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Unicamp: a PM no campus e outros equívocos

Na última semana a reitoria da Unicamp foi ocupada, bem como deflagrada uma greve dos alunos, em reação à decisão de permitir que a PM circule pelos campi da universidade, em Campinas, Limeira e Piracicaba. A autorização do acesso à polícia, por sua vez, ocorre em seguida à trágica morte do universitário Denis Casagrande, assassinado em uma festa “clandestina”, realizada no próprio campus de Barão Geraldo, em Campinas.

O policiamento do campus é só mais um dos equívocos que vêm se somando. A presença da polícia pode muito bem proporcionar uma maior sensação de segurança, principalmente naquele grupo social que é hegemônico na universidade pública: a classe média branca. Para os negros e pobres que conseguiram ultrapassar as barreiras sociais que os afastam daquele ambiente, a presença da PM deve representar mais um constrangimento para seu livre acesso à universidade pública. Ora, basta lembrar daquele caso em que os policiais responsáveis pela ronda na região do Taquaral foram orientados a abordar indivíduos “perigosos”: jovens negros do sexo masculino.

Ademais, a presença da polícia no campus pode ser muito útil à reitoria da universidade, ao demonstrar que “algo está sendo feito” após o trágico episódio de semanas atrás. A imagem da reitoria, com efeito, ficou desgastada diante da sua clara omissão perante a realização de festas no interior do campus. Pode ser que parte da opinião pública se convença de que essa providência irá, de alguma forma, resolver o problema da segurança na universidade. O que, evidentemente, não passa de um ledo engano.

Isso porque a universidade, por mais que tente se “encastelar”, não é um mundo isolado da sociedade que a envolve. E, se existe violência na nossa sociedade, essa violência também chegará à universidade.

UNICAMP Logo

Por um lado, há a ilusão de que o proibicionismo resolve alguma coisa. Não bastasse o exemplo da malfadada guerra às drogas, que já dispendeu somas enormes de dinheiro e não conseguiu acabar com as substâncias ilícitas, ainda insiste-se muito nas proibições como forma de resolver certas questões. Proibir festas ou o consumo de bebidas alcoólicas dentro da universidade parece tão eficaz quanto proibir um adolescente de acessar a internet. De uma forma ou outra, as bebidas continuam entrando no campus e o jovem continua acessando a internet (pelo celular, pelo wi-fi do vizinho, etc.).

Seria melhor, portanto, tentar regulamentar essas questões: estabelecer limites ou contrapartidas. Por mais difícil que seja verificar que tais limites estejam sendo respeitados ou contrapartidas oferecidas, há um maior espaço para negociação. Além disso, “sair da clandestinidade” pode ser uma boa recompensa por respeitar esses limites ou contrapartidas. Ou alguém duvida que seria um bom negócio ter sua festa “reconhecida oficialmente”? Assim, ela poderia ser melhor divulgada e, inclusive, contar com mais segurança.

Além disso, mais produtivo que a militarização do campus universitário – com a presença de uma polícia que já se mostrou, em diversas ocasiões, despreparada para atuar num ambiente democrático –, seria o estabelecimento de mais mecanismos de participação e envolvimento da comunidade. Mecanismos nos quais fosse possível a participação de membros da comunidade acadêmica e de toda a sociedade civil, a fim de deliberar e implementar políticas que permitissem tornar o campus um local mais seguro e, ao mesmo tempo, mais aberto a todos. Assim, não haveria mais aquela dicotomia entre “dentro” e “fora” da universidade, uma vez que esta estaria integrada ao espaço social que a envolve.

Contudo, não há dúvida de que uma tal solução demandaria muito mais tempo e esforço para sua implementação. Demandaria, também, a superação do modelo elitista de universidade que ainda está vigente nos dias atuais. No fim, é muito mais cômodo trazer a polícia e oferecer aquela sensação de segurança, ainda que isso não resolva efetivamente qualquer problema.

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O marco zero da liberdade

Suspeitei desde o princípio. E minhas suspeitas se viram confirmadas ontem: fui reprovado em uma disciplina e não me formo neste ano.

Mas não foi uma simples reprovação. Fui reprovado com média zero — um zero retumbante. Um estigma pra eu ver evaporar minhas chances de ter um projeto de mestrado financiado por uma Fapesp da vida.

Estou chateado? É óbvio que ninguém fica contente com uma reprovação. Não nego que tenha ficado uma pontinha de aborrecimento, afinal só faltou essa matéria para concluir o bacharelado.

Por outro lado, dadas as circunstâncias da reprovação, chego a me sentir orgulhoso. “Mas que absurdo, como alguém pode se orgulhar de uma reprovação? Você não tem vergonha não?”, perguntarão indignados aqueles para quem a meritocracia é quase um dado da realidade.

Pois bem. Dado que fui reprovado por não comparecer às aulas, em respeito à deliberação dos estudantes que aderiram à greve dos funcionários técnico-administrativos — que reivindicavam um tratamento isonômico dentro da universidade — , não consigo me envergonhar da minha nota zero.

Mais do que um estigma que pode prejudicar uma possível carreira acadêmica, para mim esse zero é uma insígnia que distingue alguém que ousou se opor ao modus operandi que se instalou na universidade. Um modus operandi que em nada se diferencia daquele que já se instalou em várias esferas da nossa vida, baseado no binômio vigiar e punir (não por acaso, nome de um dos livros mais importantes de Michel Foucault). De um lugar em que a liberdade é condição necessária para a produção do conhecimento, a universidade, nos dias atuais, se submeteu ao capital, convertendo-se num mero apêndice das empresas — uma espécie de terceirização dos “serviços” de pesquisa e desenvolvimento. E estando inserida numa lógica empresarial, não há lugar para uma racionalidade democrática dentro da universidade, mas apenas para uma racionalidade administrativa — inclusive na universidade pública, vide a expulsão de 6 alunos da USP, numa decisão nada democrática do reitor João Grandino Rodas.

De modo que, se essa “desobediência acadêmica” pode ter consequências desagradáveis para mim num curto prazo, estou certo de que a obediência cega seria muito pior: tanto do ponto de vista prático, quanto do ponto de vista moral.

Do ponto de vista prático, se eu simplesmente ignorasse a greve e adotasse a postura de um “aluno exemplar”, estaria tão-somente ajudando a reproduzir essa racionalidade instrumental que está tomando de assalto a universidade — tanto pública quanto privada — , de modo que eu mesmo poderia ser vítima dessa racionalidade num médio ou longo prazo. Veja, por exemplo, o produtivismo acadêmico ao qual os pesquisadores estão submetidos; ou a demissão em massa de professores universitários, promovida por uma grande rede de ensino superior privado, revelando sua clara intenção de precarizar ainda mais o trabalho dos docentes e a qualidade do ensino oferecido.

Do ponto de vista moral — e é o que é decisivo para mim — , se eu continuasse a frequentar as aulas como se nada estivesse acontecendo, estaria demonstrando minha anuência com a injustiça que está sendo cometida contra os funcionários técnico-administrativos — os quais têm recebido reajustes salariais proporcionalmente inferiores ao dos docentes, numa clara demonstração de que são tidos como funcionários de “segunda categoria” dentro da universidade. Assim como os outros estudantes do meu curso, entendi que não era possível ficar indiferente a uma tal conduta desrespeitosa.

Dessa forma, a despeito dos riscos que eu sabia existirem — reprovação entre eles — , decidi agir de acordo com a minha consciência. Decidi exercer a minha liberdade. E quando digo liberdade, não me refiro a um acesso irrestrito a tudo que se deseja — como é a liberdade do homem hobbesiano, ou no individualismo liberal. Quando digo liberdade, me refiro àquela capacidade de darmos regras a nós mesmos e agirmos de acordo com elas, tal como propôs Rousseau. E, ao agirmos de acordo com essas regras, adotarmos uma postura verdadeiramente responsável.

De modo que ser livre, nessa acepção, não significa sempre alcançar o sucesso, tomando o êxito como critério de avaliação. A liberdade vem acompanhada de percalços. Contudo, ao agir com liberdade — e, portanto, de acordo com as regras que elaboramos — não é possível contrariar seus princípios. Ou seja, não é possível fazer algo em que não se acredita.

Em suma, esse zero no meu histórico escolar representa muito mais do que uma reprovação. Não o vejo como uma mancha, mas sim como o marco zero da liberdade.

A desocupação da reitoria da USP e a esquizofrenia conservadora

Hoje, por volta das 5h da manhã, 400 homens da PM se dirigiram à reitoria da USP para cumprir a ordem judicial de reintegração de posse. 73 alunos que ocupavam a reitoria foram presos, sob acusação de depredação do patrimônio público, descumprimento de ordem judicial, crimes ambientais (!) e, o que é mais impressionante, por formação de quadrilha.

Não bastasse o uso mais que desprorcional da força — tropa de choque, cavalaria, cassetetes, balas de borracha, helicóptero –, o governador Alckmin sugeriu que os estudantes presos tivessem uma “aula de democracia”. Ora, depois de tão brilhante demonstração de civilidade por parte da polícia, fica difícil ensinar mais alguma coisa sobre democracia (evidentemente, estou sendo irônico).

Aula de democracia da PM de Alckmin na USP

Que democracia?

Aliás, talvez haja algo a ensinar. A questão é: de que democracia estamos falando?

Se estivermos falando daquela democracia, que teve início na pólis grega, e que inspirou pensadores como Hannah Arendt e Habermas a pensarem a política como uma prática comunicativa, por meio da qual as pessoas estabelecem de maneira racional as regras que regem seu convívio e os seus projetos para o futuro; bem, nesse caso, quem precisaria aprender um pouco sobre democracia seria a própria reitoria da USP e, com ela, as polícias e o próprio governo do Estado, que parecem não apreciar muito a prática do diálogo.

Agora, se estivermos falando de uma democracia presente no senso comum conservador, segundo a qual o valor de um homem é avaliado pelo seu valor de mercado, a situação muda de figura. De acordo com essa democracia de mercado, todos somos iguais na medida em que podemos nos vender no mercado. E a lei e a ordem têm como finalidade última garantir o direito de cada um desfrutar em paz da sua propriedade — sem ter de ser importunado pelos pobres e inconvenientes (leia-se marginalizados).

A esquizofrenia conservadora

E assim diria o “cidadão de bem”:

“Esses maconheiros e comunistas que infestam os campi universitários só atrapalham aqueles jovens ordeiros e empreendedores que, diligentemente, buscam se qualificar para o mercado de trabalho. Além disso, esse bando de vagabundos pouco contribui para o registro de patentes, digo, para a pesquisa científica aplicada — ou seja, que pode render algum dividendo para alguma empresa privada. Aliás, eles deveriam aplaudir de pé a mudança no perfil da universidade: de uma “torre de marfim”, antro de gente ociosa e fonte inesgotável de críticas descabidas, ela vai paulatinamente se transformando num pólo de inovação!

Por isso, a PM deve mesmo estar presente em todas as universidades, garantindo a paz e a segurança, para o pleno funcionamento dessas novas fábricas de diplomas e patentes. Que se cerquem as universidades! Que se expulsem os vândalos! Que se faça um resizing no quadro de funcionários! Que se façam parcerias a rodo com a iniciativa privada (essa sim eficiente)! Alvíssaras para os reitores que, acima de tudo, se mostrem grandes gestores!”

Quem ocupa o que?

E é de acordo com essa lógica esquizofrênica e conservadora que os alunos que ocupavam a reitoria da USP foram detidos sob acusação de depredação do patrimônio público. Patrimônio público sim, mas que há algum tempo não está efetivamente a serviço do público.

Vimos que a mesma direita que vocifera contra o movimento estudantil — em que pesem algumas ações equivocadas desse movimento — é quem aplaude iniciativas que apontam no sentido da privatização da universidade pública.

Ou seja, se danificar câmeras de segurança e pichar paredes é um crime imperdoável; utilizar toda a infraestrutura acadêmica — laboratórios, bibliotecas, técnicos e pesquisadores — para produzir um conhecimento que será apropriado privadamente por alguma empresa é visto como a grande virtude a ser buscada pela universidade. Infraestrutura esta, diga-se de passagem, custeada pelo dinheiro público (no caso das universidades estaduais paulistas, por recursos do ICMS, imposto que, como se sabe, tem uma incidência proporcionalmente maior sobre a população de menor renda) e colocada a serviço da acumulação privada. Penso que esse desvio na finalidade da universidade pública — que deveria servir a toda a sociedade — é que se constitui num crime.

De modo que, se tomarmos esse desvio de finalidade como uma forma de usurpação do patrimônio público da universidade, foi por meio de sua depredação que esse patrimônio, de certo modo, voltou a ser público!

Que a USP e as demais universidades públicas não precisem ser depredadas para voltarem a ser — efetivamente — públicas. Para isso, é preciso desocupar a sociedade dessa esquizofrenia conservadora.

Entre diplomas e competências

Afinal, até que ponto um diploma confere a determinado sujeito uma competência? Não é de hoje a polêmica sobre a relação entre diploma e competência. Há pouco mais de um ano foi dispensada a exigência do diploma para exercício da profissão de jornalista, sem que isso tenha implicado melhoria ou queda na qualidade editorial. Lembro-me também que quando cursei ciência da computação, estava na pauta da SBC — Sociedade Brasileira de Computação — a “regulamentação” da profissão, isto é, a criação de uma “reserva de mercado” para os profissionais da área da computação devidamente diplomados — o que acabou não se concretizando. Mas não existe exemplo que provoque maior controvérsia do que o do nosso presidente da República: um ex-operário sem formação superior que, no entanto, atinge índices de popularidade sem precedentes, além de demonstrar uma inigualável capacidade de realizar grandes manobras políticas (não estou fazendo um juízo de valor acerca dessa capacidade, mas é forçoso reconhecê-la — como Obama o fez). Até que ponto um diploma fez falta ao presidente Lula?  Tentarei responder essas questões logo a seguir.

O diploma e seus efeitos sociais

O que, afinal, um diploma universitário é capaz de oferecer ao seu titular? Em termos práticos, uma mudança de status no seu meio social. Nada mais. É bem verdade que esse diploma serve como uma chancela de que determinado indivíduo supostamente possui um conjunto de conhecimentos homologados, e daí explica-se a mudança de status. O problema é que esse reconhecimento da suposta capacidade do portador do diploma, ao mesmo tempo, engendra a incapacitação daqueles não-diplomados, no que concerne aos conhecimentos homologados pelo diploma. É o que Ivan Illich chama de profissões inabilitantes.

A partir do momento em que o conhecimento sobre as doenças — e a maneira de curá-las — passa a ser monopólio da Medicina (na sua forma de tecnomedicina), toda aquela multidão de sujeitos capazes de oferecer uma resposta às doenças — curandeiros, benzedeiras, pajés, quiropraxistas, babalaorixás, e assim por diante — passam a ser vistos como meras figuras “folclóricas”, ou no melhor dos casos, como representantes de terapias “alternativas”. O conhecimento “científico” da Medicina interdita todo o conhecimento vernáculo, de origem popular, o qual foi gestado durante milênios de tradição. O projeto iluminista mostra sua face totalitária, ao excluir a possibilidade de diálogo com a tradição. Não que toda Medicina deva ser desprezada como algo inútil, mas sim que deve ser pensada como mais uma possibilidade de se buscar aquilo que chamamos saúde — e não a única. Não se pode ignorar, portanto, o caráter político do diploma: por um lado confere a uns poucos o monopólio do conhecimento sobre os procedimentos considerados válidos pela sociedade; por outro lado, deixa uma multidão incapacitada de buscar suas próprias respostas — que sejam consideradas válidas — para seus próprios problemas de saúde.

O mesmo se dá com a habitação (engenheiros e arquitetos versus mutirões populares), com o transporte (motoristas versus ciclistas e pedestres), com o vestuário (estilistas e confecções versus costureiras artesanais) e com muitos outros campos da vida. A tendência é que nos tornemos cada vez mais incompetentes para cada atividade que realizamos: para o entretenimento, devemos estar atentos ao que dizem os críticos; para o cuidado com as crianças, ouvir o que dizem os pedagogos; para lidar com nossas emoções, só resta o recurso aos psico-coisas de plantão (psicológos, psiquiatras, psicanalistas). A criação de novas profissões gera ao mesmo tempo novas limitações. Portanto, se um diploma atesta uma suposta competência de determinado indivíduo, multiplica a sensação de incompetência para o conjunto da sociedade. Tendência que vai ao encontro do processo de intensificação da divisão e alienação do trabalho, no qual, como via André Gorz, o indivíduo só produz aquilo que não consome e consome tudo o que não produz.

Bacharelismo e sociedade de privilégios

Sérgio Buarque de Holanda, na sua célebre obra Raízes do Brasil, via que nos primórdios do processo de urbanização no Brasil os elementos do culto à personalidade, fortemente presentes no universo rural e patriarcal, foram transmitidos por meio do bacharelismo. Isto é, ainda que a cidade fosse um ambiente propício para o desenvolvimento da impessoalidade e consequente redução dos privilégios, esses se fizeram presentes pela distinção social conferida pelo diploma universitário aos bacharéis — que naqueles primórdios eram predominantemente os filhos da aristocracia rural.

Em suma, o diploma, mais do que atestador de competências, foi — e de certo modo até hoje continua sendo — o instrumento por meio do qual se perpetuou a lógica do privilégio na sociedade brasileira. Lógica que deformou a distribuição de renda no país.

A associação entre diploma e privilégio é, portanto, muito forte. O problema é que um privilégio se constitui a partir da situação de escassez relativa. Ou seja, o diploma universitário só será privilégio enquanto uma minoria possuí-los face a uma maioria despossuída. O ensino universitário se vê, portanto, diante de um dilema: se continua restrito, perpetua a lógica do privilégio e, assim, da exclusão social; se se populariza, extingue o privilégio e, ao mesmo tempo, a motivação de muitos para a busca de um diploma. Não tenho dúvida em optar pela primeira alternativa, mas não estou certo de que todos estejam dispostos a aceitá-la. A posse de um diploma e de uma suposta qualificação não supõe a existência de postos de trabalho que exercitem as competências adquiridas por todos os diplomados, o que implica na frustração dos “superqualificados”. Em outras palavras, a universalização do ensino superior só pode ser buscada seriamente como uma meta a partir do momento em que o diploma deixar de ser algo meramente instrumental, isto é, com vistas à ocupação de um lugar determinado no mercado de trabalho. Como dizia Marx no Manifesto Comunista: “o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos”.

Lula: exemplo de competência para além do diploma

Um ex-operário na presidência da República

Diante de tudo que foi dito, parece que se tornam claros os motivos que permitiram a elaboração de críticas ao presidente Lula tomando como base sua formação escolar, a despeito de sua habilidade política, sua popularidade e as realizações de seu governo. Há mesmo quem diga que ele se apresenta como um “mau exemplo de quem não estudou e se deu bem na vida”.  Essa concepção, na verdade, mais do que declarar uma preocupação com bons exemplos para a educação, revela preconceitos arraigados: 1) o de que quem não possui diploma é incapaz, já que capazes são aqueles especialistas e profissionais que o possuem; e 2) de que quem não é bacharel não goza de status social suficiente para ocupar a presidência da República (ainda que todos sejam considerados iguais perante a lei).

O triunfo de Lula na presidência é, portanto, mais do que mera razão para a “dor de cotovelo” de certos políticos, de carreira acadêmica renomada inclusive. Além disso, o triunfo do presidente ex-operário é motivo para se questionar sobre quão incapaz alguém pode ser apenas por não possuir um diploma. É algo que desafia tanto os pressupostos de uma sociedade de privilégios, quanto a fé cega na efetividade do conhecimento “científico” sob a tutela de uma elite universitária.

Ou professor ou policial — ou herói ou vilão

Greve de professores

Afinal, quem era esse sujeito?

A foto de Clayton de Souza, da Agência Estado, tirada na tumultuada manifestação dos professores paulistas em 26 de março, tornou-se peça célebre. Não só pela expressividade — aparentemente um manifestante socorrendo uma policial ferida — mas principalmente pela polêmica que se criou em torno dela.

A princípio, pensou-se tratar de um professor, participante da manifestação, o qual heroicamente teria prestado socorro a uma policial atingida por uma paulada. O heroísmo do ato estaria no fato desse suposto professor ter prestado socorro a alguém que estava ali representando a repressão, a força contrária do Estado.

Contudo, dias depois, a versão se transformou. A PM paulista informou que o homem fotografado era um policial, que estava coincidentemente passando pelo local e, em meio ao tumulto, prestou socorro à sua colega. Essa versão, obviamente, gerou grande indignação. Primeiro, por alegar que o fato de o policial estar à paisana na manifestação foi uma coincidência — algo que ofendeu a inteligência dos cidadãos. Em segundo lugar, pelo fato de que se realmente era um policial, este estava infiltrado na manifestação dos professores — no melhor estilo do que acontecia no período da ditadura militar. Pronto, o barbudo da foto de herói passou a vilão.

Nesse desencontro de informações é difícil saber o que é verdade e o que é invenção. Atualmente, todo conflito — e a greve o é — envolve uma “guerra de informação”. E nesse episódio, ouso afirmar que o governo paulista deu um tiro no pé: se o sujeito da foto era um professor, a cena poderá ser usada para exaltar o heroísmo da classe docente; se era um policial, suponho que a imagem anti-democrática da PM será explorada, pelo modus operandi que lembra o dos tempos da ditadura.

Educação profissionalizante vs educação humanizante

Em ano eleitoral — é inevitável — os partidos políticos falarão dos seus projetos para a educação.

Nesse sentido, o que parece uma tendência, é a valorização — a meu ver excessiva — do ensino profissionalizante. Muito se vê, em termos de propaganda dos governos, com respeito à instalação de escolas técnicas — tanto cursos profissionalizantes, quanto cursos superiores tecnológicos. O motivo dessa valorização é óbvio: a educação profissional apresenta tanto traços de política educacional, quanto de política de geração de emprego e renda. De modo que não se pode, de maneira alguma, menosprezar a importância desse tipo de ensino.

O problema é quando o ensino profissionalizante, por essas qualidades já mencionadas, acaba tomando espaço — e recursos — das demais modalidades de atividade educacional. Isto é, embora louváveis as iniciativas de instalar escolas técnicas e cursos profissionalizantes, seriam ainda mais louváveis essas iniciativas se a educação básica, o ensino médio e mesmo o ensino superior — tanto no âmbito público quanto privado — se mostrassem capazes de prover uma formação humanística satisfatória. O que se observa, no entanto, é uma sobrevalorização da formação das competências técnicas em detrimento do desenvolvimento do aluno como ser humano, como cidadão.

Essa tendência à tecnização vai, de todo modo, ao encontro do ideário propalado em nossa sociedade, segundo o qual o emprego além de fonte única de acesso ao rendimento é, também, a única forma de se obter dignidade. Sendo assim, antes de formar um cidadão capaz de participar da vida pública, o sistema educacional prioriza a formação de mão-de-obra qualificada, conforme as necessidades do mercado de trabalho, o qual, por sua vez, está sempre sujeito às mudanças técnicas que afetam os processos produtivos. (Ou seja, muitas vezes com recursos públicos, atende-se a uma demanda específica de mão-de-obra da iniciativa privada, a qual, em contrapartida, cria novos empregos a fim de melhorar os indicadores sociais — o que ninguém procura saber é sobre a rotatividade dessa mão-de-obra.) De modo que, antes do cidadão prioriza-se o operário; antes do cidadão, capaz de participar da vida social, coloca-se o técnico, o especialista, capaz de atender às demandas do mercado; antes do desenvolvimento das faculdades humanas, coloca-se à frente a “empregabilidade” — enfim, ao invés de valorizar a formação de um sujeito autonômo, essa política favorece o desenvolvimento de homens e mulheres heterônomos, empregáveis enquanto sua qualificação valer algo para o mercado.

Os precursores do iluminismo devem se remexer em suas tumbas ao verem o rumo que tem tomado a universalização do conhecimento hoje em dia: trata-se de uma universalização cada vez mais parcial, formando seres humanos cada vez mais parciais, cada vez mais incapazes de reconhecer, nem que de longe, todo o esplendor do conhecimento humano. Não penso que o ensino deva formar super-homens ou super-mulheres. Mas também não posso deixar de desejar que o sistema educacional proporcione aos seus alunos nem que seja uma leve noção dos mais diferentes ramos do conhecimento, das artes, dos esportes, contribuindo para uma formação mais humanizante o possível. Além disso, que possa proporcionar-lhes ocasião de se auto-organizarem, distribuirem entre si as tarefas diárias, de se responsabilizarem pelo sua escola, bem como pelo seu semelhante.

Posso dizer por mim mesmo: se não fosse uma certa teimosia, além de certa indecisão quanto ao rumo a seguir, provavelmente jamais eu teria podido experimentar o conhecimento de tão diferentes fontes. Aprender um pouco sobre arte, religião, novos idiomas, sobre as tarefas do dia-a-dia e também — por que não? — diferentes conhecimentos técnicos. Saber um pouco de cada coisa me permitiu reconhecer a complexidade que por trás de cada uma das atividades existe, de modo que sinto-me muito mais capaz de valorizar o trabalho de uma outra pessoa. Um exemplo: há um tempo atrás, comecei a aprender piano. Ainda que não tenha nenhuma expectativa de um dia me tornar um virtuose, mesmo assim, devo reconhecer que esse aprendizado revolucionou o meu entendimento sobre o que é a música — o que era, até então, algo de pouca importância para mim — e o reconhecimento que hoje eu tenho pelo trabalho dos músicos, trabalho que exige sensibilidade, muita prática e também um toque de talento.

Diante de tudo isso, penso que uma proposta séria para a educação só será possível se não levar em conta apenas o ensino profissionalizante, mas uma educação humanizante.