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Não existe almoço grátis. Nem violência gratuita.

“Não existe almoço grátis”, já dizia Milton Friedman, um dos papas do neoliberalismo.

De fato, no mundo dos sonhos dos neoliberais, a “mão invisível” do mercado, por meio das leis da oferta e da procura, seria capaz de trazer a prosperidade para o conjunto da sociedade. A generosidade seria uma virtude dispensável. Pois todos, sem exceção, seriam capazes de satisfazer seus desejos e atender às demandas sociais. Não haveria incompatibilidade, mas uma interdependência entre os vícios privados e as virtudes públicas, como já dizia Mandeville, em sua Fábula das Abelhas.

Nesse mundo de sonhos neoliberal, a intervenção estatal seria uma ameaça por distorcer o funcionamento dos mecanismos de mercado. As políticas sociais implementadas pelo Estado, o controle da atividade econômica por meio de leis, as empresas públicas, por exemplo, deveriam ser suprimidas. Se alguma coisa vai mal, pode-se estar certo de que é tudo culpa da interferência de fatores externos no mercado, diriam os neoliberais.

Com base nessas ideias, o capital — principalmente na forma de capital financeiro — se viu cada vez menos constrangido por controles estatais nos últimos 30 anos. Esse processo ficou conhecido como desregulamentação. Por outro lado, as políticas sociais — saúde, previdência social, educação — foram progressivamente sendo deixadas de lado pelo Estado, em graus diferentes conforme o país. Na Europa Ocidental e nos EUA, esse processo caracterizou o desmanche do Welfare State.

Essas políticas sociais eram taxadas quase como “parasitárias”. Afinal, seu financiamento dependia de “onerosos” impostos. Além disso, podiam induzir a uma “apatia” por parte dos trabalhadores e dos pobres, acomodados com seu bem-estar e pouco dispostos a aumentar sua produtividade — uma grave distorção na lei da oferta e da procura do mercado de trabalho. Era preciso acabar com essa ilusão de que existiria almoço grátis.

Caminhão incendiado em Nottingham, na onda de violência que assolou o Reino Unido. Foto por: Nottinghack

O resultado dos processos de desregulamentação e de desmanche do Welfare State, contudo, não conduziram ao paraíso terrestre prometido pelos neoliberais. Pelo contrário, chegou-se perto do inferno. O capitalismo entregue a si mesmo quase provocou sua própria ruína. A crise de 2008, provocada pela especulação ilimitada — e irresponsável — do setor financeiro, com seus derivativos e empréstimos NINJA*, quase levou a economia mundial ao colapso. A salvação, ironicamente, veio dos Estados, que empreenderam planos trilionários para resgatar os bancos da falência.

Os efeitos da crise, entretanto, estão longe de terem sido controlados. Para salvar o sistema financeiro do colapso, os Estados contraíram dívidas vultuosas. O resgate dos bancos promovido pelos Estados significou, em última instância, a socialização dos prejuízos — de instituições privadas, que se apropriavam privadamente de seus lucros.

E pagar essa dívida monstruosa tem sido o grande problema com que os Estados nacionais têm se deparado. Os EUA enfrentaram uma batalha para elevação do teto da dívida, para que pudessem continuar honrando seus compromissos. Os países “periféricos” da zona do Euro — Grécia, Portugal, Espanha, Irlanda — se veem às voltas com o fantasma da insolvência, em alguns casos tendo de recorrer a empréstimos externos e suas condicionalidades: cortes nos gastos sociais e privatizações de empresas públicas, principalmente.

Seria pouco razoável acreditar que o povo desses países assistisse passivamente a esse processo. De fato, grande foi a indignação da população grega, que foi às ruas protestar contra os planos de austeridade aprovados pelo parlamento, a fim de atender às condições impostas pelo FMI. Indignação que também se fez sentir na Espanha, com a ocupação das principais praças do país pelo movimento 15-M, disposto a lutar por uma democracia mais participativa.

Com efeito, a democracia representativa foi uma das principais vítimas da última crise capitalista. A crença na legitimidade — fundamento da dominação, segundo Weber — do sistema democrático atual parece ter sido colocada em xeque. Os governos de coalizão, de postura centrista que se espalharam pela Europa — e que é tambem o caso dos EUA — dão aos cidadãos a impressão de uma eterna indulgência com o capital. À exceção da Islândia, em que um plebiscito rejeitou um acordo para a indenização de investidores estrangeiros, o que se se vê são governos agindo de boa vontade com os banqueiros, sem punir ou responsabilizar quem quer que seja, que não o conjunto da sociedade, pela crise financeira.

Essa perda de fé na democracia representativa têm aberto espaço para as mais variadas manifestações. Algumas de espontaneísmo, como foi o caso do movimento 15-M. Outras de extremismo de direita, que reciclando um discurso ultranacionalista, de caráter abertamente xenofóbico, tem angariado simpatia dos setores mais conservadores da sociedade. A manifestação mais aguda da extrema direita foi o massacre promovido pelo terrorista Anders Breivik na Noruega, acontecimento que chocou o mundo.

E, por fim, a perda de fé na democracia tem conduzido a distúrbios sociais, aparentemente sem sentido, como os que aconteceram em várias cidades no Reino Unido a partir do último sábado, dia 06. O estopim foi o assassinato de Mark Duggan, um jovem negro, pela polícia no subúrbio de Tottenham. A princípio, os saques, depredações e incêndios estiveram circunscritos a essa região, como uma reação direta ao assassinato. Em pouco tempo, no entanto, essas ações delituosas se espalharam por Londres, e em seguida, por todo o país. A proliferação dos distúrbios foi favorecida pelo dinamismo das redes sociais. A resposta do governo britânico foi a intensificação da repressão e a punição sumária dos envolvidos nos ataques. Além disso, foi cogitada a interrupção temporária do serviço das redes sociais. O primeiro-ministro, David Cameron, taxou os episódios como “violência pura”.

Cameron, no entanto, parece se esquecer da indulgência com que a Grã-Bretanha tem tratado os banqueiros e do rigor com que sua população — principalmente a mais pobre — tem sido tratada. A violência, embora injustificável, parece explicar-se facilmente pela perda de fé na legitimidade das instituições políticas. Ora, por que o governo pode socorrer os bancos, que causaram um prejuízo público por sua irresponsabilidade, sem prender um banqueiro sequer? Por que eu também não posso me beneficiar provocando um prejuízo a outrém? Que moral esse Estado terá para me punir? Essas talvez tenham sido algumas das perguntas que animaram, consciente ou inconscientemente, os distúrbios na Grã-Bretanha.

Moral da história:

Não existe almoço grátis. Nem violência gratuita.

* NINJA: No Job, INcome or Assets. Ou seja, sem emprego, renda ou garantias. Sigla que foi utilizada para designar os empréstimos feitos pelos bancos a tomadores praticamente sem condições de honrar suas obrigações.

Agências de rating — ou, os oráculos do deus-mercado

Lula, quando presidente, eternizou o bordão “nunca antes na história desse país”. Sempre que queria salientar as realizações do seu governo, lá vinha ele com essa expressão, que se tornou marca registrada. Mas o “nunca antes” pode também ser motivo de constrangimento. Nessa situação se encontra Barack Obama. Pela primeira vez na história, o rating — a classificação de risco — dos títulos da dívida pública americana foi rebaixado. A agência de classificação de risco Standard&Poor’s, na noite da última sexta-feira, anunciou o rebaixamento do conceito de “AAA” para “AA+”, com viés negativo.

É bem verdade que esse “feito” não deve ser atribuído exclusivamente ao presidente norte-americano, mas também aos congressistas republicanos e democratas. A dificuldade de se chegar a um acordo sobre a elevação do teto da dívida americana, com pouca disposição para negociar de ambos os lados; assim como a solução pouco efetiva trazida pelo acordo para a crise fiscal norte-americana foram os principais motivos alegados pela S&P para determinar o rebaixamento do conceito. E nem adiantou o Tesouro dos EUA apontar um erro de US$ 2 trilhões nos cálculos da agência de rating.

O fato é que todo o mundo já via as dificuldades dos EUA lidarem com seus problemas fiscais, bem como a fragilidade da recuperação da economia americana após a crise de 2008. O que mudou é que o rebaixamento do rating  por uma renomada agência de risco dos EUA (uma agência chinesa já havia feito esse rebaixamento antes) parece ter autorizado esse diagnóstico. E, desse modo, permitido àqueles que estavam calados que deixassem o silêncio e criticassem a política econômica de Washington. Agora a crítica não estava baseada no prognóstico de algum lunático antiamericano, mas passou a fundamentar-se num dos grandes pilares do sistema financeiro internacional: as agências de rating — ou, os oráculos do deus-mercado.

Os oráculos de Wall Street não anunciam um futuro brilhante para os EUA. Foto: Benjamin Dumas

E as críticas à política econômica americana vieram de várias partes. Primeiramente, da própria S&P, que expressou sua insatisfação com o acordo para a elevação do teto da dívida. Além das dificuldades político-institucionais do processo de negociação, o fato de o acordo não ter previsto a elevação de impostos pesou negativamente na avaliação.

A China também não deixou de manifestar sua insatisfação com Washington. Os chineses, maiores detentores de títulos da dívida americana, criticaram duramente a política econômica baseada no endividamento. E mandaram um recado para os EUA de que “os bons tempos acabaram”. Além disso, ganha força a ideia de se substituir o dólar como moeda padrão para as trocas internacionais. Essa substituição significaria a ruína de um dos pilares que sustenta a hegemonia norte-americana no mundo, que vem da capacidade de emitir a moeda que ficou no lugar do padrão-ouro.

Os representantes do governo norte-americano, por sua vez, tentam minimizar o rebaixamento da avaliação de risco. Segundo eles, os títulos da dívida americana continuarão sendo alvo da procura dos investidores de todo o mundo, em virtude da sua elevada liquidez.

O fato é que os EUA terão de enfrentar a capacidade das agências de rating fazerem previsões que se autorrealizam. O rebaixamento do rating da dívida americana significa um risco maior de que esse compromisso não seja cumprido. É bem verdade que o rating “AA+” ainda é extremamente elevado. No entanto, se esse rebaixamento significar uma maior dificuldade de os EUA colocarem seus títulos no mercado, logo ela implicará numa elevação dos juros que remuneram esses títulos. O aumento de juros, por sua vez, além de aumentar as despesas do governo com o serviço da dívida (pagamento de juros), pode aprofundar ainda mais a tendência de que a economia americana entre em recessão. Em se confirmando essa tendência recessiva, é muito provável que a diminuição da atividade econômica se reflita numa menor arrecadação de impostos pelo governo americano. Com despesas crescentes e receitas decrescentes, não é preciso dizer, aumenta o risco de calote.

Wall Street mandou seu recado a Washington: “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Conseguirão os EUA provar que os oráculos do deus-mercado estavam errados, e retomar as rédeas do seu destino? Quem viver, verá.

Obama e a crise da dívida: a fraqueza do homem mais poderoso do planeta

Depois de semanas de tensão, finalmente, o governo dos EUA conseguiu aprovar a elevação do limite máximo de endividamento público, medida indispensável para que o país evitasse o calote. Sem uma ampliação na capacidade de endividamento do Estado, que já atingia o teto de US$ 14,3 trilhões, seria impossível honrar os compromissos do governo norte-americano. Essa situação vexaminosa foi evitada, pelo menos momentaneamente. Obama deve ter respirado aliviado hoje, quando sancionou a lei que autoriza a ampliação do teto da dívida.

Porém, foi uma vitória de Pirro. Tanto para os congressistas, republicanos e democratas, quanto para o próprio Obama. Sobretudo para o sistema democrático norte-americano. O acordo, embora tenha evitado o vexame do calote, parece ter desagradado a gregos e troianos — ou, seria melhor, a democratas e republicanos. Pesquisas de opinião revelaram que boa parte dos americanos consideraram que seus líderes se comportaram como “crianças mimadas”.  A perda de popularidade de Obama se manifestou inclusive no Twitter, onde o presidente perdeu 36 mil seguidores, por utilizar seu perfil para enviar mensagens sobre a crise da dívida.

O que ficou evidente, de todo modo, foi a fraqueza de Obama na condução das negociações para a elevação do endividamento. De acordo com a análise de Paul Krugman, essa foi apenas mais uma derrota do presidente, que já havia sido “dobrado” pelos oponentes  republicanos, como na questão da reforma do sistema de saúde.

O fato é que o acordo não resolve nem de longe os problemas fiscais do governo americano. A ênfase do acordo é no corte de despesas e, provavelmente, quem mais sairá perdendo são aqueles que dependem dos programas sociais — muito embora esteja prevista a possibilidade de se efetuarem cortes na área militar. Contudo, nada é previsto quanto ao aumento da tributação sobre os mais ricos. Isso implica numa política econômica contracionista, o que em nada contribui para aliviar o grande problema que assola os EUA, o desemprego. Pelo contrário, a inibição do gasto público para estimular a economia deve contribuir para que ela continue descendo ladeira abaixo.

A crise da dívida deixou clara a pusilanimidade do líder da nação mais poderosa (ainda) do mundo. O homem mais poderoso do planeta, ou pelo menos quem deveria ser, demonstrou toda a sua fraqueza. Obama, se não leu, deveria ter lido O Príncipe, de Maquiavel.

Escravos do “livre” comércio

O mundo assiste atônito à falta de um acordo efetivo do G-20 para conter a chamada “guerra cambial”. Na era do capitalismo altamente financeirizado, o controle do fluxo de capital financeiro é uma arma tão temível quanto uma bomba atômica, capaz de arruinar a economia de muitas nações com seus movimentos bruscos e imprevisíveis.

O último capítulo dessa guerra cambial foi o QE — alívio quantitativo (quantitative easing) — promovido pelo governo dos EUA junto com o FED. O QE nada mais é do que a emissão de R$ 600 bilhões de dólares pelo FED em troca de títulos da dívida do governo americano. Na prática, mais uma enxurrada de dólares numa economia mundial já saturada com a moeda americana. A ideia do governo americano é promover, por meio do aumento da oferta de moeda, um estímulo ao investimento — e à criação de empregos — numa economia ameaçada pelo fantasma da estagnação. Com a vitória dos republicanos nas eleições legislativas, qualquer tentativa de aquecer a economia mediante a intervenção estatal se tornou virtualmente impossível e, desse modo, virtualmente não restou outra solução a Obama.

O problema é que essa enxurrada de dólares provavelmente será direcionada para as economias emergentes, com perspectivas mais atraentes de remuneração desse dinheiro todo, já que provavelmente assumirá a forma de capital financeiro, isto é, especulativo. Com o maior influxo de dólares, as moedas locais devem valorizar-se ainda mais frente ao dólar e tornar menos atraentes as atividades voltadas para a exportação. Ou seja, os EUA têm um problema — e o mundo todo deve pagar.

A hegemonia norte-americana, no entanto, encontra uma forte resistência: a relutância da China em permitir a “livre” valorização de sua moeda, o yuan. Os chineses sabem que a alta de yuan pode comprometer suas exportações, fundamentais para sua economia.

Enquanto EUA e China brigam para desvalorizar suas moedas…

Contudo, China e EUA desenvolveram uma relação quase simbiótica: a China abriga uma miríade de unidades de produção de empresas americanas; além disso, possui gigantescas reservas em divisas americanas. Ou seja, se os EUA quebrarem, a China ficará com um monte de papel sem valor nas mãos. Se por um lado a China é o grande credor dos EUA, por outro lado, os EUA sempre foram o grande mercado para as mercadorias produzidas na China e, portanto, o consumo dos norte-americanos foi o principal combustível do assustador crescimento chinês nas últimas décadas.

Desse modo, é difícil ver quem vencerá esse “duelo de gigantes”. Ao que parece, o ônus recaíra sobre o resto do mundo. Uma das alternativas, pelo menos das mais claras, seria a substituição do dólar como padrão para as trocas comerciais internacionais e para a reserva de valor, por uma cesta de moedas de vários países.

Outra solução seria que as nações extremamente dependentes do comércio externo se voltassem para o fortalecimento de seus mercados internos. Essa solução é até plausível no caso de países pobres, onde a inclusão de pessoas no mercado pode, efetivamente, significar a satisfação de necessidades básicas para milhões de pessoas. O que dizer, no entanto, de nações “superdesenvolvidas” com suas economias voltadas para a exportação, como é o caso da Alemanha, por exemplo?

Esse iminente caos na economia mundial mostra o equívoco do receituário neoliberal, prescrito pelo FMI a todas as economias que precisaram do seu socorro. O que dizia esse receituário? Que essas economias precisavam de menos Estado — menos funcionalismo público, menos impostos — e busca de maior eficiência na produção de gêneros para exportação. Uma leitura muito particular da teoria ricardiana das vantagens comparativas.

O problema é que, na prática, o “livre” comércio se mostrou como um sistema de desvantagens absolutas: 1) nenhum país integrado ao capitalismo global tem as condições de não realizar o comércio, ou seja, de atender todas as suas necessidades — inclusive alimentares — por si mesmo; 2) nenhum país, na prática, tem soberania para determinar suas políticas trabalhistas, garantindo os níveis de emprego e demanda interna, quando se vê ameaçado pela constante competição internacional baseada na precarização do trabalho; 3) nenhum país — exceto EUA — tem soberania suficiente para conduzir sua política monetária sem ameaças de dilúvios ou secas de dólares no mercado internacional. E assim fomos moldados pela doutrina neoliberal: escravos do “livre” comércio.

A concorrência ética e a ética da concorrência

Já não é de hoje meu incômodo com a ideia de ética concorrencial — principalmente no contexto do capitalismo.

Por um lado, pode-se entender a ética concorrencial como a concorrência submetida a um conjunto de regras bem definidas — o que poderia ser chamado de concorrência ética. Um jogo no qual todos os participantes estivessem sujeitos às mesmas regras, tendo, de saída, a mesma chance de vencer esse jogo, de acordo com suas competências individuais.

Essa parece ser a acepção de ética concorrencial adotada, por exemplo, pelo ETCO – Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial. Os principais alvos desse instituto são as atividades ilegais — como a pirataria, contrabando e tráfico de drogas –, bem como a elevada carga tributária. A situação ideal de concorrência seria atingida quando todas as atividades econômicas se desenvolvessem em igualdade de condições, sem que nenhum agente econômico pudesse se valer de vantagens ilegítimas no jogo concorrencial da economia capitalista.

Isso tudo parece muito justo e desejável, e da mesma forma, irrealizável. Levando esses anseios ao extremo, teríamos cada vez mais um Estado “guarda noturno”: ausente da esfera econômica, presente somente na medida em que estabelece as regras do jogo e em que pune aqueles que as desrespeitam (aparato legal-penal). O sonho de todo neoliberal. Um mundo em que os mais competentes prosperam — a meritocracia perfeita.

Mas por que isso não funcionaria na prática?

O primeiro problema é que nem todos os agentes do sistema econômico partem do zero, de uma situação equivalente a priori, como os jogadores que recebem um número igual de cartas no início de uma rodada — existe todo um processo histórico por trás da situação atual. Desse modo, por mais iguais que fossem as regras neste momento do jogo, aqueles jogadores menos favorecidos estariam, ao menos em tese, condenados ao fracasso por essas mesmas regras. A ética concorrencial serviria, neste caso, como um handicap àqueles que já ocupam uma posição privilegiada.

O segundo problema é que a definição das leis, das regras do jogo, não é feita de maneira neutra, muito pelo contrário. Isto é, o processo de formulação de leis envolve toda uma trama de interesses políticos. Vejamos, por exemplo, a questão das patentes e dos medicamentos genéricos. A quem interessa a manutenção das patentes? E a quem interessa quebrá-las? Dependendo de que interesse prevalecer, um produto até ontem considerado pirata poderá ser elevado ao status de genérico (isso para não entrar na discussão da ética de se mercantilizar o conhecimento humano). E aí, como ficamos?

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O símbolo da ética concorrencial no capitalismo

E o maior problema, por fim, é a impossibilidade de se conciliar, num nível profundo, a concorrência ética e a ética da concorrência — a ética enquanto moralidade e a ética enquanto conjunto de práticas da concorrência no capitalismo. Tomadas superficialmente — e é isso o que se faz amiúde — , parece muito pertinente interpelar o trabalhador pobre que compra um DVD pirata no camelô: ele contribui para a violação da propriedade intelectual, para a evasão de impostos e além de tudo para a crise da indústrial cultural. Pois bem, o que leva o cidadão a esse “desvio de conduta”? Talvez ele esteja num trabalho igualmente informal, desempregado ou num emprego precário — ou alguém se esqueceu das reestruturações e fusões de empresas, do desemprego tecnológico e da terceirização em massa — ganhando um salário miserável. Agora, as empresas devem ser repreendidas por sua falta de “compromisso social”, ao não manter um quadro de empregados “inchado”, enquanto suas concorrentes se tornam mais “ágeis e flexíveis”? Neste ponto, começamos a enxergar além da ponta do iceberg: vem à tona o conflito entre a concorrência ética e a ética da concorrência. Ficam evidentes os limites da concorrência ética, que são os próprios fundamentos da ética da concorrência — a necessidade de superar constatemente os concorrentes na disputa pelo mercado. Quem é a Apple para questionar a moralidade de quem compra um iPhone “genérico”, quando sabemos de pelo menos 10 suicídios apenas neste ano na empresa chinesa FoxConn, que fabrica os iPhones originais, mediante a exploração de mão-de-obra barata, em jornadas de trabalho intermináveis?

O que se depreende daí é que a concorrência ética e a ética da concorrência só coincidem num espaço muito restrito, o da “economia oficial”. Os perdedores, relegados à “economia subterrânea” (uma categoria criada pela FGV e pelo ETCO), além do fracasso na arena “legal” do capitalismo, agora merecem também uma reprovação moral, da qual eles próprios se fizeram merecedores por sua própria incompetência — os “vencedores” do capitalismo, desse modo, tripudiam sobre os perdedores, criminalizando a pobreza. O ideal da ética concorrencial se fundamenta na ilusão de que existe um lugar ao sol para todos no capitalismo, quando o motor da concorrência é a própria ameaça de exclusão do jogo capitalista. Pode até ser que a ética concorrencial exista, mas certamente não é no capitalismo.

Emprego estável x vida estável

No futebol, a bola corre mais que o jogador. Os boleiros entendidos sabem muito bem disso. Por esse motivo, um time rápido não é necessariamente um time que tem os jogadores mais velozes. Mas aquele em que os jogadores tocam a bola com mais velocidade, envolvendo o adversário.

O leitor deve estar pensando que eu me enganei no título do post, que aparentemente não tem nada de futebolístico. Bem, na verdade, o futebol é a deixa para uma metáfora: da mesma forma que nesse esporte, no jogo do capitalismo o capital se movimenta mais rápido que o trabalho.

No atual estágio de desenvolvimento das forças produtivas e sobretudo das telecomunicações — provocando uma compressão do tempo e espaço, segundo David Harvey — , tornou-se extremamente fácil deslocar a produção de um ponto a outro do planeta. Como um lançamento de 30 metros, para retomar a metáfora do futebol. Os jogadores, ou melhor, os trabalhadores, nem sempre encontram tamanha facilidade para efetuar esse deslocamento.

Por um lado, existem as restrições às migrações: basta olhar para a fronteira dos EUA com o México e a ostensiva fiscalização; para os países da Europa Ocidental e as políticas anti-imigração. Ou seja, o capital pode se concentrar em determinadas ilhas. As pessoas, no entanto, muitas vezes se veem impedidas de tentar a sorte — vender sua força de trabalho — em algum lugar em que aparentemente existem melhores oportunidades. Trata-se evidentemente de desempregados, desalentados, perseguidos políticos, enfim, pessoas que encontram dificuldades de alcançar seus sonhos em sua terra natal.

Por outro lado, aqueles que gozam de uma posição relativamente estável no jogo capitalista, também não necessariamente se beneficiam dessa elevada mobilidade do capital. A estabilidade no emprego, condição que hoje em dia é encarada como um privilégio, pode também apresentar suas desvantagens. É falsa a impressão de que essa condição de emprego estável seja sinônimo de vida estável. Em alguns casos, pode até ser verdade. No entanto, diante dessa tendência de alta mobilidade do capital, a estabilidade no emprego pode ser fator desestruturante: imagine que você tenha de, em nome da manutenção do seu emprego, mudar de cidade a cada dois ou três anos; ou então, constantemente mudar a função que desempenha no interior de uma empresa, sujeito a variações salariais; ou ainda, quem sabe, passar a “morar” em aeroportos e aviões, tendo como único endereço o seu e-mail.

Aeroporto: o lar do operário-padrão do século XXI

Nesse jogo capitalista, vemos duas tendências antagônicas em relação ao trabalho: por um lado, a condução de grandes contigentes de pessoas ao trabalho precário, eventual ou mesmo ao desemprego contumaz (condição de permanente transitoriedade, conforme R. Castell). Por outro lado, a tendência de “yuppiezação” daqueles que estão empregados, ou seja, tendência de que suas vidas sejam completamente subordinadas ao trabalho — seus planos pessoais, suas aspirações e mesmo seu tempo livre, o qual pode ser invadido a qualquer instante via BlackBerry.

A minha leitura desse jogo é de que o capital colocou a humanidade “na roda”. E o pior, os agentes dessa situação são os próprios homens, agindo a serviço do capital. Não vejo outra perspectiva para a humanidade senão “melar” esse jogo. E a forma de fazer isso é por meio da recusa do trabalho. E entenda-se bem: quando digo trabalho, estou tratando dessa relação social específica do modo de produção capitalista. Uma relação que não é mais capaz de esconder seu caráter de dominação. Não me refiro ao trabalho no sentido “antropológico”, isto é, como o meio pelo qual o homem transforma a natureza e se exterioriza, conforme o jovem Marx. A abolição do trabalho no sentido capitalista implica na abolição da geração de valor; na produção orientada para os valores de uso e não para os valores de troca; para o atendimento das necessidades humanas e não ao fim em si mesmo de multiplicação indefinida do capital.

Estamos perdendo esse jogo. Para nós mesmos. Já é hora de percebermos que se o abandonarmos, poderemos deixar o reino da necessidade em direção ao reino da liberdade.

Velhas novas notícias

Mal se inicia 2010 e já começam as tragédias: deslizamento de terra em Angra dos Reis, inundação em São Luiz do Paraitinga, Guararema…

De certa forma é uma fatalidade, um acontecimento fortuito — fruto de chuvas que ocorrem num volume muito maior do que o esperado, do que seria normal.

Por outro lado, é a materialização de uma tragédia anunciada, a qual é ignorada até a ocorrência do seu desfecho trágico — ou ninguém percebeu a ocupação desordenada de encostas, o desmatamento das matas ciliares, a impermeabilização do solo, o aquecimento global?

O fato é que, como dizia Maquiavel, a vida humana é dirigida pela virtude e pela fortuna. Assim, apesar dos imponderáveis da vida, o homem virtuoso deve adotar uma conduta prudente a fim de tentar minimizar os efeitos negativos de uma má fortuna.

Desse modo, por um lado, só podemos lamentar pela infelicidade dos acontecimentos. O ser humano deve abandonar sua soberba e lembrar de que ele é apenas mais um ser vivo neste planeta, dissipando a ilusão de domínio sobre a natureza — na verdade, o homem está incluído no domínio da natureza.

Por outro lado, não podemos deixar de apontar causas que potencializaram essas tragédias, a fim de evitar que todo ano tenhamos que receber essas velhas novas notícias.

A grande dificuldade é de que tais causas sejam devidamente identificadas. Provavelmente, o mais fácil será imputar a culpa às pessoas que ocupam as áreas de encosta — como se esse fosse seu desejo. Outros culparão a pobreza e a ignorância dessas pessoas — relacionando  essa condição socioeconômica com o baixo nível de instrução, elevado nº de filhos, até mesmo com uma suposta indolência e falta de ambição dessas pessoas. Ainda assim, estaremos distantes das verdadeiras causas.

Até o momento não ouvi ninguém apontar para o problema da especulação imobiliária — ou seja, incluir o solo e outros recursos naturais na lógica da mercadoria. Por meio desse mecanismo de valorização, o acesso a áreas mais seguras e à infraestrutura necessária torna-se um privilégio daqueles que por ele podem pagar. Aos pobres, resta buscar áreas ainda apropriadas pelo mercado imobiliário, ou então áreas abandonadas, e realizar ocupações à margem da lei e de qualquer segurança para os moradores.

Além desse problema da especulação imobiliária, pouco se tem discutido sobre o nosso modelo de desenvolvimento. Apesar da atenção dada ao problema do aquecimento global, principalmente durante a realização da COP-15, a abordagem ao problema foi voltada apenas para a mitigação das emissões de gases de efeito estufa — ou seja, não se pretende mudar nada, apenas reduzir o que já se tem. Mas essas tragédias parecem nos alertar que é necessária uma nova postura diante da natureza. E para adotar essa nova postura diante da natureza, precisamos que os seres humanos adotem uma postura diferente dentro da própria sociedade. Se a visão mercantilista é capaz de tratar uma massa de seres humanos como dispensável — porque incapazes de vender sua força de trabalho e, desse modo, se inserirem no mercado –, de que forma podemos imaginar que a natureza seja vista? Como mera mercadoria.

Portanto, apesar de serem de certo modo inevitáveis, essas tragédias poderiam ser menores. Para tanto, é urgente uma nova postura diante da natureza e dentro da própria sociedade. A vida e a dignidade das pessoas não podem estar sujeitas a interesses mesquinhos. O mercado deve funcionar como um meio de alocar os recursos de uma sociedade e não como um fim em si mesmo. Somente no dia em que conseguirmos readequar os fins e os meios é que seremos capazes de fazer parte da natureza e não nos iludirmos com um falso e pernicioso domínio.