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Todo tipo de explicação

A tragédia causada pelos terremotos no Haiti tem causado comoção por todo o mundo, como não poderia ser diferente. Além disso, tem mobilizado as mais diversas tentativas de explicação para o acontecimento.

As explicações transcendentais, baseadas numa “vontade divina”, se dividem em duas vertentes. Uma delas trata a tragédia como um acontecimento pré-destinado, inescapável, determinado anteriormente por uma força superior; acontecimento cuja justiça não cabe a nós, em nossa condição humana, questionar uma vez que nossa razão jamais será capaz de interpretar os desígnios divinos — explicação por excelência das igrejas em geral. A outra vertente, no entanto, ainda que trate os acontecimentos como “vontade divina”, procura uma explicação “inteligível” para a tragédia. A mais bizarra representante desta última vertente é a explicação do direitista e tele-evangelista norte-americano Pat Robertson, segundo a qual os haitianos teriam feito um pacto com o diabo para proclamar sua independência do domínio francês, e aí estaria a origem de toda a maldição sobre aquele país, que culminou nos trágicos terremotos — como ele ficou sabendo disso é que ninguém sabe, talvez o próprio diabo tenha lhe sussurado essa bobagem toda.

Deixando de lado essas explicações transcendentais, as explicações de cunho científico e empírico buscam seus fundamentos no movimento das placas tectônicas, cujo movimento, lamentavelmente, veio a ocasionar a tragédia, em razão da falha tectônica na qual se localiza a cidade de Porto Príncipe. Ou seja, tudo uma infeliz coincidência. Contudo, essa é uma explicação meramente superficial. Se tomarmos todo o processo histórico desde a independência do Haiti, os embargos sofridos por aquele país, as intervenções imperialistas, etc., podemos enriquecer essa explicação com elementos históricos que nos ajudarão a compreender porquê, a despeito do desastre natural, aquele país se achava num estado tão vulnerável, o qual certamente contribuiu para que a tragédia tivesse essas dimensões tão trágicas. Em suma, nessa perspectiva, a tragédia pode ser explicada como uma combinação de desastre natural com um processo histórico de marginalização de uma nação.

Agora, além dessas explicações, existem ainda outras, segundo as quais o terremoto teve causas humanas. Isso mesmo: foi provocado pelo homem. Em que pese o caráter de “teoria da conspiração”, há certa coerência nos argumentos que sustentam essa vertente. Nos últimos dias têm ocorrido vários terremotos a 10 km da superfície da Terra — como foi o caso do Haiti –, o que é um pouco demais para ser mera coincidência. Curiosamente ocorreram em locais não muito bem vistos pelo Tio Sam, como Venezuela e Irã. Esses seriam os indícios que sustentariam a hipótese de que a marinha americana estava testando uma arma de criar terremotos, baseada numa tecnologia de ressonância e pulsos eletromagnéticos, roubada de Nicola Tesla. Particularmente não quero crer de modo algum que isso seja verdade, pelo número de vidas que foram ceifadas por esse terremoto. Leia mais sobre essa hipótese no blog Ecocídio.

Explicações à parte, o que nos resta agora é estarmos atentos para os desdobramentos políticos dessa tragédia, os quais podem significar uma nova submissão do povo haitiano. Não podemos permitir que isso aconteça.

Mais “fogo amigo”

Depois das declarações do cônsul-geral do Haiti em São Paulo sobre a situação daquele país (veja em Cuidado: você pode não estar em off), agora é a vez da diplomacia brasileira nos deixar desapontados.

Os pesquisadores da Unicamp que estão no Haiti, ao solicitarem abrigo na embaixada brasileira, tiveram o pedido negado pela embaixatriz, e ainda ouviram coisas do tipo: “NÃO TEMOS NENHUMA RESPONSABILIDADE SOBRE VOCÊS. VOCÊS ESTAVAM NO LUGAR ERRADO NA HORA ERRADA, SINTO MUITO”.

Lamentável. Onde está o Itamaraty nessas horas?

Leia o relato no blog dos pesquisadores da Unicamp no Haiti.

Pior a emenda que o soneto

Depois da polêmica causada pelas declarações do cônsul-geral George Samuel Antoine, o Consulado Geral do Haiti em São Paulo divulgou uma nota tentando esclarecer um eventual mal-entendido.

Segundo a nota, o cônsul teria se atrapalhado com a língua portuguesa — apesar de estar no Brasil desde 1975 — e se expressado mal. Em nenhum momento ele quis dizer que o desastre era bom para promoção da sua imagem, mas para chamar a atenção do mundo sobre a necessidade de auxiliar o seu país. Reproduzo abaixo o teor da nota:

Diante do trágico acontecimento que atingiu o Haiti e que abalou o mundo, o sr. cônsul George Samuel Antoine, no calor dos fatos e, principalmente por possuir centenas de parentes naquele país, sobre os quais tem poucas informações, sabendo que estão desaparecidos, provavelmente mortos, em comentário, teve seus dizeres interpretados de maneira deturpada.

Lamentamos profundamente o fato ocorrido, apresentado pelo SBT em 14 de janeiro, sendo que a divulgação de pequena parte da conversa levou a uma interpretação equivocada que ora se esclarece. Vez que a frase expressada pelo senhor cônsul do Haiti em São Paulo, fazia parte do contexto de uma conversa que mantinha com um cidadão, que aparece na entrevista, o qual não é repórter e sim presidente do conselho do instituto americano de pesquisa, medicina e saúde pública, trata-se do senhor doutor Roberto Marton, e estava, naquele momento, disponibilizando uma ajuda humanitária, organizando recrutamento de voluntários profissionais da saúde. O doutor Roberto esteve naquele país meses atrás, com o próprio consul, assinando um protocolo de cooperação técnica na área de saúde da mulher.

A dificuldade do senhor cônsul na utilização da língua portuguesa, levou-o a um erro de expressão. Na verdade, a intenção foi enfatizar que o trágico acontecimento no Haiti fez com que o mundo todo voltasse os olhos para os problemas do seu povo. Inclusive aqui no Brasil, possibilitando assim, maior ajuda humanitária para a reconstrução do país.

Nunca teve a intenção de promoção pessoal, e sim a intenção de difundir as dificuldades enfrentadas pela sua gente, que grande parte da população vive abaixo da linha da pobreza, sempre em busca de maior ajuda mundial.

O senhor cônsul nasceu em Porto Príncipe, possui familiares de origem africana, seu bisavô Philippe Guerrier, da raça negra, foi presidente do Haiti (1844/45); sendo que o sr. Antoine veio para o brasil, e em 1975 foi nomeado cônsul.

Esclarece, que em nenhuma oportunidade tomou atitude racista, tendo se expressado, tão somente, que os povos de origem africana são sofredores em várias regiões do mundo. O cônsul jamais criticou a religião africana, mantendo grande respeito por todos os tipos de crenças pela própria característica do seu país.

O cônsul geral do Haiti em São Paulo pede desculpas a quem de alguma maneira tenha se sentido ofendido.

Ok. Em um país democrático todos têm direito de resposta. Agora, como diria Bocage: “pior a emenda que o soneto”.

Cuidado: você pode não estar em off

Mais um que cai na mesma armadilha do Boris Casoy. Dessa vez foi o cônsul geral do Haiti em São Paulo (leia a notícia do Yahoo!).

Da mesma forma que o apresentador fizera no fim do ano passado, o cônsul mostrou sua verdadeira face, ao pensar que não estava sendo filmado.

Declarou que o terremoto estava sendo “bom” pois proporcionava exposição do país na mídia. Nenhuma consideração pelos mais de 100 mil mortos.

Quanto às causas do desastre, insinuou que pudesse ter relação com a prática de vodu (se for assim, eita magia poderosa essa!).

Verdadeiro desastre foram suas palavras. Com um cônsul desses, quem precisa de inimigo?

Sorte dele que as autoridades haitianas devem estar completamente ocupadas com problemas mais sérios — se não estivessem, deveriam mandá-lo embora na hora.

Pois é. Cuidado: você pode não estar em off.

Será que ele vai se desculpar que nem o Boris?

Por quê o Haiti?

Ao tomar conhecimento dos terremotos que atingiram o Haiti, e de toda a tragédia que se seguiu naquele país, a primeira pergunta que me veio à mente — e acredito que também para muitas outras pessoas — foi: por quê o Haiti? Um país que já tem problemas mais que suficientes com sua miséria, a instabilidade política, as convulsões sociais e a violência; agora se vê às voltas com essa tragédia natural de tamanha proporção.

Penso que essa pergunta tem suas raízes num ideal moral de “justiça divina”, o qual nos é transmitido principalmente pelas instituições ditas religiosas. Com base nesse ideal — consciente ou inconscientemente — somos levados a questionar por quê aquele país estaria sendo alvo da ira divina, com tantas desgraças. Essa concepção, no entanto, tende a nos levar a uma postura resignada, afinal, quem somos nós para questionarmos desígnios que estão além da nossa compreensão? Pior: podemos ser levados a acreditar que aquelas pessoas merecem todo esse sofrimento.

Desse modo, deixando essa ideia de “justiça divina” de lado, acho que esse acontecimento deve, muito pelo contrário, suscitar em nós reflexões sobre a “injustiça humana”. Organismos internacionais e outros países, oferecem sua solidariedade enviando alimentos, remédios, recursos humanos e ajuda financeira — agora que o quadro do caos está completo. Até então, o Haiti era um país quase invisível — não porque não tivesse o que mostrar, mas porque ninguém queria olhar para ele. À exceção de ações pontuais, geralmente de cunho assistencialista, por parte de ONGs e organismos internacionais, o Haiti foi, desde sempre, um país marginalizado na ordem mundial. Será por que foi a primeira colônia a se tornar independente pelos braços dos negros, que, ao mesmo tempo que lutavam pela independência, também lutavam pela abolição da escravidão? Tive um professor, estudioso do Haiti, o prof. Omar Ribeiro Thomaz — que por sinal estava lá no terremoto –, o qual não exitava em afirmar que sempre houve um embargo ao Haiti, seja ele econômico, político e até mesmo cultural: ora, exemplo disso é que a Revolução haitiana, por meio da qual os antigos escravos afugentaram seus ex-colonos e constituíram um país independente, não mereceu mais que uma nota de pé de página em “A Era das Revoluções”, de Eric Hobsbawn.

Outra faceta da “injustiça humana” se torna evidente quando comparamos as cifras anunciadas para ajuda ao Haiti, oferecidas pela ONU, países desenvolvidos e até mesmo pelo Brasil, as quais somam dezenhas de milhões de dólares. Falando assim, parece uma soma expressiva. Contudo, quando comparamos com as cifras do plano deflagrado pelo governo norte-americano para salvar seus bancos da bancarrota, no auge da crise do subprime, no fim de 2008 e início de 2009, a ajuda destinada ao Haiti parece uma piada de mau gosto. O plano de salvação dos bancos consumiu recursos da ordem de um trilhão de dólares (US$ 1.000.000.000.000,00) — isso mesmo, doze “zeros” após o “um”. Sejamos otimistas e vamos supor que o total da ajuda financeira ao Haiti chegue a cem milhões de dólares (US$ 100.000.000,00) — oito “zeros”, certo? Comparando essas cifras, isso significa que o plano de salvação dos bancos poderia socorrer dez mil (10.000) tragédias como essa. Não estou colocando em questão a necessidade de se salvar os bancos naquela situação específica. Mas que essa diferença é, no mínimo, incômoda, também não questiono. Infelizmente, parece que a preservação do capital é mais importante que a preservação da vida.

Portanto, essa questão — por quê o Haiti? — que aparentemente se voltava para uma divindade, agora se volta para cada um de nós. Por quê permitimos que aquele país chegasse a ficar tão pobre, tão vulnerável a um desastre natural como este? Um terremoto, uma enchente, um tsunami, são todas tragédias que o homem não pode evitar, mas pode, sem dúvida minimizar seus efeitos. Veja o exemplo do Japão, frequentemente assolado por terremotos, mas que desenvolveu tecnologia de construção civil para suportar melhor esses abalos. De todo modo, é certo — pelo menos assim quero acreditar — que essa situação no Haiti não foi fruto da vontade expressa de ninguém, mas antes da nossa omissão diante da lógica do capital — da lógica da mercadoria –, segundo a qual quem não produz, quem não se insere no mercado, não interessa. Agora, talvez os haitianos interessem ao capital, pois agora podem virar mercadoria, vendendo notícias sobre a tragédia. Diante de uma tragédia dessas e das questões que ela nos coloca, cabe-nos ainda a possibilidade de adotar uma nova postura perante a nossa realidade, priorizando a vida, o ser humano. Como dizia o slogan do Fórum Social Mundial: “Um outro mundo não só é possível, mas é necessário”.