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Todos juntos numa só solidão

Véspera de Natal. Nesta noite, tudo está em seu lugar: os presentes debaixo da árvore de Natal, os pratos da ceia sobre a mesa, os enfeites adornam cada canto da casa. As pessoas ostentam sorrisos em seus rostos. Parecem conversar sobre qualquer coisa engraçada, a julgar pelos risos. Enquanto isso, as crianças correm pela casa, fazendo aquela algazarra.

As pessoas se sentam à mesa. Está na hora de saborear as iguarias do Natal: peru, pernil, lombo, farofa, saladas e tudo que não pode faltar num banquete natalino. Jantar, diga-se de passagem, regado a muito vinho e cerveja para os adultos, e refrigerante para as crianças. Temos diante de nós o retrato de uma noite feliz.

As crianças logo deixam de lado seus pratos. Os pais ainda tentam fazer seus filhos terminarem de comer as sobras de comida. Em vão, pois as crianças, com sua disposição de pilha alcalina não conseguem ficar sentadas: precisam gastar suas energias, quem sabe para conter a ansiedade de abrir os pacotes com os presentes.

Enquanto isso, de volta à mesa, lá estão os adultos, entre uma garfada e outra, conversando animadamente. Falam sobre suas últimas aquisições: sua última casa na praia, sua última chácara, seu último carro, seu último gadget, de última geração. Quando não é esse o assunto em pauta, pode estar certo de que estão tratando das últimas estripulias da vida alheia: quem se casou, quem descasou, quem traiu, quem foi traído, quem foi promovido, quem foi demitido, quem se mudou…

E quando as novidades sobre coisas e pessoas deixam de ser novidades, há ainda o passado: lembranças de passeios, viagens, traquinagens, antigos amores… A essa altura, já sob efeito do álcool, a evocação de certas memórias traz consigo uma carga de emoções que estavam esquecidas num canto qualquer dos corações, encobertas por uma camada de poeira, negligenciadas pelo imperativo de viver o dia-a-dia.

Desacostumadas a aparições públicas, essas emoções, desajeitadas ao convívio social como um bicho do mato, acabam não raro provocando reações violentas em seus donos. Acessos de choro, acessos de raiva. Os que ainda estão sóbrios olham com uma expressão de espanto. Mas eles mesmos sentem que algo parece querer escapar do controle. Se o protocolo permitisse, também diriam poucas e boas.

E então, à medida que o efeito do álcool vai passando, e em nome da civilidade, do bom exemplo que deve ser dado às crianças, os ânimos vão se acalmando. Logo estão às boas, assim que acham um assunto que os subtraia do domínio das emoções: como o pernil estava bem temperado; como o pudim, mais uma vez, estava exageradamente doce; como a farofa estava molhada demais; e assim por diante.

Fico olhando tudo isso, um pouco enternecido, mas também um pouco chateado.

Fico enternecido com a maneira pela qual as pessoas sempre acham um jeito de evitar que as emoções, que vivem nos porões de seus corações, possam ameaçar as relações que as unem. Uma demonstração de civilidade, mas também do apreço que têm por esses laços familiares. Por mais que esses laços, às vezes, exijam que se utilize as cordas do autocontrole.

Por outro lado, fico chateado ao ver as pessoas, mais uma vez, varrendo a poeira para baixo do tapete. Mais um ano que passa. Mais um ano e as velhas emoções são recolhidas aos porões inacessíveis do coração de cada um. Mais uma vez se perde a oportunidade de passar a limpo as mágoas, as rusgas, as frustrações que os afligem. Mas fazer o que? É noite de Natal. A noite deve ser feliz.

Fico pensando até que ponto vale a pena esse tipo de felicidade. Fico pensando até que ponto vale a pena esse tipo de civilidade. Fico pensando qual o sentido de as pessoas se reunirem quando elas não compartilham um projeto comum, já que nos outros dias cada um está empenhado em alcançar, individualmente, seu próprio sucesso. Fico pensando qual o sentido dessa reunião se o que nela se apresenta é tão somente uma representação do que são essas pessoas — ou seja, um verdadeiro baile de máscaras. Em suma, fico pensando de que vale estarem todos juntos na noite de Natal, se estão todos juntos numa só solidão — a solidão de ter de guardar só para si os próprios sentimentos.

P.S.: a crônica acima é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. (Ou não?)

P.P.S.: tem certeza de que me conhece?

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Generosidade e perversidade

Estamos à véspera de mais um Natal.

E lá vão as pessoas atrás dos presentes, dos pinheirinhos, dos Papais Noéis e congêneres, das guirlandas e outros ornamentos, dos comes e bebes… e toda essa correria ao ritmo de jingle bells e outras canções tão comuns nessa época (felizmente aquele CD da Simone com músicas de Natal parece ter sido esquecido).

E entre a orgia consumista e a histeria coletiva com os compromissos de fim de ano, parece surgir um sentimento de compaixão no coração dos homens e mulheres de boa vontade. Todo ano tem uma campanha de arrecadação de brinquedos usados, de doação de alimentos, de venda de cartões de Natal para entidades assistenciais e por aí vai. Como as pessoas ficam boazinhas no Natal! Seria o espírito natalino?

Quando eu era um sujeito otimista, — e isso não faz muito tempo — , eu era capaz de acreditar que a bondade no coração das pessoas um dia poderia melhorar o mundo. Mas, como eu disse, todo ano eu vejo se repetirem essas campanhas assistenciais para que os necessitados tenham um Natal mais feliz — ou, pelo menos, menos miserável. Pelo visto, a generosidade natalina não é suficiente para solucionar os males sociais, já que sempre há um número considerável de necessitados dependendo da compaixão alheia.

Estou com isso querendo dizer que todas essas campanhas são um lixo? Não, pois não sou um adepto do quanto pior melhor. Tenho consciência de que para algumas pessoas essa ajuda, recebida dessas almas benevolentes, pode ser o único motivo de alegria em meio a tantas dificuldades.

Agora, não posso ignorar uma certa perversidade em toda essa generosidade — além da já mencionada ineficácia na transformação do quadro social. Mas como algo feito com boa intenção pode assumir um caráter perverso? Como já dizia aquele ditado: de boas intenções o inferno está cheio.

Quando o presente de Natal é um presente de grego

Em primeiro lugar, há que se pensar qual o lugar desse “espírito de solidariedade” em meio a uma sociedade marcada pelo individualismo e pela competição. Seria essa mudança um milagre de Natal?

Não sou tão otimista para acreditar nisso. Antes, me parece que se trata de um protocolo, de uma demonstração de respeito a uma tradição (a esse respeito, o Vinícius escreveu um post muito interessante). E, talvez, mais que isso. Slavoj Zizek demonstrou como as corporações têm lucros por se associar com causas de caridade. Num capitalismo em que a imagem — num sentido amplo — é tão fundamental para o processo de valorização, nada melhor do que uma empresa ter uma imagem de socialmente responsável — não importa que nas suas práticas cotidianas ela não seja assim tão boazinha. E uma boa oportunidade para mostrar essa face benevolente certamente é o Natal.

A outra coisa que tem de ficar clara é que, como já havia apontado Marcel Mauss no seu Ensaio sobre a Dádiva, toda dádiva recebida causa uma obrigação implícita de retribui-la. De modo que só pode haver uma relação simétrica entre doador e donatário se eles conseguem, ao longo do tempo, se estabelecer como parceiros de troca. Ou seja, só quando aquele que recebeu o presente puder, num momento seguinte, retribui-lo e de devedor passar a credor do obséquio.

De modo que, por meio dessa generosidade natalina, os necessitados se inserem numa relação assimétrica com seus doadores. Os necessitados se veem como eternos devedores, já que não encontram condições de retribuir o dom recebido — salvo raras exceções. E assim, aquele que recebeu o presente se coloca num patamar inferior em relação ao doador. Há algo de humilhante nessa benevolência.

Perdoem-me se eu tiver estragado a festa de alguém. Não foi essa a minha intenção. Minha intenção foi apenas de mostrar que enquanto vivermos segundo a lógica da desigualdade, a generosidade andará de mãos dadas com a perversidade.

Eu odeio o Natal!

Eu odeio o Natal e outras festas, mas o Natal, com seu Papai Noel vermelho Coca-Cola, renas saltitantes, a celebração de um inverno que passa longe do Brasil, é, sem sombra de dúvida, a mais detestável. Até o menino Jesus entra na dança, assumindo a forma de figura de presépio — seja como uma maneira de lembrar timidamente do verdadeiro motivo da comemoração, seja para participar daquilo que efetivamente é o Natal na sociedade capitalista: um festival de consumo conspícuo.

E, no fim das contas, o Filho de Deus, que botou pra correr os comerciantes que profanavam o templo de seu Pai, é profanado: deixa de ser Deus e vira mera mercadoria. Essa profanação, que deixaria o cristão mais relapso de cabelo em pé, no entanto, parece passar despercebida. Pelo contrário, parece ser aceita de bom grado até pelos mais religiosos. O fato é que se o Natal é uma celebração religiosa, ela passa longe de ser uma comemoração do nascimento de Jesus, o Filho de Deus, que foi enviado aos homens para a remissão de seus pecados. Esse pode ser o pretexto, mas a divindade adorada nessa festa é outra: seu nome é mercado, e esse deus só pode ser adorado mediante o consumo desenfreado da mais ampla gama de mercadorias, não importa se por pagamento à vista, no carnê ou — preferencialmente — no cartão de crédito.

Sai pra lá, Papai Noel!

O que importa é consumir estupidamente. Esquecer-se de si mesmo e entregar-se sem reservas à satisfação dos desejos atiçados pela publicidade — os quais, a bem da verdade, nem mais desejos são, mas agora, necessidades. No capitalismo, Cristo perdeu seu status de redentor. Hoje, o consumo salva. Mandeville, a quem é atribuída a sentença “vícios privados, virtudes públicas”, veria nessa gula consumista a realização do seu ideal. Pois, lembremo-nos o quão importante é o consumo natalino para nossa economia: postos de trabalho — temporários e precários — são criados; famílias carentes são atendidas — talvez depois sejam esquecidas, mas sua falta de qualificação não garante um lugar no mercado de trabalho, fazer o quê? –; mais lixo é gerado para as cooperativas de catadores; e assim se multiplicam os exemplos da utilidade do comportamento individual-consumista, aparentemente “pecaminoso”. Pecaminoso porque a essência do consumo é a busca de diferenciação, de ser melhor do que o outro, o que é claramente incompatível com a máxima cristã de “amar o próximo como a si mesmo”. Segundo a doutrina realmente vigente, a do capitalismo selvagem, a máxima cristã parece exageradamente comunista: em nada contribui para a ambição das pessoas e, consequentemente, para aumentar a produtividade da economia.

Quando vejo a farsa em que se transformou o Natal, não consigo suportar minha inquietação. Ainda mais quando Jesus é tomado como cúmplice dessa patranha. Uma festa que deveria celebrar a paz, o amor e a caridade, na prática revela de forma explícita o conflito social que cinge nossa sociedade: enquanto uns se regozijam na fartura outros nada têm sobre a mesa. Conflito que é alimentado e ao mesmo tempo velado pela naturalização da injustiça social, como reflexo do mérito ou do demérito de cada um. Ou seja, o contraste entre miséria e fartura parece não nos escandalizar mais. Fazemos uma boa ação aqui ou acolá e pronto: já podemos aplacar nossa consciência e gozar a festa sem maiores incômodos. Mas essa postura é cínica! Esquecemo-nos de que, mais do que nunca e cada vez mais, como disse Gramsci, a produção de riquezas se torna social e o consumo destas, individual. Portanto, perdoem-me esse momento de catarse, mas sinto que o melhor que posso fazer, com os princípios cristãos que me restam, é me indignar. Por isso, digo e repito: eu odeio o Natal!