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As feridas abertas de 64: 50 anos do golpe

 

Há 50 anos, o país era palco de um dos eventos mais traumáticos de sua História. Meio século atrás, instalava-se no Brasil uma ditadura civil-militar que durou 21 anos. E, em que pese a redemocratização, as feridas de 64 continuam abertas.

Por mais que a ditadura tenha sido derrotada, no plano político, seus resquícios e heranças malditas continuam a nos assombrar.

Ideologicamente, há ainda quem chame o golpe de revolução: a redentora, que livrou o país da “ameaça comunista”. Aliás, o fantasma vermelho é presença certa nos discursos de medo proferidos pela direita até hoje. Assim, subsiste uma diminuta minoria que insiste em louvar a ruptura da ordem democrática. Ao mesmo tempo, uma parcela nada desprezível sustenta que o golpe foi um “mal necessário”. A pergunta é: necessário para quem?

No plano das instituições, nenhuma é mais tributária daqueles anos de chumbo do que as Polícias Militares. Basta lembrar que uma das 18 estrelas do brasão de armas da PM de São Paulo homenageia o golpe de 1964. É preciso dizer mais alguma coisa?

Mas isso é só um reflexo, uma ondulação na superfície, de algo mais profundo: o autoritarismo e a violência presentes em nossa cultura. Nenhuma nação passa incólume por mais de três séculos de escravidão. Não se aprende, de uma hora para outra, a respeitar como sujeito um outro que até pouco tempo não passava de um objeto.

Quando não é preciso dialogar, nem ouvir as vozes dissonantes, essa violência pode ser exercida sem freios. Isso explica muita coisa daquele período tenebroso. Isso explica a censura. Isso explica os desaparecimentos de opositores. Isso explica a tortura. Tudo em nome do “progresso”. Mais uma vez: progresso de quem?

Pois se, como dizem alguns, a ditadura promoveu o crescimento econômico e a modernização do país, é certo que esse “progresso” não foi apropriado igualmente. Não há dúvida de que certos grupos empresariais foram os grandes beneficiários do regime, notadamente na área de comunicações –a nossa grande imprensa, que hoje faz um mea culpa não muito convincente, pelo apoio ao golpe num primeiro momento.

Todas essas dúvidas, fantasmas, arrependimentos insinceros, histórias mal contadas, corpos não localizados, tudo isso, enfim, são as feridas daquele tempo, que teimam em não cicatrizar. O remédio é apenas um, doloroso e amargo: enfrentar o passado, trazê-lo à luz e reconhecê-lo em sua miséria. As Comissões da Verdade têm tentado realizar essa tarefa –urgente, necessária e inadiável.

Pois enquanto não curarmos essas feridas de 64, os abusos e torturas cometidos por agentes do Estado continuarão presentes nas periferias e morros Brasil afora. Enquanto não nos reconciliarmos com nosso passado, sonhos golpistas continuarão a ser acalentados por aqueles que não suportam a ideia de um país mais igual. Em suma, enquanto não acertarmos nossas contas com esse período obscuro da nossa breve História, seremos incapazes de projetar a vida numa nação verdadeiramente plural e solidária –de cidadãos livres, sem senhores e escravos.

 

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Sob o Império do medo: o legado de 11/09/2001

11 de setembro de 2001. Dois aviões se chocam contra as torres gêmeas do World Trade Center em Nova Iorque. O mundo não seria o mesmo depois desse dia.

O governo norte-americano, liderado por George W. Bush, em reação aos atentados, declarou a Guerra ao Terror. O terrorismo, inimigo invisível, deveria ser derrotado a todo o custo, de modo a reestabelecer a paz e a segurança na América. E, de fato, esse programa lançado por Bush não conheceu limites.

Militarmente, a simples condição de ameaça já era suficiente para mobilizar a máquina de guerra americana contra um suposto inimigo. O Iraque de Sadam Hussein que o diga: sob suspeita de possuir armas de destruição em massa, foi invadido pelos EUA em 2003. Depois da invasão, a suspeita não foi comprovada.

Financeiramente, os gastos do governo americano — principalmente na área militar — também não conheceram limites. A dívida pública norte americana saltou de US$ 5,62 trilhões em 2001 para US$ 14,3 trilhões em 2001. Esse crescimento fabuloso do endividamento público quase levou os EUA à moratória, diante do impasse para a elevação do teto da dívida pelos congressistas no meio deste ano de 2011.

E, o que é mais significativo, o direito deixou de ser o limite do Estado norte-americano. Em nome da preservação da segurança e do combate ao terror, a violação da privacidade dos cidadãos passou a ser prática comum. A intolerância religiosa, principalmente contra os muçulmanos, também adquiriu seu estatuto de legitimidade. Os direitos humanos, por sua vez, foram jogados no lixo com as arbitrariedades praticadas contra os prisioneiros de Guantánamo.

September 11th

Depois do atentado às torres gêmeas em 11/09/2001 o mundo não foi mais o mesmo. Foto: Marc AuMarc

E qual foi o saldo dessa guerra sem limites? Vivemos hoje num mundo melhor? Ao menos, num mundo mais seguro?

Não é difícil perceber que o único vencedor nessa guerra foi o medo. E, evidentemente, aqueles que se utilizam dele como instrumento de dominação.

Pois sob o Império do medo, qualquer um é suspeito já de antemão. Portanto, todos são potencialmente inimigos de todos. A guerra generalizada, que em Hobbes levou os homens a celebrarem um pacto mútuo de submissão a um soberano, reaparece. Mas agora, como uma guerra internalizada, um conflito permanentemente latente. As pessoas devem ser protegidas delas mesmas.

O Estado, esse grande Leviatã que deveria garantir a paz, acaba por inculcar a guerra na mente das pessoas. Pois se o inimigo é invisível, a ameaça é onipresente. A Guerra ao Terror é a Guerra de Todos contra Todos na cabeça de cada um. E, nesse estado de coisas, a submissão dos súditos deve ser eterna. O Leviatã descobriu seu elixir da longa vida no medo das pessoas. Eis o legado de 11 de setembro de 2001.

Poderá a esperança vencer o medo?

Do atentado às torres gêmeas ao Wikileaks: a 1ª década do século XXI

Estamos nos aproximando do fim de 2010. Daqui a pouco mais de duas semanas já será 2011. Mas não é apenas o fim de um ano que se aproxima, mas o fim de uma década: a 1ª década do século XXI.

A julgar pelos acontecimentos que marcaram essa década, podemos esperar um século XXI tão movimentado quanto o século XX? Tudo indica que sim. Lembremos que o 1º ano da década, 2001, ficará marcado na história por uma data muito significativa: 11 de Setembro. O atentado terrorista às torres gêmeas do World Trade Center colocaria na agenda do império norte-americano a Guerra ao Terror, declarando seu principal inimigo o fundamentalismo religioso islâmico, encarnado na figura de Osama Bin Laden. Os EUA se colocariam no lugar de paladinos defensores da democracia e da liberdade, muito embora, na prática, a reação ao terror tenha servido de pretexto para o cerceamento das liberdades individuais, bem como para a invasão da privacidade dos cidadãos.

Fechando a década, o grande acontecimento foi a divulgação de documentos secretos de Washington, vazados por pessoas inseridas na própria burocracia estatal, pelo site Wikileaks. Tais vazamentos causaram tal constrangimento aos EUA ao expor o modus operandi de sua diplomacia, bem como ao revelar suas intrigas com outras nações, que foi deflagrada uma verdadeira perseguição ao fundador do site, o australiano Julian Assange. Tal perseguição envolveu desde denúncias questionáveis na Suécia sobre supostos abusos sexuais praticados por Assange, até a recusa de empresas a prestarem serviços ao Wikileaks — como foi o caso das operadoras de cartão de crédito VISA e MasterCard, o site de pagamentos PayPal e a hospedagem do site pela Amazon. O que não se esperava era que tal recusa provocaria represálias por parte de hackers de todo o mundo, que se empenharam numa “guerra virtual” para tirar os sites dessas empresas do ar. O caso do Wikileaks parece apontar na direção de um novo paradigma de liberdade de expressão e de informação, bem como para a possibilidade de conceber a internet como um novo “campo de batalhas”. Quem viver, verá.

Abaixo, alguns fatos que marcaram os primeiros 10 anos do século XXI:

2001

11/09/2001: ataques terroristas às torres gêmeas do World Trade Center

2002

27/10/2002: Lula é o 1º ex-operário eleito presidente da República

2003

Março de 2003: EUA iniciam a invasão do Iraque

2004

Dezembro de 2004: tsunami atinge a região do Oceano Índico

2005

Maio de 2005: Estoura o escândalo do mensalão

2006

05/11/2006: Saddam Hussein é executado na forca

2007

17/07/2007: acidente aéreo com airbus da TAM é o mais grave da aviação brasileira

2008

15/09/2008: o banco Lehman Brothers pede concordata, fato que marca o início da crise internacional de 2008.

2009

18/12/2009: termina em clima de frustração a COP-15, em Copenhague.

2010

Dezembro de 2010: o site Wikileaks publica documentos secretos de Estado, vazados por informantes. Julian Assange é preso sob acusação de crime sexual.