Arquivo da tag: Crônicas

Um dia em verde e amarelo

Acordei cedo para ir ao trabalho. Hoje o horário era diferenciado, por conta do jogo da seleção. O que uma Copa do Mundo não faz?

De fato, não era um dia comum. Os carros e ônibus transitavam agitadamente – muitos carregando bandeirolas do Brasil. As pessoas, numa combinação inconsciente, em sua maioria, trajavam alguma peça com a cor da bandeira: uma camisa amarela, uma blusa verde, um lenço azul… Era difícil resistir ao clima de festa.

Ainda mais quando ela acontece no “nosso quintal”. Eu, recusando qualquer complexo de vira-lata, achei uma beleza a abertura do evento no Itaquerão. As linhas arrojadas do estádio, a empolgação da torcida, a sensualidade da Cláudia Leite e da J-Lo, o chute inicial do rapaz paraplégico no exoesqueleto do Nicolelis… Permiti a mim mesmo deixar de lado, por um instante, meu lado crítico e entrar na patriotada. E, a despeito de todas as críticas que a realização da Copa no Brasil pode receber, me permiti achar tudo aquilo sensacional.

Confesso que cheguei a me comover. Inevitável, veio a lembrança de que esta é a primeira Copa sem minha avó. Ela que gostava tanto do futebol e da seleção. Gostaria que ela pudesse ter visto tudo isso. Mas depois me dei conta de que, de certo modo, ela viu – através dos meus olhos, porque mora no meu coração. Então, percebendo isso, alegrei-me.

Veio a tão esperada hora do jogo. Antes de a bola rolar, um espetáculo à parte da torcida entoando o hino nacional. É impressionante o que o futebol é capaz de fazer, colocando 60 mil pessoas cantando em uma só voz. Isto é, 60 mil só em Itaquera. Tirando os contrários, que merecem todo o respeito – e não porrada, como vem sendo distribuída prodigamente pelas forças de repressão -, acredito que o país todo entrou nesse coro.

A partida começou e os brasileiros pareciam querer baixar a adrenalina – alta demais numa situação dessas. Os jogadores tentavam tocar a bola de pé em pé, mas se expunham demais ao contra-ataque dos croatas. Não demorou muito para a seleção brasileira ser traída pelos nervos. Aos 10 minutos, num ataque rápido dos “brasileiros da Europa”, Marcelo acabou empurrando a bola contra a própria meta. Nesse momento eu temi que o desequilíbrio emocional pudesse tomar conta do time brasileiro e colocar tudo a perder.

No entanto, a equipe brasileira absorveu bem o impacto e passou a pressionar a Croácia. Num lance de raça e genialidade, Oscar roubou a bola e passou para Neymar, que achou espaço para desferir, de fora da área, um chute de precisão cirúrgica: a bola entrou no gol passando rente à trave esquerda do goleiro croata, que nada pôde fazer para evitar o empate. A vibração tomou conta do estádio. Aqui no meu prédio o silêncio foi rompido pela gritaria da comemoração dos vizinhos.

neymar

O primeiro tempo terminou empatado. A etapa complementar começou morna, sem muitas chances para ambos os lados. Logo o Brasil começou a tomar a iniciativa e se impor na partida. A pressão, contudo, era estéril. Nada de gols, nem lances muito agudos.
Mas a história do jogo mudou. E o personagem não foi nem brasileiro, nem croata. Eis que surgiu um protagonista improvável: o árbitro japonês, Yuichi Nishimura.

Num lance polêmico, em que o atacante Fred desabou depois de receber a bola na área croata, o juiz apitou pênalti. Dizem que penalidades mal marcadas não são convertidas. Neymar ajeitou a bola na marca de cal. Tomou distância e partiu para a bola. “Boa, vai ser gol na certa”, pensei. Mas, no meio do caminho, ele interrompeu a corrida triunfante e deu uma paradinha. Nessa hora me lembrei daquela máxima sobre pênaltis mal marcados. “Pronto, ele vai recuar a bola pro goleiro”, praguejei. De fato, ele bateu muito mal. O goleiro chegou a tocar na bola. Mas, ainda assim, não conseguiu evitar o novo trunfo brasileiro. Mais um gol! O segundo de Neymar.

A partir daí, o Brasil passou a controlar a partida, acompanhando a empolgação dos torcedores no estádio. Mesmo assim, continuou se expondo aos contra-ataques da Croácia. Em outro lance muito contestado, os croatas chegaram a marcar. Mas o gol foi anulado, pois o juiz viu falta do atacante sobre o goleiro brasileiro.

E assim, os sustos foram se sucedendo. A torcida não teve sossego quase até o apito final. O alívio só veio aos 44 do segundo tempo, de um chute de bico de Oscar, que veio premiar a dedicação do meia franzino durante toda a partida. Seu gol deu números finais ao jogo: Brasil 3 x 1 Croácia.

O que se seguiu à vitória brasileira na estreia da Copa do Mundo parece refletir exatamente o sentimento dos diferentes grupos em relação ao torneio.

Os autênticos representantes viralatismo brasileiro se lamentam pela “ajuda” do juiz no jogo e pelo que julgam um “fiasco” na abertura do evento (para estes, nada pode ser perfeito abaixo da linha do Equador).

A maior parte, contudo, parece não ter resistido ao clima de festa. Vestiu verde e amarelo, vibrou durante a partida e, após a vitória, saiu para comemorar.

Não que nossas mazelas devam ser esquecidas. Mas hoje, com licença, quero me juntar a essa maioria. Quero curtir esse dia em verde e amarelo.

Anúncios

Porque hoje é sexta-feira

 Na primeira sexta-feira do ano decidi escrever sobre esse dia tão especial. Não por ser a primeira sexta do ano. Nem por hoje ser dia 4. Mas simplesmente por se tratar de uma sexta-feira.

Nesse último dia útil da semana a atmosfera parece ficar mais leve.

Às vésperas do descanso semanal – se bem que muita gente não escapa da labuta no sábado nem no domingo –, o sorriso marca presença com mais frequência, mesmo nos rostos que costumam ficar fechados nos outros dias.

Muitas gravatas e tailleurs ficam nos guarda-roupas, dando lugar a roupas mais confortáveis. Os tons escuros e neutros rareiam em meio às cores quentes. O traje sisudo do dia-a-dia tira férias na sexta-feira.

Porque hoje é sexta-feira. Créditos da foto: Orethorn

Porque hoje é sexta-feira. Créditos da foto: Orethorn

Em meio a tantas tarefas e compromissos há espaço para uma conversa informal durante a parada para o cafezinho. Falar da vida – da própria e da alheia –, comentar as novidades do futebol, apreciar a beleza próxima, enfim, toda sorte de conversa fiada se torna menos subversiva. Os papeis em cima da mesa, o telefone tocando, o relatório que o chefe pediu ficam menos intransigentes neste dia.

Na volta do trabalho, há tempo para uma parada num bar ou num café, para uma pequena celebração da semana que se foi, do sábado que vem chegando. Afinal, ninguém é de ferro. Uma parada para uma cervejinha, um cafezinho, um cigarro, um papo com os amigos.

Viver é preciso. Trabalhar também, mas hoje, menos. Porque hoje é sexta-feira. Pena que nos outros dias não é assim. Mas, por algum motivo, não nos permitimos essa leveza. Por outro lado, não dá pra encarar a rotina sem uma sexta-feira.

Então, até a próxima!

Um domingo inesquecível, em preto e branco

Acordei lá pelas seis e meia da manhã. Logo em seguida, saí para uma caminhada. Já a essa hora, rojões estouravam aqui e acolá, prenunciando um domingo inesquecível. Pelo menos para mim e mais 30 milhões de loucos, 16 de dezembro de 2012 será sempre uma data especial.

Antes de voltar para casa, lá pelas oito, passei na padaria e o movimento era intenso. Tinha fila para comprar o pãozinho na véspera da decisão do mundial de clubes. Era grande o número de corintianos ostentando suas camisas, principalmente a tradicional camisa branca com detalhes em preto.

Chegando em casa, mal pude terminar o café da manhã. Lá estava eu plantado em frente à televisão para assistir ao jogo, ao mesmo tempo em que escutava a emocionante narração no rádio.

Os primeiros 45 minutos foram um aperitivo de toda a tensão e sofrimento que viriam pela frente. Lembro-me do lance em que, num misto de sorte e reflexo, o gigante Cássio, um dos heróis do dia, parou a bola pouco antes de cruzar a linha do gol. Foi o primeiro gol perdido pelos ingleses do Chelsea. Não bastasse essa defesa providencial, o goleirão do Corinthians ainda realizaria outro milagre na etapa inicial, desviando com um leve toque a trajetória da bola que, num chute de Moses, tinha como endereço certo o ângulo superior esquerdo da meta corintiana.

Mas o Timão não passou só sufoco no primeiro tempo. A nação corintiana também teve momentos para lamentar chances de gol perdidas no contra-ataque. No quesito chances perdidas, Emerson Sheik, o grande nome na final da Libertadores, se superou. O grito de gol ficou entalado na garganta.

De fato, esse grito, que parecia não caber mais dentro do peito de cada um dos milhões de corintianos mundo afora, só foi libertado após uma confusão na área do time inglês. Paulinho veio trazendo a bola, meio desajeitado, para dentro da área. A bola sobrou para Danilo, que se livrou da marcação e bateu para o gol. O chute foi bloqueado por um defensor adversário. Mas nesse movimento a bola subiu. Subiu e encontrou Guerrero. No lugar certo. Na hora certa. E a bola foi da cabeça do peruano para as redes, depois de ter caprichosamente beliscado o travessão.

Eu já estava de pé aguardando a conclusão da jogada. Quando vi as redes se estufando não consegui conter a alegria. Gritei “goooool” a plenos pulmões. Pulei e me joguei no chão. Nunca imaginei que eu conseguisse manifestar tamanho contentamento.

Daí em diante, foi um suplício aguardar até o apito final. Um sofrimento que todo corintiano parece já esperar, mas nunca imagina o quão torturante vai ser. E foi difícil aguentar. Mais quatro minutos de tempo adicional. Um gol anulado – em posição de impedimento – do time azul. E, para finalizar, uma bola na trave no último lance da partida. Pronto. Quem sobreviveu ao teste de nervos pôde, enfim, gritar “é campeão!”, e comemorar uma das vitórias mais importantes nos 102 anos do Timão.

Quem sobreviveu, e é corintiano, vai ter uma manhã – ou uma noite, para os fanáticos que foram acompanhar tudo isso lá no Japão – para jamais ser esquecida. Um domingo inesquecível, em preto e branco.

Um dia mágico, em que cada louco do bando teve seu dia de majestade, orgulhoso por torcer para o campeão dos campeões. Um dia em que o choro se fez riso. Um dia em que o pobre gari, vestido com a camisa alvinegra, ergueu a cabeça e bateu no peito, como quem quisesse dizer “não me amole, meu time é campeão.”

Um dia de festa. Festa em Yokohama. Festa na Paulista. Festa em Itaquera. Festa na favela. Festa democrática, enfim, para a “República Popular do Corinthians”. Porque cada um daqueles que fazem parte dessa nação sabe o que significa o sabor dessa vitória.

Natal, a festa das ilusões – ou a “ideologia do Papai Noel”

Mais um ano, mais um Natal.

As multidões invadem as ruas e os shopping centers, à procura de presentes. Os enfeites se multiplicam: nos lares, nas lojas, nos escritórios e onde mais haja espaço. Tudo isso ao som daquelas canções já comuns nessa época do ano.

Pois eu não suporto mais tudo isso. Não bastasse o calor insuportável que faz nessa época, ter de conviver com esse congestionamento de gente, com o imperativo de “decorar” todo e qualquer ambiente com os badulaques natalinos e, o pior de tudo, com a trilha sonora que é sempre a mesma coisa – se ainda fosse boa, mas nem isso – é um desafio para a minha capacidade de ser compreensivo.

O fato é que, com três décadas nas costas, o Natal perdeu todo e qualquer encanto que um dia talvez tenha tido. Essa perda do encanto, contudo, não é questão de idade. Ainda hoje observo um monte de gente bem mais velha que eu maravilhada com o Natal. A perda do encanto é muito mais um efeito “inconveniente” que surge quando sua capacidade de perceber a realidade se amplia.

O exemplo mais clássico desse processo: a descoberta da verdade sobre o Papai Noel. Todo mundo, que um dia foi um pequeno burguês pequeno, já acreditou na existência de um bom velhinho que vivia no Pólo Norte, sabia sobre o seu comportamento ao longo do ano e que, de acordo com seu merecimento, traria um presente na noite de Natal – providencialmente enquanto você dormia, tivesse ou não lareira na sua casa.

O doloroso momento em que uma ilusão se dissipa.

O doloroso momento em que uma ilusão se dissipa.

Sinceramente, não me lembro qual foi minha reação quando descobri a verdade sobre o Papai Noel. Acho que eu já desconfiava de que havia algo errado com essa história. Minha mãe, por sua vez, conta que ela teve uma grande decepção quando ficou sabendo que era meu avô que comprava o presente e o deixava debaixo da árvore de Natal. O fim da “ideologia do Papai Noel” teve um gosto amargo. Acho que, de maneira geral, essa é a nossa reação quando conhecemos um pouco melhor a verdade: nos decepcionamos.

Sim, ficamos decepcionados por nem tudo ser tão lindo e tão brilhante como na fantasia. Decepcionamo-nos também com o fato de a vida não ser tão justa como, pelo menos idealmente, ela deveria ser. Ampliar o conhecimento sobre a realidade, isto é, amadurecer, não é coisa fácil.

Talvez por isso muita gente tenha preferido não querer saber mais nada sobre a verdade, além do fato de que não é o Papai Noel quem nos traz os presentes de Natal. De fato, é mais confortável acreditar que esse é um momento de fraternidade, em que os homens e mulheres se congraçam, trocando abraços, dando e recebendo presentes, acolhendo os mais necessitados, enfim, que o “espírito natalino” enche de bondade o coração de todos.

Há um tempo, contudo, percebi que a história não era bem essa. O consumismo chega às raias da insanidade, as pessoas adoram competições do tipo “quem faz a decoração de Natal mais bonita”, os pobres, depois da festa, continuam na rua da amargura. Há um tempo, descobri que há algo de errado com o tal “espírito natalino”. Há um tempo, cheguei à conclusão de que ele não passava de uma ilusão (da qual eu gostava, porque me dava um certo conforto espiritual). Mas a ilusão se dissipou. Só restaram o calor, a multidão, os delírios de consumo, a pirotecnia natalina, as musiquinhas irritantes… e uma pontinha de decepção.

Mais brutal que a ficção

Massacre de Denver: mais brutal que a ficção. Ilustração de Carlos Lattuf.

Dessa vez, o cavaleiro das trevas nada pôde fazer. Pois não se tratava da fictícia Gotham City, mas da real, demasiado real, cidade de Denver, no Colorado. O massacre foi consumado bem à frente do homem-morcego, sem que o perpetrador fosse detido. Também pudera: havia uma tela de projeção a separar Batmam e o atirador solitário, o herói fictício e o vilão da vida real.

Apesar dessa distância intransponível entre ficção e realidade, ainda assim há algo que as conecta. Como diz aquela sentença matrixiana: “há realidade na sua ficção e ficção na sua realidade”. Ironicamente, ao se entregar à polícia, eis que o criminoso assumiu a identidade de um arqui-inimigo do justiceiro mascarado: “Sou o Coringa”, disse.

No entanto, enquanto do lado de Gotham City tudo não passa de pirotecnia hollywoodiana, do lado de cá da tela restam os mortos e feridos — e sangue derramado no chão. Do lado de cá, tudo é mais brutal que a ficção.

Diante da desconcertante absurdidade do acontecimento, ninguém sabe bem como reagir.

Uns se dizem abalados e expressam suas condolências. Se o fazem com sinceridade é difícil saber, já que não se trata da primeira tragédia do gênero e, infelizmente, talvez não seja a última.

Outros, por sua vez, ficam indagando sobre as razões e desrazões que levaram ao crime. Loucura? Expressão do mal-estar na civilização? Algum tipo de prazer perverso? Muito ainda se especulará. Se a alguma conclusão irá se chegar, só o tempo dirá. Creio que a utilidade do conjecturar está, para além de encontrar alguma resposta, em desviar nossa atenção daquilo que nos incomoda: a frieza do carrasco, a fragilidade do ser humano, a absurdidade da vida, que pode acabar a qualquer momento, sem um aviso nem um porquê.

Num mundo regido pelo imperativo da felicidade, paradoxalmente, a regra é a frustração. Afinal, não é possível haver “vencedores”, para quem os holofotes se dirigem, se não houver “perdedores”. Como dizia Quincas Borba, “ao vencedor, as batatas”. Podemos completar, “ao perdedor, a frustração”. Como os “vencedores” são minoria, com tanta frustração não é difícil encontrar um maluco na esquina, disposto a tudo para se vingar da “injustiça do mundo”. E a vítima pode ser qualquer um.

De qualquer forma, não há mais a quem recorrer. O mal está feito. Não adianta chamar o Batman ou qualquer super-herói. Mesmo que fossem de carne e osso, duvido que conseguiriam evitar a barbárie que brota da moderna civilização capitalista.