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Com o punho em riste e a cabeça erguida

A novela do “mensalão” chega nos seus momentos finais. A grande imprensa, representante dos setores mais reacionários do país, direciona seus holofotes para a prisão dos réus condenados no julgamento da Ação Penal 470 – mesmo aqueles que ainda têm recursos a serem analisados pela corte.

Como toda boa novela que se prese (pelo menos a julgar pelos roteiros dos nossos noveleiros), o capítulo final é reservado para o castigo dos vilões e a felicidade eterna dos mocinhos. Assim, para fechar com chave de ouro essa novela do “maior escândalo de corrupção da história do país”, nada melhor que aquela cena com os bandidos indo para a cadeia. E a “cereja do bolo” seria, certamente, a prisão dos “chefes da quadrilha”: Zé Dirceu e José Genoíno.

A ficção, que tomou conta de tantos corações e mentes – inclusive daqueles que deveriam julgar com imparcialidade, à luz da razão –, no entanto, foi frustrada pela realidade. Faltou combinar com os russos. Ou melhor, com os petistas. Se alguém esperava que Dirceu ou Genoíno, ao se apresentarem à polícia, escondessem suas faces de vergonha, certamente ficou desconcertado com a altivez dos antigos líderes do PT. Com o punho em riste e a cabeça erguida: foi assim que eles chegaram à Polícia Federal.

Com o punho em riste e a cabeça erguida

Com o punho em riste e a cabeça erguida

Melhor que ninguém, sabem eles que são vítimas de uma injustiça: de um julgamento de exceção, cheio de “inovações jurídicas” que afrotam o Estado Democrático de Direito, com o veredicto pronto desde o início. Um julgamento político, no qual o grande “crime” cometido por boa parte dos réus foi o de pertencer a um partido que colocou em prática um novo projeto de país – um projeto para além do modelo tão estimado pelas nossas elites: o da divisão entre casa-grande e senzala. Melhor que ninguém, os dois conhecerão o grau dessa injustiça, uma vez que serão privados de sua liberdade. Melhor que ninguém, portanto, Dirceu e Genoíno sabem que não têm do que se envergonhar.

Vergonha devem começar a sentir alguns que até agora andavam tão imponentes em suas togas. Quando se derem conta do papel a que se prestaram, violando princípios constitucionais apenas para saciar a “sede de justiça” da opinião publicada, como lacaios obedientes da nossa “elite branca”, provavelmente vão usar suas capas para ocultar o rosto. (Certamente não é o caso do Ministro Levandowski, que apesar das pressões externas manteve-se intransigente na defesa dos princípios do Estado de Direito.)

O fato é que se a novela – ou seria a farsa? – encontra seu desfecho na prisão dos “réus do mensalão”, o final feliz dos mocinhos – entenda-se coxinhas – deve durar pouco. A verdade principia a aparecer. A altivez e a coragem de Dirceu e Genoíno deixam pouca margem para manipulação. Ainda que alguém possa identificar esse gesto como uma demonstração de falta de vergonha de “bandidos imorais” – e não deve faltar nos nossos jornais “colunistas” que o farão –, muitos vão entender a mensagem que há por trás do simbolismo dessa atitude. Muitos vão entender o conflito em meio do qual estamos. Muitos vão entender que é preciso tomar uma posição. Muitos vão perceber a injustiça que está sendo cometida. Muitos vão compreender que uma batalha chega ao fim, mas a luta continua! E, nessa luta, estou com Dirceu e Genoíno – com o punho em riste e a cabeça erguida.

A farsa termina, mas a luta continua!

A farsa termina, mas a luta continua!

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A corrupção aos olhos míopes da classe média

Na próxima quarta-feira será proferido o aguardado voto do ministro Celso de Mello sobre a aceitação ou não dos embargos infringentes, para os réus condenados com quatro votos contrários, no julgamento da Ação Penal 470 — mais conhecido como julgamento do “mensalão”. Se mantiver a posição assumida anteriormente, o ministro deverá se posicionar favoravelmente aos embargos e, desse modo, viabilizar um novo julgamento dessas condenações. Por outro lado, diante dos holofotes que esse processo vem recebendo da opinião publicada — e dos setores que se deixam influenciar pelos veículos da grande mídia — , não seria de surpreender que o ministro revisse sua posição a fim de atender o clamor por rapidez e severidade no julgamento — que parece já ter influenciado outros de seus pares, em especial o presidente do STF, Joaquim Barbosa.

Para além da discussão sobre o caráter político do julgamento — o qual, sem sombra de dúvida, assume esse caráter — , eu gostaria de entender como uma versão abertamente tendenciosa, segundo a qual estaríamos diante do “maior e mais complexo escândalo de corrupção” da história do país, consegue assumir o estatuto de verdade para alguns grupos. 

Nesse sentido, me parece que olhar objetivamente para os fatos contribui muito pouco para entender esse fenômeno.Ora, somente o fato de um processo semelhante, o do “mensalão mineiro” (do PSDB), ter sido desmembrado com o envio do julgamento dos réus sem foro privilegiado para instâncias inferiores, enquanto o mesmo não ocorreu no caso do “mensalão do PT”, parece demonstrar exemplarmente a existência de dois pesos e duas medidas.

Desse modo, o que resta para entender como a tal versão do “maior escândalo de corrupção da história” pode ter credibilidade é tentar compreender a cabeça dos indivíduos que conseguem “comprar” essa narrativa como a verdade pura e simples. Resta, portanto, tentar entender o que há na cabeça do cidadão da classe média tradicional. E o que se vê, fazendo essa análise, é uma visão de mundo estreita e centrada no universo privado.

Estreita justamente porque não consegue olhar objetivamente para fatos semelhantes e o tratamento diverso que recebem por parte daqueles que se arrogam o direito de “formar opinião”. Fosse capaz de buscar outras fontes de informação para além dos meios tradicionais da grande mídia, seria fácil notar as “incoerências jurídicas” que apontam claramente para o caráter político do julgamento do “mensalão”.

Mas, na verdade, não há disposição para encarar a realidade objetivamente. Ao contrário, há um desejo de moldá-la a partir de certos axiomas, de certos pressupostos, os quais informam sua visão de mundo — uma visão de mundo centrada no universo privado.

Essa visão de mundo tende a considerar tudo como decorrência do interesse privado e da vontade do indivíduo. A partir desse ponto de vista, a corrupção só consegue ser vista como prática prejudicial na medida em que se constitui em roubo do dinheiro dos impostos que eu pago. Ou seja, se não pagasse impostos, provavelmente esse indivíduo pouco se importaria com qualquer corrupção, se esta não lhe causasse prejuízo.

Assim, o grande pecado do corrupto — o corruptor quase nunca aparece nessa representação classe-mediana — é o de se apropriar indevidamente do meu dinheiro. Não interessa se alguém tentou corromper o agente público com uma expectativa de obter vantagens indevidas. Pelo contrário, a obtenção de tais vantagens seria até mesmo perdoável, encarada como um recurso para sobreviver à “inelutável” concorrência do mercado.

Nem é preciso dizer que essa visão estreita é o que justamente potencializa o sentimento de aversão à política, vista como mera atividade parasitária. Em que pesem os desvios e os desmandos de vários elementos da classe política, toda ação que tem lugar no espaço público e não visa ao interesse próprio é vista com maus olhos e com desconfiança — pelo menos num primeiro momento. Isso explica por que a grande mídia e setores tradicionais da sociedade levaram tanto tempo para “entender” o que estava ocorrendo nas manifestações de junho. Explica a perplexidade diante de protestos que, para esses observadores, pareciam fazer muito barulho por tão pouco — “apenas R$ 0,20“. Fica claro como a indignação daqueles jovens não podia ser compreendida a partir da gramática da classe média voltada para o seu universo privado (na época ouvi muitos comentários do tipo “muitos dos manifestantes nem usam ônibus, não sei por que estão protestando”).

E essa aversão à política não permite a esse grupo perceber que um dos grandes males que está por trás do “fantasma” da corrupção é justamente a deficiência dos mecanismos de representação política. É esse “analfabetismo político” que os impede de perceber que o atual sistema de representação permite que o poder econômico “alugue” o poder político, fazendo com que este atue alheio aos interesses da maioria da sociedade. Em suma, não os permite perceber que de nada adianta ficar repetindo chavões moralistas contra a corrupção no país, como se isso os fizesse mais puros ou mais dignos — antes, seria mais produtivo informar-se melhor e lutar por uma reforma política que corrigisse as distorções do sistema que favorecem a instalação da corrupção nas instituições públicas. Mas, sem dúvida, é muito mais cômodo arranjar um vilão de ocasião — papel que coube a Zé Dirceu no julgamento do “mensalão” — , culpar-lhe por todos os males do país, ir tocando sua vidinha, e depois ainda dormir com a consciência tranquila.

A coroação de uma aberração

Hoje chegou ao fim o julgamento da Ação Penal 470, mais conhecido por essas bandas como julgamento do “mensalão”. Não bastassem todas as inovações jurídicas, esse julgamento marcado por tanta heterodoxia – a maior delas, sem dúvida, o abandono da presunção de inocência na falta de provas factuais ou periciais contundentes – não poderia ter terminado sem mais uma polêmica. A maioria dos juízes do STF entendeu que a Suprema Corte tem prerrogativa para cassar o mandato parlamentar dos réus com foro privilegiado condenados no julgamento.

Tal decisão promete causar grande tumulto entre os poderes da República. O presidente da Câmara dos Deputados, Marco Maia, já prometeu se opor a essa decisão, sustentando o entendimento de que a cassação é uma prerrogativa da casa parlamentar em que o réu condenado exerce o mandato. Tal entendimento se baseia no Artigo 55 da Constituição Federal.

Não sou advogado, tampouco especialista em Direito Constitucional. De todo modo, ao tratar de leis me parece que sempre convém ter em conta a intenção do legislador. Como lembra Paulo Moreira Leite em uma série de artigos que tratam sobre este assunto, a Assembleia Constituinte que promulgou a Constituição de 1988 incluiu o artigo 55 como um mecanismo para evitar que um mandato adquirido pelo voto popular pudesse ser cassado arbitrariamente, como era possível ocorrer nos tempos em que a Ditadura podia nomear e destituir quem quisesse. O que está em pauta não é simplesmente a incômoda situação de sujeitos condenados pela justiça estarem ocupando uma cadeira parlamentar — e nesse ponto eu compartilho o incômodo de muita gente. O que está em questão é o fato de um representante do povo — e não um simples sujeito — deixar de representá-lo por força de uma outra vontade que não a do próprio povo, encarnado nos demais representantes que compõem o Parlamento.

Além disso, a divisão entre os poderes é um dos princípios das democracias modernas. Tal divisão visa a manter um equilíbrio entre as diferentes esferas de poder, evitando que uma delas adquira tamanha influência que lhe permita agir tiranicamente. Esse sistema de freios e contrapesos é a garantia da liberdade dos cidadãos e da democracia, constituindo-se num dos pilares do Estado Democrático de Direito. E é justamente esse princípio que se vê ameaçado diante de mais uma decisão inédita do STF.

Com efeito, foram tantas decisões inéditas no julgamento da AP 470 que é difícil evitar a sensação de se estar diante de um julgamento de exceção. O discurso que defende todo esse voluntarismo do STF em punir os “poderosos” certamente não vê nada de errado com essa invasão de competências promovida pela Suprema Corte. Ao contrário, é pródigo em elogios ao desempenho dos magistrados, tão empenhados em “mudar a imagem” da justiça em nosso país. Pela primeira vez, dizem, a corrupção está sendo punida com severidade.

Essa versão dos fatos encontra grande eco na sociedade, seja pela potência dos órgãos da imprensa tradicional, seja pelo analfabetismo político de grande parcela da população. Dias atrás, ouvi o âncora de uma rádio de notícias atacar com veemência a postura do deputado Marco Maia. O tal âncora perguntava indignado quem o deputado achava que era para se recusar a cumprir uma “ordem” do Supremo. Se esse jornalista tivesse um mínimo de cultura política, saberia que o deputado não assumiu tal posição como um ato de rebeldia contra um poder da República. Pelo contrário, Marco Maia assumiu tal postura para defender um dos poderes da República, na condição de presidente e, portanto, representante da Câmara dos Deputados, eleito pelo voto popular. Mas a falácia, a fanfarronice e o discurso fácil sobre a “maldita política” certamente são mais fáceis.

De fato, esse é o grande mal de que padecemos: o nosso cinismo político. É muito mais fácil acreditarmos que todos os políticos são um bando de vagabundos e que nós não temos nada a ver com isso. Ou melhor, que nós somos apenas roubados, já que apenas pagamos impostos. É muito mais confortável esquecermos que vivemos numa sociedade, cheia de conflitos, que precisa de regras para ordenar nosso convívio. Mais tranquilo ainda é acharmos que essas regras caíram do céu ou saíram sei lá de onde, ignorando que elas são fruto de um processo histórico de disputas do qual, direta ou indiretamente, fazemos parte. É muito melhor para a consciência pensar que nossa ação no mundo se restringe ao nosso ganha pão, e que tudo o mais de ruim, do aquecimento global à política, é culpa dos outros.

Toda essa digressão para chegar ao seguinte ponto: o que aconteceu hoje no STF é algo da maior gravidade, que ofende cada um dos cidadãos brasileiros. E esse fato parece passar despercebido. Esse fato parece ser aceito com a maior naturalidade, em que pese a afronta à Constituição. Muita gente, pelo contrário, aplaude de pé a coroação de uma aberração. Alguns, porque sabem muito bem da vitória política que ela significa para o seu grupo. Outros, sem entender bem o que se passa, imitam os grandes e importantes “formadores de opinião”. Menos desalentador é que algumas vozes contrárias se levantam, percebendo a grave ameaça à democracia e às liberdades individuais. E a essas vozes contrárias eu me junto. Não podemos deixar que a exceção se torne regra neste país novamente.

O “mensalão” e a “prostituição conjugal”

Desde o início do julgamento da Ação Penal 470, mais conhecido como “julgamento do mensalão”, poucas vozes dissonantes se levantaram em meio ao coro da grande imprensa, a pedir a sumária condenação dos réus envolvidos no processo. Uma dessas vozes, atestando um resquício de lucidez no jornalismo brasileiro, é a de Paulo Moreira Leite, colunista da revista Época. De fato, os artigos da coluna de Moreira Leite contribuem para um debate equilibrado acerca do referido julgamento, levantando questionamentos muitas vezes ignorados pela corrente hegemônica da grande imprensa brasileira.

Um dos questionamentos levantados pelo colunista diz respeito à “flexibilização” adotada pela maioria dos ministros do STF para formar seu juízo condenatório, dispensando, em alguns casos, a existência de provas materiais — e condenando com base nas provas testemunhais e numa determinada interpretação desses testemunhos.

Pois bem. A questão que emerge desse procedimento heterodoxo diz respeito à possibilidade de se imputar à transferência de recursos de um partido a outro (dando nome aos bois, do PT aos demais partidos da base aliada) a intenção de “comprar consciências” dos parlamentares do partido beneficiário dos repasses de dinheiro. Não fosse essa “flexibilização” da formação do juízo, seria impossível comprovar a “compra de consciências” e, portanto, a existência do “mensalão” — este entendido como um esquema institucional para a compra de apoio na Câmara dos Deputados (um esquema, diga-se de passagem, pouco inteligente pois restrito apenas a uma das casas do Legislativo). Isso porque, evidentemente, o partido beneficiário, ao estar incorrendo numa prática ilegal, jamais passaria um recibo atestando ter recebido tal quantia com a finalidade de prestar tal serviço (no caso, votar junto com o governo). Não havendo o recibo não há prova material e, portanto, não seria possível condenar os envolvidos num eventual esquema. Essa parece ser a interpretação adotada pelos magistrados, a fim de justificar a tal “flexibilização”.

Isso seria ótimo se, de antemão, se tivesse a convicção de que tal esquema de fato ocorreu. O problema é que o contraditório, expresso na defesa dos réus no processo, aponta no sentido da inexistência de um esquema de compra de apoio político. A defesa, em alguns casos, até admite a conduta desviante dos réus, mas pela formação do “caixa dois” de campanha eleitoral. Ou seja, a transferência de recursos entre os partidos teria como finalidade a quitação de dívidas antigas e a arrecadação de recursos para as campanhas partidárias em 2004 — e não a “compra de consciências”.

A dificuldade toda desse aspecto — se houve ou não um esquema de compra de apoio político — reside no fato de como provar a existência de um tal esquema sem provas materiais.

No caso de se admitir a existência do esquema, isso só é possível se tal juízo já estiver formado a priori. Com efeito, só se pode tomar a questão como incontroversa caso se atribua a certos testemunhos um valor de verdade maior que a de outros. E isso só pode ser feito se houver uma convicção formada de antemão. Qualquer julgamento, nessas condições, não deixa de ser meramente tautológico.

Já no caso de se tomar a questão como controversa, não será possível recorrer a uma prova qualitativamente mais contundente que os diversos testemunhos, atribuindo maior veracidade a alguns deles. Nesse caso, a comprovação da existência de um procedimento sistemático de compra de apoio político estaria irremediavelmente prejudicada.

De tudo o que foi dito, é preocupante que os magistrados tenham adotado um posicionamento alinhado à primeira hipótese. Isso porque, como foi dito, um tal juízo só seria possível com uma convicção a priori. A leitura dos votos dos ministros não passa de um mero cumprimento do protocolo.

O problema todo são os malabarismos retóricos empregados para tentar legitimar essa decisão. Acolhe-se a evidência da PGR, que vê correlação entre as datas dos repasses aos partidos e o sucesso das votações nos projetos de lei de interesse do governo; ao mesmo tempo em que evidências semelhantes, mas no sentido contrário (ou seja, de que não há correlação entre os repasses e a adesão dos partidos beneficiados na votação das matérias que interessavam ao governo), são desprezadas.

Para que se possa dispensar a presença de provas materiais, recorre-se ao procedimento de estabelecer um nexo causal entre o fato de partidos aliados terem recebido um certo montante do partido no governo, de um lado; e o fato de, como aliados, terem votado com o governo, de outro lado. A primeira “perna”, ou seja, o repasse de recursos por vias nada ortodoxas parece estar fartamente comprovado. De fato, há os réus que o admitem, mas justificam essa operação tendo como finalidade o “caixa dois” de campanha. E é aí que reside a controvérsia. Os juízes entenderam que não, e ligaram a segunda “perna” — o fato de os partidos da base aliada terem agido como aliados — à primeira, como mero cumprimento de um acordo — praticamente mercantil — de compra e venda de apoio político.

Essa interpretação requer um nível de contorcionismo retórico próximo de quem queira comprovar a existência de uma relação de “prostituição conjugal”. Suponhamos que se queira provar que o marido é culpado por querer comprar os favores sexuais da esposa — e esta, culpada por vendê-los . O marido, nesse caso, seria o corruptor e a esposa, a corrompida (pode-se pensar os papéis invertidos, ou com os cônjuges do mesmo gênero, ou como o leitor achar melhor; o que importa é a existência de um corruptor e um corrompido). Como prová-lo? Com base em indícios, como, por exemplo, a doação de presentes e outros benefícios pelo esposo à sua companheira. Como não há prova material da suposta “prostituição”, recorre-se ao expediente de tentar estabelecer conexões causais entre fatos que guardam relações em virtude do vínculo entre os cônjuges (pois estes costumam se presentear, bem como manter relações sexuais), mas que não se encadeiam tal como uma relação de causa e efeito. Ou seja, não se pode dizer que o marido presenteia a esposa com o simples objetivo de ter acesso aos seus favores sexuais. Esse anseio pode até existir, mas em virtude da relação conjugal estabelecida entre os dois, e não simplesmente em virtude da doação.

Portanto, ao assumir a tese do “mensalão”, isto é, de um esquema sistemático de “compra de consciências”, na ausência de provas materiais, o STF lança as bases para que um dia se prove a existência de uma relação de “prostituição conjugal”.

Veja: a ética da hipocrisia e o espírito da classe média

Ao abrir meus e-mails ontem, deparei-me com uma mensagem cujo remetente era a revista Veja. A princípio, pensei que se tratava de mais uma daquelas ofertas para assinatura da revista, com descontos generosos — o que parece indicar que as vendas não vão lá muito bem. Para minha surpresa, a mensagem trazia a carta ao leitor da revista — muito embora eu não seja leitor de Veja. Sendo assim, da mesma forma que a referida publicação tomou a liberdade de enviar sua carta ao leitor na minha caixa de e-mails, tomo a liberdade de reproduzí-la logo abaixo:

Um norte ético

Coube à imprensa livre revelar que no coração do governo do ex-presidente Lula funcionava uma impressionante máquina montada para desviar dinheiro dos cofres públicos e, com ele, subornar parlamentares e comprar partidos políticos. Coube ao Congresso Nacional esmiuçar em uma CPI os caminhos tortuosos do escândalo que ficou nacionalmente conhecido como mensalão, o maior caso de corrupção política da história recente. À justiça, cabe agora punir os envolvidos. Temia-se que a tradição de impunidade prevalecesse. Na semana passada, porém, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) anunciaram os primeiros veredictos, condenando cinco dos 37 acusados, entre eles o deputado João Paulo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados, o petista Henrique Pizzolato, ex-diretor de marketing do Banco do Brasil, e o empresário Marcos Valério, apontado como o operador do esquema. Suas penas só serão anunciadas no fim do julgamento, mas a decisão dos magistrados já começa a romper um dos mais vexatórios paradigmas da cultura brasileira: o de que prisão não é lugar para os poderosos, principalmente se os poderosos também são políticos. A porta da cadeia enfim foi aberta para eles.

Ao anunciarem seus votos, os ministros surpreenderam os mais incrédulos. Não se limitaram a fundamentá-los tecnicamente. Externaram também uma enfática indignação com a ousadia patrocinada pelos ladrões de dinheiro público. “Agentes públicos que se deixam corromper e particulares que corrompem são corruptos e corruptores, os profanadores da República, os subversivos da ordem institucional, os delinquentes, os marginais da ética do poder, infratores do Erário que trazem consigo a marca da indignidade, que portam o estigma da desonestidade”, disse o ministro Celso de Mello, o decano do STF. Ainda falta muito para saber se a impunidade será inteiramente derrotada, mas as primeiras condenações são exemplares em sua essência e trazem um sentimento de alívio e alma lavada à opinião pública, já que apontam o inédito caminho da prisão para os corruptos poderosos – um feito histórico, que pode fazer o Brasil finalmente reencontrar o rumo da ética e voltar a distinguir o certo do errado.

Como se vê, quem dispõe de um mínimo de senso crítico percebe o caráter abertamente parcial do texto: por um lado, se esmera em acusar e condenar os políticos ligados ao PT, estejam ou não comprovadamente envolvidos na prática de atos ilícitos; e, por outro lado, procura louvar o comportamento da “imprensa livre”, esta a conhecedora do “norte ético”, portadora da bússola que permite à sociedade discernir entre o bem e o mal.

A bem da verdade, o tal “norte ético” está mais para um moralismo cínico, quando não um maniqueísmo infantil. Com efeito, falar de ética implica tratar das razões que fundamentam a conduta do ser humano para a obtenção de uma vida boa, mediante uma ação livre e responsável. Entretanto, a ética do tal “norte ético” restringe-se muito mais a uma série de preconceitos, facilmente identificáveis na carta ao leitor. Como, por exemplo, quando diz que “À justiça, cabe agora punir os envolvidos.” Ou seja, justiça boa é justiça que condena no atacado (melhor ainda se os condenados forem do PT). Ora, essa concepção mostra-se impregnada pelo mais elevado autoritarismo, marca do nosso passado colonial e escravista. Qualquer um que viva num Estado Democrático de Direito — e não num Estado de Exceção — deve convir que à justiça cabe julgar com imparcialidade e isenção.

Mas a referida publicação, que tanto gosta de adjetivos e de fazer sua a “opinião pública” — segundo ela, agora de “alma lavada” — , certamente não resiste à tentação de fazer seu o veredicto da justiça. Por isso, o tom efusivo da carta ao leitor. Tom que só não foi mais festivo porque “ainda falta muito para saber se a impunidade será inteiramente derrotada”. É bem verdade que o texto tenta disfarçar seu autoritarismo, clamando por justiça contra os “poderosos”. Quando  os “poderosos” são “amigos”, porém, a indignação com a impunidade se arrefece. Não por acaso, o mesmo órgão de imprensa que faz tanto alarde para tratar do “escândalo do mensalão” (do PT), silencia quando o assunto em pauta é o “mensalão mineiro” (do PSDB) ou a “privataria tucana”. Curioso, não? O tal “norte ético” parece apontar claramente para a hipocrisia. (A esse respeito, Bob Fernandes escreveu um excelente texto, A farsa e os farsantes.)

De fato, no mundo ideal de Veja, todos os “petralhas” estarão atrás das grades. E é dessa forma que essa revista se identifica tanto com certos ideais de uma determinada parcela da população: a classe média tradicional. Procedendo como Max Weber, podemos perceber as “afinidades eletivas” entre os valores dessa classe média e a linha editorial dessa publicação.

Essa classe média, tão bem descrita por Marilena Chauí (veja o vídeo abaixo), é marcada por um caráter autoritário, hierárquico — e, portanto, antidemocrático — , moralista, que coloca os interesses privados acima do interesse público. Não por acaso essa parcela da população se delicia com qualquer possibilidade de que o ex-presidente Lula esteja envolvido no “escândalo do mensalão”. Afinal, o torneiro mecânico que teve o “atrevimento” de tornar-se presidente da república, mesmo sem ter um diploma universitário, merece ser condenado por essa ousadia. Do mesmo modo, esses “petralhas” que permitiram que 40 milhões de pessoas deixassem a linha de pobreza para “invadir” os aeroportos, até então redutos da “nata” da sociedade, não podem sair impunes. Ou seja, qualquer um que ameace a “ordem estamental de castas”, típica da sociedade colonial, merece ser castigado.

Não quero com tudo isso tentar isentar de culpa quem quer que tenha cometido atos ilícitos, entre os quais desvio de dinheiro público. Mas é preciso, diante desse oba-oba midiático em torno do julgamento do “mensalão”, adotar uma postura crítica frente a essa tentativa de promover uma condenação sumária, motivada claramente por interesses políticos. Afinal, o julgamento — absolver ou condenar — cabe aos juízes, constituídos para tal.

De todo modo, essa carta ao leitor mostra claramente a parcialidade da imprensa, bem como os valores sociais que amparam essa postura. Pois o jornalismo ruim é um sintoma de uma sociedade com problemas a resolver. E a julgar pela má qualidade da nossa imprensa, a sociedade brasileira tem sérios obstáculos a superar, para que um dia seja uma sociedade verdadeiramente democrática.