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Eleições 2010: o processo democrático e a ditadura do espetáculo

Estamos na reta final do 2º turno das eleições presidenciais deste ano. Daqui a pouco mais de 10 dias conheceremos o novo presidente da República. Até lá, diante do tom agressivo das campanhas e o crescente acirramento dos ânimos, podemos esperar de tudo — menos o debate sobre projetos que realmente interessam ao país.

De fato, a campanha tucana tem dado o tom da agressividade, da espetacularização e do baixo nível da disputa eleitoral — e o consequente esvaziamento do debate político –, valendo-se de uma ofensiva dupla: por um lado uma frente liderada pela grande mídia — nos termo de Paulo Henrique Amorim, o PIG (Partido da Imprensa Golpista) –, a qual se encarrega pela veiculação seletiva dos fatos, conforme a conveniência destes aos interesses serristas; por outro lado, uma “operação subterrânea” de difamação da candidata petista, realizada por meio de correntes de e-mails apócrifos na internet, de ligações telefônicas anônimas por centrais de telemarketing, além da difusão de boatos por meio de lideranças religiosas ultraconservadoras.

Acuada, num primeiro momento, com tamanha agressividade dos adversários e com a impassividade dos coordenadores da campanha, a militância do PT chegou a se abater com a situação. No entanto, com a mudança no tom da campanha petista, adotando também uma postura mais agressiva — principalmente após a chegada de Ciro Gomes –, a militância parece ter recuperado o ânimo e voltado a vibrar. Diante da “ameaça” tucana, não apenas a militância, mas intelectuais, artistas e religiosos passaram a se reunir e expressar publicamente seu apoio à candidatura de Dilma Rousseff. Exemplo disso foi o ato realizado nessa segunda-feira no Teatro Casagrande, no Rio de Janeiro, que contou com a participação de Chico Buarque, Leonardo Boff, Oscar Niemeyer, entre outros ilustres artistas e intelectuais.

De todo modo, em meio a toda “guerra” de propaganda e espetacularização da campanha eleitoral, questões relevantes como a reforma política, as propostas para o desenvolvimento, inclusão social, meio ambiente, entre tantas outras, ficaram à margem. Tornaram-se centrais questões sobre as opções religiosas dos candidatos, bem como suas opiniões sobre o aborto, além da proximidade de ambos os candidatos com eventuais esquemas de corrupção — tornando os personagens Erenice Guerra e Paulo Preto nos grandes coadjuvantes destas eleições. Em suma, o debate racional em torno das questões relevantes para o país se vê marginalizado em detrimento de uma disputa com forte caráter emocional em torno da defesa deste ou daquele candidato.

Incidente envolvendo Serra no RJ: verdade do espetáculo vs. espetáculo da verdade

Essa tem sido a dinâmica do segundo turno até aqui: muitas denúncias, boatos, acusações e nervos à flor da pele. E o último resultado dessa fórmula explosiva foi o tumulto envolvendo José Serra, provocado por um enfrentamento entre manifestantes de ambos os lados, no qual o candidato tucano teria sido atingido na cabeça por um objeto (bola de papel, fita crepe ou as duas coisas). Mais um incidente espetacularizado pela mídia, matéria-prima de novas trocas de acusações e mais lenha na fogueira dos já exaltados ânimos dos militantes.

A se confirmar essa tendência — e dada a clara intenção da campanha tucana de lançar mão de qualquer meio para atingir seus fins –, o que se pode esperar para 31 de outubro é uma verdadeira “final de campeonato”, da qual é difícil dizer qual dos dois candidatos se sagrará vencedor. A única coisa que pode ser dita desde já é que o processo democrático foi derrotado pela ditadura do espetáculo.

É inacreditável!

Você acredita em duendes?

Profissão de fé do eleitor brasileiro

Aproveitando que as questões de cunho religioso se mostram tão determinantes nas eleições brasileiras, nada melhor que publicar uma oração para o eleitor brasileiro: uma profissão de fé. Uma oração tão necessária quando um processo eleitoral simplesmente não pode ser auditado, pela falta da materialidade do voto — o “papelzinho”. É isso: muita fé na hora do voto, eleitor brasileiro!

Creio na Santa Urna Eletrônica: ela jamais falha!

Creio no TSE todo poderoso,
Dono do processo eleitoral brasileiro.
E na urna eletrônica, sua obra-prima, nosso orgulho.
Que foi concebida pelo poder de Marco Aurélio Mello,
E exaltada por Nelson Jobim.
Nunca foi objeto de fraude,
Nem da menor suspeita,
Porque é segura, hermética, inviolável:
Fruto da mais moderna tecnologia!
Foi adotada no processo eleitoral brasileiro,
Em todo país,
Onde há de determinar o destino dos 4 próximos anos.
Creio no TSE,
na santidade dos seus ministros,
na honestidade dos seus agentes,
na santa Tecnologia,
na Urna Eletrônica,
na democracia brasileira.
— Amém!

Política, eleições, convicção e responsabilidade

A pouco mais de duas semanas das próximas eleições, senti-me na obrigação de escrever algo sobre a política: assunto tão valorizado por um lado, notadamente pela propaganda do TSE que ressalta o poder de decidir o futuro por meio do voto; e, ao mesmo tempo, tão banalizado e ridicularizado como atesta o lema da campanha do palhaço Tiririca: “pior que tá não fica”. Essa dicotomia revela o quão espinhosa é a questão da política, e o que eu procurarei fazer a seguir é expor o meu ponto de vista.

Primeiramente, acho importante delimitar o campo da política partidária, no qual ocorrem as eleições, isolando-o de outros campos nos quais a política se manifesta. Em seguida, vou me deter sobre o campo da política partidária, utilizando as concepções de ética da convicção e ética da responsabilidade formuladas por Max Weber, procurando fornecer uma leitura possível sobre o “fenômeno” das eleições.

As várias faces da política

Política envolve poder. E poder implica a capacidade de alguns influenciarem a atitude de outros, a despeito da vontade destes últimos. A política envolve conflito. Quando digo conflito, não suponho necessariamente hostilidade, mas simplesmente desacordo sobre determinada decisão de alcance coletivo. De modo que o conflito pode muito bem ser superado mediante uma solução racionalmente formulada entre as partes envolvidas, por meio do diálogo. Mas nem tudo são rosas e, não raro, a resolução de conflitos pode envolver o recurso à força, ao uso da violência. Temos assim, com base nesses distintos meios de superação do conflito, duas concepções muito diferentes de política: por um lado, a política entendida como o exercício de uma vocação humana (do homo politicus, de Aristóteles), como a busca do bem comum mediante a fala no espaço público — concepção que pode ser identificada com Hannah Arendt –; e por outro lado, a política tomada como a luta pelo poder do Estado, instância detendora do monopólio do uso legítimo da violência, por meio do qual se faz possível a imposição das decisões por partes daqueles que o dominam — na formulação de Max Weber. Além dessas duas concepções, a política pode ser formulada em diversos outros contextos e abrangências, mas para o que nos interessa, basta fazer essa oposição em diferentes pólos para ter uma ideia da complexidade da questão.

Nesse contexto apresentado, vejo que a política partidária adequa-se melhor à segunda concepção, de luta pelo poder do Estado. De fato, o que são as eleições senão a disputa entre partidos por posições de poder, por meio das quais eles podem obter vantagens e fazer valer seus interesses? Ou alguém acha que algum partido vive tão-somente de ideologia?

Ainda que a ideologia tenha seu papel na arregimentação de quadros e militantes para um partido, além da importância como meio de legitimação de sua ação política, existem interesses outros, mais imediatos. A racionalidade que move os partidos é a racionalidade instrumental com respeito a fins, isto é, uma conduta racional que busca a adequação de meios (campanha política) a determinados objetivos (a obtenção da maior participação possível no poder do Estado). O critério único que move essa racionalidade é o sucesso na busca da meta estabelecida, a saber, a maximização do poder. Ou seja, trata-se de uma racionalidade que funciona da mesma forma que a racionalidade econômica.

E a racionalidade econômica parece ter chegado para ficar no campo da política partidária. Não é à toa que cada vez mais os marketeiros de plantão ganham uma importância cada vez maior na produção dos candidatos. Mais do que ideias e grandes projetos, os candidatos têm de ser capazes de vender uma imagem e propostas palpáveis que “o eleitor-consumidor” esteja disposto a comprar, depositando seus votos na urna. A construção da imagem varia da elaboração de uma imagem “politicamente correta”, largamente aceitável — caso marcante no caso dos candidatos a cargos majoritários, como os presidenciáveis — , até a criação das figuras mais estapafúrdias — como tem sido o caso principalmente dos candidatos a deputado. O que há em comum em estratégias tão diferentes é que ambas procuram explorar as possibilidades de êxito eleitoral, de acordo com as regras para eleição em cada tipo de cargo. Os discursos passam longe de qualquer grande elaboração ideológica e se voltam para a promessa de satisfação dos interesses imediatos dos eleitores, as conhecidas promessas eleitorais: “se for eleito, vou lutar por recursos para a saúde”, “construirei mais escolas”, “vou brigar por verbas para a região X”, “criarei milhões de empregos”, e por aí vai.

De todo modo, é forçoso reconhecer a dificuldade de se implementar outro modelo que não o da democracia representativa em nossa sociedade, tendo em vista o grande número de participantes no processo democrático. Não obstante, é superestimar o poder do voto acreditar que este se constitui num instrumento de mudança radical nos destinos de um cidadão — como o TSE quer fazer acreditar em sua propaganda. É preciso apostar também em outros canais de participação política, que fazem interface com o poder do Estado — a imprensa, os movimentos sociais, a blogosfera, etc. — , como uma forma de oferecer-lhe um contrapeso da sociedade civil. Nesse sentido, a internet tem sido um importante instrumento na ampliação da esfera da participação política, permitindo ao cidadão uma postura mais ativa diante do processo político.

Entre a convicção e a responsabilidade

Max Weber, para quem a política assumia o significado de luta pelo poder do Estado, disse certa vez numa conferência (Política como vocação) “que o indivíduo que se comprometesse com a política estava concluindo um pacto com potências diabólicas”. Não devemos tomar a afirmação ao pé da letra e pedir um exorcismo em massa dos políticos. O que Weber quis dizer é que a política tem uma ética própria, que não raro entra em conflito com a ética de origem moral ou religiosa. Isto é, muitas vezes quem está no poder se vê na situação de ter que agir em desacordo com seus valores pessoais em prol do atingimento de um objetivo que lhe ultrapassa. Vem daí a oposição entre ética da convicção e ética da responsabilidade: a primeira corresponde aos valores pessoais, à ética de natureza religiosa ou moral, à busca de uma dignidade; a segunda, à ética voltada ao atingimento de objetivos, não ancorada em princípios de natureza religiosa ou moral. As duas éticas podem coexistir, mas a ação do político deve ser pautada principalmente pela ética da responsabilidade. O que encontra grande afinidade com a referida ação racional com respeito a fins. O político é, portanto, acima de tudo, um agente racional que busca a maximização do poder. E é como consequência dessa busca que o povo pode eventualmente se beneficiar. Em outras palavras, o voto também acaba sendo inscrito na lógica da barganha. Ainda que a prática flagrante da compra de votos venha sendo coibida, é precisamente isso que os candidatos procuram fazer em suas propagandas políticas: convencer um tipo específico de eleitor, que é muito mais consumidor (visa a satisfação de interesses próprios) do que cidadão (busca o bem comum).

Os princípios da política nem sempre são os princípios da moral - e vice-versa.

Na prática…

Ao dizer isso, não quero causar mais descrédito à política. Meu objetivo é mostrar que este tipo específico de política, a política partidária, é regida por uma lógica em que predomina o cálculo e a busca de um êxito imediato. Isto é, que nas eleições, vale a ética da responsabilidade. Muito tenho ouvido que o 1º turno é o espaço para a apresentação de propostas alternativas, e que o eleitor deve votar em quem acredita, a despeito da probabilidade de seu candidato ser eleito. Além disso, muitas cobranças em relação ao compromisso ideológico de tal e tal candidato. Tratando-se de uma democracia (ou uma meia-democracia, já que não há escolha quanto a votar ou não), cada um é livre para fazer o que quiser com o seu voto (ainda que, como mostrei num post anterior, sejam colocados claros obstáculos ao voto nulo).

Entretanto, a leitura pragmática do atual quadro político, mostra a oposição entre dois grandes modelos para o Brasil: de um lado, um modelo que articula trabalhismo, nacionalismo e desenvolvimentismo, pautado pela presença do Estado na economia; por outro lado, um modelo baseado no ideário neoliberal, segundo o qual o Estado deve se abster ao máximo de interferir na economia, evitando distorcer a capacidade de regulação da “mão invisível” do mercado. Dando nome aos bois, o primeiro modelo é representado pelo PT e aliados; o segundo, polarizado em torno do PSDB. Os demais partidos, na prática, encontram apenas uma oportunidade para aparecerem no horário eleitoral.

Ainda que a proposta encabeçada pelo PT esteja longe dos meus ideais (e provavelmente dos ideais presentes na fundação do PT), vejo que entre 1) fortalecer o Estado apostando numa conciliação reformista entre capital e trabalho, e 2) não opor obstáculos ao capital, mediante o “enxugamento” do Estado; a primeira opção é a que se encaminha mais na direção da diminuição das desigualdades sociais. E essa diminuição das desigualdades sociais é, ao meu ver, condição indispensável para a formação de uma sociedade civil mais forte e mais atuante. E só uma sociedade civil mais forte e mais atuante será capaz de manifestar todo o pluralismo de ideias e discursos, sendo palco de um debate público capaz de influenciar a direção do Estado, bem como oferecer um contraponto à lógica do interesse imediato.

Ademais, o fortalecimento da sociedade civil se faz urgente quando um de seus principais pilares — a imprensa — se mostra fortemente corrompido, ao expressar os interesses de grupos restritos em detrimento do interesse público mais geral. Os grandes barões da mídia, sentados sobre os privilégios de suas concessões públicas de canais de TV e estações de rádio, não hesitam em agir em interesse próprio, distorcendo fatos e espalhando a desinformação pela sociedade — a fim de favorecer o candidato tucano. A melhoria das condições de vida da população é também condição para a disseminação da internet — e assim, de uma alternativa à velha mídia.

Por todas essas razões, com base numa racionalidade estratégica, irei contra os meus princípios — minha ética da convicção — e não anularei meu voto nestas eleições. A situação exige que eu siga a ética da responsabilidade.

O marketing político e o esvaziamento do debate

Quem assistiu ao debate presidencial da Band deve ter se decepcionado. A sensação foi de que muito se falou, mas pouco se disse.

Serra, veterano de outras eleições, insistiu na questão da saúde: exaltou as AMEs implantadas em SP e ressaltou os mutirões de cirurgias que realizou no Ministério da Saúde.

Dilma, demonstrando insegurança, buscou colar sua imagem às realizações do governo Lula. Acabou se atrapalhando em algumas perguntas.

Marina teve participação apagada, mesmo porque poucas perguntas lhe foram dirigidas pelos demais candidatos. Saiu-se bem em pergunta do jornalista Joelmir Betting sobre eventual prioridade da questão ambiental (aquecimento global) sobre a questão social (saneamento básico), ao apontar que as questões não são mutuamente excludentes, mas devem ser abordadas conjuntamente.

Plínio Sampaio, experiente e sem nada a perder, foi a figura que rompeu o marasmo e animou o debate. Mostrou-se crítico em relação a todos os seus adversários: em relação a Serra, disse que este era favorável ao latifúndio (por não apoiar a limitação da propriedade rural); quanto à Dilma, questionou o caráter social das políticas petistas comparando o valor de recursos destinados aos programas sociais e ao serviço da dívida; e em relação à Marina, rotulou-a de “eco-capitalista”, pela visão da candidata de que seria possível conciliar o capitalismo com a preservação ambiental. As propostas de Plínio, no entanto, por melhores que fossem, careciam de realismo político. Ou ele acredita mesmo que seria possível instituir uma radical redução da jornada de trabalho?

Em suma, o debate foi marcado pela monotonia, exceto quando Plínio vinha com algum gracejo. Os outros três candidatos, de maneira geral, se mostraram extremamente protocolares. Até os eventuais ataques foram bastante moderados.

Como explicar isso? Pode ser que esse debate tenha sido “morno” por ter sido apenas o primeiro. O que faz sentido, já que foi o primeiro embate direto entre os candidatos, no qual eles ainda estariam “se estudando”.

Mas eu iria mais longe. Ao meu ver, o marketing político também tem sua influência nesse clima “morno”. A partir do momento em que o candidato passa a ser um “produto”, cujo “público-alvo” deve ser a maioria do povo brasileiro, é preciso tornar sua imagem mais palatável, aparar suas arestas. O resultado disso são figuras insonsas, com discursos pré-fabricados, previsíveis. Não que eu quisesse um desequilibrado na presidência do país. Mas a questão é que essa aparente previsibilidade dos comportamentos pode ser enganosa, mera representação teatral. E o eleitor, com razão, terá motivos de sobra para pensar que o debate foi pouco esclarecedor para a formação da sua opinião.

Uma caixa preta chamada urna eletrônica

Mais uma eleição se aproxima: os candidatos iniciam (oficialmente) suas campanhas, participam de entrevistas, partem para o “corpo a corpo” com os eleitores; os militantes saem às ruas para promover seus candidatos; o povo vai formando sua opinião. Além desses preparativos usuais, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) mobiliza sua estrutura, incluindo os TREs (Tribunais Regionais Eleitorais), para organizar a realização do pleito: desde a emissão e transferência dos títulos eleitorais até toda a logística que envolve a distribuição das urnas eletrônicas.

Eis uma especificidade do processo eleitoral brasileiro: um mesmo órgão, o TSE, é responsável tanto por organizar e executar o processo eleitoral quanto por julgar eventuais disputas que envolvam a legislação eleitoral. Ou seja, o TSE e os TREs a ele vinculados acumulam funções executivas e judiciárias. E esse particular tipo de organização permitiu que o modelo eleição eletrônica fosse implantado com tanto sucesso no Brasil.

Isso porque além de se apoiar no hegemônico otimismo na ciência e na tecnologia, exaltando a rapidez e a confiabilidade do processo eleitoral informatizado que coloca o Brasil na “vanguarda” mundial — enquanto os gringos estão votando em cédulas de papel (por que será?) — , o TSE também é o responsável por julgar eventuais dissensões em relação ao processo eleitoral que ele mesmo organiza. E se foi ele mesmo que “bancou” esse modelo informatizado, dificilmente emitirá juízo contra ele. E, de fato, é o que se vê na prática. Eventuais questionamentos sobre a confiabilidade do processo eletrônico correm sério risco de serem julgados improcedentes, se transformando em ônus para a parte que efetuou o questionamento, entendido que se trata de litigância de má fé — ou seja, entrar na justiça mesmo sabendo que não se tem razão.

Moderno retrocesso

Se por um lado a rapidez da apuração dos resultados das eleições é uma vantagem inegável do voto eletrônico, uma das grandes críticas que é feita em relação ao modelo de eleição informatizada no Brasil é que esse modelo não é auditável. Quer dizer, se por um acaso uma eleição for vencida por uma diferença mínima, o perdedor não terá como pedir uma recontagem dos votos.

Oras, mas se o voto fica registrado eletronicamente, não há motivo para pedir uma recontagem, diriam os defensores da urna eletrônica. O problema é que ninguém garante que o candidato escolhido pelo eleitor terá seu voto realmente contabilizado depois de pressionada a tecla “confirma”. Infelizmente as tecnologias da informação, por mais que facilitem nossas vidas, são sujeitas a falhas. Da mesma forma que podem facilitar minha vida quando acesso minha conta pelo internet banking, elas podem ser um pesadelo se eu for alvo de um ataque de crackers. A urna eletrônica, igualmente, pode ser objeto de manipulações — do código de seu programa, dos dados do cartão de memória, etc. — , ainda que o TSE alegue tomar todas as providências para evitar a ação de agentes maliciosos. Como não há um comprovante impresso do voto a ser conferido pelo eleitor após teclar “confirma” e depois depositado numa urna à parte, permitindo uma auditoria em caso de dúvida, só nos resta acreditar no que diz o TSE. A lisura do processo eleitoral brasileiro é, portanto, uma questão de fé.

Enquanto isso, somos todos obrigados a votar, tendo que apresentar documento com foto. Por que o TSE pode exigir que eu me identifique — a fim de garantir que não haverá fraude por parte do eleitor — e eu não posso exigir que meu voto tenha uma cópia impressa — a fim de permitir que o processo eleitoral seja auditado em caso de dúvida? Por que a desconfiança só pode recair sobre o eleitor? Por que a cidadania se restringe ao dever de votar, sendo desencorajado o direito de questionar? É por essas e outras que o processo eleitoral informatizado é um moderno retrocesso. Ao mesmo tempo que podemos ter o resultado da eleição no mesmo dia do pleito, corremos o risco de amargar por 4 anos um governo eleito mediante uma fraude eletrônica. Simples assim.

Urna eletrônica: vanguarda tecnológica ou retrocesso democrático?

Fraudes no atacado

Como foi dito anteriormente, o otimismo na ciência e na tecnologia permite ao TSE afirmar a agilidade e a confiabilidade do processo eleitoral eletrônico. Quanto à primeira das virtudes, resta pouca dúvida da eficiência do sistema informatizado, já que os resultados das últimas eleições têm sido divulgados no máximo no dia seguinte ao pleito, enquanto que antigamente as apurações chegavam a durar semanas. No entanto, quanto à confiabilidade da urna eletrônica é que restam as dúvidas.

O grande mobilizador dos questionamentos em relação à urna eletrônica, o engenheiro Amílcar Brunazo, chega a dizer que a urna eletrônica é de fato muito segura — para um eventual fraudador. Tais questionamentos já provocaram providências para aumentar a transparência da urna eletrônica, como a adoção do sistema operacional Linux como padrão, já que os primeiros modelos utilizavam sistemas proprietários de código fechado como o Windows CE. Não entrarei em detalhes técnicos, mas tal é o modo de funcionamento da urna que dificilmente uma fraude seria detectável. (Quanto a esses detalhes técnicos, vale a pena pesquisar nos artigos disponibilizados na Página do Voto Eletrônico, mantida por Brunazo)

Ainda assim, existem casos em que há fortes indícios de manipulação da eleição eletrônica. E diferentemente do que acontecia nos tempos do voto manual em que as fraudes “artesanais” aconteciam em pequena escala, o voto eletrônico potencializa a ocorrência de sofisticadas fraudes eletrônicas em larga escala — as fraudes no atacado. Só para citar um exemplo, na eleição municipal de 2004 na cidade de Guarulhos, misteriosamente, 79927 pessoas deixaram de votar, 79927 pessoas votaram em branco ou nulo e 79927 pessoas justificaram o fato de não votar. Curioso, não? Por causa dessa misteriosa coincidência, a eleição foi decidida no 1º turno, haja vista a diminuição na proporção dos votos válidos. Vale a pena ver o vídeo abaixo com uma matéria sobre esse indício de fraude (aliás, o YouTube é pródigo em vídeos sobre fraudes na urna eletrônica)

O desafio de anular o voto

Não bastassem essas dúvidas que pesam quanto à confiabilidade da urna eletrônica, não podemos deixar de notar que o projeto de sua interface é claramente voltado para dificultar a anulação do voto. O site Design de Interação mostra num artigo o desafio cognitivo de se anular o voto numa urna eletrônica. O eleitor desavisado não encontra um botão específico para anular o voto, tendo que votar “errado” — a urna informa “número errado” — para atingir esse objetivo.

É a ideologia interferindo na interface. O ex-ministro do TSE Marco Aurélio Mello chegou mesmo a afirmar que “o voto nulo é um desserviço à sociedade”. O problema é que o voto nulo é uma forma legítima de o eleitor expressar seu descontentamento com os nomes apresentados para a votação, tão legítima que pode anular um pleito se a nulidade atingir mais de metade dos votos, conforme artigo 224 do Código Eleitoral. Infelizmente esse é mais um direito cujo exercício é dificultado pelo moderno retrocesso do voto eletrônico.

Até que enfim…

Até que enfim o Serra resolveu assumir!

Não, meus caros, ele não resolveu sair do armário… mas, enfim, entrou oficialmente na disputa pela presidência da República nas eleições deste ano.

Depois da astuta jogada de Aécio, abandonando a disputa no ninho tucano — o mineiro sabia da dificuldade de enfrentar qualquer que fosse o(a) indicado(a) por Lula — , não restou a Serra outra opção. Isto é, outra opção que não envolvesse uma mudança de partido. Permanecendo no PSDB, não havia outro meio: o candidato teria de ser ele — depois de toda mobilização que ele induziu no partido desde que se começou a falar da disputa presidencial de 2010.

O que eu acho disso? Preocupante. Fico preocupado só de pensar no que um sujeito desses pode fazer ao assumir a presidência. Tomando como base a experiência paulista, do choque de gestão: enxugamento da máquina pública — mediante privatizações questionáveis e precarização (os professores que o digam) — e ação policial como política social — movimento social é tratado com tropa de choque. Sem falar na miraculosa multiplicação dos pedágios — de deixar Jesus com vergonha da sua multiplicação dos pães…

Mas tem um lado bom — acredite. Para poder disputar a presidência, ele deixará o Governo do Estado no dia 31 próximo (quarta-feira). Não que eu acredite muito no seu sucessor. Mas ele vai ter que se esforçar para ser pior.

José Serra

Ele quer seu voto!