Arquivo da tag: greve

Greve d@s bancári@s: BB tenta intimidação?

O Banco do Brasil efetuou um desconto no valor do tíquete refeição/cesta alimentação, durante a atual greve. Coincidência ou tentativa de intimidação?

Greve d@s bancári@s: o jeito Fenaban de negociar

Bancári@s de todo o país estão em greve desde o último dia 19.

A proposta apresentada pela Fenaban, que contempla apenas a reposição da inflação pelo INPC (6,1%), foi rejeitada diante dos resultados expressivos obtidos pelas instituições financeiras. Só os 6 maiores bancos lucraram quase R$ 30 bilhões no primeiro semestre deste ano.

Pior que isso, os bancos privados fecharam 7 mil postos de trabalho nos primeiros oito meses, apesar dos resultados positivos.

Enquanto isso, às vésperas de se completar o 12º dia de greve, não houve até o momento uma manifestação dos banqueiros quanto a uma nova proposta ou rodada de negociação.

Eis o jeito Fenaban de negociar: não ver, não escutar e não dizer nada.

Não resta à categoria bancária outra alternativa senão intensificar a luta.

A abstinência do privilégio

Leio na internet, não sem uma dose de espanto, que a justiça paulista (a mesma do Pinheirinho) determinou que as empresas de transporte e caminhoneiros voltassem às atividades normais, a fim de evitar o desabastecimento de combustível na cidade de São Paulo.

Logo que me dei conta de que a ordem judicial, em que pese o pretexto de preservar o “interesse público”, quer mesmo é manter o privilégio de uma minoria, aquele espanto inicial passou. Lembrei-me que estou no Brasil. Mais que isso, que estou na terra dos bandeirantes — ou melhor, de gente que se orgulha desses “ilustres” homens que promoveram um verdadeiro etnocídio, varrendo do mapa quem lhe parecia diferente e inconveniente, os indígenas. Na prática, o comportamento do paulistano médio continua a refletir os ideais dos velhos bandeirantes.

Sexta-feira passada, a lógica do privilégio, que rege todo o mecanismo da circulação na capital paulista, fez uma vítima fatal. A bióloga Juliana Dias, que se deslocava com sua bicicleta, foi atropelada por um ônibus em plena Avenida Paulista. O fato mostra o quão incivilizadas são as relações no trânsito. Os veículos maiores, que a princípio deveriam zelar pela segurança dos menores, na prática adotam uma postura agressiva: quem quer que se coloque como obstáculo que saia da frente! (Por que será que os SUVs fazem tanto sucesso, apesar de as ruas estarem cada vez menores para tantos veículos?)

Há quem diga que a bicicleta não é um meio de transporte adequado para as vias de grande circulação. Então, qual a solução para o já tão caótico trânsito de São Paulo? Mais carros? E onde serão colocados esses milhares de novos automóveis que entram em circulação na métropole?

A resposta simplista do alcaide da capital é barrar a entrada de caminhões nos horários de grande circulação — além da já furada iniciativa de se fazer o rodízio de acordo com a placa dos veículos. Assim, em tese, haveria espaço para os novos carros que entram em circulação. Evidentemente, problema algum é resolvido com essas iniciativas. Quem sabe, a grande paralisação do trânsito de São Paulo é adiada por algum tempo. Até lá, Kassab já arranjou alguma boquinha em algum governo — tanto faz de que partido seja, já que a ideologia do seu PSD é estar no poder, esteja ele onde estiver.

Enquanto isso, a minoria privilegiada que faz uso do transporte motorizado individual vai — à maneira do prefeito paulistano — “empurrando com a barriga” a questão do transporte e da circulação na metrópole. Cada um busca sua própria solução individual, sem perceber que conjuntamente todos estão criando um problema coletivo. A ilusão do conforto, da potência e da individualidade proporcionada pelo automóvel parece falar mais alto.

Isso explica a histeria que tomou conta da “classe média sofredora” de São Paulo diante da ameaça de falta de combustível para abastecer os carros particulares. Diga-se de passagem, o abastecimento aos veículos dos hospistais, do SAMU, das polícias e outros serviços essenciais foi garantido pelo movimento grevista. Ainda, as empresas de transporte público contam com um suprimento próprio de combustível. O que efetivamente se viu prejudicado foi o abastecimento dos carros de passeio. O direito de ir e vir — a não ser dos transportadores — em momento algum se viu ameaçado.

Em suma, as reações iradas e a celeridade da justiça paulista — tão ciosa de proteger os privilégios de quem os detêm — só podem ter uma explicação: uma crise de abstinência do privilégio. Quando os motoristas individuais veem ameaçado seu privilégio de se impor aos outros agentes do trânsito mediante uma postura intransigente — que veio a resultar na morte da ciclista na Av. Paulista — , a frustração de não terem acesso àquela falsa liberdade proporcionada pelo automóvel se abate sobre eles.

E, desse modo, perde-se a oportunidade de se colocar em pauta um problema sério que afeta diariamente a qualidade de vida dos paulistanos, optando-se pela solução mais simples, que acalme os ânimos do “cidadão de bem”. De fato, a menos que se pense seriamente na melhoria do transporte público e em outras alternativas — entre elas, sim, a bicicleta — , será cada vez mais difícil se locomover na cidade de São Paulo. Boa parte dos paulistanos, ao que parece,  prefere esperar até o dia em que não consigam mais sair do lugar, dentro de seus carros, assistindo de camarote ao “grande congestionamento final”.

O marco zero da liberdade

Suspeitei desde o princípio. E minhas suspeitas se viram confirmadas ontem: fui reprovado em uma disciplina e não me formo neste ano.

Mas não foi uma simples reprovação. Fui reprovado com média zero — um zero retumbante. Um estigma pra eu ver evaporar minhas chances de ter um projeto de mestrado financiado por uma Fapesp da vida.

Estou chateado? É óbvio que ninguém fica contente com uma reprovação. Não nego que tenha ficado uma pontinha de aborrecimento, afinal só faltou essa matéria para concluir o bacharelado.

Por outro lado, dadas as circunstâncias da reprovação, chego a me sentir orgulhoso. “Mas que absurdo, como alguém pode se orgulhar de uma reprovação? Você não tem vergonha não?”, perguntarão indignados aqueles para quem a meritocracia é quase um dado da realidade.

Pois bem. Dado que fui reprovado por não comparecer às aulas, em respeito à deliberação dos estudantes que aderiram à greve dos funcionários técnico-administrativos — que reivindicavam um tratamento isonômico dentro da universidade — , não consigo me envergonhar da minha nota zero.

Mais do que um estigma que pode prejudicar uma possível carreira acadêmica, para mim esse zero é uma insígnia que distingue alguém que ousou se opor ao modus operandi que se instalou na universidade. Um modus operandi que em nada se diferencia daquele que já se instalou em várias esferas da nossa vida, baseado no binômio vigiar e punir (não por acaso, nome de um dos livros mais importantes de Michel Foucault). De um lugar em que a liberdade é condição necessária para a produção do conhecimento, a universidade, nos dias atuais, se submeteu ao capital, convertendo-se num mero apêndice das empresas — uma espécie de terceirização dos “serviços” de pesquisa e desenvolvimento. E estando inserida numa lógica empresarial, não há lugar para uma racionalidade democrática dentro da universidade, mas apenas para uma racionalidade administrativa — inclusive na universidade pública, vide a expulsão de 6 alunos da USP, numa decisão nada democrática do reitor João Grandino Rodas.

De modo que, se essa “desobediência acadêmica” pode ter consequências desagradáveis para mim num curto prazo, estou certo de que a obediência cega seria muito pior: tanto do ponto de vista prático, quanto do ponto de vista moral.

Do ponto de vista prático, se eu simplesmente ignorasse a greve e adotasse a postura de um “aluno exemplar”, estaria tão-somente ajudando a reproduzir essa racionalidade instrumental que está tomando de assalto a universidade — tanto pública quanto privada — , de modo que eu mesmo poderia ser vítima dessa racionalidade num médio ou longo prazo. Veja, por exemplo, o produtivismo acadêmico ao qual os pesquisadores estão submetidos; ou a demissão em massa de professores universitários, promovida por uma grande rede de ensino superior privado, revelando sua clara intenção de precarizar ainda mais o trabalho dos docentes e a qualidade do ensino oferecido.

Do ponto de vista moral — e é o que é decisivo para mim — , se eu continuasse a frequentar as aulas como se nada estivesse acontecendo, estaria demonstrando minha anuência com a injustiça que está sendo cometida contra os funcionários técnico-administrativos — os quais têm recebido reajustes salariais proporcionalmente inferiores ao dos docentes, numa clara demonstração de que são tidos como funcionários de “segunda categoria” dentro da universidade. Assim como os outros estudantes do meu curso, entendi que não era possível ficar indiferente a uma tal conduta desrespeitosa.

Dessa forma, a despeito dos riscos que eu sabia existirem — reprovação entre eles — , decidi agir de acordo com a minha consciência. Decidi exercer a minha liberdade. E quando digo liberdade, não me refiro a um acesso irrestrito a tudo que se deseja — como é a liberdade do homem hobbesiano, ou no individualismo liberal. Quando digo liberdade, me refiro àquela capacidade de darmos regras a nós mesmos e agirmos de acordo com elas, tal como propôs Rousseau. E, ao agirmos de acordo com essas regras, adotarmos uma postura verdadeiramente responsável.

De modo que ser livre, nessa acepção, não significa sempre alcançar o sucesso, tomando o êxito como critério de avaliação. A liberdade vem acompanhada de percalços. Contudo, ao agir com liberdade — e, portanto, de acordo com as regras que elaboramos — não é possível contrariar seus princípios. Ou seja, não é possível fazer algo em que não se acredita.

Em suma, esse zero no meu histórico escolar representa muito mais do que uma reprovação. Não o vejo como uma mancha, mas sim como o marco zero da liberdade.

Ou professor ou policial — ou herói ou vilão

Greve de professores

Afinal, quem era esse sujeito?

A foto de Clayton de Souza, da Agência Estado, tirada na tumultuada manifestação dos professores paulistas em 26 de março, tornou-se peça célebre. Não só pela expressividade — aparentemente um manifestante socorrendo uma policial ferida — mas principalmente pela polêmica que se criou em torno dela.

A princípio, pensou-se tratar de um professor, participante da manifestação, o qual heroicamente teria prestado socorro a uma policial atingida por uma paulada. O heroísmo do ato estaria no fato desse suposto professor ter prestado socorro a alguém que estava ali representando a repressão, a força contrária do Estado.

Contudo, dias depois, a versão se transformou. A PM paulista informou que o homem fotografado era um policial, que estava coincidentemente passando pelo local e, em meio ao tumulto, prestou socorro à sua colega. Essa versão, obviamente, gerou grande indignação. Primeiro, por alegar que o fato de o policial estar à paisana na manifestação foi uma coincidência — algo que ofendeu a inteligência dos cidadãos. Em segundo lugar, pelo fato de que se realmente era um policial, este estava infiltrado na manifestação dos professores — no melhor estilo do que acontecia no período da ditadura militar. Pronto, o barbudo da foto de herói passou a vilão.

Nesse desencontro de informações é difícil saber o que é verdade e o que é invenção. Atualmente, todo conflito — e a greve o é — envolve uma “guerra de informação”. E nesse episódio, ouso afirmar que o governo paulista deu um tiro no pé: se o sujeito da foto era um professor, a cena poderá ser usada para exaltar o heroísmo da classe docente; se era um policial, suponho que a imagem anti-democrática da PM será explorada, pelo modus operandi que lembra o dos tempos da ditadura.