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Cristo Redentor: entre o vandalismo e a subversão

O Rio de Janeiro, tão castigado pelas chuvas neste mês de abril, foi palco de uma nova “tragédia”. Na sexta-feira passada, dia 16/04, a estátua do Cristo Redentor amanheceu maculada pela pichação. No monumento foram inscritas as frases: “cadê a engenheira Patrícia?” (desaparecida após uma blitz da PM em 2008) e “quando os gatos saem os ratos fazem a festa”. O prefeito do Rio qualificou o ataque como um “crime de lesa-pátria”. O Cristo Redentor é considerado uma das Sete Maravilhas do Mundo Moderno.

Cristo Redentor

O Cristo Redentor foi alvo de pichações

O ato foi condenado pelos grafiteiros (veja a notícia), que se manifestaram contrários à depredação de monumentos. Bom, até aí, nenhuma surpresa. De fato, existe uma grande diferença entre grafite e pixo. O primeiro apresenta letras bojudas e ricamente coloridas, contando muitas vezes com elementos de luz e sombra, estampando muros não raro com o consentimento dos proprietários. Já o último se manifesta em formas angulosas, monocromáticas, em lugares geralmente inacessíveis, por meio de um código escrito pouco inteligível para quem está fora do circuito. A respeito dessa distinção e da “ética” do pixo, vale ler esta entrevista no Le Monde Diplomatique (clique aqui).

No entanto, ao que parece, os próprios pichadores se manifestaram contrários ao “atentado” ao Cristo. Alguns grupos têm se manifestado contrários na internet (veja a reportagem). O argumento principal é o medo de que se intensifique a perseguição aos pichadores como um todo. Talvez os pichadores do Cristo tenham realmente ido longe demais. Mas não é esse justamente o objetivo do pixo: ir longe demais?

De fato, o pixo se apresenta como uma manifestação da insatisfação daqueles a quem foi reservada a condição de escória da sociedade: péssimas condições de habitação, de saúde e, principalmente, de educação. Enfim, poucas perspectivas de melhoria nessa sociedade. Não bastassem as exíguas perspectivas, a sociedade moderna perversamente interdita a possibilidade desses sujeitos se fazerem ouvidos. O pixo, dessa forma, aparece como uma possibilidade de se fazer ouvir. Uma forma de violência, uma afronta à sociedade. Uma resposta às violências institucionalizadas, principalmente a da omissão — num mundo em que todos podem falar, privilegiados são aqueles que se fazem ouvir, aqueles que têm acesso aos restritos microfones da mídia. Ao mesmo tempo, o pixo reúne uma comunidade de pichadores, os quais visam obter um maior status conforme a dificuldade de suas “façanhas”.

Antes que digam que faço apologia ao vandalismo, apresso-me em dizer que, de maneira alguma, quero justificar o que foi feito no Cristo Redentor. De modo algum. Apenas quero tentar encontrar uma explicação para uma barbaridade dessas. E a explicação, eu a encontro no seio da própria sociedade contemporânea, na sua capacidade de dar a todos o direito de falar, mas a tão poucos o direito de serem ouvidos. Essa barbaridade talvez tenha sido apenas uma em meio a tantas que vemos todos os dias, mas que no entanto não são mais capazes de chocar: crianças abandonadas, pessoas sem um lugar para morar ou morando em condições precárias, vítimas fáceis das intempéries naturais.

Mais uma vez, e que fique bem claro: não estou defendendo esse ato de vandalismo. Ele se constitui numa violência simbólica contra todo o povo brasileiro. Já que o mal está feito, que ele sirva, pelo menos, como uma provocação a pensarmos em todas as outras violências que vemos diariamente, mas não enxergamos.

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Vai levantar poeira!

(Não, não é a Ivete Sangalo que vai se apresentar.)

Está confirmado: neste domingo, a rodoviária velha de Campinas/SP vai ser implodida. (leia a notícia no Cosmo On Line)

Como diria a Dona Armênia: “vão colocar a prédio na chon!”

Tomara que isso não vire um terreno baldio no meio da cidade!

De todo modo, deixo uma última foto de recordação da Estação Rodoviária Dr. Barbosa de Barros.

Rodoviária de Campinas

Rodoviária antiga: em breve, só em foto.

Quando a coisa pública vira privada

Desde que o Brasil é Brasil, parece que esse país tem algum problema com a delimitação do público e do privado.

Primeiro, porque, em princípio, nosso passado colonial é a história de uma série de empreendimentos privados, os quais contavam com o apoio da coroa portuguesa — as capitanias hereditárias são exemplo clássico disso.

Mesmo após a vinda da corte portuguesa em 18o8; após a declaração de Independência; e mesmo com a proclamação da República, jamais o público e o privado conseguiram se constituir em esferas autônomas, ou pelo menos distinguíveis. Basta olhar para o coronelismo que imperou — e ainda impera em alguns locais do nordeste brasileiro — , no qual o público nada mais era do que uma extensão do poder privado dos coronéis.

No entanto, no contexto urbano, o público deixou de ser mera extensão do privado, ganhando certa autonomia. De fato, a cidade, o espaço urbano, impôs por sua própria natureza a criação de espaços e aparelhos de vida comum — ruas, praças, sistema de transporte, iluminação pública, etc. Uma série de bens coletivos, enfim.

Não obstante, embora a esmagadora parcela da população brasileira viva em cidades, ao invés de representar aquilo que não é somente meu, seu, mas de todos; o público, ao contrário, parece simbolizar o que não é de ninguém. A ideologia individualista, propalada fortemente pelo neoliberalismo, parece ter sido importante fator para acentuar essa tendência. O cidadão se torna mero indivíduo racional, mero agente econômico, cujo objetivo primordial é a maximização de sua satisfação — mediada pela propriedade privada.

Lixo

Quando a coisa pública vira privada

Diante desse quadro, não fica difícil perceber porquê o lixo jogado nas ruas da cidade de São Paulo contribuiu sobremaneira para os problemas com as enchentes. A partir do momento em que aquilo que já consumi não mais me serve, nada mais fácil do que livrar-me desse estorvo, jogando-o naquele território que não me pertence, e aparentemente não tem dono — o espaço público.

Porém, aqueles que imputam ao lixo jogado nas ruas a causa única e primordial das enchentes, se deixam levar por uma visão temerariamente simplista. Da mesma forma que o sujeito que joga o lixo na rua desrespeita o público, da mesma forma o fazem os políticos: quando se envolvem em esquemas de corrupção; quando se utilizam da máquina pública para proveito próprio (nepotismo, auto-promoção); ou mesmo quando se omitem — mostrando total desconsideração por aquilo que é de todos.

Desse modo, de nada adianta somente enfocar o fator “lixo jogado nas ruas” para explicar as enchentes em SP. Não se pode esquecer também de averiguar se houve, de fato, omissão e/ou malversação de recursos públicos. Será que o rio Tietê estava sendo desassoreado corretamente? É verdade que as represas estão sendo administradas por empresas privadas — se sim, em que termos se dá essa administração? Que exigências os novos empreendimentos imobiliários devem cumprir, no que diz respeito à impermeabilização do solo?

Que o lixo jogado nas ruas ajuda a provocar enchentes é um fato evidente. Agora, a partir daí, achar que só o lixo é responsável por todo esse pandemônio é, ao meu ver, ingenuidade demais. (Isso sem falar que se supõe que todo o lixo foi deliberadamente depositado de maneira incorreta — será que houve coleta adequada do lixo na cidade?) Pode até ser que as mentes domesticadas pela mídia comprem essa explicação. Mas qualquer cidadão atento perceberá a existência de causas não evidentes.

De todo modo, existe uma causa primordial para esse caos. Isso é o que acontece quando a coisa pública vira privada.

O dia em que São Paulo parou

21 de janeiro de 2010. Às vésperas de completar 456 anos, no dia 25 próximo, a cidade de São Paulo, que ficou conhecida como “cidade que não pode parar”, ficou paralisada. Alagamentos em vias de todas as regiões da cidade comprometeram o trânsito. Desabamentos e a força da água fizeram novas vítimas. A CEAGESP, central de distribuição de alimentos, foi tomada pela água. O caos se instalou.

Culpar tão somente a chuva, que caiu num volume extraordinário — mas que já está se tornando rotineiro — , é uma maneira já ineficaz de tentar explicar essa situação caótica. Um processo histórico de crescimento urbano desordenado, conjugado com omissões do poder público, além da priorização do transporte rodoviário, são algumas das causas do que aconteceu hoje. A permanecerem esses fatores, é de se questionar se essa cidade completará outros 456 anos.

Caos em SP

O trânsito ficou complicado na avenida do Estado; imagem mostra alagamento na divisa entre São Paulo e São Caetano do Sul. Fonte: Terra. Foto: Amilton/vc repórter