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A classe que vive do trabalho –dos outros

“Quem paga a banda escolhe a música”, diz o ditado.

Por analogia, quem enche os cofres da grande mídia faz o que? Coloca Mick Jagger na capa da Exame, pra convencer você que trabalhar até a velhice é para os “vencedores”. Genial!

Só que não.

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A capacidade de aceitar versões distorcidas da realidade é inversamente proporcional ao grau de periculosidade dessa realidade.

Todo mundo já percebeu que a possibilidade de se aposentar, mesmo que em um futuro longínquo, pode se transformar em nada mais que uma doce ilusão.

Assim como antigos sonhos, cultivados num imaginário de classe média, podem virar pó: ter um emprego estável, uma casa própria, constituir família, ver os filhos se formando na universidade, etc.

A política de terra arrasada promovida pelo projeto neoliberal do governo golpista –-também conhecido como “Ponte para o Futuro” ou “a pinguela que temos pra hoje”, conforme o gosto do freguês– veio para colocar o país numa máquina do tempo, em ritmo acelerado rumo ao passado.

Estamos retrocedendo tão rápido que avanços civilizatórios como a legislação trabalhista e o sistema de previdência e seguridade social correm sério risco de virarem peça de museu.

Tudo isso em nome da Santíssima Trindade. “O Pai, o Filho e o Espírito Santo”, certo? Não. Apesar de pautas conservadoras de cunho religioso tomarem cada vez mais a agenda pública, a divindade que exige insaciavelmente o sangue do povo brasileiro é outra, o deus-mercado, cuja Santíssima Trindade é: metas de inflação, superávit primário e câmbio flutuante.

Os sacerdotes –hoje chamados economistas–, intérpretes dos humores do deus-mercado, já nos mostraram a revelação para a salvação nacional: para restabelecer a confiança, cortem tudo! Cortem programas sociais, investimentos em ciência e tecnologia, verbas para a saúde e educação, privatizem, entreguem o pré-sal… tudo em nome do santo “equilíbrio das contas públicas” –-também conhecido como “vai sobrar dinheiro para pagar os juros da dívida pública”.

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Montagem: Sensacionalista

A capacidade de aceitar versões distorcidas da realidade é inversamente proporcional ao grau de ameaça dessa realidade.

As pessoas estão vendo a água subir, há muito passou pela cintura, está chegando no pescoço. E a “fada da confiança” não aparece. E as pessoas estão perdendo seus empregos. E o país está perdendo a esperança.

Chega a ser ridícula essa capa da Exame com o Mick Jagger. A quem eles pensam que enganam? Será que acham mesmo que vão conter a fúria do povo trabalhador, em vias de ser expropriado do direito à aposentadoria, um dos poucos consolos para uma vida marcada pela exploração? Evidentemente, só conseguirão convencer aqueles já convertidos ao culto do deus-mercado.

Mas essa piada de mau gosto tem seu mérito: o de demonstrar cabalmente que, no mundo real, existem interesses conflitantes. Ou, dizendo de maneira mais clara, há uma luta de classes.

De um lado, a classe que vive do seu trabalho, tendo sua dignidade confiscada. De outro, a classe que vive do trabalho dos outros, apropriando-se da cidadania, dos sonhos, do futuro, enfim, da humanidade da outra classe.

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A capacidade de aceitar versões distorcidas da realidade é inversamente proporcional ao grau de crueldade dessa realidade.

O Mick Jagger da capa da Exame só faz sentido para a classe que vive do trabalho –dos outros. Para essa classe, o trabalho pode muito bem se mostrar como uma atividade prazerosa e fonte de realização, suportável até o fim de seus dias.

Para a classe que vive do seu próprio trabalho e, de quebra, sustenta a outra classe, não há como evitar: o trabalho é sofrimento, porque submetido à exploração –um fardo pesado a ser carregado.

Pelo menos, isso agora fica claro. Se não há aposentadoria, a classe trabalhadora não tem nada a perder, a não ser os seus grilhões.

Com o punho em riste e a cabeça erguida

A novela do “mensalão” chega nos seus momentos finais. A grande imprensa, representante dos setores mais reacionários do país, direciona seus holofotes para a prisão dos réus condenados no julgamento da Ação Penal 470 – mesmo aqueles que ainda têm recursos a serem analisados pela corte.

Como toda boa novela que se prese (pelo menos a julgar pelos roteiros dos nossos noveleiros), o capítulo final é reservado para o castigo dos vilões e a felicidade eterna dos mocinhos. Assim, para fechar com chave de ouro essa novela do “maior escândalo de corrupção da história do país”, nada melhor que aquela cena com os bandidos indo para a cadeia. E a “cereja do bolo” seria, certamente, a prisão dos “chefes da quadrilha”: Zé Dirceu e José Genoíno.

A ficção, que tomou conta de tantos corações e mentes – inclusive daqueles que deveriam julgar com imparcialidade, à luz da razão –, no entanto, foi frustrada pela realidade. Faltou combinar com os russos. Ou melhor, com os petistas. Se alguém esperava que Dirceu ou Genoíno, ao se apresentarem à polícia, escondessem suas faces de vergonha, certamente ficou desconcertado com a altivez dos antigos líderes do PT. Com o punho em riste e a cabeça erguida: foi assim que eles chegaram à Polícia Federal.

Com o punho em riste e a cabeça erguida

Com o punho em riste e a cabeça erguida

Melhor que ninguém, sabem eles que são vítimas de uma injustiça: de um julgamento de exceção, cheio de “inovações jurídicas” que afrotam o Estado Democrático de Direito, com o veredicto pronto desde o início. Um julgamento político, no qual o grande “crime” cometido por boa parte dos réus foi o de pertencer a um partido que colocou em prática um novo projeto de país – um projeto para além do modelo tão estimado pelas nossas elites: o da divisão entre casa-grande e senzala. Melhor que ninguém, os dois conhecerão o grau dessa injustiça, uma vez que serão privados de sua liberdade. Melhor que ninguém, portanto, Dirceu e Genoíno sabem que não têm do que se envergonhar.

Vergonha devem começar a sentir alguns que até agora andavam tão imponentes em suas togas. Quando se derem conta do papel a que se prestaram, violando princípios constitucionais apenas para saciar a “sede de justiça” da opinião publicada, como lacaios obedientes da nossa “elite branca”, provavelmente vão usar suas capas para ocultar o rosto. (Certamente não é o caso do Ministro Levandowski, que apesar das pressões externas manteve-se intransigente na defesa dos princípios do Estado de Direito.)

O fato é que se a novela – ou seria a farsa? – encontra seu desfecho na prisão dos “réus do mensalão”, o final feliz dos mocinhos – entenda-se coxinhas – deve durar pouco. A verdade principia a aparecer. A altivez e a coragem de Dirceu e Genoíno deixam pouca margem para manipulação. Ainda que alguém possa identificar esse gesto como uma demonstração de falta de vergonha de “bandidos imorais” – e não deve faltar nos nossos jornais “colunistas” que o farão –, muitos vão entender a mensagem que há por trás do simbolismo dessa atitude. Muitos vão entender o conflito em meio do qual estamos. Muitos vão entender que é preciso tomar uma posição. Muitos vão perceber a injustiça que está sendo cometida. Muitos vão compreender que uma batalha chega ao fim, mas a luta continua! E, nessa luta, estou com Dirceu e Genoíno – com o punho em riste e a cabeça erguida.

A farsa termina, mas a luta continua!

A farsa termina, mas a luta continua!

Mexendo com a vaca sagrada

Nessa noite chuvosa, passeio pelas manchetes dos principais portais da internet. Em todos eles, invariavelmente, há uma chamada sobre o conflito entre PMs e manifestantes contra o aumento da passagem do transporte público na Avenida Paulista.

Nada é tão eficaz para dar visibilidade a uma demanda social quanto atrapalhar o trânsito: só mesmo mexendo com a vaca sagrada do apressado e cínico cidadão médio para fazê-lo perceber o mundo que existe além do próprio umbigo.

A grande impressa, como era de se esperar, coloca a ênfase na violência da manifestação: ônibus depredados, prédios pichados, fachadas de agências bancárias destruídas e por aí vai. Todos os manifestantes são colocados num mesmo balaio, sendo tratados como uma grande turba de vândalos aterrorizando o “cidadão de bem” da terra da garoa. A quem quisesse se dar o trabalho de entender o que acontecia, não seria difícil perceber a heterogeneidade da multidão, a despeito da reivindicação comum.

A propalada versão dos atos de vandalismo, por sua vez, serve de álibi à ação tradicionalmente truculenta da PM. Basta lembrar da ação espetaculosa para desocupação da reitoria da USP. Isso sem falar nas ações de reintegração de posse, que acontecem a todo o momento no Estado, aterrorizando a população pobre que é deslocada pela especulação imobiliária (quem não se lembra do Pinheirinho?). Mas os fins justificam os meios. E quando o fim é a proteção do direito de propriedade e do direito de ir e vir do “cidadão de bem”, nenhuma força é considerada excessiva — pelo menos é a impressão que a completa falta de indignação de amplos setores da sociedade diante deste tipo de ação policial me transmite.

A julgar pela fala do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, de que interromper o trânsito é “caso de polícia”, vê-se claramente que o direito de uns é mais importante que o direito de outros. Sim, pois o direito de ir e vir dos que se utilizam do transporte individual e motorizado não só é reconhecido como também é imediatamente restabelecido mediante o uso da força policial. Já o direito de ir e vir de quem depende do transporte público se vê subordinado ao interesse privado de empresários do setor de transporte. E qualquer tentativa de questionar efetivamente essa subordinação do interesse público ao privado, que constrange o exercício do direito de ir e vir, principalmente pelos mais pobres, é reprimida com cassetetes, gás lacrimogênio, balas de borracha, entre outros expedientes da PM.

Enquanto isso, no plano político partidário, o que se vê é um esvaziamento do debate de ideias, pelos menos entre os partidos detentores do poder. O pragmatismo político chega a níveis tão inimagináveis que é tarefa árdua apontar para diferenças práticas entre um partido e outro. Tudo fica reduzido ao plano da economia. Se ela vai bem, o eleitorado fica com o governo. Se ela vai mal, o eleitorado corre para a oposição. (Recomendo o comentário de Bob Fernandes sobre o assunto.)

O quadro, portanto, não é dos mais animadores. Os movimentos sociais, na condição de portadores e divulgadores de demandas da sociedade, se veem criminalizados por todos os lados — pelos grandes aparelhos midiáticos, pelo Estado, pelo cidadão médio. Além disso, os partidos políticos, mais preocupados com as receitas dos marqueteiros para manter a popularidade alta, se mostram em geral como canais pouco dispostos para a expressão das demandas sociais mais contestadoras da ideologia hegemônica. Diante dessa conjuntura, resta a alternativa de continuarmos saindo às ruas e mexendo com a vaca sagrada da nossa sociedade cínica e ensimesmada.

Veja: a ética da hipocrisia e o espírito da classe média

Ao abrir meus e-mails ontem, deparei-me com uma mensagem cujo remetente era a revista Veja. A princípio, pensei que se tratava de mais uma daquelas ofertas para assinatura da revista, com descontos generosos — o que parece indicar que as vendas não vão lá muito bem. Para minha surpresa, a mensagem trazia a carta ao leitor da revista — muito embora eu não seja leitor de Veja. Sendo assim, da mesma forma que a referida publicação tomou a liberdade de enviar sua carta ao leitor na minha caixa de e-mails, tomo a liberdade de reproduzí-la logo abaixo:

Um norte ético

Coube à imprensa livre revelar que no coração do governo do ex-presidente Lula funcionava uma impressionante máquina montada para desviar dinheiro dos cofres públicos e, com ele, subornar parlamentares e comprar partidos políticos. Coube ao Congresso Nacional esmiuçar em uma CPI os caminhos tortuosos do escândalo que ficou nacionalmente conhecido como mensalão, o maior caso de corrupção política da história recente. À justiça, cabe agora punir os envolvidos. Temia-se que a tradição de impunidade prevalecesse. Na semana passada, porém, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) anunciaram os primeiros veredictos, condenando cinco dos 37 acusados, entre eles o deputado João Paulo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados, o petista Henrique Pizzolato, ex-diretor de marketing do Banco do Brasil, e o empresário Marcos Valério, apontado como o operador do esquema. Suas penas só serão anunciadas no fim do julgamento, mas a decisão dos magistrados já começa a romper um dos mais vexatórios paradigmas da cultura brasileira: o de que prisão não é lugar para os poderosos, principalmente se os poderosos também são políticos. A porta da cadeia enfim foi aberta para eles.

Ao anunciarem seus votos, os ministros surpreenderam os mais incrédulos. Não se limitaram a fundamentá-los tecnicamente. Externaram também uma enfática indignação com a ousadia patrocinada pelos ladrões de dinheiro público. “Agentes públicos que se deixam corromper e particulares que corrompem são corruptos e corruptores, os profanadores da República, os subversivos da ordem institucional, os delinquentes, os marginais da ética do poder, infratores do Erário que trazem consigo a marca da indignidade, que portam o estigma da desonestidade”, disse o ministro Celso de Mello, o decano do STF. Ainda falta muito para saber se a impunidade será inteiramente derrotada, mas as primeiras condenações são exemplares em sua essência e trazem um sentimento de alívio e alma lavada à opinião pública, já que apontam o inédito caminho da prisão para os corruptos poderosos – um feito histórico, que pode fazer o Brasil finalmente reencontrar o rumo da ética e voltar a distinguir o certo do errado.

Como se vê, quem dispõe de um mínimo de senso crítico percebe o caráter abertamente parcial do texto: por um lado, se esmera em acusar e condenar os políticos ligados ao PT, estejam ou não comprovadamente envolvidos na prática de atos ilícitos; e, por outro lado, procura louvar o comportamento da “imprensa livre”, esta a conhecedora do “norte ético”, portadora da bússola que permite à sociedade discernir entre o bem e o mal.

A bem da verdade, o tal “norte ético” está mais para um moralismo cínico, quando não um maniqueísmo infantil. Com efeito, falar de ética implica tratar das razões que fundamentam a conduta do ser humano para a obtenção de uma vida boa, mediante uma ação livre e responsável. Entretanto, a ética do tal “norte ético” restringe-se muito mais a uma série de preconceitos, facilmente identificáveis na carta ao leitor. Como, por exemplo, quando diz que “À justiça, cabe agora punir os envolvidos.” Ou seja, justiça boa é justiça que condena no atacado (melhor ainda se os condenados forem do PT). Ora, essa concepção mostra-se impregnada pelo mais elevado autoritarismo, marca do nosso passado colonial e escravista. Qualquer um que viva num Estado Democrático de Direito — e não num Estado de Exceção — deve convir que à justiça cabe julgar com imparcialidade e isenção.

Mas a referida publicação, que tanto gosta de adjetivos e de fazer sua a “opinião pública” — segundo ela, agora de “alma lavada” — , certamente não resiste à tentação de fazer seu o veredicto da justiça. Por isso, o tom efusivo da carta ao leitor. Tom que só não foi mais festivo porque “ainda falta muito para saber se a impunidade será inteiramente derrotada”. É bem verdade que o texto tenta disfarçar seu autoritarismo, clamando por justiça contra os “poderosos”. Quando  os “poderosos” são “amigos”, porém, a indignação com a impunidade se arrefece. Não por acaso, o mesmo órgão de imprensa que faz tanto alarde para tratar do “escândalo do mensalão” (do PT), silencia quando o assunto em pauta é o “mensalão mineiro” (do PSDB) ou a “privataria tucana”. Curioso, não? O tal “norte ético” parece apontar claramente para a hipocrisia. (A esse respeito, Bob Fernandes escreveu um excelente texto, A farsa e os farsantes.)

De fato, no mundo ideal de Veja, todos os “petralhas” estarão atrás das grades. E é dessa forma que essa revista se identifica tanto com certos ideais de uma determinada parcela da população: a classe média tradicional. Procedendo como Max Weber, podemos perceber as “afinidades eletivas” entre os valores dessa classe média e a linha editorial dessa publicação.

Essa classe média, tão bem descrita por Marilena Chauí (veja o vídeo abaixo), é marcada por um caráter autoritário, hierárquico — e, portanto, antidemocrático — , moralista, que coloca os interesses privados acima do interesse público. Não por acaso essa parcela da população se delicia com qualquer possibilidade de que o ex-presidente Lula esteja envolvido no “escândalo do mensalão”. Afinal, o torneiro mecânico que teve o “atrevimento” de tornar-se presidente da república, mesmo sem ter um diploma universitário, merece ser condenado por essa ousadia. Do mesmo modo, esses “petralhas” que permitiram que 40 milhões de pessoas deixassem a linha de pobreza para “invadir” os aeroportos, até então redutos da “nata” da sociedade, não podem sair impunes. Ou seja, qualquer um que ameace a “ordem estamental de castas”, típica da sociedade colonial, merece ser castigado.

Não quero com tudo isso tentar isentar de culpa quem quer que tenha cometido atos ilícitos, entre os quais desvio de dinheiro público. Mas é preciso, diante desse oba-oba midiático em torno do julgamento do “mensalão”, adotar uma postura crítica frente a essa tentativa de promover uma condenação sumária, motivada claramente por interesses políticos. Afinal, o julgamento — absolver ou condenar — cabe aos juízes, constituídos para tal.

De todo modo, essa carta ao leitor mostra claramente a parcialidade da imprensa, bem como os valores sociais que amparam essa postura. Pois o jornalismo ruim é um sintoma de uma sociedade com problemas a resolver. E a julgar pela má qualidade da nossa imprensa, a sociedade brasileira tem sérios obstáculos a superar, para que um dia seja uma sociedade verdadeiramente democrática.

Para o divã — e não para as manchetes

As declarações do ministro do STF Gilmar Mendes nos últimos dias têm esquentado ainda mais a cena política, já em polvorosa com a CPMI do Cachoeira.

Segundo Mendes, o ex-presidente Lula o teria chantageado: em troca de um adiamento no julgamento do Mensalão, o ministro do STF seria “blindado” na CPMI. Essa chantagem teria se dado numa reunião informal ocorrida no escritório do ex-ministro Nelson Jobim.

Lula e Jobim desmentiram a versão de Mendes. Este, em entrevista concedida à GloboNews em 29/05, amenizou as acusações: agora, Lula teria “insinuado” o envolvimento do ministro com o contraventor Carlinhos Cachoeira, além de ter expressado a opinião de que o julgamento do Mensalão não teria objetividade. Ou seja, Lula teria feito, digamos, uma “chantagem subliminar”.

Depois dessa entrevista titubeante, Mendes voltou à carga de forma virulenta: passou a acusar a existência de um complô para desacreditar o STF, sobretudo a sua pessoa. Denunciou o que, segundo ele, é um esquema articulado por gângsters. Tudo para “melar” o julgamento do Mensalão.

Coisa de louco?

Não tivesse o ministro do STF tamanha consideração por parte da nossa grande imprensa, provavelmente ele seria encaminhado para o divã — e não para as manchetes.

Primeiro, porque me parece um caso clássico de mania de perseguição. Ao ouvir cuidadosamente as declarações de Gilmar, tem-se a clara impressão de um sujeito que acomoda todos os fatos num grande esquema conspiratório contra a sua pessoa. Da opinião para a insinuação e da insinuação para a chantagem, tudo se transforma em um piscar de olhos.

Em segundo lugar, Mendes parece um caso clássico de mitomania. Ele se mostra tão convencido de sua teoria conspiratória que é incapaz de aceitar que, talvez, não exista todo esse esquema e esses gângsteres que ele afirma existirem. Ou seja, talvez ele não tenha sequer consciência de que o que diz não corresponde à realidade. Se bem que existem os peritos de plantão que identificaram uma alta possibilidade de Gilmar ter mentido, em algumas declarações.

Por fim, resta clara a megalomania de Gilmar Mendes. Assim como Luís XIV afirmava L’État c’est moi, Gilmar parece acreditar que ele é o STF. Acusá-lo significa acusar todo o tribunal? Ora, o STF é um órgão colegiado. Sendo assim, por que motivo Lula tentaria influenciar no julgamento do Mensalão negociando justamente com um magistrado com quem poucas afinidades? Freud talvez explique.

Certo é que a importância atribuída à fala de Mendes, que está mais para um delirante do que para uma das autoridades mais importantes da República, assim como a credibilidade conferida à revista Veja, mostram o desespero de certos setores políticos e da grande mídia brasileira à medida em que a CPMI do Cachoeira vai trazendo à luz novos fatos. Acho que vai ter gente naufragando abraçada nessa cachoeira.

Uma ilha no Planalto

A presidenta Dilma estampa a capa da revista Veja desta semana, fato que pode ser entendido como mais uma aproximação do governo com a grande mídia do país.

De fato, os grandes veículos de imprensa têm sido particularmente generosos com a presidenta, apesar de não pouparem esforços para desestabilizar o governo — que o digam os ministros derrubados por denúncias de suposto envolvimento em esquemas de corrupção (sim, pois a mera suposição já era suficiente para a imprensa voltar seu arsenal midiático contra os acusados). Nesse processo, Dilma foi retratada como a “faxineira” que promovia uma “limpeza” dos maus elementos do governo.

Outro aspecto que sempre angariou grande simpatia da imprensa foi o “perfil técnico” da presidenta. Os grandes jornais sempre alimentaram a imagem de um Lula “fanfarrão”, que só se valia da sua habilidade política — e sorte — para conduzir um governo com elevadíssimo índice de aprovação. Dilma seria o contraponto a Lula, privilegiando o aspecto gerencial do governo, deixando de lado a política.

Nesse ponto, no que diz respeito à presidenta, a imprensa não deixa de ter certa razão. Mas as consequências dessa realidade são preocupantes para a agenda dos movimentos sociais e setores progressistas da sociedade. A falta de uma interlocução mais próxima do governo com esses setores já causa mal estar desde o primeiro ano do mandato presidencial — e se agrava a cada flerte do governo com setores conservadores, como a grande imprensa, por exemplo.

Porém, o “déficit político” do governo Dilma já causa dificuldades concretas. A “rebelião” da base aliada no Congresso, quando esta se recusou a votar a Lei Geral da Copa na semana passada, dá a medida das dificuldades que o Executivo pode enfrentar daqui para frente.

Dilma tem a intenção de promover a “moralização da política”, acabando com a lógica do “toma lá, dá cá” no jogo político. Em que pese a boa intenção da presidenta, me parece difícil que ela consiga, de uma hora para outra, por um fim a um modus operandi que toma conta da política brasileira desde seus primórdios — ou em algum momento da nossa história o interesse público esteve acima do interesse privado? Se o governo é pragmático o bastante para ser um governo de coalizão e estabelecer uma interlocução com setores conservadores (que, diga-se de passagem, se opuseram à candidatura de Dilma à presidência), me parece um pouco paradoxal esse “ímpeto moralizador”.

Essa postura do governo, a meu ver, provoca seu próprio isolamento. Por um lado, ele perde as alianças fracas, alimentadas pelo mero fisiologismo dos partidos “interesseiros” da base aliada (que é o caso do PMDB, por exemplo). Por outro lado, perde a sustentação forte da militância dos setores à esquerda e dos movimentos sociais, os quais apoiaram a candidatura de Dilma em 2010, a fim de evitar a eleição do projeto conservador representado por José Serra.

E, nesse cenário, quem restará para apoiar o governo? A grande imprensa defenderá a presidenta, como tem feito até agora?

Parece-me claro que não. A postura elogiosa à presidenta está mais para um canto de sereia — pelo qual o governo, lamentavelmente, parece estar sendo seduzido. Ao exaltar a postura “técnica” e “moralizadora” do governo, a imprensa incentiva o distanciamento do governo tanto em relação aos setores mais à esquerda quanto aos partidos fisiológicos, aliados de ocasião. Com isso, uma ilha vai se formando no Palácio do Planalto. E os barões da mídia só esperam o momento mais oportuno para afundá-la.

Daniel e os leões: a tática do brother expiatório

“Se você está tranquilo, é porque já encontrou em quem colocar a culpa.”

A frase acima, que você não encontrará em nenhum manual de autoajuda ou em alguma coletânea de ditados populares do mundo, se não é brilhante do ponto de vista moral, ao menos retrata fielmente o que costuma acontecer na nossa tão imperfeita realidade.

É, por exemplo, o desdobramento do caso do suposto estupro no BBB12. Como disse na atualização do post anterior (que tratava da acusação de abuso sexual), parece que a Globo desistiu de tentar abafar o episódio e agora aposta na tática do bode expiatório (ou seria brother expiatório? — me perdoem o trocadilho).

Pedro Bial, apresentador do reality show, num tom solene e com uma expressão séria informou que o participante Daniel havia sido eliminado por ter apresentado um comportamento inadequado, que infringia o regulamento do programa (tão inadequado que só foram perceber dias depois…). Logo em seguida, trocando a expressão séria por um sorriso no rosto, sentenciou: “o espetáculo tem que continuar!” Agora que temos um culpado, podemos seguir em frente, tranquilamente.

Com essa eliminação do agora vilão Daniel, a Globo não apenas tirou o dela (e de seus patrocinadores) da reta como também saciou a sede de vingança popular contra o possível estuprador. Em que pese o fato da presunção de inocência, juridicamente falando, a eliminação do programa por parte da emissora do Jardim Botânico é um veredicto de condenação contra o rapaz — condenação que ocorre antes da apuração do caso. Quando vivemos numa sociedade do espetáculo, ter o “filme queimado” corresponde ao ostracismo. Mesmo que futuramente seja provada sua inocência, sua imagem já está comprometida. E Daniel foi jogado aos leões, sem piedade, para não prejudicar o show.

A solução mais honesta para o caso, a meu ver, seria interromper o programa até que tudo fosse devidamente esclarecido. A interrupção daria tempo para que um debate público se instalasse a respeito dos direitos da mulher na sociedade brasileira, em oposição ao machismo que é dominante em nossa cultura. Além disso, ninguém seria culpado antes da hora e da devida apuração. Comprovada a culpa de Daniel, ele poderia ser devidamente punido como um cidadão de um Estado de Direito — e não sumariamente punido por um aparelho midiático com um histórico questionável.

Mas o que importa a imagem, a honra pública de alguém, não é mesmo? Além do mais, debater é muito chato, não? Pois já temos um culpado, o que mais falta? O espetáculo tem que continuar! Time is money!

Pois bem, vamos para a prova do líder!