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Ben Folds Five: novo álbum e novo paradigma?

Fiquei absolutamente surpreso com a notícia de que a banda Ben Folds Five havia se reunido mais uma vez. Particularmente, eu não acreditava que essa reunião iria ocorrer novamente. Mas é verdade: depois de mais de 10 anos, Ben Folds, Robert Sledge e Darren Jessee estão juntos para gravar um novo álbum, ainda sem nome.

Muita coisa mudou desde 1999, quando o último álbum da banda, The Unauthorized Biography of Reinhold Messner, foi lançado. Cada um dos membros se dedicou a projetos individuais. Folds ganhou ainda mais notoriedade em sua carreira solo de cantor, pianista e compositor, lançando trabalhos de sucesso como Rockin’ the Suburbs, Songs for Silverman, Supersunnyspeedgraphic Way to Normal.

Além das diferentes trajetórias de cada músico, o mundo da música foi sacudido: com o crescimento da internet, das tecnologias de compartilhamento e das redes sociais, a indústria fonográfica sofreu um forte abalo. Acostumada com um outro contexto, em que exercia quase um monopólio sobre o que se produzia e o que se difundia em termos de música, as gravadoras tiveram de repensar seu modelo de negócios.

Mas essas mudanças também abriram novas possibilidades para os artistas, principalmente aqueles interessados em fazer sua música com independência. Esse parece ser o caso do Ben Folds Five, que está pondo em prática o projeto de seu novo álbum num modelo altamente colaborativo, baseado no crowdfunding e no crowdsourcing. Isto é, um projeto que encontra suas fontes de financiamento e de divulgação na multidão de fãs da banda.

Nesse modelo colaborativo, ganham os fãs e os artistas. Os fãs que colaborarem, além de poder contar com um novo trabalho da banda que admiram, serão “homenageados” pelos músicos tendo seus nomes mencionados na arte do disco,  sem contar que receberão o “título honorário” de Vice President of Promotion (Vice-presidente de promoção, numa tradução livre). A banda, por sua vez, encontra uma fonte para custear e divulgar um projeto que pode desenvolver com mais liberdade do que se fosse em um contrato com uma gravadora.

Qual será o resultado? Estaremos diante não apenas de um novo álbum, mas de um novo paradigma de produção cultural? Só nós resta esperar e conferir. Agora, que a multidão cada vez mais dá as caras, isso é inegável. Se ela será um novo protagonista nesse século XXI, como pensam Negri e Hardt, não é possível ir tão longe.

Quem quiser conferir os primeiros frutos do projeto do Ben Folds Five, pode baixa a faixa Do it Anyway e assistir ao vídeo de divulgação abaixo:

As últimas novidades do projeto podem ser conferidas em:

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Há um ano, vegetariano

Há um ano, ou pouco mais do que isso, me propus a seguir uma dieta vegetariana — ovoláctea, para não ser muito radical. Naquela época eu estava num dilema sobre a viabilidade de me tornar vegetariano. Hoje, posso dizer que é difícil, mas possível.

Um prato pode ser saboroso sem carne. Na foto, acelga, grão de bigo e arroz doce vegan. Foto: La blasco

As motivações continuaram as mesmas

As motivações que me levaram a mudar a dieta são basicamente as mesmas. Continuo fazendo isso como uma forma de recusar o paradigma do quanto mais, melhor e, portanto, de valorizar a frugalidade. Não quero dizer que temos que ser pobres para alcançar a felicidade. É um pouco diferente disso. Na verdade, o contrário.

Isso porque, penso eu, existem duas formas de se pensar a riqueza: ou significa ganhar mais dinheiro, ou ter controle sobre suas necessidades. Ou seja, por um lado, o caminho do quanto mais, melhor; de outro, o do isso me basta — termos que André Gorz utiliza na sua crítica da razão econômica.

O problema do primeiro caminho é que vivemos num mundo em que nada é suficiente. É sempre preciso mais. Estar satisfeito com alguma coisa pode parecer obsceno. Um celular, por exemplo. Ter um aparelho antigo, que serve perfeitamente para fazer e receber chamadas, mas que não tem touchscreen, GPS, internet e mais sabe lá o que pode denunciar que o dono desse celular não está de acordo com os padrões de consumo. E, portanto, de acordo com os padrões da sociedade — já que estamos numa sociedade de consumo. Como é humanamente impossível acompanhar o ritmo frenético da obsolescência programada e da obsolescência percebida, o consumo traz uma satisfação passageira e uma frustração quase permanente. O que se tem, afinal, não é mais riqueza. Ao contrário, assistimos ao fenômeno que Ivan Illich batizou de a modernização da pobreza.

Já o segundo caminho, o da autolimitação, corresponde à tentativa de se ter controle, ou ao menos consciência, das próprias necessidades. Se as necessidades puderem ser limitadas, ou ao menos bem conhecidas, será mais fácil de atendê-las e, assim, sentir-se satisfeito. Eis o ponto importante. Como perceber a experiência vivida como fonte de riqueza se ela não nos traz satisfação alguma? Assim, a limitação das necessidades, ao invés de significar privação, pode ser o caminho para um enriquecimento da experiência. Se temos menos necessidades materiais, trabalhar desenfreadamente perde todo o sentido, abrindo a possibilidade de se empregar o tempo assim liberado em outras atividades.

Sobre as dificuldades

Como eu já antevia no começo da minha dieta, a grande dificuldade que encontrei foram as barreiras culturais, numa sociedade em que a carne ocupa um papel central na alimentação. De fato, consumir carne significa status. Não por acaso, o aumento do consumo de carne se apresenta como um dos grandes símbolos da ascensão social da nova classe média no Brasil.

Aliás, aqui cabe um parêntese: quero deixar bem claro que não tenho nada contra a nova classe média. Pelo contrário, sou defensor de uma distribuição de renda justa e a nova classe média é fruto de uma melhoria no processo distributivo. Contudo, só acho que não devemos nos iludir com uma melhoria nas condições de vida que se apresenta muito mais no âmbito do consumo. É preciso ir muito além disso para alcançar a justiça social.

De todo modo, como eu ia dizendo, a grande dificuldade que encontrei para ser vegetariano foi cultural. Desde as brincadeirinhas, do tipo “agora você só come mato?”, até alguns constrangimentos em eventos sociais, em que você acaba recusando o prato principal e todo mundo olha espantado.

A mesa, como lugar de confraternização, às vezes não é lá muito plural. Mas isso é apenas o reflexo de uma sociedade que tem certa dificuldade de conviver com a diferença. O diferente é tolerado, desde que ele fique lá e eu aqui. Reunir todo mundo com suas diferenças num mesmo espaço, incluir o outro, ainda é um desafio.

Mas nem tudo está perdido. E nem tudo é tão difícil quanto parece. Não apenas porque com o crescimento da adesão ao vegetarianismo e ao veganismo também cresce a oferta de produtos e restaurantes voltados para esse público. Mas também porque, ao contrário do que eu esperava, as pessoas parecem a cada dia aceitar melhor essa dieta alimentar. O grande desafio, mesmo, é ter coragem de começar e perseverança de continuar. Acho que estou conseguindo.

Reocities salva!

Antes que alguém venha me dizer alguma coisa, já vou me adiantando: não, não errei no título do post. É Reocities mesmo, e não Geocities, como costumava ser… E, afinal, o que (ou quem) vem a ser o tal Reocities? E por que ele salva?

Vou explicar: talvez vocês não saibam, mas o Geocities foi um dos serviços pioneiros da web na hospedagem gratuita de páginas (ao lado de tantos outros, como Xoom, Tripod, etc.). Antes da explosão dos blogs e wikis, em meados da presente década, as páginas pessoais na internet — as homepages — eram o principal meio de expressão dos internautas. Eu mesmo tive uma homepage no Geocities, serviço que em certa altura foi adquirido pelo Yahoo!.

Pois bem. Com a decadência das homepages, ofuscadas pelos blogs, microblogs e redes sociais, o Yahoo! decidiu  descontinuar o Geocities no ano passado. A data oficial do “falecimento” do Geocities foi 26/10/2009.

Até aí eu estava resignado com o fato de o meu primeiro empreendimento virtual, a Kimpara’s MangáZine, que estava hospedada no Geocities desde 1998, ter virado tão somente história pra contar. É bem verdade que eu tenho uma cópia dos arquivos da homepage aqui comigo, e até por isso mesmo nem me preocupei muito, pensando “afinal, quem vai querer acessar aquela velharia?”

Mas eis que estou na aula de Esperanto (espero em breve postar alguma coisa nessa língua muito interessante), quando o professor, ao contar sobre suas viagens, mencionou que tinha uma página sobre elas na internet, mas que esta infelizmente foi tirada do ar, já que estava hospedada no Geocities. E então falou do tal Reocities…

Felizmente nem todo mundo se resignou diante do encerramento unilateral do Geocities! Os caras do Reocities simplesmente salvaram os dados e a estrutura de diretórios do Geocities e recuperaram as páginas pessoais do esquecimento! (Ao que parece esse processo de recuperação ainda está em andamento.)

Minha primeira homepage: salva pelo Reocities!

A página inicial do Reocities (http://www.reocities.com) explica melhor os motivos dessa iniciativa, seu funcionamento e fornece um link para uma petição (um tipo de abaixo-assinado) para que o Yahoo! forneça os dados acumulados no Geocities por mais de uma década para sites dispostos a conservar essas informações.

Ao ler sobre os motivos do Reocities, me dei conta de quão perniciosa foi essa decisão unilateral do Yahoo! descontinuar e — o pior — “deletar” as páginas pessoais hospedadas no Geocities (no sentido de tirar do ar, pois duvido muito que as informações tenham sido apagadas, afinal, hoje em dia informação é fonte potencial de dinheiro).  As páginas do Geocities constituiam uma documentação privilegiada do que foi a internet no seu primeiro surto de popularização, de meados dos anos 1990 a meados dos anos 2000. Muitas histórias, piadas, resenhas, mapas, fotos, vídeos, músicas, enfim, a obra de muita gente — inclusive de gente que não está mais aqui para contar. Um verdadeiro “museu online”. Os caras do Reocities, na sua petição ao Yahoo!, chegam mesmo a comparar a atitude unilateral da empresa como um atentado à cultura humana, similar à destruição de estátuas de Buda no Afeganistão pelo Talibã. Embora reconhecendo as legítimas motivações empresariais de descontinuar um serviço que não “compensava” mais ser mantido, ainda assim a decisão de enterrar o Geocities, sem ao menos permitir uma versão “somente leitura”, demonstrou o desprezo pela criação humana em detrimento do dinheiro. Algo que vai totalmente contra os ideais iluministas que constituíram nossa modernidade, aproximando-se das práticas da Igreja na Idade Média, por meio das quais o conhecimento era destruído (livros queimados) ou monopolizado.

Por essas e outras, não tive como deixar de assinar a petição do Reocities, assim como não posso deixar de parabenizá-los pela iniciativa. Além disso, fiquei muito contente em constatar que a minha primeira homepage continua viva! O endereço é quase o mesmo da época do Geocities, agora com o R no lugar do G: http://www.reocities.com/Tokyo/Gulf/1997. Valeu Reocities! Reocities salva!