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Uma palavra sobre as delações da Odebrecht et al

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O que não se pode perder de vista é: o esquema de propinas que agora é revelado pelas delações da Odebrecht, no qual as grandes empreiteiras eram apenas alguns dos agentes corruptores, é simplesmente a forma pela qual se manifestou a captura do poder político pelo poder econômico na Nova República.

Não devemos nos enganar achando que, ao combater essa modalidade de sequestro da soberania popular, esse processo não esteja ocorrendo de outras formas.

Hoje em dia, bastam alguns holofotes, a “opinião de especialistas” e uma pitada de manipulação da opinião pública para se obter, por exemplo, sentenças judiciais favoráveis ao poder econômico.

Esse novo modelo tem a vantagem de os quadros da “juristocracia” não estarem sujeitos ao escrutínio do voto popular a cada 4 anos, além de a mídia de massas estar concentrada nas mãos de meia dúzia de famílias.

Não estou aqui defendendo os membros do Executivo e parlamentares envolvidos em corrupção, mas advertindo que o discurso de criminalização da política só favorece o atual processo de captura do poder político pelo poder econômico.

É preciso separar o joio do trigo, e lutar não pelo fim das formas existentes de representação política, mas sim pelo aprofundamento da democracia.

Somos 7 bilhões

Entre comemorações e lamentações, o planeta chega à marca de 7 bilhões de habitantes.

Para uns, o número traz esperança. Em várias partes do mundo, celebra-se a chegada ao mundo dos bebês que seriam o nº 7 bilhões.

Para outros, a cifra é prenúncio de catástrofe. De fato, diante de um número tão expressivo, os argumentos neomalthusianos ressurgem com toda força. Não é difícil se assustar com o prognóstico de uma população crescente e de recursos limitados.

Não acho, contudo, que essa marca deva ser comemorada ou lamentada. Simplesmente ela nos deve fazer pensar.

Primeiro, pensar que para além dos números, falamos de pessoas. Pessoas que têm suas necessidades, suas aspirações, suas realizações e suas frustrações.

Segundo, que a vida pode ser bela, mas não é fácil. Como diz do ditado: “a rapadura é doce, mas não é mole”.

Temos, portanto, mais do que um número colossal a ser celebrado ou a ser temido. Temos, isso sim, que urgentemente pensar em como construir um mundo comum. Um mundo em que possamos conviver com o outro, com o diferente.

Pois, em que pese o número impressionante de pessoas que habitam esse planeta, não é a falta de espaço físico ou de recursos naturais que nos ameaça — ao menos não imediatamente. O que é realmente preocupante é a suposição de que cada ser humano deve buscar sempre ter mais para que possa viver melhor.

O problema não é ter um planeta com 7 bilhões de habitantes. O problema é ter um planeta com 7 bilhões de habitantes sempre almejando possuir mais e mais bens. Das duas uma: ou os recursos naturais serão insuficientes; ou a satisfação da ganância de uns dependerá da privação de outros. E é essa segunda alternativa que descreve  a atual situação da humanidade. Trata-se de uma lógica baseada na exclusão. Uma lógica que é completamente incompatível com a situação em que estamos, na qual precisamos acolher o outro, promover sua inclusão.

Eleições 2010: o processo democrático e a ditadura do espetáculo

Estamos na reta final do 2º turno das eleições presidenciais deste ano. Daqui a pouco mais de 10 dias conheceremos o novo presidente da República. Até lá, diante do tom agressivo das campanhas e o crescente acirramento dos ânimos, podemos esperar de tudo — menos o debate sobre projetos que realmente interessam ao país.

De fato, a campanha tucana tem dado o tom da agressividade, da espetacularização e do baixo nível da disputa eleitoral — e o consequente esvaziamento do debate político –, valendo-se de uma ofensiva dupla: por um lado uma frente liderada pela grande mídia — nos termo de Paulo Henrique Amorim, o PIG (Partido da Imprensa Golpista) –, a qual se encarrega pela veiculação seletiva dos fatos, conforme a conveniência destes aos interesses serristas; por outro lado, uma “operação subterrânea” de difamação da candidata petista, realizada por meio de correntes de e-mails apócrifos na internet, de ligações telefônicas anônimas por centrais de telemarketing, além da difusão de boatos por meio de lideranças religiosas ultraconservadoras.

Acuada, num primeiro momento, com tamanha agressividade dos adversários e com a impassividade dos coordenadores da campanha, a militância do PT chegou a se abater com a situação. No entanto, com a mudança no tom da campanha petista, adotando também uma postura mais agressiva — principalmente após a chegada de Ciro Gomes –, a militância parece ter recuperado o ânimo e voltado a vibrar. Diante da “ameaça” tucana, não apenas a militância, mas intelectuais, artistas e religiosos passaram a se reunir e expressar publicamente seu apoio à candidatura de Dilma Rousseff. Exemplo disso foi o ato realizado nessa segunda-feira no Teatro Casagrande, no Rio de Janeiro, que contou com a participação de Chico Buarque, Leonardo Boff, Oscar Niemeyer, entre outros ilustres artistas e intelectuais.

De todo modo, em meio a toda “guerra” de propaganda e espetacularização da campanha eleitoral, questões relevantes como a reforma política, as propostas para o desenvolvimento, inclusão social, meio ambiente, entre tantas outras, ficaram à margem. Tornaram-se centrais questões sobre as opções religiosas dos candidatos, bem como suas opiniões sobre o aborto, além da proximidade de ambos os candidatos com eventuais esquemas de corrupção — tornando os personagens Erenice Guerra e Paulo Preto nos grandes coadjuvantes destas eleições. Em suma, o debate racional em torno das questões relevantes para o país se vê marginalizado em detrimento de uma disputa com forte caráter emocional em torno da defesa deste ou daquele candidato.

Incidente envolvendo Serra no RJ: verdade do espetáculo vs. espetáculo da verdade

Essa tem sido a dinâmica do segundo turno até aqui: muitas denúncias, boatos, acusações e nervos à flor da pele. E o último resultado dessa fórmula explosiva foi o tumulto envolvendo José Serra, provocado por um enfrentamento entre manifestantes de ambos os lados, no qual o candidato tucano teria sido atingido na cabeça por um objeto (bola de papel, fita crepe ou as duas coisas). Mais um incidente espetacularizado pela mídia, matéria-prima de novas trocas de acusações e mais lenha na fogueira dos já exaltados ânimos dos militantes.

A se confirmar essa tendência — e dada a clara intenção da campanha tucana de lançar mão de qualquer meio para atingir seus fins –, o que se pode esperar para 31 de outubro é uma verdadeira “final de campeonato”, da qual é difícil dizer qual dos dois candidatos se sagrará vencedor. A única coisa que pode ser dita desde já é que o processo democrático foi derrotado pela ditadura do espetáculo.