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A classe que vive do trabalho –dos outros

“Quem paga a banda escolhe a música”, diz o ditado.

Por analogia, quem enche os cofres da grande mídia faz o que? Coloca Mick Jagger na capa da Exame, pra convencer você que trabalhar até a velhice é para os “vencedores”. Genial!

Só que não.

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A capacidade de aceitar versões distorcidas da realidade é inversamente proporcional ao grau de periculosidade dessa realidade.

Todo mundo já percebeu que a possibilidade de se aposentar, mesmo que em um futuro longínquo, pode se transformar em nada mais que uma doce ilusão.

Assim como antigos sonhos, cultivados num imaginário de classe média, podem virar pó: ter um emprego estável, uma casa própria, constituir família, ver os filhos se formando na universidade, etc.

A política de terra arrasada promovida pelo projeto neoliberal do governo golpista –-também conhecido como “Ponte para o Futuro” ou “a pinguela que temos pra hoje”, conforme o gosto do freguês– veio para colocar o país numa máquina do tempo, em ritmo acelerado rumo ao passado.

Estamos retrocedendo tão rápido que avanços civilizatórios como a legislação trabalhista e o sistema de previdência e seguridade social correm sério risco de virarem peça de museu.

Tudo isso em nome da Santíssima Trindade. “O Pai, o Filho e o Espírito Santo”, certo? Não. Apesar de pautas conservadoras de cunho religioso tomarem cada vez mais a agenda pública, a divindade que exige insaciavelmente o sangue do povo brasileiro é outra, o deus-mercado, cuja Santíssima Trindade é: metas de inflação, superávit primário e câmbio flutuante.

Os sacerdotes –hoje chamados economistas–, intérpretes dos humores do deus-mercado, já nos mostraram a revelação para a salvação nacional: para restabelecer a confiança, cortem tudo! Cortem programas sociais, investimentos em ciência e tecnologia, verbas para a saúde e educação, privatizem, entreguem o pré-sal… tudo em nome do santo “equilíbrio das contas públicas” –-também conhecido como “vai sobrar dinheiro para pagar os juros da dívida pública”.

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Montagem: Sensacionalista

A capacidade de aceitar versões distorcidas da realidade é inversamente proporcional ao grau de ameaça dessa realidade.

As pessoas estão vendo a água subir, há muito passou pela cintura, está chegando no pescoço. E a “fada da confiança” não aparece. E as pessoas estão perdendo seus empregos. E o país está perdendo a esperança.

Chega a ser ridícula essa capa da Exame com o Mick Jagger. A quem eles pensam que enganam? Será que acham mesmo que vão conter a fúria do povo trabalhador, em vias de ser expropriado do direito à aposentadoria, um dos poucos consolos para uma vida marcada pela exploração? Evidentemente, só conseguirão convencer aqueles já convertidos ao culto do deus-mercado.

Mas essa piada de mau gosto tem seu mérito: o de demonstrar cabalmente que, no mundo real, existem interesses conflitantes. Ou, dizendo de maneira mais clara, há uma luta de classes.

De um lado, a classe que vive do seu trabalho, tendo sua dignidade confiscada. De outro, a classe que vive do trabalho dos outros, apropriando-se da cidadania, dos sonhos, do futuro, enfim, da humanidade da outra classe.

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A capacidade de aceitar versões distorcidas da realidade é inversamente proporcional ao grau de crueldade dessa realidade.

O Mick Jagger da capa da Exame só faz sentido para a classe que vive do trabalho –dos outros. Para essa classe, o trabalho pode muito bem se mostrar como uma atividade prazerosa e fonte de realização, suportável até o fim de seus dias.

Para a classe que vive do seu próprio trabalho e, de quebra, sustenta a outra classe, não há como evitar: o trabalho é sofrimento, porque submetido à exploração –um fardo pesado a ser carregado.

Pelo menos, isso agora fica claro. Se não há aposentadoria, a classe trabalhadora não tem nada a perder, a não ser os seus grilhões.

Golpe no Paraguai: o kafkiano impeachment de Lugo

O impeachment do presidente paraguaio Fernando Lugo teve ares de novela kafkiana. Lugo teve seu mandato cassado com base na alegação de “mau desempenho de suas funções”. Ainda que o pretexto para tal acusação tenha sido o conflito que redundou na morte de 19 pessoas, entre policiais e camponeses, o então presidente paraguaio se viu diante de uma verdadeira arbitrariedade, tal qual o protagonista de O Processo, Josef K.

Em que pese o fato de o cenário político não ser favorável a Fernando Lugo — prova disso foi a imensa maioria no Congresso paraguaio que apoiou sua destituição do cargo — , nada justifica que um processo de impeachment seja conduzido em aproximadamente 48 horas. Como alguém poderia instruir-se sobre a acusação que pesa contra si e ainda elaborar sua defesa num prazo tão exíguo? Ainda mais quando se trata de uma acusação tão genérica e de caráter tão subjetivo.

Se fosse em Kafka, talvez Lugo teria algum tempo para se defender.

Nesse sentido, até o personagem de Kafka teve uma melhor sorte. Apesar de ao final de O Processo Josef K. não conseguir descobrir qual o teor da acusação que pesava contra ele, foi-lhe dado tempo para que tentasse tomar providências em relação ao seu processo. Lugo nem isso teve, resignando-se diante de seus algozes.

Quem afirma que o impeachment de Lugo não foi um golpe mostra seu desprezo pela democracia. Se o todo o processo se deu dentro da lei paraguaia — como afirmam os defensores do golpe — , então não se pode considerar o Paraguai como um Estado democrático de direito. Esse evento mostra que a república paraguaia está mais para um Estado kafkiano. Se bem que, em Kafka,  há burocracia e processos burocráticos. No Paraguai, nem isso. Só o golpismo das elites mesmo.