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Um dia de chuva

Céu cinza de nuvens

Vejo numa poça d’água

Um dia de chuva

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Vapor

Emana um vapor.

A chuva que toca o chão

dissipa o calor.

Poente

O verde arvoredo

Sob a luz do sol poente

Um brilho dourado

Tarde de verão

Tarde de verão

Agitadas pela brisa

Folhas da palmeira

O não-ser pós-moderno

De tantas tentativas
— infrutíferas —
de me definir,
tomei gosto pelo não-ser.

Não ser brasileiro,
nem ser japonês.
não ser proletário,
e também não ser burguês.
não ser operário,
nem cientista ou intelectual.

Se um dia me incomodou
o fato de não ser,
hoje o não-ser é meu refúgio
— o último recanto da liberdade.

Pois o não-ser é a chave
para ser qualquer coisa,
e para estar em qualquer lugar
deste mundo pós-moderno.
A modernidade, aliás, me dá claustrofobia.

Mundo cheio de vazio

Cada vez mais produtividade
E menos empregos.
Cada vez mais dinheiro
E menos riqueza.
Cada vez mais valor de troca
E menos valor de uso.
Cada vez mais respostas
E menos perguntas.
— Falta de propósito.

Cada vez mais gente
E menos amizade.
Cada vez mais barulho
E menos música.
Cada vez mais carros
E menos rapidez.
Cada vez mais sexo
E menos amor.
— Falta de significado.

Cada vez mais informação
E menos conhecimento.
Cada vez mais conhecimento
E menos sabedoria.
Cada vez mais poder
E menos escrúpulos.
Cada vez mais palavras
E menos sentido.

Mas para viver — autenticamente —
É preciso sabedoria, ética e poesia.
Saber amar o mundo, o próximo e a si mesmo.
Buscar uma boa vida.
E achar os significados que se escondem
Nas palavras, nos gestos e no universo
Para povoar um mundo cheio de vazio.

A magia da Copa

A cada quatro anos minha vida para por um mês:

a Copa do Mundo começa,

e a vida segue, sem pressa.

Lembrando a infância, talvez.

 

Bandeiras por todos os lados,

o verde-amarelo na paisagem urbana.

Bandeiras em todos os carros,

e a rua, parece mais humana.

 

O cidadão comum afrouxa a gravata

e aperta as mãos na torcida.

Nesse tempo de copa qualquer televisor

num bar, numa vitrine de loja,

vira ponto de encontro

— de gente que jamais sonhou se encontrar.

 

Tempo de fazer bolão e dar palpite:

todo mundo mostra que tem um treinador dentro de si.

Tempo de fazer o álbum da copa:

trocar e bater figurinha.

 

A cada quatro anos, durante um mês,

posso sorrir e esbravejar;

sem constrangimentos, sonhar.

Antes que tudo volte a ser como era outra vez.