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Mais brutal que a ficção

Massacre de Denver: mais brutal que a ficção. Ilustração de Carlos Lattuf.

Dessa vez, o cavaleiro das trevas nada pôde fazer. Pois não se tratava da fictícia Gotham City, mas da real, demasiado real, cidade de Denver, no Colorado. O massacre foi consumado bem à frente do homem-morcego, sem que o perpetrador fosse detido. Também pudera: havia uma tela de projeção a separar Batmam e o atirador solitário, o herói fictício e o vilão da vida real.

Apesar dessa distância intransponível entre ficção e realidade, ainda assim há algo que as conecta. Como diz aquela sentença matrixiana: “há realidade na sua ficção e ficção na sua realidade”. Ironicamente, ao se entregar à polícia, eis que o criminoso assumiu a identidade de um arqui-inimigo do justiceiro mascarado: “Sou o Coringa”, disse.

No entanto, enquanto do lado de Gotham City tudo não passa de pirotecnia hollywoodiana, do lado de cá da tela restam os mortos e feridos — e sangue derramado no chão. Do lado de cá, tudo é mais brutal que a ficção.

Diante da desconcertante absurdidade do acontecimento, ninguém sabe bem como reagir.

Uns se dizem abalados e expressam suas condolências. Se o fazem com sinceridade é difícil saber, já que não se trata da primeira tragédia do gênero e, infelizmente, talvez não seja a última.

Outros, por sua vez, ficam indagando sobre as razões e desrazões que levaram ao crime. Loucura? Expressão do mal-estar na civilização? Algum tipo de prazer perverso? Muito ainda se especulará. Se a alguma conclusão irá se chegar, só o tempo dirá. Creio que a utilidade do conjecturar está, para além de encontrar alguma resposta, em desviar nossa atenção daquilo que nos incomoda: a frieza do carrasco, a fragilidade do ser humano, a absurdidade da vida, que pode acabar a qualquer momento, sem um aviso nem um porquê.

Num mundo regido pelo imperativo da felicidade, paradoxalmente, a regra é a frustração. Afinal, não é possível haver “vencedores”, para quem os holofotes se dirigem, se não houver “perdedores”. Como dizia Quincas Borba, “ao vencedor, as batatas”. Podemos completar, “ao perdedor, a frustração”. Como os “vencedores” são minoria, com tanta frustração não é difícil encontrar um maluco na esquina, disposto a tudo para se vingar da “injustiça do mundo”. E a vítima pode ser qualquer um.

De qualquer forma, não há mais a quem recorrer. O mal está feito. Não adianta chamar o Batman ou qualquer super-herói. Mesmo que fossem de carne e osso, duvido que conseguiriam evitar a barbárie que brota da moderna civilização capitalista.

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Agências de rating — ou, os oráculos do deus-mercado

Lula, quando presidente, eternizou o bordão “nunca antes na história desse país”. Sempre que queria salientar as realizações do seu governo, lá vinha ele com essa expressão, que se tornou marca registrada. Mas o “nunca antes” pode também ser motivo de constrangimento. Nessa situação se encontra Barack Obama. Pela primeira vez na história, o rating — a classificação de risco — dos títulos da dívida pública americana foi rebaixado. A agência de classificação de risco Standard&Poor’s, na noite da última sexta-feira, anunciou o rebaixamento do conceito de “AAA” para “AA+”, com viés negativo.

É bem verdade que esse “feito” não deve ser atribuído exclusivamente ao presidente norte-americano, mas também aos congressistas republicanos e democratas. A dificuldade de se chegar a um acordo sobre a elevação do teto da dívida americana, com pouca disposição para negociar de ambos os lados; assim como a solução pouco efetiva trazida pelo acordo para a crise fiscal norte-americana foram os principais motivos alegados pela S&P para determinar o rebaixamento do conceito. E nem adiantou o Tesouro dos EUA apontar um erro de US$ 2 trilhões nos cálculos da agência de rating.

O fato é que todo o mundo já via as dificuldades dos EUA lidarem com seus problemas fiscais, bem como a fragilidade da recuperação da economia americana após a crise de 2008. O que mudou é que o rebaixamento do rating  por uma renomada agência de risco dos EUA (uma agência chinesa já havia feito esse rebaixamento antes) parece ter autorizado esse diagnóstico. E, desse modo, permitido àqueles que estavam calados que deixassem o silêncio e criticassem a política econômica de Washington. Agora a crítica não estava baseada no prognóstico de algum lunático antiamericano, mas passou a fundamentar-se num dos grandes pilares do sistema financeiro internacional: as agências de rating — ou, os oráculos do deus-mercado.

Os oráculos de Wall Street não anunciam um futuro brilhante para os EUA. Foto: Benjamin Dumas

E as críticas à política econômica americana vieram de várias partes. Primeiramente, da própria S&P, que expressou sua insatisfação com o acordo para a elevação do teto da dívida. Além das dificuldades político-institucionais do processo de negociação, o fato de o acordo não ter previsto a elevação de impostos pesou negativamente na avaliação.

A China também não deixou de manifestar sua insatisfação com Washington. Os chineses, maiores detentores de títulos da dívida americana, criticaram duramente a política econômica baseada no endividamento. E mandaram um recado para os EUA de que “os bons tempos acabaram”. Além disso, ganha força a ideia de se substituir o dólar como moeda padrão para as trocas internacionais. Essa substituição significaria a ruína de um dos pilares que sustenta a hegemonia norte-americana no mundo, que vem da capacidade de emitir a moeda que ficou no lugar do padrão-ouro.

Os representantes do governo norte-americano, por sua vez, tentam minimizar o rebaixamento da avaliação de risco. Segundo eles, os títulos da dívida americana continuarão sendo alvo da procura dos investidores de todo o mundo, em virtude da sua elevada liquidez.

O fato é que os EUA terão de enfrentar a capacidade das agências de rating fazerem previsões que se autorrealizam. O rebaixamento do rating da dívida americana significa um risco maior de que esse compromisso não seja cumprido. É bem verdade que o rating “AA+” ainda é extremamente elevado. No entanto, se esse rebaixamento significar uma maior dificuldade de os EUA colocarem seus títulos no mercado, logo ela implicará numa elevação dos juros que remuneram esses títulos. O aumento de juros, por sua vez, além de aumentar as despesas do governo com o serviço da dívida (pagamento de juros), pode aprofundar ainda mais a tendência de que a economia americana entre em recessão. Em se confirmando essa tendência recessiva, é muito provável que a diminuição da atividade econômica se reflita numa menor arrecadação de impostos pelo governo americano. Com despesas crescentes e receitas decrescentes, não é preciso dizer, aumenta o risco de calote.

Wall Street mandou seu recado a Washington: “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Conseguirão os EUA provar que os oráculos do deus-mercado estavam errados, e retomar as rédeas do seu destino? Quem viver, verá.

Obama e a crise da dívida: a fraqueza do homem mais poderoso do planeta

Depois de semanas de tensão, finalmente, o governo dos EUA conseguiu aprovar a elevação do limite máximo de endividamento público, medida indispensável para que o país evitasse o calote. Sem uma ampliação na capacidade de endividamento do Estado, que já atingia o teto de US$ 14,3 trilhões, seria impossível honrar os compromissos do governo norte-americano. Essa situação vexaminosa foi evitada, pelo menos momentaneamente. Obama deve ter respirado aliviado hoje, quando sancionou a lei que autoriza a ampliação do teto da dívida.

Porém, foi uma vitória de Pirro. Tanto para os congressistas, republicanos e democratas, quanto para o próprio Obama. Sobretudo para o sistema democrático norte-americano. O acordo, embora tenha evitado o vexame do calote, parece ter desagradado a gregos e troianos — ou, seria melhor, a democratas e republicanos. Pesquisas de opinião revelaram que boa parte dos americanos consideraram que seus líderes se comportaram como “crianças mimadas”.  A perda de popularidade de Obama se manifestou inclusive no Twitter, onde o presidente perdeu 36 mil seguidores, por utilizar seu perfil para enviar mensagens sobre a crise da dívida.

O que ficou evidente, de todo modo, foi a fraqueza de Obama na condução das negociações para a elevação do endividamento. De acordo com a análise de Paul Krugman, essa foi apenas mais uma derrota do presidente, que já havia sido “dobrado” pelos oponentes  republicanos, como na questão da reforma do sistema de saúde.

O fato é que o acordo não resolve nem de longe os problemas fiscais do governo americano. A ênfase do acordo é no corte de despesas e, provavelmente, quem mais sairá perdendo são aqueles que dependem dos programas sociais — muito embora esteja prevista a possibilidade de se efetuarem cortes na área militar. Contudo, nada é previsto quanto ao aumento da tributação sobre os mais ricos. Isso implica numa política econômica contracionista, o que em nada contribui para aliviar o grande problema que assola os EUA, o desemprego. Pelo contrário, a inibição do gasto público para estimular a economia deve contribuir para que ela continue descendo ladeira abaixo.

A crise da dívida deixou clara a pusilanimidade do líder da nação mais poderosa (ainda) do mundo. O homem mais poderoso do planeta, ou pelo menos quem deveria ser, demonstrou toda a sua fraqueza. Obama, se não leu, deveria ter lido O Príncipe, de Maquiavel.

Wikileaks: desnudando o Leviatã

A revelação de informações de Estado confidenciais, pelo site Wikileaks, têm tirado o sono de muitos estadistas em todo o mundo. Não é para menos. Até agora, as informações divulgadas pelo site já causaram diversos constrangimentos a Washington diante de outros países, ao expor o “lado espião” dos seus diplomatas. Os vazamentos têm repercutido até no Brasil, com destaque para o caso do Ministro da Defesa Nelson Jobim, apontado como um importante colaborador dos norte-americanos. Entretanto, as revelações não representam grandes novidades, se tomarmos as teorias conspiratórias — apenas confirmam algumas delas.

E é o fato de confirmá-las, de desnudar as intrigas de Estado e os verdadeiros interesses subjacentes às políticas internacionais que tem provocado toda a repercussão violenta em relação ao Wikileaks e seu dono, o australiano Julian Assange. Coincidentemente ou não, por ocasião dos primeiros vazamentos, Assange tornou-se procurado da Justiça sueca sob a acusação de abuso sexual.  Dizem as más línguas que o que se pretende, de fato, é prender Assange na Suécia e em seguida extraditá-lo para os EUA, onde vários parlamentares já pedem sua cabeça.

Muitos acusam o Wikileaks de irresponsabilidade: a revelação desses segredos poderia colocar inúmeras vidas em risco. Pode ser verdade. Mas o contrário também é verdadeiro: quantas vidas não estariam em perigo se essas informações não viessem a público? Parece que estamos diante de um copo com água pela metade: se ele está meio cheio ou meio vazio, depende de quem olha.

Wikileaks: os segredos de Estado nunca serão os mesmos

O fato é que há quem acuse Assange de terrorista. A perseguição ao hacker-jornalista, empreendida de forma enérgica, parece confirmar essa opinião, principalmente por parte dos EUA.

Mas, lembremos, foi justamente nos EUA, após os atentados de 11 de setembro de 2001, que se iniciou uma verdadeira neurose em relação ao terrorismo. Neurose que justificou a violação da privacidade de cidadãos norte-americanos e estrangeiros — de passagem pelo território americano — sem precedentes. A pátria que se orgulhava de ser a terra da liberdade se submeteu de bom grado ao controle sistemático dos seus cidadãos por parte do Estado, tudo em nome da segurança e da “Guerra ao Terror”. Uma terra em que a Carta Constitucional se inspira em John Locke, em que o indivíduo estaria protegido do abuso do Estado, parece ter cedido ao medo que apavora o homem hobbesiano, submetendo-se docilmente ao Leviatã.

Mas, o que não estava no script era o surgimento de alguém no meio da multidão disposto a desnudar o Leviatã. Obviamente a reação daqueles que detêm o poder não poderia ser diferente diante dessa ousada iniciativa. Ainda mais quando os cidadãos podem despertar desse estado de medo fomentado pelos próprios Estados e, assim, lutar para recolocar os “pingos nos is”. Afinal, por que os Estados, que cuidam dos interesses públicos, deveriam ter segredos perante seus cidadãos? E por que seus cidadãos deveriam escancarar sua privacidade para os Estados?