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Copo pela metade

Hoje terminou a participação brasileira na Copa 2014. Uma campanha marcada por altos e baixos. E tantos foram os extremos que tenho dificuldade de dizer se o time brasileiro foi bem ou mal. É como um copo pela metade: uns podem ver como um copo meio cheio, outros como um copo meio vazio.

Antes, algumas palavras sobre o jogo de hoje.

A partida já começou emocionante, com um gol logo no início. Mas o gol foi holandês, para assustar o torcedor brasileiro e lembrá-lo do pesadelo dos 7 gols da Alemanha. Num pênalti mal marcado, em falta cometida sobre o perigosíssimo Robben, derrubado fora da área, Van Persie não desperdiçou a cobrança. Para desespero brasileiro.

Apesar de o time parecer menos perdido em relação ao jogo com os alemães, a zaga brasileira teve mais um apagão. Em que pese o fato de o lateral direito estar em situação de impedimento no lance que originou o gol, David Luiz rebateu a bola cruzada para o meio da área – um erro de principiante. A bola sobrou livre e o holandês Blind só teve o trabalho de empurrar para as redes. Holanda 2 x 0 Brasil.

No que veio a seguir, o time brasileiro até teve uma boa participação, principalmente no segundo tempo. Chances claras de gol, contudo, foram poucas. Uma bola cruzada que passou por Paulinho e Davi Luiz, que não conseguiram empurrar a bola para o gol aberto. O Brasil manteve um domínio estéril da partida, com maior posse de bola, mas sem levar perigo ao goleiro Cillessen.

A Holanda, por sua vez, aproveitou uma das poucas chances que teve. Numa bola perdida por Oscar, que tentou cavar uma falta, os holandeses armaram um contra-ataque fulminante, concluído com um chute de Wijnaldum no canto esquerdo de Júlio César. Placar final: Holanda 3 x 0 Brasil.

Assim, os holandeses ficaram merecidamente com o terceiro lugar da competição. Afinal, a Laranja não perdeu nenhum jogo, já que foi desclassificada pela Argentina nos pênaltis.

Para os brasileiros, o quarto lugar é um copo pela metade.

Para os otimistas, é um copo meio vazio, já que sonhavam com a conquista do Mundial em casa. A conquista da Copa das Confederações, no ano passado, alimentou essa expectativa. Uma expectativa dolorosamente frustrada pela goleada sofrida frente a Alemanha.

Para os pessimistas, pode-se dizer que o quarto lugar é um copo meio cheio. Dado que a seleção não mostrou padrão de jogo em momento algum do campeonato, não é exagero dizer que o time chegou longe ao atingir a fase semifinal. Ainda, considerando que a equipe viveu à beira de um ataque de nervos, diante de toda a pressão de conquistar a Copa em casa, era de se esperar que o desequilíbrio emocional fosse interferir dentro de campo em algum momento.

Então, com o fim da participação brasileira na Copa deste ano, fico com esse sentimento estranho. Não me sinto triste porque acho que o Brasil foi além do que, friamente falando, eu podia esperar. Por outro lado, não posso estar feliz diante das derrotas nesses últimos jogos.

Fico mesmo é com uma pulga atrás da orelha: será o Brasil capaz de reinventar-se? Os dirigentes terão capacidade de promover uma reestruturação do futebol nacional, começando pelas categorias de base? Será que nossa imprensa e nós, torcedores, seremos mais tolerantes com os fracassos imediatos, esperando por resultados em longo prazo (como é justamente o caso da Alemanha)?

Jogadores talentosos nós temos. Uma torcida apaixonada também.

Precisamos agora de humildade para aprender e acompanhar a evolução tática, técnica, física, etc. no mundo da bola. E necessitamos também de melhores organização e planejamento do futebol no país. Essa é uma corrida contra o tempo, que começa neste momento.

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Mineiraço e chuva de gols

A terça-feira começou fria e preguiçosa. Depois de um bom tempo, a chuva deu as caras. Não foi o suficiente para resolver os nossos problemas de falta d’água, mas a chuvinha insistente do início da manhã derrubou a temperatura. E tornou a ida ao trabalho um pouco mais difícil. Foi duro deixar as cobertas para trás e levantar da cama. Depois, foi complicado encarar o trânsito, com os carros extras de quem não queria se molhar. Mau sinal.

Com as ausências de Neymar e Thiago Silva, Felipão surpreendeu com a escalação de Bernard no lugar do principal craque da seleção.

A entrada do ex-jogador do Atlético Mineiro nos deixou com a expectativa de um time ofensivo. O técnico Scolari chegou a treinar a equipe com formações mais defensivas, mas privilegiou um jogador com características mais parecidas com as de Neymar.

Para o lugar de Thiago Silva, já era esperada a entrada de Dante, que atua no futebol alemão e conhecia a maioria dos jogadores da Alemanha, a adversária na tarde de hoje.

Malgrado as ausências de jogadores importantes, era de se esperar que o Brasil fizesse uma boa partida. Isso porque a Alemanha, apesar de ser um time altamente organizado e contar com jogadores de altíssimo nível, teve dificuldades em partidas com adversários menos tradicionais, como EUA e Gana.

Mas nem o torcedor brasileiro mais pessimista poderia adivinhar o que viria a seguir.

O Brasil começou o jogo com boa disposição, mas sem organização. Por outro lado, organização era o que sobrava na seleção alemã.

Enquanto o Brasil insistia em jogadas de ligação direta da defesa para o ataque, a Alemanha tinha uma equipe extremamente compacta, com jogadores próximos e dominando o meio campo.

A supremacia alemã não demorou a dar números ao placar. Logo por volta aos 10 minutos, aproveitando uma falha de marcação, Müller apareceu sozinho na área e escorou uma cobrança de escanteio, balançando as redes.

A equipe brasileira parece ter sentido o gol e não conseguiu se recuperar. Insistindo nas bolas longas, o time continuou sem jogadas de meio de campo. Assim, o domínio continuou sendo alemão.

Logo, a seleção alemã ensinou o significado da palavra Blitzkrieg (guerra relâmpago) e, em poucos minutos, demoliu o sonho do hexacampeonato brasileiro. Aos 21′, Klose balançou as redes, superando o recorde de maior goleador em Copas, anteriormente de Ronaldo Fenônemo. Em seguida, aos 23′, Toni Kroos ampliou a vantagem alemã. Logo em seguida, aos 24′, Kroos anotou mais um. Khedira fechou a humilhação brasileira no primeiro tempo aos 28′: Alemanha 5 x 0 Brasil.

Ninguém parecia acreditar no vexame que acontecia no Mineirão. Era de dar pena as crianças que foram ao estádio, chorando copiosamente diante da humilhação brasileira. Dava vontade de que a seleção brasileira nem voltasse a campo para não sofrer vergonha ainda maior.

Não tinha como ficar pior. Por isso mesmo, o Brasil que veio com Paulinho e Ramires no lugar de Fernandinho e Hulk, teve uma melhora aparente. Chegou a ameaçar o gol de Neuer, que foi obrigado a fazer uma ou outra defesa.

Mas, de fato, o domínio continuou a ser alemão. Desesperado para diminuir a diferença no placar, o time brasileiro deu todo o campo de defesa para o contra-ataque alemão. E não demorou para que os europeus ampliassem a vantagem. Schürrle ainda marcou dois gols, aos 23′ e 33′ do segundo tempo. Impressionante 7×0!

Diante de tamanho domínio alemão, o torcedor que foi ao Mineirão aplaudiu os gols de Schürrle. Depois, ainda gritou “olé” quando os alemães colocaram os brasileiros na roda, com sua troca de passes.

Você já ouviu a expressão “gol de honra”? Pois é. Nunca essa expressão fez tanto sentido. Aos 44′ da etapa complementar, Oscar diminuiu o vexame brasileiro.

Como disse um comentário no Twitter: O Maracanaço de 1950 virou um gasparzinho. Frente a esse Mineiraço, tomando 7×1 da Alemanha, não há dúvida.

O dia, que começou com uma chuva, terminou com outra: uma chuva de gols da seleção alemã. Uma aula de futebol. Que nós, brasileiros, tenhamos humildade para assimilar essa lição. E os alemães, certamente, chegam com muita confiança para a final desta Copa.

O gigante David

Todo mundo conhece a história de Davi e Golias. Do menino que derrotou o gigante, com muita coragem e uma funda nas mãos.

Pois bem. Hoje teve um David, um gigante e muita coragem. A diferença é que o personagem foi um só. E a pedrada não foi lançada pelas mãos, mas partiu do pé direito.

A história foi a seguinte.

O Brasil começou bem a partida contra a Colômbia. O time de Felipão começou sufocando o adversário, marcando pressão. E a estratégia do abafa deu resultado. Logo aos 7 minutos, numa jogada de escanteio, depois de a bola ser desviada no primeiro pau, Thiago Silva apareceu livre na segunda trave, só para empurrar para as redes e sair pro abraço. Gol do Brasil! Gol do “chorão” Thiago Silva, que se emocionou antes da decisão por pênaltis contra o Chile.

O gol deu tranquilidade à seleção brasileira. O que não significa que o time se acomodou e ficou todo encolhido, só segurando o resultado. Pelo contrário. O Brasil continuou a se lançar ao ataque e a marcar a Colômbia na saída de bola. A garra dos jogadores brasileiros também impressionou: David Luiz roubou uma bola no campo de defesa e foi levando, aos trancos e barrancos, até perto da área adversária.

Assim, o time deu algumas chances aos colombianos. Por outro lado, Hulk chegou com boas chances de marcar em três oportunidades. No fim do primeiro tempo, Neymar ainda teve chance de marcar numa cobrança de falta, mas bateu com muita força. Desse modo, o time brasileiro não conseguiu traduzir a superioridade em campo em um placar mais elástico.

Na segunda etapa, o time brasileiro não conseguiu manter o mesmo ritmo. A Colômbia, por sua vez, tinha que sair para o jogo, em busca do empate. Com todo esse ímpeto, o time colombiano tomou a iniciativa e ameaçou a meta brasileira em vários momentos.

A vontade de vencer das equipes acabou transbordando para a violência em muitas ocasiões. A arbitragem, por sua vez, se mostrou muito débil para coibir as jogadas ríspidas. A impressão é de que o juiz tinha esquecido o cartão no vestiário.

Mas não, o cartão estava no bolso. Num lance bobo, Thiago Silva ficou entre o goleiro colombiano e a bola na hora em que este ia chutá-la. O capitão da seleção tomou um pontapé e, de quebra, um cartão amarelo que o tirou da próxima partida.

Quando o torcedor brasileiro já ficava preocupado, eis que surge uma falta para o Brasil, a uns 30 metros da meta colombiana. E eis que surge o gigante David. O zagueiro David Luiz ajeitou a bola, tomou distância e, num chute “de chapa”, mandou uma pedrada. O goleiro Ospina bem que tentou ir na bola – e chegou mesmo a tocá-la com a ponta dos dedos. Mas foi insuficiente para desviar o projétil de David, que caiu no ângulo esquerdo do gol colombiano. Brasil 2 x 0 Colômbia.

A partida ainda reservou emoções.

Aos 35 do segundo tempo, o goleiro Júlio César cometeu pênalti. A jovem revelação colombiana, o meia James Rodriguez, correu para a bola e, a la Neymar, deu uma paradinha e empurrou a bola para as redes. E, assim, deu números finais à partida: Brasil 2 x 1 Colômbia.

No fim do jogo, o fato preocupante. Aos 42 minutos, num lance violento, Neymar tomou uma joelhada por trás de Zuñiga. O craque brasileiro ficou caído em campo e saiu da partida aos prantos. O jogador colombiano sequer cartão amarelo recebeu. Vamos ver o que a FIFA, tão rigorosa com a mordida de Luís Suárez, vai fazer nesse caso. Para os torcedores brasileiros, fica a apreensão com a situação de Neymar.

Depois de uma espera sofrida de 5 minutos de acréscimo, a torcida brasileira pôde, enfim, comemorar a classificação para as semifinais. Do lado colombiano, ficou a tristeza pela eliminação que interrompeu uma brilhante participação nesta Copa.

Neste momento, David Luiz mostrou novamente sua grandeza. Depois do apito final, ele acolheu o craque colombiano James Rodriguez, que chorava a desclassificação. David o abraçou, trocou camisas, e pediu que a torcida brasileira aplaudisse o atleta da Colômbia. Um gesto à altura do gigante David.

Mata-mata de matar do coração

Por várias razões, acompanhei o jogo do Brasil de uma forma diferente. Apesar disso, não consegui escapar do sofrimento que, neste primeiro duelo do mata-mata, quase matou torcedoras e torcedores do coração.

Resolvi assistir a partida num shopping center, já que mais tarde eu teria que passar lá. Quis facilitar minha vida, mas faltou combinar com os russos. Isto é, com os administradores do estabelecimento. Apesar de a praça de alimentação estar aberta, não havia telão ou coisa parecida na área pública. Só alguns restaurantes, no seu espaço reservado, tinham uma TV ligada no jogo do Brasil.

Sem graça de filar a televisão desses restaurantes, resolvi dar uma volta pelas cercanias do shopping. Foi uma espécie de experiência antropológica ver o que acontece enquanto o Brasil está parado para acompanhar a seleção.

As ruas ficam praticamente desertas, e o sinal de trânsito não tem muita serventia nessa calmaria. Um ou outro ônibus circula enquanto a bola rola. Poucos carros transitam, alguns ao som de um batidão – para impressionar quem é a questão. Aliás, o que me impressionou foi um golzinho tocando Danúbio Azul (!?). Bom, tem mesmo louco pra tudo nesse mundo.

Mas em cada esquina tem uma padaria, um restaurante, um boteco, um salão de cabeleireira, todos ligados no jogo do Brasil. A voz do Galvão Bueno ecoa pela rua vazia. Mas os gritos da torcida surgem do nada, prenunciando um lance de perigo. O que eu não sei é se o Brasil passou perto do gol, ou se passou um susto.

Continuo andando e os rojões estouram não muito longe de onde estou. “Gol do Brasil”, logo penso. Ando mais um pouco, e mais rojões. “Esse jogo está no papo”, concluo. Mas não demoro a perceber que estava enganado. Passando em frente a um bar, ouço a narração: “trinta minutos do segundo tempo, Brasil 1, Chile 1”. Algum chileno andou estourando rojões.

Nessa altura já estou voltando ao shopping e, sinceramente, penso no pior. Ou, naqueles discursos que a gente elabora para se consolar. “Essa seleção era boa, mas não o suficiente pra aguentar toda essa pressão”, vou pensando. E, sem ser desmentido nem corroborado pelos fogos de artifício, retorno ao meu ponto de partida.

E, quando chego lá, o jogo já está na prorrogação. E continua um a um. O que mudou é que estou cansado e já não sinto vergonha de ficar filando a TV do restaurante, nem a da loja de eletrodomésticos, nem a da loja de materiais de construção. E, em cada uma delas, vou acompanhando o sofrimento brasileiro, junto com o pessoal que vem chegando para o trabalho – já que as lojas, em sua maioria, abririam em poucos minutos, às 16h.

E junto com esse pessoal, vibrei nos últimos minutos. Passei raiva com a incapacidade do time brasileiro criar chances de gol. Gelei com a bola na trave após o chute do atacante chileno, nos minutos finais da prorrogação. Vi, enfim, chegar a hora dos tão temidos pênaltis.

Aí não tinha mais o que fazer. E, nessa hora, todo mundo deu um jeito de parar o que estava fazendo para torcer pelos brasileiros e secar os chilenos. Quando um jogador de camisa amarela ia para a cobrança, o que se ouvia eram os gritos de “Bra-sil! Bra-sil! Bra-sil!” Por sua vez, quando era um boleiro de camisa vermelha, o grito era “Pra fora! Pra fora! Pra fora!” Não sei até que ponto isso dava sorte, mas ajudava a aliviar a tensão.

O Brasil até começou bem a série, acertando a primeira cobrança com David Luiz e, sobretudo, com Júlio César defendendo os dois primeiros pênaltis chilenos. Logo depois da segunda defesa, eu já estava aliviado.

Mas o alívio durou pouco. Foi só o tempo de Willian e Hulk desperdiçarem as cobranças pela seleção brasileira, e os chilenos converterem seus chutes, empatando a série. Em poucos minutos, eu que estava confiante, agora dava a derrota como certa.

Neymar foi o responsável pela última cobrança brasileira. Eu pensei que desta vez ele não daria conta do peso daquele Mineirão lotado sobre seus ombros. Ou melhor, do país inteiro. Mas, mais uma vez, a frieza e a personalidade do garoto me surpreenderam. E, com paradinha e tudo, ele converteu sua cobrança.

Assim, todo o peso foi parar nas costas do batedor chileno, cujo nome agora não recordo – e acho que ele deve estar me agradecendo por esse lapso. Isso porque ele correu pra bola, bateu forte, tirou do goleiro. Mas tirou tanto que a bola bateu forte na trave esquerda de Júlio César. Forte o bastante para fazer desmoronar o sonho chileno de seguir em frente na competição. Forte o bastante para o torcedor brasileiro soltar o grito de alegria entalado na garganta, depois de 120 minutos de jogo e de uma angustiante série de penalidades. Resultado: Brasil na próxima fase, batendo o Chile nos pênaltis por 3 a 2.

Pra começar bem a semana

A semana começou preguiçosa nessa segunda-feira com jogo do Brasil. Fala sério, pra que expediente hoje? Como se alguém conseguisse ser muito produtivo em poucas horas de trabalho numa segundona. Quando finalmente consegui entrar no ritmo, já estava na hora de bater o ponto e ir embora. Mas se assim o deus-trabalho fica mais satisfeito, que seja feita a sua vontade!

Cheguei em casa, ainda deu tempo de assistir a etapa final de Holanda e Chile. Um jogo meio amarrado, com raras chances. Parecia que os jogadores ainda estavam com um pouco de preguiça, em ritmo de fim de semana. Também, ambos os times já estavam garantidos na próxima fase da Copa. A única coisa que estava em jogo era o primeiro lugar no grupo e, prevalecendo a lógica, quem evitaria enfrentar o Brasil já nas oitavas-de-final. A partida só ficou um pouco mais agitada depois que a Holanda abriu o placar. O Chile partiu para o ataque, tentando reverter a vantagem. Mas deixou espaço para o contra-ataque, e a “Laranja Mecânica” ainda anotou mais um tento.

O tempo custou a passar até o começo do jogo do Brasil contra Camarões. A espera pelo início da partida parece ter sido dura também para os jogadores. Foi só o juiz dar o apito inicial que os boleiros da nossa seleção se lançaram atrás da bola, com um apetite até então não demonstrado por esse time na Copa. Tanto que logo nos primeiros minutos o Brasil criou boa chance de marcar.

Mas esse ímpeto inicial, essa vontade de vencer, chegou mesmo a se confundir com afobação. O time brasileiro pressionava a seleção de Camarões, mas de forma desorganizada. Não demorou muito para que o time africano equilibrasse as ações no jogo. Os jogadores brasileiros, muito pilhados, erravam as jogadas e davam oportunidades ao adversário.

Eis que aparece o craque. Aos 15 minutos, numa jogada originada numa roubada de bola, Neymar recebeu o cruzamento de Luiz Gustavo e desviou com um leve toque, suficiente para tirar o goleiro e mandar a bola para a rede. O Brasil abriu o placar.

O Brasil se tranquilizou após o gol. Porém, insistiu em jogadas de lançamento, fazendo a ligação direta da zaga para o ataque, sem reter a bola. Isso dava chances para investidas de Camarões. Os africanos chegaram a acertar o travessão numa jogada de escanteio. No lance seguinte, aproveitando a desorganização da defesa brasileira, os africanos chegaram ao empate. Matip fez o gol camaronês, aos 25 minutos.

Após a igualdade no placar, a tônica do jogo continuou a mesma: o Brasil pressionando, mas abusando dos lançamentos; e os camaroneses tentando explorar as oportunidades de contra-ataque. Mais uma vez, quem tirou o jogo da mesmice foi Neymar. Enquanto os outros atacantes ficavam estáticos, esperando a bola chegar, ele se mexia, buscando as jogadas. Num lance em que Marcelo recuperou com rapidez a bola no campo ofensivo, ele recebeu o passe, conduziu a redonda pelo meio, se livrou do marcador e chutou firme, para anotar mais um gol na partida. Com mais esse trunfo, o jovem craque assumiu a artilharia do torneio.

E o Brasil foi para o vestiário com a vantagem no placar. Na volta para o segundo tempo, uma mudança: Fernandinho no lugar de Paulinho. A alteração deu mais consistência ao meio campo, tanto defensiva como ofensivamente. A seleção parou de abusar das ligações diretas, começando a tocar mais a bola de pé em pé.

Com a melhora evidente, as chances começaram a aparecer. Logo aos 4 minutos da etapa complementar, David Luiz se aventurou na ponta esquerda, cruzou para o meio da área e Fred, até então muito criticado, empurrou de cabeça para as redes. Foi o fim do jejum do camisa 9 nessa Copa.

A vantagem no placar deu ao técnico Felipão a possibilidade de tirar o craque de Neymar de campo, evitando que ele tomasse o segundo cartão amarelo no torneio e ficasse de fora da próxima partida. Mesmo sem a presença do craque, a seleção brasileira continuou a exibir um bom futebol, que foi recompensado com mais um gol: Fernandinho deu números finais ao placar, completando com oportunismo uma bela jogada do time canarinho.

Resultado final: Brasil 4 x 1 Camarões. Goleada da seleção brasileira, pra dar confiança nas oitavas-de-final. Jogo de bom futebol, pra começar bem a semana.

Empate apático

Dia do segundo jogo do Brasil. Como no último dia 12, voltei mais cedo do trabalho, para assistir ao jogo da seleção. Como na última quinta-feira, muito verde e amarelo pelas ruas e bandeirinhas nos carros. Mas – talvez seja impressão minha – a vibração das pessoas era menor que na estreia.

Talvez não seja só impressão. E quem sabe não apenas nós, meros mortais que assistem à Copa pela televisão, estávamos menos vibrantes. O que se viu em campo no estádio do Castelão parece confirmar essa impressão.

Muito embora a torcida tenha, novamente, dado seu espetáculo à parte ao entoar o hino nacional – levando Neymar às lágrimas –, o time não correspondeu ao carinho do torcedor. Quem foi ao estádio certamente saiu com uma pontinha de decepção com o zero a zero no placar. Para quem viu pela TV, o resultado foi igualmente frustrante, apesar de uns R$ 100 mais barato.

O primeiro tempo foi sonolento. Sim, não encontro melhor adjetivo que sonolento, que rima com lento – o ritmo da seleção brasileira. O Brasil, apesar do domínio da partida, pouco fez. A maior posse de bola brasileira foi estéril. Tirando uma ou duas oportunidades, a seleção canarinho pouco perigo levou à meta mexicana. Quando chegou, o goleiro Ochoa se mostrou uma verdadeira muralha. Destaque para a bela defesa de uma bola cabeceada à meia altura por Neymar.

Na primeira etapa, o México pouco fez. Ficou recuado, à espera de encaixar um contra-ataque, aproveitando a velocidade dos seus atacantes – Giovani dos Santos e Peralta. O contra-ataque, porém, não veio. Os zagueiros brasileiros ficaram bem posicionados e não permitiram ofensivas perigosas pela equipe mexicana no primeiro tempo.

No segundo tempo, porém, a história mudou. O México pressionou a seleção brasileira em muitos momentos, levando muito perigo ao goleiro Júlio César em chutes de fora da área. Felizmente, para nós brasileiros, nenhuma dessas bolas entrou.

Do outro lado, o goleiro Ochoa continuou fazendo grandes defesas, frustrando a expectativa de vitória da torcida brasileira. Sem dúvida, o arqueiro mexicano saiu como o grande destaque da partida, garantindo o empate sem gols.

Mas, além de Ochoa, podemos colocar o empate na conta da má atuação de alguns jogadores brasileiros, que pouco fizeram. Fred pouco se mexeu. Paulinho perdeu a maioria dos lances. Oscar não foi nem sombra do leão que foi na estreia. Daniel Alves foi tímido na parte ofensiva. Bernard não teve toda aquela “alegria nas pernas”. Nem mesmo Neymar foi o grande craque com que estamos (mal) acostumados.

Uma pena.

Hoje foi dia de um empate apático.

Um dia em verde e amarelo

Acordei cedo para ir ao trabalho. Hoje o horário era diferenciado, por conta do jogo da seleção. O que uma Copa do Mundo não faz?

De fato, não era um dia comum. Os carros e ônibus transitavam agitadamente – muitos carregando bandeirolas do Brasil. As pessoas, numa combinação inconsciente, em sua maioria, trajavam alguma peça com a cor da bandeira: uma camisa amarela, uma blusa verde, um lenço azul… Era difícil resistir ao clima de festa.

Ainda mais quando ela acontece no “nosso quintal”. Eu, recusando qualquer complexo de vira-lata, achei uma beleza a abertura do evento no Itaquerão. As linhas arrojadas do estádio, a empolgação da torcida, a sensualidade da Cláudia Leite e da J-Lo, o chute inicial do rapaz paraplégico no exoesqueleto do Nicolelis… Permiti a mim mesmo deixar de lado, por um instante, meu lado crítico e entrar na patriotada. E, a despeito de todas as críticas que a realização da Copa no Brasil pode receber, me permiti achar tudo aquilo sensacional.

Confesso que cheguei a me comover. Inevitável, veio a lembrança de que esta é a primeira Copa sem minha avó. Ela que gostava tanto do futebol e da seleção. Gostaria que ela pudesse ter visto tudo isso. Mas depois me dei conta de que, de certo modo, ela viu – através dos meus olhos, porque mora no meu coração. Então, percebendo isso, alegrei-me.

Veio a tão esperada hora do jogo. Antes de a bola rolar, um espetáculo à parte da torcida entoando o hino nacional. É impressionante o que o futebol é capaz de fazer, colocando 60 mil pessoas cantando em uma só voz. Isto é, 60 mil só em Itaquera. Tirando os contrários, que merecem todo o respeito – e não porrada, como vem sendo distribuída prodigamente pelas forças de repressão -, acredito que o país todo entrou nesse coro.

A partida começou e os brasileiros pareciam querer baixar a adrenalina – alta demais numa situação dessas. Os jogadores tentavam tocar a bola de pé em pé, mas se expunham demais ao contra-ataque dos croatas. Não demorou muito para a seleção brasileira ser traída pelos nervos. Aos 10 minutos, num ataque rápido dos “brasileiros da Europa”, Marcelo acabou empurrando a bola contra a própria meta. Nesse momento eu temi que o desequilíbrio emocional pudesse tomar conta do time brasileiro e colocar tudo a perder.

No entanto, a equipe brasileira absorveu bem o impacto e passou a pressionar a Croácia. Num lance de raça e genialidade, Oscar roubou a bola e passou para Neymar, que achou espaço para desferir, de fora da área, um chute de precisão cirúrgica: a bola entrou no gol passando rente à trave esquerda do goleiro croata, que nada pôde fazer para evitar o empate. A vibração tomou conta do estádio. Aqui no meu prédio o silêncio foi rompido pela gritaria da comemoração dos vizinhos.

neymar

O primeiro tempo terminou empatado. A etapa complementar começou morna, sem muitas chances para ambos os lados. Logo o Brasil começou a tomar a iniciativa e se impor na partida. A pressão, contudo, era estéril. Nada de gols, nem lances muito agudos.
Mas a história do jogo mudou. E o personagem não foi nem brasileiro, nem croata. Eis que surgiu um protagonista improvável: o árbitro japonês, Yuichi Nishimura.

Num lance polêmico, em que o atacante Fred desabou depois de receber a bola na área croata, o juiz apitou pênalti. Dizem que penalidades mal marcadas não são convertidas. Neymar ajeitou a bola na marca de cal. Tomou distância e partiu para a bola. “Boa, vai ser gol na certa”, pensei. Mas, no meio do caminho, ele interrompeu a corrida triunfante e deu uma paradinha. Nessa hora me lembrei daquela máxima sobre pênaltis mal marcados. “Pronto, ele vai recuar a bola pro goleiro”, praguejei. De fato, ele bateu muito mal. O goleiro chegou a tocar na bola. Mas, ainda assim, não conseguiu evitar o novo trunfo brasileiro. Mais um gol! O segundo de Neymar.

A partir daí, o Brasil passou a controlar a partida, acompanhando a empolgação dos torcedores no estádio. Mesmo assim, continuou se expondo aos contra-ataques da Croácia. Em outro lance muito contestado, os croatas chegaram a marcar. Mas o gol foi anulado, pois o juiz viu falta do atacante sobre o goleiro brasileiro.

E assim, os sustos foram se sucedendo. A torcida não teve sossego quase até o apito final. O alívio só veio aos 44 do segundo tempo, de um chute de bico de Oscar, que veio premiar a dedicação do meia franzino durante toda a partida. Seu gol deu números finais ao jogo: Brasil 3 x 1 Croácia.

O que se seguiu à vitória brasileira na estreia da Copa do Mundo parece refletir exatamente o sentimento dos diferentes grupos em relação ao torneio.

Os autênticos representantes viralatismo brasileiro se lamentam pela “ajuda” do juiz no jogo e pelo que julgam um “fiasco” na abertura do evento (para estes, nada pode ser perfeito abaixo da linha do Equador).

A maior parte, contudo, parece não ter resistido ao clima de festa. Vestiu verde e amarelo, vibrou durante a partida e, após a vitória, saiu para comemorar.

Não que nossas mazelas devam ser esquecidas. Mas hoje, com licença, quero me juntar a essa maioria. Quero curtir esse dia em verde e amarelo.