual a experiência prova que êle se agarra imediatamente: se não existem aptidões raciais inatas, como explicar que a civilização desenvolvida pelo homem branco tenha cumprido os imensos progressos que conhecemos ao passo que as dos povos de côr tenham ficado para trás, umas a meio caminho, outras atingidas por um atraso que se conta em milhares ou dezenas de anos? (LÉVI-STRAUSS,1970:p 233)

Lévi-Strauss desenvolve o conceito de diversidade cultural, ressaltando que devemos levar em conta as diferenças entre as culturas contemporâneas, que coexistem num determinado período de tempo; bem como entre as culturas que ocupam momentos históricos diversos, salientando que no caso dessas últimas não temos acesso ao seu conhecimento pela experiência direta, o que sem dúvida prejudica a observação de toda sua riqueza e complexidade. Ainda, destaca a existência de povos que não adotaram a escrita, fato que inviabiliza o conhecimento preciso de suas formas anteriores. Portanto, não é possível elaborarmos um inventário completo das culturas no espaço e no tempo; jamais seremos capazes de conhecer toda a riqueza cultural que esteve (e está) presente neste planeta.

Feitas essas considerações, o autor questiona no que consistem culturas diferentes. Tal questionamento conduz à constatação de que sociedades que “derivam de uma mesma raiz” não apresentam tantas diferenças quanto sociedades que apresentam origens completamente diferentes, embora se constituam em sociedades distintas. é constatado também que em alguns casos observa-se uma “convergência cultural”, isto é, um processo de aproximação entre duas culturas, mesmo quando essas apresentam “origens distintas”. Por trás dessas constatações revela-se uma tensão observada dentro das sociedades humanas, entre uma força que trabalha no sentido de manter as tradições culturais, e outra força que atua no sentido de promover a aproximação com outras culturas. Tal revelação leva à conclusão de que a diversidade cultural não se apresenta de maneira estática e é antes produto do contato entre culturas do que do isolamento.

Conseqüentemente, a diversidade de culturas humanas não nos deve convidar a uma observação fragmentadora ou fragmentada. Ela é menos função do isolamento dos grupos que das relações que as unem.” (LÉVI-STRAUSS,1970:p 236)

Lévi-Strauss observa que o etnocentrismo, qual seja uma postura de rejeição e de menosprezo perante formas culturais diferentes, é paradoxalmente um traço cultural comum entre a maioria das culturas. O autor fornece uma série de exemplos de posturas etnocêntricas adotadas por diferentes sociedades, no tempo e no espaço: na Antiguidade, os povos que não compartilhavam da cultura greco-romana eram considerados “bárbaros”; da mesma forma a civilização ocidental costuma se referir aos povos que não adotam seus valores como “selvagens”. Nesse contexto, a cultura ocidental, marcada pelo advento das revoluções industrial e científica, tomando como base especulações filosóficas, estabelece um sistema “evolutivo” que procura abarcar toda a diversidade cultural do planeta, como se fosse uma manifestação de diferentes “estágios de desenvolvimento”: toda a humanidade estaria destinada a atingir, em seu ápice, o mesmo “nível” do Ocidente. Este é o conceito de evolucionismo social, criticado pelo texto.

Dada a diversidade cultural no tempo e no espaço, e os vários aspectos que apresentam cada civilização, Lévi-Strauss pondera que a tentativa de estabelecer analogias entre diferentes culturas a partir de um de seus aspectos pode nos levar a conclusões equivocadas. Para tanto, menciona como exemplo o paralelo que muitas vezes é estabelecido entre sociedades paleolíticas e sociedades indígenas contemporâneas, que por apresentarem como traço comum a utilização de instrumentos de pedra talhada, conduzem a afirmações errôneas de que ambas se constituem em culturas semelhantes, quando na verdade não existem subsídios concretos — principalmente em relação às sociedades paleolíticas, cujo comportamento não pode ser precisamente reproduzido — para se estabelecer tal relação. A partir dessas constatações, critica a concepção de que existem “povos sem história”, em que nada teria acontecido ao longo dos milênios que essas sociedades ocupam o planeta.

Durante dezenas e mesmo centenas de milhares de anos também ali houve homens que amaram, odiaram, sofreram, inventaram, combateram. Na verdade, não existem povos infantis; todos são adultos, mesmo os que não conservaram o diário de sua infância e de sua adolescência. (LÉVI-STRAUSS,1970:p 243)

Desse modo, o autor propõe a distinção entre dois tipos de história: uma cumulativa, capaz de acumular conhecimentos e engendrar grandes civilizações; e outra estacionária, que não apresenta uma capacidade de síntese capaz de permitir a acumulação e desenvolvimento dos conhecimentos  adquiridos.

Nesse sentido, a ideia de progresso é questionada, mediante as evidências de que não há uma direção única na manifestação do gênio humano, seja no campo da técnica, das artes, da organização social, etc. Para tanto, Lévi-Strauss se vale da metáfora do movimento do cavalo no jogo de xadrez, movimento que se processa com várias mudanças de direção, mas permitem alcançar diversos espaços no tabuleiro; analogamente, os progressos da humanidade não seguem uma trajetória em linha reta, mas atravessam caminhos tortuosos até se consolidarem em efetiva mudança de patamar.

Retomando a discussão sobre história cumulativa e estacionária, somos colocados diante do problema referente ao critério que nos permitiria enquadrar uma determinada sociedade num modelo ou noutro de história. Dessa forma, é formulada a ideia de que um determinado observador tende a considerar cumulativa toda a cultura que se desenvolve na mesma direção que a sua — um conceito relativo, portanto. Para ilustrar a situação, uma nova metáfora é apresentada: a de um observador que se desloca em um trem, cruzando com outros trens a medida em que se movimenta; ao contrário do observado sob o aspecto físico, ao observador parece que os trens (culturas) que se movem na mesma direção do seu se deslocam mais rapidamente, ao passo que aqueles que andam por direções e sentidos diferentes dão a impressão de se moverem com lentidão.

Por outro lado, Lévi-Strauss propõe que todas as civilizações reconhecem a superioridade do Ocidente, uma vez que seria observável uma tendência de difusão de vários traços culturais ocidentais entre os mais diferentes povos, a se destacar a técnica, a ciência, os modos de vida, etc. Nesse sentido, constata que a adoção de tais valores por outras culturas nem sempre se dá de modo consensual, tendo contado a civilização ocidental, não raro, com seu aparato militar, econômico e ideológico para impor sua “dominação”.

Sobre esse movimento de caráter “global”, cujo estopim foi a Revolução Industrial, o autor traça um paralelo com a outra única revolução dotada dessa mesma característica, a Revolução Neolítica, que marcou a descoberta da agricultura, mudando definitivamente as feições dos grupos sociais humanos por toda a Terra. Essas revoluções são caracterizadas como grandes “saltos quânticos” na história da humanidade.

Lévi-Strauss ressalta que os progressos tecnológicos adquiridos ao longo do tempo pelas sociedades humanas — alterando sua relação com a natureza e dentro dos próprios grupos sociais — de forma alguma podem ser consideradas como obras do acaso, embora houvesse uma clara inclinação para tal interpretação, principalmente em relação às descobertas mais antigas. Ora, se não houvesse uma pré-disposição, um desejo subjacente, jamais ocorreria uma descoberta acidental. Mesmo essas circunstâncias acidentais devem ser raras, contribuindo pouco para os novos progressos; antes, os avanços são fruto de intenso trabalho dos inventores.

Outra constatação importante do autor é de que os progressos realizados pelas sociedades humanas são tanto maiores quanto maior é a diversidade, a quantidade e a intensidade do contato entre culturas. Menciona como exemplo a Europa na época do Renascimento, que num território limitado abarcava uma miríade de povos, com as mais diferentes tradições culturais. Isso porque diferentes conhecimentos podem estabelecer “diálogos”, engendrando novos conhecimentos. Nesse ponto é apresentada a metáfora do jogador, que procura aumentar suas possibilidades de ganho num jogo de roleta: se optar por jogar sozinho, dificilmente conseguirá formar uma série consecutiva longa, por outro lado, se estabelecer coligações com jogadores de outras mesas, que fazem apostas diferentes, a possibilidade de estabelecer uma sequência longa se ampliam. Vem daí a grande importância de a humanidade preservar sua diversidade cultural.

Contudo, Lévi-Strauss observa em curso um processo de gestação de uma “civilização mundial”, um processo de homogeneização cultural, fato que seria preocupante na medida em que significaria a redução drástica da diversidade de culturas, diminuindo a possibilidade de estabelecer “diálogos culturais” e consequente geração de novos conhecimentos. Retomando a metáfora do jogador, é como se todos os jogadores passassem a fazer as mesmas apostas, diminuindo as chances de se obter uma sequência longa. Com o objetivo de preservar a diversidade cultural, o autor destaca o papel a ser desempenhado pelas instituições internacionais.

Referências
LÉVI-STRAUSS, C. Raça e História. Raça e Ciência I. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1970

P.S.: texto também disponível em Antropologia Estrutural Dois (clique aqui para baixar o livro).

Witch Hunter Robin

Há alguns anos atrás, quando eu era fanático por animes (ainda gosto, mas não tão vidrado), baixei uma série chamada Witch Hunter Robin.

Como sou um sujeito meio disperso, acabei baixando outras séries, virei fã de doramas e esse anime ficou esquecido, quase mofando nos CD-R que usei pra fazer backup — sim, gravei em CD, pra se ter ideia de quanto tempo faz.

Felizmente, os CDs não se estragaram. Sim, hoje assisti ao último episódio e fiquei feliz por não ter perdido os arquivos.

Witch Hunter Robin é um anime produzido em 2002 pela Sunrise. A série conta a história de Robin Sena, uma garota dotada de poderes mágicos, derivados do witchcraft (bruxaria). Robin chega ao STN-J, a filial japonesa de uma organização dedicada a catalogar e caçar bruxas e bruxos que utilizam seus poderes paranormais para matar ou prejudicar os outros. E junto com os outros witch-hunters (caçadores de bruxas) — Amon, Sakaki, Karasuma, Doujima e Michael — , Robin emprega seus poderes na perseguição desses bruxos.

Se fosse só isso, o enredo seria bem bobinho e a série não teria nada demais. De fato, nos primeiros episódios a história não sai muito desse esquema. Num capítulo eles caçam um bruxo X, no outro uma bruxa Y. Mas vale a pena ter um pouquinho de paciência: a história tem várias reviravoltas, acentuando o clima de suspense de uma série que, a princípio, parecia apenas mais uma de fantasia misturada com ficção científica.

Não vou contar mais nada pra não estragar a diversão de quem quiser assistir. Onde encontrar? Dê uma olhada no Animetengoku, no Filecrop, ou mesmo no Google (ele não autocompleta “torrent”, mas continua exibindo resultados de busca com essa palavra).

Sequencia de abertura de Witch Hunter Robin

A última casa de ópio – Nick Tosches

Em A última casa de ópio, Nick Tosches traz o relato de uma expedição em busca de uma verdadeira instituição praticamente extinta pela modernidade, as casas de ópio.

Primeiramente, o autor faz sua crítica à superficialidade de nosso mundo contemporâneo, no qual as pessoas se conformam a um pseudo-conhecimento sobre as coisas, a fim de dar sentido a uma vida há muito desprovida de qualquer encantamento. O exemplo paradigmático é o da meia cebola, servida como iguaria da mais alta sofisticação num restaurante de Nova Iorque, por uma bagatela de US$ 35.

Em oposição a tudo isso, e movido pelo desejo de fumar ópio numa casa de ópio, com todo o ritual e o requinte dessa prática, o autor se coloca em sua busca. As casas de ópio estão praticamente extintas, assim como o próprio ópio, substituído largamente pela morfina e pela heroína durante o século XX. E o livro se desenvolve na descrição dessa busca, principalmente no sudeste asiático. Conseguirá o autor realizar o seu intento?

Vale a pena ler o livro e descobrir. São menos de 100 páginas, num formato de livro de bolso. O estilo do autor é bastante dinâmico e direto, não permitindo que o leitor se entedie com a narrativa.

A última casa de ópioFicha do livro:

A Última Casa de Ópio

Nick Tosches

Conrad Editora

ISBN : 8576161656

96 páginas