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Nós, Daniel Blake

Assistir ao filme “Eu, Daniel Blake” nos evoca os mais diversos sentimentos: identificação, piedade, tristeza, indignação, acolhimento, esperança.

A película do diretor Ken Loach, vencedora da Palma de Ouro em Cannes, conta a história de pessoas comuns, gente que faz parte dos 99%, quase sempre ausentes de tela grande, embora seja a maioria esmagadora da população.

O cinema, meio por excelência de difusão da versão hollywoodiana de felicidade às massas, encontra em “Daniel Blake” um contraponto à narrativa e personagens hegemônicos.

Loach trata do drama de um viúvo impossibilitado de trabalhar em decorrência de um ataque cardíaco, e suas peregrinações pelos labirintos da burocracia, na tentativa de garantir seu direito a um auxílio-doença. E, durante seu calvário, o protagonista encontra Katie, uma jovem mãe que luta para criar sozinha duas crianças. Daniel, Katie e as crianças representam milhões de pessoas que ficam à margem da sociedade, desprovidas dos meios de viver com dignidade (faltam empregos, seguridade social, um teto para morar e até mesmo comida), à medida que o capitalismo em sua fase neoliberal promove o desmanche do Estado de bem-estar social (o drama se passa na Inglaterra), cinicamente responsabilizando os indivíduos por sua condição miserável.

Se por um lado o filme denuncia a humilhação a que são submetidos homens e mulheres marginalizados pelo sistema (o atendimento nada humano dos call centers, uma burocracia sem sentido, as intermináveis filas dos bancos de alimentos); por outro lado ele exalta virtudes humanas tão pouco valorizadas em uma sociedade individualista e ultracompetitiva: a solidariedade, a identificação com o sofrimento alheio, o compartilhamento do pouco que se tem –mesmo quando isso é quase nada.

Entre a indignação e a esperança, “Eu, Daniel Blake” revela nossos dramas nesses tempos de incerteza. Num mundo em que só há espaço para os vencedores, somos todos potenciais perdedores. Porém, um outro mundo é possível, quando tomarmos consciência de nossa força e nossa dignidade. Nós, os 99%. Nós, Daniel Blake.