Arquivo da tag: chuva

Um dia cinzento

Será que é neblina?

Ou quem sabe chuva fina?

Um dia cinzento.

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Festa junina com chuva

Cheiro de quentão.

Festa junina com chuva

Até São João?

Pés molhados

Com meus pés molhados

Dentro dos sapatos, passo

Um dia de chuva.

Um dia de chuva

Céu cinza de nuvens

Vejo numa poça d’água

Um dia de chuva

Calor

Calor sufocante

Um estrondo que anuncia

Chuva de verão

Chovendo no molhado

“Mal se inicia 2010 e já começam as tragédias: deslizamento de terra em Angra dos Reis, inundação em São Luiz do Paraitinga, Guararema…”

Com esse parágrafo eu abria o post Velhas novas notícias, publicado em 02/01/2010. Um ano depois, mudam as cidades, mas as tragédias se repetem.

E o discurso é o mesmo: choveu demais, faltou planejamento, áreas de risco foram ocupadas indevidamente, o povo jogou lixo onde não devia, etc., etc. Nada de novo. Apenas chovendo no molhado. A situação é exatamente como Leonardo Sakamoto descreveu brilhantemente no post A chuva é recorrente, a incompetência do poder público também.

É aterrador perceber como as experiências terríveis do ano passado foram incapazes de sensibilizar as autoridades — principalmente em nível municipal e estadual — e a própria população a adotarem providências no sentido de tentar prevenir esses desastres.

Por um lado, essa inépcia pode ser atribuída à espetacularização da tragédia: interessa tratar desses acontecimentos apenas enquanto são capazes de gerar audiência, de saciar uma certa perversidade do público diante do sofrimento alheio. Há ainda um velado jogo político em torno de como são veiculadas as notícias, a quem se atribui e de quem se exime a culpa pelo ocorrido. A rigor, todos nós somos culpados por permitir que acontecesse uma tragédia anunciada. Passadas as chuvas e sepultados os corpos, o assunto é esquecido.

Por outro lado e como um desdobramento dessa lógica da espetacularização, parece-me que a desgraça sempre tende a parecer distante, longínqua, mera sequência de efeitos especiais elaborados num estúdio de Hollywood. Enquanto estamos na zona de conforto, nada parece capaz de nos atingir. Os riscos estão tão presentes em todos os domínios da nossa vida que, paradoxalmente, adotamos uma postura deveras despreocupada diante de tantas ameaças (segurança pública, trânsito, mudanças climáticas, agrotóxicos, transgênicos, violação de privacidade e por aí vai…). Talvez seja mesmo uma adaptação — ou um mecanismo de defesa — diante do risco sempre iminente, tentando nos poupar de uma severa neurose. De todo modo, a linha que divide a despreocupação da irresponsabilidade é extremamente tênue. E as tragédias que se repetem são a confirmação de que já ultrapassamos os limites da despreocupação e chegamos às raias da irresponsabilidade.

É preciso cobrar do poder público as devidas providências, sim: políticas de planejamento urbano, de prevenção de desastres e mesmo sistemas para tratamento de situações críticas. Mas também é necessário lembrar dos problemas que estão na raiz da ocupação urbana desordenada. Não podemos permitir que os interesses da especulação imobiliária sejam privilegiados em detrimento do direito à habitação digna — e segura — para todos. Além disso, como exigir que as cidades sejam ocupadas de maneira racional sem políticas que permitam ao homem do campo viver do seu trabalho sem a ameaça do agronegócio?

Que as mortes e a destruição deste início de ano não sejam em vão.