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Rio+20, ou a nova Babel

Começou nesta semana a Rio+20, Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável. A reunião acontece 20 anos depois da Rio 92, conferência que consagrou a ideia de desenvolvimento sustentável, incluindo a dimensão ambiental no rol das preocupações mundiais.

Embora o tema e o lugar desses grandes eventos sejam os mesmos, a atmosfera que os envolve é bem diferente.

Ao fim da Rio 92 o clima era de otimismo. O encontro rendeu diversos documentos oficiais: as convenções sobre o clima, a desertificação e a biodiversidade; uma declaração sobre as florestas; a Carta da Terra e a Agenda 21. A impressão era de que se tinha chegado a uma síntese entre o anseio de se promover a preservação do planeta, ao mesmo tempo em que se garantiria as condições de desenvolvimento a todas as nações do mundo.

Doce ilusão. Hoje, 20 anos depois, o clima é de ceticismo. A impressão que se tem é de que, se um dia o desenvolvimento sustentável foi capaz de agradar a gregos e troianos, atualmente ele desagrada a ambos. E desagrada pelo mesmo motivo que um dia foi unanimidade: a ideia de sustentabilidade comporta tantos significados quantos se queira atribuir a ela. Ou seja, a falta de clareza acerca da ideia, se um dia permitiu que se construísse um consenso, hoje mostra que esse consenso não passava de falácia.

Todos falam do tripé do desenvolvimento sustentável: a dimensão ambiental, a social e a econômica. Só que esse tripé não sustenta qualquer coisa que se coloque sobre ele. E isso porque os representantes de cada tripé procuram, cada qual, “puxar a brasa pra sua sardinha”. O resultado: todo mundo fica frustrado e contrariado.

“A Confusão das Línguas” por Gustave Doré (1865) — foi em Babel, mas bem que podia ser no Rio.

Os ambientalistas se queixam de que os economistas e políticos não escutam “a Ciência” — como se essa fosse uma força transcendente que representa “a Verdade”, e não uma construção humana. Nesse sentido, os ambientalistas não fazem concessão alguma: ou a humanidade segue aquilo que eles, representantes da “verdadeira ciência”, dizem, ou o planeta está fadado à completa destruição. Quem não concorda com o credo ambientalista é, desde já, um exterminador do futuro (pena que nem todos os seres humanos tenham futuro, já que alguns nem presente têm).

Os economistas, por sua vez, não admitem que sejam questionadas a economia de mercado e, principalmente, a “vaca sagrada” do crescimento econômico. Para estes, discussões políticas e ambientais parecem mera perda de tempo. Desde que se precifique adequadamente o custo de poluir e destruir o meio ambiente, o mercado pode resolver todos os problemas ambientais. Ademais, o paraíso do desenvolvimento está garantido para todos as nações que perseguirem o crescimento econômico — sem que esse comprometa a austeridade fiscal, evidentemente.

Os políticos, por fim, se veem enredados na teia de interesses que estes representam — ou seja, os interesses do capital. A situação de crise econômica mundial coloca a política de joelhos diante das exigências e da intransigência dos agentes econômicos poderosos. Pouca é a expressão que os movimentos populares conseguem ter dentro da política representativa. A preocupação com o meio ambiente é muito mais um jogo de cena para não desagradar demais os já descrentes eleitores. E o mesmo se dá com o “desenvolvimento social”: mero reformismo para diminuir a miséria, quando esta não compromete as metas de austeridade fiscal, isto é, os interesses dos capitalistas.

E é nesse cenário que ocorre a Rio+20. Tal qual na Torre de Babel — empreendimento humano que desafiava o poder divino — , os homens estão imersos em confusão e não se entendem (até o momento os negociadores não conseguiram chegar a um texto para a Rio+20). O destino do desenvolvimento sustentável parece não ser muito melhor que o da torre.

Enquanto isso, a questão permanece em aberto:

Desenvolvimento sustentável: conservador ou revolucionário?

Sacolas reutilizáveis e gente descartável

Hoje, 25 de janeiro de 2012, data em que se comemora o aniversário da capital paulista, as redes de supermercado deixaram de fornecer gratuitamente as sacolinhas de plástico para seus clientes. A iniciativa, apoiada pelo governo do estado, visa a promover a sustentabilidade, segundo seus idealizadores.

Mas a truculenta desocupação do Pinheirinho, que começou no domingo passado, foi algo tão bárbaro que não consigo deixar de pensar nesse triste acontecimento. Tanto que consegui estabelecer uma relação entre o massacre do Pinheirinho e a aposentadoria das sacolinhas plásticas. Se estou delirando, vocês dirão.

Sacolas reutilizáveis

Em que pese o fato de que os plásticos causam um impacto considerável sobre o meio ambiente — ainda mais em suas versões não-biodegradáveis — , não me parece que deixar as sacolinhas de lado será uma solução para “salvar o planeta”.

Primeiro, porque a ideia de “salvar o planeta” é uma balela. É um pouco pretensioso achar que a humanidade seria capaz de destruir um planeta de 4,5 bilhões de anos e todas as suas formas de vida, que já passaram por alguns grandes cataclismas ao longo de sua história. O que podemos almejar, no entanto, é prolongar a existência da espécie humana na Terra. Nesse sentido, a adoção de sacolas retornáveis ou reutilizáveis certamente tem sua relevância para reduzir o impacto ambiental causado pelas nossas atividades cotidianas.

Agora, não podemos nos iludir achando que a aposentadoria das sacolinhas plásticas é a panaceia que garantirá o futuro das próximas gerações. O modo de produção capitalista, no qual vivemos, demanda um perpétuo crescimento econômico, o que não é compatível com um planeta de recursos finitos.

Mas, aparentemente, o senso comum da classe média acolhe com um otimismo exagerado essas iniciativas “homeopáticas” (me perdoem os adeptos da homeopatia) em prol do meio ambiente: adoção de papel reciclado, redução da emissão de comprovantes em papel pelos bancos, abandono das sacolinhas plásticas, etc. E nem se dá conta do caráter controverso dessas medidas.

Tomando o caso das sacolinhas plásticas como exemplo, a cobrança pelo uso destas, no fim das contas, apenas penaliza o cliente que não dispõe de um automóvel para fazer as compras: quem tem carro pode colocar as compras numa caixa e levar embora; quem não tem, deve achar um meio de acomodar tudo numa sacola, bolsa ou mochila, e depois fazer seu malabarismo no transporte público. Ou seja, é uma medida que acaba estimulando ainda mais o uso do transporte individual motorizado, causa de grandes problemas de circulação urbana e de poluição atmosférica.

No entanto essas iniciativas “ecológicas” de efetividade questionável apresentam uma virtude ímpar. São capazes de aplacar a consciência do “cidadão de bem”, de expiar um sentimento de culpa. O ambientalismo de ecobag, como diz Zizek, apresenta-se como uma forma de consumo da culpa, nas palavras de Isleide Fontenelle. O resultado disso é que o consumismo, postura que exige sempre mais de um planeta finito, se vê liberto da culpa que lhe é inerente, já que agora ele se traveste de “consumo responsável”.

Desse modo, ao deixar a sacolinha plástica de lado, o “cidadão de bem” também se livra da culpa por consumir. Assim, pode continuar consumindo à vontade, sem ter o peso na consciência de que está penalizando o meio ambiente e, ao mesmo tempo, acreditando que está contribuindo para o futuro das próximas gerações. Ledo engano.

Gente descartável

Quando se pensa que não pode haver nada mais terrível que a ação truculenta PM e a insensibilidade do governo tucano (municipal e estadual) e do judiciário estadual diante do drama das famílias despejadas — insensibilidade que poderia ser chamada de “ação entre amigos” — , eis que nos deparamos com as manifestações de apoio à reintegração de posse e contra a população massacrada do Pinheirinho.

Uma amostra das manifestações a que me refiro pode ser encontrada no ótimo Tumblr Classe Média Sofre. O que é comum nessas manifestações da “classe média sofredora”, ou desses “cidadãos de bem” arquetípicos, é: a completa desconsideração do contexto social em detrimento dos interesses próprios (diga-se de passagem, interesses da maior relevância — atenção, estou sendo irônico); a defesa do cumprimento da lei pela lei; a criminalização da pobreza; e, como não poderia deixar de ser, a invocação dos tão batidos bordões “eu pago impostos”, “não sustento vagabundo”, “trabalhei para ter tudo o que é meu”, e outras afirmações que mostram uma capacidade de observar a realidade que não vai além do próprio umbigo.

Pois bem. O corolário dessa visão de mundo da “classe média sofredora” é que tratar aquela gente realmente sofrida do Pinheirinho como lixo não abala a consciência desses “cidadãos de bem”. Afinal, para eles, trata-se de “gente descartável”: um simples ônus para os “bons pagadores de impostos”.

E essa concepção de “gente descartável” é algo da maior gravidade. Não fosse essa distorção moral da realidade as grandes barbaridades da história da humanidade, do Holocausto nazista ao genocídio de Ruanda, jamais poderiam ter ocorrido. Não fosse a “naturalização” de uma condição sub-humana, seria inconcebível promover o extermínio ou o deslocamento em massa de seres humanos.

Concluindo…

Ao comparar esses dois fenômenos, a preocupação com o uso de sacolas reutilizáveis e o completo descaso com a “gente descartável”, salta aos olhos um gigantesco paradoxo: por um lado, procura-se deixar de lado as sacolinhas plásticas, a fim de preservar o meio ambiente e, no fim das contas, garantir o futuro das próximas gerações; por outro lado, a gente pobre do Pinheirinho (e de muitas outras favelas, ocupações, acampamentos pelo Brasil e pelo mundo) é tratada como lixo, despejada no meio da rua, entregue a própria sorte, tendo não apenas o futuro mas o próprio presente negado — nesse caso, ninguém se preocupa com o futuro dos filhos do Pinheirinho.

Concluindo, acho que é impossível falar de consciência ambiental sem que se tenha um mínimo de sensibilidade social primeiro. Afinal, qual a finalidade de querermos prolongar a existência humana sobre a face da Terra, se não para que nossos descendentes possam viver num mundo mais justo? Se é para que as injustiças se perpetuem, é melhor que um meteoro nos atinja em cheio e acabe com tudo!

A miséria do espetáculo e o espetáculo da miséria

Mais um ano começa, cheio de velhas notícias.

Pra variar, chuvas torrenciais e as tragédias decorrentes: inundações, cidades devastadas, perdas materiais, mortos e feridos.

Pra fugir um pouco da rotina, o poder público se manifestando para os mais pobres na forma do arbítrio e da violência, como na remoção dos dependentes químicos da cracolândia, no centro de São Paulo.

Mas não é apenas o conteúdo dessas notícias que é recorrente. Elas também são apresentadas numa forma que tem se tornado predominante: a da espetacularização da miséria.

Não sei o que me deixa mais indignado quando vejo essas reportagens sobre as tragédias provocadas pela chuva: se a própria tragédia, que expõe os moradores das regiões atingidas aos dramas da miséria humana — a perda de bens adquiridos com sacrifício, do lar, de entes queridos — ; ou se a atuação de alguns repórteres, que não desistem de sua entrevista (eufemismo para tortura psicológica) até obter uma lágrima dos olhos do entrevistado, a revelar a miserável condição em que este se encontra depois de perder praticamente tudo o que tinha. Toda essa carga emotiva talvez renda alguns pontos a mais de audiência ao telejornal, já que os telespectadores, membros da sociedade do espetáculo, estão ávidos por consumir alguma emoção fornecida pelo espetáculo da miséria.

E essa mesma situação mostra toda a miséria do espetáculo. Pois problemas extremamente sérios, que nos afligem todo ano, e mesmo cotidianamente, são abordados com uma simplicidade quase leviana. Também, o que esperar do noticiário fast food? Difícil seria ele apresentar um teor informacional elevado, quando sua intenção nada mais é do que entreter o cidadão de bem. E, porque não, “formar opinião”: uma verdadeira produção em série de argumentos e visões de mundo estereotipados.

Miséria de uns, espetáculo de outros. Foto: Reinaldo Marques/Terra

Vejamos, por exemplo, a desocupação da cracolândia. Os grandes veículos de comunicação, de maneira geral, têm louvado as ações do governo do estado e da prefeitura, uma vez que elas contribuiriam para a revitalização daquela região central na cidade de São Paulo. A violência empregada para atingir tal objetivo, bem como a ineficácia desse procedimento policialesco, no entanto, não entram na pauta. Afinal, o Estado está protegendo o “cidadão de bem” dos “maus elementos”. E basta essa narrativa maniqueísta meia-boca para justificar as violações contra os direitos humanos e os excessos cometidos nessas ações. O grande público, acostumado ao espetáculo hollywoodiano, logo encontra seus mocinhos e bandidos e, assim, “forma sua opinião”, ficando do “lado do bem”. Questões centrais como o interesse na valorização imobiliária daquela região, não são abordadas nem tangencialmente.

Do mesmo modo, quando se trata das tragédias causadas pela chuva, logo se vai em busca de um culpado: a falta de planejamento, governos corruptos, maracutaias políticas, e por aí vai. Se o culpado tiver nome e sobrenome, melhor ainda — que o diga o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, ao que tudo indica, eleito pela imprensa como o bode expiatório da catástrofe. Tão logo um culpado apareça e, de preferência, seja punido, o apetite da massa faminta por um espetáculo será saciado.

E a massa de espectadores nem se dará conta de que os problemas noticiados nem passaram perto da solução. Ou algum grande veículo midiático ousou associar a expansão desordenada das cidades à ganância desmedida dos especuladores imobiliários, que levou à ocupação de áreas de risco como as encostas e várzeas dos rios?

Aposto que se algum governante, convencido de que a causa das catástrofes pluviais é a falta de planejamento, resolvesse “planificar” a expansão imobiliária logo seria taxado de ditador. Afinal, para que o espetáculo agrade às multidões, é preciso que o enredo não seja muito complexo. Se tiver um mocinho, vá lá, o público sempre aprecia um bom moço. Mas o que não pode faltar mesmo é um vilão, para quem a fúria da multidão possa ser direcionada.

Belo Monte: entre o progresso inexorável e a natureza intocável

E a polêmica sobre a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte ganhou um novo capítulo.

Em resposta à campanha veiculada pelo movimento Gota D’água, alunos de Engenharia Civil da Unicamp gravaram um vídeo no qual apresentam argumentos favoráveis à construção da hidrelétrica. Esses alunos batizaram sua iniciativa pró-Belo Monte de Tempestade em Copo D’água.

Sem dúvida, a apresentação de argumentos a favor da usina favorece o enriquecimento do debate, permitindo que as razões pró e contra a construção de Belo Monte sejam ponderadas.

No entanto, na minha opinião, a discussão continua num nível bastante superficial. Continuo achando que questões mais profundas deixaram de ser consideradas.

Enquanto isso, ambos os lados se fiam em verdadeiros mitos para fundamentar seus argumentos: por um lado, por parte dos contrários à usina de Belo Monte, toma-se como base a intocabilidade da natureza; por outro lado, aqueles que se mostram favoráveis ao empreendimento adotam como fundamento a inexorabilidade do progresso.

Partindo de premissas tão distintas, parece pouco provável que seja possível chegar a um consenso — e é isso que eu quero tentar demonstrar nos parágrafos a seguir. Depois, tentarei esboçar uma proposta para desfazer esse nó górdio.

A inexorabilidade do progresso

Boaventura de Sousa Santos, em Um discurso sobre as ciências, identifica naquilo que chama de paradigma dominante a racionalidade que orientou o desenvolvimento da ciência moderna, desde a revolução científica do século XVI. Essa racionalidade, típica das ciências naturais, seria marcada pela capacidade de se isolar o objeto do sujeito, bem como de inferir leis universais a partir da observação metódica e quantitativa dos fenômenos que presidem o comportamento desse objeto.

A partir dessa racionalidade, pode-se estabelecer um corte entre o ser humano (sujeito) e a natureza (objeto). Ainda, dada a capacidade de se inferir leis universais, o homem adquire um progressivo domínio sobre o mundo natural. Decorre daí todo o otimismo depositado na ciência: quanto maior o desenvolvimento das ciências, maior será o controle da humanidade sobre a natureza e, portanto, sobre as contingências que nos atormentam. O progresso, desse modo, é algo de que não se pode fugir: o progresso é inexorável.

Mas o próprio desenvolvimento das ciências provocou as primeiras fissuras nesse paradigma dominante, ao levantar dúvidas sobre sua validade. Experimentos na área da Física, por exemplo, se deparam com o problema da interferência do observador sobre o objeto, pelo simples fato de tentar realizar uma medição (não vou entrar em detalhes por total incompetência para tratar de Física). Nesse sentido, é sintomático o surgimento de novas teorias epistemológicas, como a de Karl Popper, baseada na falseabilidade. Essas fissuras apontam, segundo Boaventura, para o surgimento de um novo paradigma: o paradigma emergente.

Entretanto, o paradigma dominante, como diz o próprio nome, continua sendo detentor de maior prestígio. Não por acaso os argumentos de que o Brasil não tem outra alternativa senão construir Belo Monte têm tanto apelo. O país precisa de energia para crescer: para atender a demanda de 40 milhões de novos consumidores, incluídos na nova classe média; para abastecer o crescimento industrial e infraestrutural correspondente; enfim, para alimentar o progresso para o qual o país está destinado.

Esse discurso tem sido não raro identificado com o nacional-desenvolvimentismo, que encontrou sua máxima expressão durante o governo de JK com seu Plano de Metas (dos 50 anos em 5) e, em alguma medida, durante a modernização conservadora promovida pela Ditadura Militar. Tentei demonstrar que as raízes desse discurso são ainda mais profundas. Mais do que uma conquista nacional, o projeto da hidrelétrica, para seus defensores, representa mais um passo do homem no processo de subjugação da natureza. Desse modo, Belo Monte é uma expressão do inescapável progresso da ciência.

Pra essa turma, o copo está meio vazio. Aliás, bem vazio…

A intocabilidade da natureza

Além das fissuras epistemológicas do paradigma dominante, eventos perceptíveis  pela evidência empírica também colocaram em dúvida o otimismo na ciência que caracteriza esse paradigma. A poluição ambiental, potencializada pela atividade industrial em larga escala, levou ao surgimento do movimento ambientalista moderno, nos países centrais do capitalismo, nos anos 1960.

A ideia de um progresso necessário como subproduto do desenvolvimento da ciência foi colocada em xeque. De fato, nos anos 1970, prognósticos catastróficos sobre o futuro da humanidade foram projetados. O exemplo mais contundente foi o estudo Os limites do crescimento, promovido pelo Clube de Roma. Segundo o estudo, dados os padrões de consumo vigentes na época, em poucas décadas não haveria recursos suficientes para satisfazer as necessidades da humanidade. Embora tenha se mostrado equivocado, o estudo do Clube de Roma teve uma imensa repercussão.

De modo que, numa posição diametralmente oposta ao otimismo científico surgiu uma postura pessimista em relação à modernidade. Uma postura que abandonou o domínio sobre a natureza como meta a ser atingida. Pelo contrário, o ser humano deveria agora submeter-se à natureza. Pois ela sim, a natureza, seria portadora de uma sabedoria capaz de promover uma convivência harmoniosa entre as formas de vida que a constituem.

Essa crítica da modernidade, portanto, tratou de criar uma imagem edênica de natureza e de colocá-la como o sumo bem a ser conquistado. O homem deixou de estar no centro do universo, local que passou a ocupar desde a revolução científica do século XVI. Esse lugar, desse modo, passou a ser ocupado por uma idealização da natureza, a qual deveria ser preservada a todo o custo — inclusive com uma eventual extinção humana, para os mais radicais deep ecologists.

Pra essa turma, o copo está meio cheio. Aliás, bem cheio…

A natureza do progresso no progresso da natureza

Diante de tudo o que foi dito, a meu ver, o debate sobre Belo Monte não avança porque as opiniões estão polarizadas em torno de posições mutuamente irredutíveis. Por um lado, existem aqueles que têm como dado e acabado que o progresso — na forma de maior gasto de energia per capita — é inevitável. Por outro, existem aqueles que decretaram a intocabilidade da natureza, sendo a Amazônia uma espécie de paraíso perdido no meio da Terra.

Tomar partido de uma ou outra posição me parece querer opinar sobre uma disputa religiosa.

Como sair desse impasse então?

O primeiro passo é, a meu ver, evitar as suposições a priori. Que tal se nós pensarmos que o progresso não é inexorável, tampouco a natureza é intocável? Aliás, seria bom termos clareza sobre as nossas ideias de progresso e natureza. De fato, se colocarmos em suspensão nossos pressupostos, poderemos contemplar a natureza do progresso no progresso da natureza.

Sim, pois se tomarmos a natureza não como uma idealização, mas como o resultado de um processo, veremos que nela existe um contínuo progresso — o progresso da natureza, que, ao contrário do progresso da ciência, não é fruto de um juízo de valor, mas de um juízo de fato, que deriva da constatação da contínua mudança. E o motor desse progresso é o processo de seleção natural. Não fosse esse processo, não existiriam senão bactérias nesse planeta (ou nem isso).

Por outro lado, ao nos debruçarmos sobre esse processo, podemos tentar entender algo sobre a natureza do progresso. E vemos que o grande critério de avaliação que até agora guiou o progresso da natureza foi a capacidade de adaptação ao meio — a adaptação é o “bem maior”.

Em decorrência desse processo surge o ser humano, dotado de uma extraordinária capacidade de não apenas se adaptar ao meio, mas de adaptar o meio, dadas as imensas forças produtivas — e destrutivas — que ele consegue colocar em movimento. (Não devemos nos esquecer, contudo, de que o meio também se adapta ao homem.)

Neste ponto, colocam-se as questões: o que deve mover essas forças produtivas? A busca de uma melhoria do bem-estar humano? Ou a manutenção de um determinado estado atingido pela natureza?

Essas questões, em seu cerne, abrigam considerações éticas. Por sua vez, essas considerações encontram seu fundamento num substrato social, do qual emergem os ideais do que seria uma boa vida. Dado o fato de que vivemos numa sociedade complexa, na qual coexistem diversos sistemas de valores e modos de vida, não é possível identificar um sistema ético único que abarque toda essa complexidade. Desse modo, como dar uma resposta a essas questões? A resposta, a meu ver, está na política.

A resposta na política

Depois de todas essas digressões filosóficas, me parece possível concluir que a solução para o impasse entre o progresso inexorável e a natureza intocável está na política. Para ser mais preciso, numa democracia radical (algo próximo ao modelo de democracia deliberativa de Habermas).

E quando digo democracia radical falo de um processo democrático no qual todas as pessoas possam participar igualmente, colocando seus argumentos e questionamentos, até que se possa chegar à decisão mais razoável. Isso seria, a meu ver, o ideal. Mesmo porque tal situação pressupõem a superação de todas as assimetrias características do capitalismo.

Contudo, reconheço que esse processo seria pouco aplicável no contexto atual. Uma solução possível, portanto, seria um plebiscito. Com todas as limitações, essa seria a expressão mais próxima da vontade coletiva. Aliás, além das opções — pró e contra Belo Monte — , o plebiscito poderia apresentar as correspondentes condições para a adoção de cada uma das posições:

– Pró-Belo Monte, tendo a execução de políticas compensatórias para as populações indígenas/ribeirinhas e a instalação de toda infraestrutura urbana necessária como condições para a realização do empreendimento (ou seja, primeiro a garantia do bem-estar social, caso contrário nada de usina).

– Contra-Belo Monte, tendo como condição uma meta de redução do consumo de energia elétrica (comercial ou residencial) em razão diretamente proporcional ao rendimento (faturamento da empresa ou vencimentos do trabalho), de modo que os mais ricos se comprometessem com uma parcela maior da redução do consumo e, por conseguinte, da demanda por energia (isto é, seria preciso reduzir a demanda energética para evitar Belo Monte).

Penso que, diante das limitações que estão colocadas (um sistema capitalista que demanda cada vez mais recursos naturais e uma democracia que representa deficientemente seus cidadãos), essa seria a solução mais plausível. Para um copo nem muito cheio, nem muito vazio, mas pela metade.

Gota d’água: o bom mocismo sem um pingo de vergonha

Hoje fiquei sabendo do tal Projeto Gota d’Água. Um movimento que começou a veicular uma campanha contra a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte. Em que pese a polêmica envolvendo o gigantesco empreendimento, a intenção pareceria boa não fosse um detalhe: uma campanha recheada de “estrelas globais”.

Uma controvérsia chamada Belo Monte

A construção da usina, que envolve o alagamento da volta do Xingu, é assunto cercado de controvérsias. Há aqueles que defendem a urgência da construção de Belo Monte, a fim de manter o ritmo do crescimento pujante da economia brasileira. Por outro lado, há aqueles que questionam a relação custo x benefício do empreendimento, alegando que o impacto social e ambiental do empreendimento não seria compensado por uma usina que, na maior parte do tempo, não operaria no máximo de sua capacidade.

Particularmente, penso que poderia haver outras soluções para o problema energético brasileiro. Não falo somente de outras fontes de energia, como eólica ou solar (proposta que já está, cá entre nós, virando um lugar-comum — só que eu não acredito que se trate de energias “limpas”). Falo também, e principalmente, de não apenas se pensar na expansão da oferta de energia, mas na redução da demanda: tecnologias mais eficientes, redução do consumo, etc.

Até aí, minha opinião parece ir ao encontro daquele discurso que está na ponta da língua das ONGs do segmento “socioambiental”, da classe média que votou na Marina Silva nas últimas eleições, dos atores da campanha Gota d’Água, enfim, de um ambientalismo que desperta em mim uma profunda desconfiança: um “ambientalismo de boutique”.

A gota d’água pra eu perder a paciência com o ambientalismo de boutique

“Ambientalismo de boutique”

Como já nos idos dos anos 1970 apontou André Gorz, em Dois tipos de ecologia, a defesa do meio ambiente, por si só, não diz nada a respeito do que queremos de fato. Afinal, queremos um capitalismo adaptado às restrições ambientais; ou uma mudança profunda na relação do homem com o ambiente, com a sociedade e consigo mesmo?

O movimento ambiental mainstream, no entanto, parece não ter respondido, nem sequer ter se colocado essa pergunta. Coincidência? Falta de atenção? Ou a pergunta não faria o menor sentido?

O problema, a meu ver, é que o movimento ambiental mainstream se tornou um fim em si mesmo. Da mesma forma que — injustamente ou não — muitos sindicatos são acusados de terem se constituído numa burocracia quase autônoma, afastando-se dos “verdadeiros” anseios dos trabalhadores que deveriam defender, o grande movimento ambiental corporificou-se na forma de ONGs.

E, não custa lembrar, esse tipo de organização proliferou durante a era neoliberal, na qual o Estado foi colocado numa posição quase antagônica em relação à sociedade civil: o Estado, “grade demais e ineficiente”, passou a estar sob constante suspeita de malversação e de má gestão dos recursos públicos. Diante da “ineficiência” do Estado, a sociedade civil organizada (ou seria ONGanizada?) teria que, doravante, ocupar o vazio deixado pelo poder estatal.

E, essa lógica, ao que tudo indica, mais do que nunca se faz presente — o Gota d’Água que o diga. O problema dela é que cria-se a ilusão de que por meio das ONGs é possível intervir na realidade (social, ambiental) sem depender da política — nada melhor num mundo em que se tem asco da política –, garantindo uma gestão mais eficiente dos projetos de intervenção. O que é uma ilusão porque as ONGs não vivem de ar e, como qualquer organização, dependem de recursos — e quadros — para manter sua estrutura de funcionamento. E de onde saem esses recursos? Ironicamente, boa parte vem do Estado. Mas as ONGs, como qualquer entidade privada, não têm preconceitos quanto à origem dos recursos: podem vir também da iniciativa privada (inclusive multinacionais), de organismos internacionais, etc. Desse modo, uma nova finalidade — conscientemente ou não — se inscreve na missão institucional das ONGs ambientalistas: além da defesa do meio ambiente, a defesa dos próprios interesses.

Desse modo, e retomando as ideias de Gorz, vemos que o ambientalismo mainstream se tornou uma peça importantíssima no quadro do capitalismo contemporâneo. Isto é, a causa ambiental pode ter se apresentado no início com um certo potencial subversivo, mas hoje está plenamente integrada ao processo de valorização do capital, em sua forma mais sofisticada. Se, por um lado, as ONGs vivem em busca de recursos para financiar suas atividades; por outro, fornecem uma espécie de “legitimidade verde” ao capital, para que este possa agradar aos “consumidores conscientes” — e, assim, garantir a continuidade de suas atividades lucrativas.

Pensando bem, acho que o movimento ambiental mainstream respondeu àquela questão de alguns parágrafos atrás — e escolheu a primeira opção.

Bom mocismo sem vergonha

Voltando ao projeto Gota D’Água, depois de ter exposto todas as razões do meu incômodo com o ambientalismo mainstream, falemos da minha postura crítica em relação a esse movimento específico.

Primeiro, é muito suspeito que artistas da Rede Globo venham querer dar uma lição de consciência ambiental.

Parem e façam o penoso exercício de assistir televisão, por quinze minutos que seja. Vejam se há algum intervalo comercial em que não há propaganda de automóveis — um meio de transporte, como se sabe, muuuuito sustentável. Duvido que não haja um anúncio de carros em quinze minutos. Principalmente se for no horário nobre. Principalmente se for um anúncio de SUV.

Ah, e do que é mesmo que vive a televisão? Publicidade, eu acho.

Segundo, que venham querer falar de política. Ou melhor, engrossar o coro do senso comum: falar mal da política. Não, eles não se metem com essa sujeirada da política.

Só trabalham para um grupo de comunicação que se consolidou sob a égide da Ditadura Militar, contando com apoio do regime e retribuindo sua “simpatia” aos militares.

Apenas são empregados de um conglomerado da mídia que, desavergonhadamente, fez uma edição do debate presidencial das eleições de 1989 com vistas claras a beneficiar um dos candidatos: Fernando Collor de Mello. E que, anos antes, em 1984, havia tentado esconder a realização de um comício da campanha pelas Diretas Já.

Acho que não são necessários mais exemplos da história de probidade da empresa em que esses cidadãos (ou seriam só pagadores de impostos mesmo?) exemplares trabalham.

Por fim, que venham contribuir para essa “alienação verde”.

Ou seja, para esse ambientalismo que esquece de que o ambiente faz parte de uma abrangente realidade. Não se trata apenas de biodiversidade, mas de soberania nacional, modo de produção capitalista, direito dos povos indígenas, conflitos de interesses, etc., etc.

A versão simplista dos fatos apresentada pela campanha faz parecer que a construção de Belo Monte é um ato de pura idiotice — e não resultado de uma série de disputas políticas. Concordo que o processo de tomada de decisões sobre a construção do empreendimento tem se mostrado antidemocrático. Mas a informação parcial e superficial em nada contribui para um debate de qualidade.

Ah, e por falar em indíos e populações ribeirinhas, acho que não adianta muito poupá-los de Belo Monte e entregar seus saberes tradicionais de bandeja para uma certa empresa de cosméticos, cujo dono compôs a chapa de Marina Silva na disputa presidencial — “3ª via” que caiu no gosto da classe média.

Sinceramente, esse movimento foi a gota d’água pra eu perder a paciência com o ambientalismo de boutique…

Há um ano, vegetariano

Há um ano, ou pouco mais do que isso, me propus a seguir uma dieta vegetariana — ovoláctea, para não ser muito radical. Naquela época eu estava num dilema sobre a viabilidade de me tornar vegetariano. Hoje, posso dizer que é difícil, mas possível.

Um prato pode ser saboroso sem carne. Na foto, acelga, grão de bigo e arroz doce vegan. Foto: La blasco

As motivações continuaram as mesmas

As motivações que me levaram a mudar a dieta são basicamente as mesmas. Continuo fazendo isso como uma forma de recusar o paradigma do quanto mais, melhor e, portanto, de valorizar a frugalidade. Não quero dizer que temos que ser pobres para alcançar a felicidade. É um pouco diferente disso. Na verdade, o contrário.

Isso porque, penso eu, existem duas formas de se pensar a riqueza: ou significa ganhar mais dinheiro, ou ter controle sobre suas necessidades. Ou seja, por um lado, o caminho do quanto mais, melhor; de outro, o do isso me basta — termos que André Gorz utiliza na sua crítica da razão econômica.

O problema do primeiro caminho é que vivemos num mundo em que nada é suficiente. É sempre preciso mais. Estar satisfeito com alguma coisa pode parecer obsceno. Um celular, por exemplo. Ter um aparelho antigo, que serve perfeitamente para fazer e receber chamadas, mas que não tem touchscreen, GPS, internet e mais sabe lá o que pode denunciar que o dono desse celular não está de acordo com os padrões de consumo. E, portanto, de acordo com os padrões da sociedade — já que estamos numa sociedade de consumo. Como é humanamente impossível acompanhar o ritmo frenético da obsolescência programada e da obsolescência percebida, o consumo traz uma satisfação passageira e uma frustração quase permanente. O que se tem, afinal, não é mais riqueza. Ao contrário, assistimos ao fenômeno que Ivan Illich batizou de a modernização da pobreza.

Já o segundo caminho, o da autolimitação, corresponde à tentativa de se ter controle, ou ao menos consciência, das próprias necessidades. Se as necessidades puderem ser limitadas, ou ao menos bem conhecidas, será mais fácil de atendê-las e, assim, sentir-se satisfeito. Eis o ponto importante. Como perceber a experiência vivida como fonte de riqueza se ela não nos traz satisfação alguma? Assim, a limitação das necessidades, ao invés de significar privação, pode ser o caminho para um enriquecimento da experiência. Se temos menos necessidades materiais, trabalhar desenfreadamente perde todo o sentido, abrindo a possibilidade de se empregar o tempo assim liberado em outras atividades.

Sobre as dificuldades

Como eu já antevia no começo da minha dieta, a grande dificuldade que encontrei foram as barreiras culturais, numa sociedade em que a carne ocupa um papel central na alimentação. De fato, consumir carne significa status. Não por acaso, o aumento do consumo de carne se apresenta como um dos grandes símbolos da ascensão social da nova classe média no Brasil.

Aliás, aqui cabe um parêntese: quero deixar bem claro que não tenho nada contra a nova classe média. Pelo contrário, sou defensor de uma distribuição de renda justa e a nova classe média é fruto de uma melhoria no processo distributivo. Contudo, só acho que não devemos nos iludir com uma melhoria nas condições de vida que se apresenta muito mais no âmbito do consumo. É preciso ir muito além disso para alcançar a justiça social.

De todo modo, como eu ia dizendo, a grande dificuldade que encontrei para ser vegetariano foi cultural. Desde as brincadeirinhas, do tipo “agora você só come mato?”, até alguns constrangimentos em eventos sociais, em que você acaba recusando o prato principal e todo mundo olha espantado.

A mesa, como lugar de confraternização, às vezes não é lá muito plural. Mas isso é apenas o reflexo de uma sociedade que tem certa dificuldade de conviver com a diferença. O diferente é tolerado, desde que ele fique lá e eu aqui. Reunir todo mundo com suas diferenças num mesmo espaço, incluir o outro, ainda é um desafio.

Mas nem tudo está perdido. E nem tudo é tão difícil quanto parece. Não apenas porque com o crescimento da adesão ao vegetarianismo e ao veganismo também cresce a oferta de produtos e restaurantes voltados para esse público. Mas também porque, ao contrário do que eu esperava, as pessoas parecem a cada dia aceitar melhor essa dieta alimentar. O grande desafio, mesmo, é ter coragem de começar e perseverança de continuar. Acho que estou conseguindo.

Dois tipos de ecologia

Dois tipos de ecologia

André Gorz

A ecologia é como o sufrágio universal ou a semana de 40 horas de trabalho: num primeiro momento, a elite dominante e os defensores da ordem social a tratam como subversiva, e proclamam que ela levará ao triunfo da anarquia e da irracionalidade. Depois, quando as evidências factuais e a pressão popular não mais podem ser negadas, o establishment cede subitamente — o que era impensável ontem é tomado como natural hoje, e fundamentalmente nada muda.

O pensamento ecológico ainda tem muitos oponentes nos gabinetes, mas ele já tem convertidos suficientes dentro da elite dominante para garantir sua eventual aceitação pelas maiores instituições do capitalismo moderno.

Já é hora portanto de acabar com a pretensão de que a ecologia é, por ela mesma, suficiente: o movimento ecológico não é um fim em si mesmo, mas um estágio numa luta maior. Ele pode lançar obstáculos ao desenvolvimento capitalista e forçar um número de mudanças. Mas quando, depois de esgotar todos os meios de coerção e manipulação, o capitalismo começa a encontrar sua saída do impasse ecológico, ele irá assimilar todas as necessidades ecológicas como restrições técnicas, e a estas adaptar as condições de exploração.

É por esse motivo que devemos começar colocando a seguinte questão explicitamente: o que nós realmente buscamos? Um capitalismo adaptado às restrições ecológicas; ou uma revolução social, econômica e cultural que seja capaz de abolir as restrições do capitalismo e, desse modo, estabelecer uma nova relação entre o indivíduo e a sociedade e entre as pessoas e a natureza? Reforma ou revolução?

É inadequado responder que essa questão é secundária, e que o principal é não depredar o planeta até o ponto em que ele se torne inabitável. Pois a sobrevivência não é um fim em si mesmo: realmente vale a pena sobreviver num mundo “transformado num hospital planetário, escola planetária, prisão planetária, onde torna-se a principal tarefa dos engenheiros espirituais fabricar pessoas adaptadas a essas condições”? (Illich)

Para convencer-se de que esse é o mundo que os tecnocratas estão preparando para nós, deve-se apenas considerar as novas técnicas de “lavagem cerebral” sendo desenvolvidas nos EUA e na Alemanha [1]. Pesquisadores vinculados à clínica psiquiátrica da Universidade de Hamburgo, seguindo o trabalho de psiquiatras e neurocirurgiões americanos, estão explorando formas de eliminar a “agressividade” que previne as pessoas de aceitarem as formas mais totais de frustração — aquelas como a do sistema prisional em particular, mas também aquelas da linha de montagem, da aglomeração urbana, da escolarização, da burocracia e da disciplina militar.

Nós faríamos bem, portanto, em definir logo de início pelo quê estamos lutando, assim como contra o quê. E nós faríamos bem ao tentar entender como, concretamente, o capitalismo é afetado e transformado pelas restrições ecológicas, ao invés de acreditar que elas irão, em si e por si mesmas, levar ao seu desaparecimento.

Para tanto nós devemos primeiro compreender o que uma restrição ecológica significa em termos econômicos. Considere as gigantescas indústricas químicas do vale do Reno: BASF em Ludwigshafen, AKZO em Roterdã, ou Bayer em Leverkusen. Cada um desses complexos representam uma combinação dos seguintes fatores:

  • recursos naturais (ar, água, minerais) que até então eram considerados sem valor e tratados como bens livres, porque eles não precisavam ser reproduzidos (isto é, repostos);
  • meios de produção (máquinas, edifícios, etc.), isto é, capital fixo, o qual eventualmente se torna obsoleto e deve consequentemente ser reposto (reproduzido), preferencialmente por outro mais eficiente e poderoso a fim de dar à empresa uma vantagem sobre seus competidores;
  • força de trabalho, a qual também deve ser reproduzida (os trabalhadores devem ser abrigados, alimentados, treinados e mantidos saudáveis).

No capitalismo esses fatores são combinados de modo a render a maior quantidade possível de lucro (o que, para qualquer empresa interessada no seu futuro, significa também o máximo controle sobre os recursos, e portanto o aumento máximo nos seus investimentos e sua presença no mercado mundial). A busca desse objetivo tem um efeito profundo sobre a maneira pela qual os diferentes fatores são combinados e o peso atribuído a cada um.

A gestão corporativa não tem, por exemplo, como preocupação principal tornar o trabalho mais agradável, harmonizar a produção com o equilíbrio da natureza e com a vida das pessoas, ou certificar-se de que seus produtos servem apenas aos fins que as comunidades escolheram para elas mesmas. Ela se preocupa principalmente em produzir o máximo valor de troca para o menor custo monetário. E para fazer isso ela deve dar um peso maior ao funcionamento regular das máquinas, as quais são caras para manter e repor, do que à saúde física e psíquica dos trabalhadores, que são prontamente intercambiáveis a um baixo custo. Ela deve conferir maior peso à rebaixar os custos de produção do que a preservar o equilíbrio ecológico, cuja destruição não irá prejudicar a empresa financeiramente. Ela deve produzir o que pode ser vendido a preços mais altos, a despeito de as coisas mais baratas serem eventualmente mais úteis à comunidade. Tudo carrega a marca desses requisitos do capital: a natureza dos produtos, as tecnologias de produção, as condições de trabalho, o tamanho e a estrutura das plantas industriais.

Mas cada vez mais, e de maneira mais notável no vale do Reno, a aglomeração humana e a poluição do ar e da água estão chegando ao ponto em que a indústria, a fim de crescer ou mesmo de continuar operando, é obrigada a filtrar sua fumaça e seus efluentes. Isto é, a indústria deve agora reproduzir as condições e recursos que eram previamente considerados parte da natureza e portanto gratuitos. Essa necessidade de reproduzir o ambiente tem uma cadeia de consequências econômicas: torna-se necessário investir em equipamento para controle da poluição, aumentando desse modo a massa de capital fixo; é então necessário garantir a amortização (isto é, a reprodução) das instalações de purificação, mas os produtos dessas instalações (as propriedades restauradas do ar e da água) não podem ser eles mesmos vendidos para a obtenção de lucro.

Em resumo, há um simultâneo aumento na intensidade do capital (na “composição orgânica” do capital), no custo de reprodução desse capital fixo, e portanto nos custos de produção, sem um correspondente aumento nas vendas. Uma das duas coisas deve ocorrer por conseguinte: ou a taxa de lucro diminui ou o preço dos produtos aumenta.

A empresa irá, obviamente, buscar aumentar seus preços. Mas isso não pode ocorrer tão suavemente: todas as empresas poluentes (fábricas de cimento, siderúrgicas, fábricas de papel, refinarias, etc.) também buscarão forçar o consumidor final a pagar preços mais altos por seus produtos. A incorporação de restrições ecológicas irá no fim ter os seguintes resultados: os preços tenderão a subir mais rapidamente que os salários reais, o poder de compra será reduzido, e acontecerá como se o custo do controle de poluição fosse deduzido da renda disponível aos individuos para a compra de bens de consumo. A produção desses bens tenderá consequentemente a estagnar ou cair; tendências à recessão ou depressão serão acentuadas. E essa diminuição do crescimento e da produção, a qual, em outro sistema, poderia ser considerada algo positivo (menos carros, menos barulho, mais ar para respirar, dias de trabalho mais curtos, e assim por diante) irá ao invés disso apresentar efeitos inteiramente negativos: os produtos poluidores se tornarão itens de luxo, inacessíveis à maioria, mas ainda disponíveis aos privilegiados; a desigualdade se intesificará, os pobres tornar-se-ão relativamente mais pobres e os ricos, mais ricos.

A incorporação dos custos ecológicos, em suma, terá as mesmas consequências sociais e econômicas que a crise do petróleo. E o capitalismo, longe de sucumbir a essa crise, responderá a ela da maneira usual: aqueles grupos financeiramente favorecidos pela crise lucrarão com as dificuldades dos grupos rivais, irão absorvê-los a um baixo custo e estenderão seu controle sobre a economia. O Estado reforçará seu poder sobre a sociedade: seus tecnocratas calcularão normas “ótimas” de controle de poluição e de produção, expedirão regulações, e estenderão o domínio da atividade “programada” assim como o escopo do aparato repressivo. A indignação popular será desviada com mitos compensatórios e direcionada a bodes expiatórios já disponíveis (minorias raciais ou étnicas, trabalhadores imigrantes, jovens, outros países). O Estado baseará sua autoridade não sobre o consenso mas sobre a coerção; burocracias, forças policiais, exércitos e forças de segurança particulares ocuparão o vácuo deixado pelo descrédito da política partidária e pela fossilização dos partidos políticos. Na França e em todo o lugar, já vemos os sinais dessa decadência à nossa volta.

Sem dúvida, nada disso é inevitável. Mas é altamente provável, se o capitalismo é compelido a integrar os custos ecológicos sem ser desafiado em todos os níveis por práticas sociais alternativas e uma visão alternativa da civilização humana. Os advogados do crescimento estão corretos em um ponto: dentro do arcabouço da sociedade existente e dos padrões de consumo — baseados na disparidade, no privilégio e na perseguição do lucro — um crescimento nulo ou negativo só pode significar estagnação, desemprego, e uma lacuna crescente entre ricos e pobres. Dentro do arcabouço do modo de produção existente, é impossível limitar ou suprimir o crescimento enquanto simultaneamente se distribui os bens de maneira mais equitativa.

De fato, é a própria natureza dos bens que mais frequentemente impede sua distribuição equitativa — como é possível distribuir equitativamente viagens aéreas supersônicas, Mercedes Benzes, apartamentos de cobertura com piscinas privativas, ou milhares de novos produtos, escassos por definição, com os quais a indústria inunda o mercado a cada ano a fim de desvalorizar os modelos antigos e reproduzir a desigualdade e a hierarquia social? E como é possível “distribuir equitativamente” diplomas universitários, empregos de supervisão, posições de gerência, ou cargos permanentes?

É difícil evitar o reconhecimento de que a mola mestra do crescimento é a fuga para adiante generalizada, estimulada por um sistema de desigualdades deliberadamente sustentado, o qual Ivan Illich chama de “a modernização da pobreza”. Tão logo uma maioria possa aspirar ao que até então havia sido privilégio exclusivo da elite, esse privilégio (o diploma da faculdade, por exemplo, ou o automóvel) é desse modo desvalorizado, a linha de pobreza é elevada em um ponto, e novos privilégios dos quais a maioria é excluída são criados. Ao recriar indefinidamente a escassez a fim de recriar a desigualdade e a hierarquia, a sociedade capitalista dá origem a mais necessidades não atendidas do que aquelas que satisfaz: “a taxa de crescimento da frustração ultrapassa de longe aquela da produção.” (Illich)

Enquanto continuarmos dentro do arcabouço de uma civilização baseada na desigualdade, o crescimento necessariamente aparecerá para a massa das pessoas como a promessa — embora totalmente ilusória — de que elas irão um dia deixar de ser “desprivilegiadas”, e a limitação do crescimento como a ameaça da permanente mediocridade. Não é tanto o crescimento que deve ser atacado quanto as ilusões que ele sustenta, a dinâmica do eterno crescimento e das necessidades eternamente frustradas na qual ele se baseia, e a competição que ele institucionaliza ao incitar cada indivíduo a procurar subir “acima” de todos os outros. O lema de nossa sociedade poderia ser: O que é bom para todo mundo não tem valor; para ser respeitável você deve ter algo “melhor” que o próximo.

Agora é completamente o contrário que deve ser afirmado para romper com a ideologia do crescimento: As únicas coisas dignas de cada um são aquelas que são boas para todos; as únicas coisas que valem a pena ser produzidas são aquelas que nem privilegiam nem diminuem ninguém; é possível ser mais feliz com menos riqueza, pois em uma sociedade sem privilégio ninguém será pobre.

Imagine uma sociedade baseada nesses critérios: a produção de materiais praticamente indestrutíveis, de vestuário durável por anos, de máquinas simples que são fáceis de consertar e capazes de funcionar por um século ou mais. Isso tudo cientificamente e tecnicamente disponível para nós, junto com uma vasta extensão de serviços e instalações comunitárias (transporte público, lavanderias automáticas, etc.), assim eliminando muito da necessidade por máquinas particulares frágeis, caras e desperdiçadoras de energia.

Imagine habitações coletivas — não como são agora,  arruinadas pela negligência com o espaço público e pela privatização do valor, mas como elas deveriam ser se as energias individuais fossem usadas para o bem público e vice versa. Poderia haver duas ou três salas de recreação, salas de brinquedo para as crianças, oficinas e bibliotecas totalmente equipadas, e áreas de lavanderia acessíveis. Nós continuaríamos realmente necessitando de todos os nossos equipamentos individuais que ficam ociosos boa parte do tempo? Nós continuaríamos impacientes para entrar num congestionamento nas vias expressas se houvesse um confortável transporte coletivo para as áreas de recreação, bicicletas e motocicletas prontamente disponíveis quando fosse necessário, uma extensa rede de transporte de massa para as áreas urbanas e suburbanas?

Imagine além disso que as grandes indústrias, planificadas centralmente, produzissem apenas aquilo que fosse necessário para atender às necessidades básicas da população: quatro ou cinco estilos de calçados e roupas duráveis, três ou quatro modelos de veículos robustos e adaptáveis, mais tudo que fosse necessário para atender os serviços coletivos e as instalações. Impossível numa economia de mercado? Sem dúvida. Implicando em desemprego em massa? Não necessariamente. Nós poderíamos ter uma semana de 20 horas de trabalho, contanto que mudássemos o sistema. Uniformidade, monotonia, tédio? Pelo contrário, pois imagine o seguinte:

Cada bairro, cada cidade, teria oficinas públicas equipadas com uma completa variedade de ferramentas, máquinas e matérias-primas, onde os cidadãos produzissem por eles mesmos, fora da economia de mercado, o não-essencial de acordo com seus gostos e desejos. Como eles não trabalhariam mais de vinte horas por semana (e possivelmente menos) para produzir o necessário para a vida, os adultos teriam tempo para aprender o que as crianças estariam aprendendo na escola primária: não apenas ler e escrever mas também trabalhos manuais de todos os tipos, costura, trabalho com couro, marcenaria, alvenaria, metalúrgica, mecânica, cerâmica, agricultura — em suma, todos os tipos de habilidades que hoje são comercialmente arrancadas de nós e substituídas pela compra e venda.

Tais propostas são utópicas? Por que elas não poderiam se tornar um programa político? Pois uma tal “utopia” corresponde à forma mais avançada, e não a mais primitiva, de socialismo — em uma sociedade sem burocracia, em que o mercado perde vigor, em que há suficiente para todos, em que as pessoas são coletivamente e individualmente livres para dar forma a suas vidas, em que as pessoas produzem de acordo com suas fantasias, não apenas de acordo com suas necessidades; em suma, uma sociedade em que “o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos.” (Marx, Manifesto do Partido Comunista, 1848)

Le Sauvage, Abril de 1974

[1] Documentado em Les Temps Modernes, Março de 1974. [N. do A.]

Tradução de “Two Kinds of Ecology”. In: GORZ, André. Ecology as Politics. London: Pluto Press, 1983. p. 3-9. (clique aqui para baixar o livro em inglês)