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Nós, Daniel Blake

Assistir ao filme “Eu, Daniel Blake” nos evoca os mais diversos sentimentos: identificação, piedade, tristeza, indignação, acolhimento, esperança.

A película do diretor Ken Loach, vencedora da Palma de Ouro em Cannes, conta a história de pessoas comuns, gente que faz parte dos 99%, quase sempre ausentes de tela grande, embora seja a maioria esmagadora da população.

O cinema, meio por excelência de difusão da versão hollywoodiana de felicidade às massas, encontra em “Daniel Blake” um contraponto à narrativa e personagens hegemônicos.

Loach trata do drama de um viúvo impossibilitado de trabalhar em decorrência de um ataque cardíaco, e suas peregrinações pelos labirintos da burocracia, na tentativa de garantir seu direito a um auxílio-doença. E, durante seu calvário, o protagonista encontra Katie, uma jovem mãe que luta para criar sozinha duas crianças. Daniel, Katie e as crianças representam milhões de pessoas que ficam à margem da sociedade, desprovidas dos meios de viver com dignidade (faltam empregos, seguridade social, um teto para morar e até mesmo comida), à medida que o capitalismo em sua fase neoliberal promove o desmanche do Estado de bem-estar social (o drama se passa na Inglaterra), cinicamente responsabilizando os indivíduos por sua condição miserável.

Se por um lado o filme denuncia a humilhação a que são submetidos homens e mulheres marginalizados pelo sistema (o atendimento nada humano dos call centers, uma burocracia sem sentido, as intermináveis filas dos bancos de alimentos); por outro lado ele exalta virtudes humanas tão pouco valorizadas em uma sociedade individualista e ultracompetitiva: a solidariedade, a identificação com o sofrimento alheio, o compartilhamento do pouco que se tem –mesmo quando isso é quase nada.

Entre a indignação e a esperança, “Eu, Daniel Blake” revela nossos dramas nesses tempos de incerteza. Num mundo em que só há espaço para os vencedores, somos todos potenciais perdedores. Porém, um outro mundo é possível, quando tomarmos consciência de nossa força e nossa dignidade. Nós, os 99%. Nós, Daniel Blake.

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Desigualdade na capa da EXAME: o efeito Piketty

Dias atrás, estava na biblioteca para ler o jornal do dia. Como já havia gente lendo os jornais, busquei alguma revista para ler. Passando os olhos pelas capas das revistas, uma delas imediatamente chamou minha atenção. A chamada da capa era: Por que o capitalismo é tão injusto? Algo que seria normal numa publicação mais alinhada à esquerda, como Caros Amigos, Fórum, Le Monde Diplomatique ou mesmo Carta Capital. Imaginem qual foi minha surpresa ao ver que o tema desigualdade estava na capa da EXAME. Isso mesmo, aquela revista de negócios voltada para um público empresarial – ou, mais claramente, para uma audiência burguesa. Não resisti à curiosidade e fui conferir se o editor da EXAME estava doente ou se, finalmente, teria percebido que o capitalismo não é lá aquela maravilha toda.

Nem uma coisa nem outra. Ingenuidade minha de acreditar que uma publicação tão alinhada com o pensamento do mercado fosse desmerecer o capitalismo. De fato, o autor da matéria não se cansa de ressaltar que o capitalismo é uma espécie de “mal necessário”. Não fosse ele, muitos progressos jamais teriam sido alcançados, justamente como reza o credo (neo)liberal. Apesar de a crença na santa lei da oferta e da procura e na competição como motor do progresso permanecer inabalada, a crescente desigualdade social parece ser uma realidade cada vez mais incômoda. Até para os mais ferrenhos defensores do liberalismo econômico.

Não se assuste. Eu também estranhei, mas essa é a capa da EXAME.

Não se assuste. Eu também estranhei, mas essa é a capa da EXAME – edição 1067, de 11/06/2014.

E isso se deve, fundamentalmente, ao sucesso estrondoso – e improvável – do livro Capital no século XXI, do até então pouco conhecido economista francês Thomas Piketty. Best-seller nos EUA, a obra de Piketty talvez tenha recebido tamanha atenção deste lado do Atlântico justamente por abordar uma realidade cada vez mais inegável na América. Os 1% mais ricos se apropriam da maior parte da renda gerada a partir da recuperação da crise de 2008. E aí entra o livro de Piketty, com uma fartura de dados para sustentar a tese de que a renda do capital tende a crescer mais que a renda do trabalho. Em outras palavras, a riqueza tende a se concentrar nas mãos de poucos.

Em que pesem as controvérsias acerca dos dados usados por Piketty, parece que a desigualdade é um problema que veio para ficar. Se já estava – e sempre esteve – na agenda da esquerda, a desigualdade também passa a fazer parte das preocupações da direita. E, nesse sentido, a matéria da EXAME ajuda a entender por que.

Quando a desigualdade chega a patamares tão elevados, fica difícil sustentar um dos pilares da ideologia liberal: a meritocracia. Num mundo tão desigual, a posição social dos pais torna-se um fator determinante para o lugar que os filhos ocuparão. Nada que seja novidade no nosso Brasil (embora as políticas públicas implementadas nos últimos anos tenham timidamente tentado reverter essa tendência). Mas é, para dizer no mínimo, constrangedor para um liberal defender a ideia de que ricos e pobres têm as mesmas oportunidades de se darem bem na vida, dependendo apenas dos seus esforços, quando nem nos países centrais do capitalismo isso se observa. Quando isso acontece, não é possível invocar o “atraso” como causa dessa baixa mobilidade social. Pelo contrário, essa rígida divisão entre ricos e pobres é consequência de um superdesenvolvimento do sistema capitalista.

Capa da edição americana do livro de Piketty. Um best-seller improvável.

Capa da edição americana do livro de Piketty. Um best-seller improvável.

É bem verdade que os liberais, a exemplo da revista EXAME, continuam a fazer seus malabarismos para tentar explicar as perversidades do capitalismo. Para eles, a incapacidade de o Estado prover educação de qualidade para todos é o principal fator que explica essa injustiça, ao impedir a igualdade de oportunidades. Não há dúvidas de que a educação deveria ser melhor – além de pública e universal (e não mais uma mercadoria). Difícil é imaginar como um Estado mínimo poderia prover melhores serviços públicos. Para bom entendedor, meia palavra basta: o que se defende nas entrelinhas é a privatização desses serviços, com base em mais um dos dogmas neoliberais, a saber, que a iniciativa privada é mais eficiente e provê melhores serviços. Basta citar que o setor de telefonia no Brasil, objeto das privatizações no governo FHC, é um dos líderes em reclamações pelos consumidores. Acho que não é preciso dizer mais nada sobre a falsidade desse dogma.

Outro ponto, não menos relevante, é a posição dessa publicação – e, portanto, da classe que ela representa – diante do “remédio” apontado por Piketty para enfrentar a desigualdade. O economista francês propõe a taxação dos fluxos de capital no mundo. Nessa esteira, poderíamos pensar também na tributação das grandes fortunas. Mas a palavra tributo continua sendo um sacrilégio no culto liberal. Pronunciá-la é um verdadeiro pecado, e logo o autor da matéria procura nos dissuadir dessa ideia diabólica. Afinal, que culpa os ricos têm de ser ricos? Ok, acho que esperei demais da EXAME.

Não li o livro de Piketty, para julgar a qualidade da obra. Aliás, aguardo ansiosamente pela tradução, que deve sair em breve no Brasil, pela Intrínseca. De qualquer forma, a obra já tem um grande mérito. Graças a ela, a desigualdade social ganhou status de verdade científica, não podendo ser varrida tão facilmente para baixo do tapete. Pelo contrário, a desigualdade está no centro dos debates. Afinal, no elevado grau em que se encontra, ela é uma ameaça real à ideologia do capital. E, a julgar pelas tendências do capitalismo, não vai ser em breve que ela deixará de assolar as nossas sociedades.

Mano Brown, Cláudio Lembo e a violência hoje

No segundo dia da Virada Cultural deste ano, marcada por inúmeros episódios de violência – aspecto que, aliás, foi exacerbado pela grande mídia – , Mano Brown, líder dos Racionais MCs, fez um discurso na apresentação da banda. O rapper, com a autoridade de quem representa a voz da periferia por meio das músicas dos Racionais, dirigiu-se à multidão condenando o que ele considerou como atos de “covardia” na noite anterior. Referiu-se a um caso em que dez manos cercaram um moleque para roubar um tênis de R$ 900. Essa violência, longe de representar uma revolta contra o “sistema” seria uma mera demonstração de falta de caráter.

 

Alguns dias depois, em entrevista a Bob Fernandes, um controverso personagem, oriundo do outro lado do espectro político deu declarações de teor aproximado em relação à violência. Cláudio Lembo, ex-governador de São Paulo, cuja vida política esteve sempre ligada a partidos conservadores (Arena, PFL, DEM), expôs sua visão acerca da violência nos dias atuais. Segundo o ex-governador, a sociedade estaria dominada pelo imperativo consumista, desprovida de ideologias. Como nem todos têm condições de consumir segundo os padrões ditados pelo mercado, a delinquência seria a válvula de escape para aqueles que ficaram à margem da sociedade de consumo, já que não existem ideologias capazes de polarizar as tensões sociais para o plano do debate de ideias.

 

É interessante notar a convergência no diagnóstico sobre a violência, partindo de personalidades tão diferentes. Mas, de fato, a despolitização da sociedade, a exacerbação do individualismo e a incessante criação de desejos pela indústria da publicidade compõem um quadro em que a violência aparece como a expressão privilegiada de uma sociedade cindida.

Já que todos são consumidores – e, além disso, consumistas –, consumir deixa de ser uma opção mas torna-se um imperativo. Diante da desigualdade de renda, da precarização do trabalho, etc., muitos veem o seu acesso ao consumo obstruído. Como cumprir a “obrigação” do consumo, então? É nesse momento que a violência, a subtração à força da riqueza alheia, se apresenta como uma opção “legítima” no contexto de uma sociedade regida pela “ética do consumo”.

Ademais, a sociedade consumista, regida pelo ideal da satisfação individual dos desejos de consumo, mostra-se como um lugar hostil às tentativas de ação coletiva, que visem ao bem comum, dotadas de um espírito republicano. A cisão da sociedade em classes, ao invés de se expressar num confronto político-ideológico entre partidários de posições antagônicas, acaba assumindo a forma de uma criminalidade onipresente, de indivíduos contra indivíduos. Uma violência que não ameaça o status quo pois atenta contra a propriedade privada não para destruí-la, mas para transferí-la da mão de um proprietário a outro. Tampouco trata-se de uma violência que pode ser debelada pela ação policial, uma vez que sua causa é a própria estrutura da sociedade de consumo.

Dessa maneira, enquanto a política for tratada com desprezo pela maior parte da sociedade e com oportunismo por boa parcela dos partidos, poucas são as perspectivas de se superar a patologia social da violência. Que o digam Mano Brown e Cláudio Lembo.

A abissal diferença entre “dia do trabalho” e “dia do(a) trabalhador(a)”

1º de maio, para muitos é apenas mais um feriado. Os afortunados que não estão submetidos a um plantão ou a um trabalho precário podem deixar a rotina, pelo menos no dia de hoje. Sendo assim, à primeira vista, pareceria indiferente se o que se comemora é o “dia do trabalho” ou o “dia do(a) trabalhador(a)”. Afinal, o que importa é o dia de descanso.

Dado o caráter estressante e totalitário que o trabalho assume em nossos dias, não seria de se estranhar que um dia de labuta a menos seja tão bem-vindo — ainda que, invariavelmente, existam aqueles que achem paradoxal que se celebre o “dia do trabalho” com o tempo livre. Esse último ponto evidencia a diferença abissal que há entre o “dia do trabalho” e o “dia do(a) trabalhador(a)”. E a distância que há entre esses termos aparentemente intercambiáveis é a distância que separa uma classe da outra — sim, as classes existem!

Celebrar o “dia do trabalho” tem como pressuposto a inexistência das classes. Além disso, pressupõe uma atividade humana atemporal, que existe desde os neandertais e que estará presente daqui a milênios. Afinal, todos os homens e mulheres, efetivamente, trabalham. Mesmo quando contabilizam o lucro obtido com o trabalho alheio.

Comemorar o “dia do(a) trabalhador(a)”, por sua vez, promove o reconhecimento de uma determinada parcela da sociedade em detrimento de outra. Isto é, promove o reconhecimento da classe trabalhadora, aquela que vive sob o imperativo de vender sua força de trabalho. O “dia do(a)  trabalhador(a)” revela não apenas a existência desse grupo social, mas também como historicamente ele se constitui, principalmente por meio das lutas que promove. Revela, portanto, a existência de uma tensão, de um conflito social, de interesses diferentes em jogo.

Evidentemente, como a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante, insiste-se muito em dizer que hoje é “dia do trabalho” e, caso alguém queira contestar, que “dia do trabalho” ou “dia do(a) trabalhador(a)” são denominações muito parecidas e, no fim das contas, dá tudo na mesma. O que eu quis mostrar é que não são a mesma coisa, mas pelo contrário. Aliás, mudando um pouco aquele ditado popular, eu diria “diga-me dia do que é que eu te direi quem és”.

De todo modo, finalizo lembrando a primeira crítica que o velho Marx — sempre ele — fez ao programa do Partido Operário Alemão. Os operários alemães, logo no início do seu programa, se esmeraram em fazer uma apologia ao trabalho. Marx, muito lucidamente, apontou para a armadilha presente nessa apologia:

Primeira parte do parágrafo: «O trabalho é a fonte de toda a riqueza e de toda a cultura.»

O trabalho não é a fonte de toda a riqueza. A Natureza é tanto a fonte dos valores de uso (e é bem nestes que, todavia, consiste a riqueza material [sachlich]!) como o trabalho, que não é ele próprio senão a exteriorização de uma força da Natureza, a força de trabalho humana. Aquela frase encontra-se em todos os abecedários para crianças e está correcta se se subentender que o trabalho se processa com os objectos e meios pertinentes. Um programa socialista, porém, não pode permitir a semelhantes maneiras de dizer burguesas que silenciem as condições que lhes dão — só elas — um sentido. Só enquanto o homem, desde o princípio, se comporta para com a Natureza — a primeira fonte de todos os meios de trabalho e objectos de trabalho — como proprietário, a trata como pertencendo-lhe, o seu trabalho se torna fonte de valores de uso, portanto, também de riqueza. Os burgueses têm muito boas razões para atribuírem falsamente ao trabalho uma força criadora sobrenatural; pois, precisamente, do condicionamento do trabalho pela Natureza segue-se que o homem que não possuir nenhuma outra propriedade senão a sua força de trabalho tem que ser, em todos os estados de sociedade e de cultura, escravo dos outros homens que se fizeram proprietários das condições objectivas do trabalho. Ele só pode trabalhar com a autorização deles, portanto, ele só com a autorização deles pode viver.

(MARX, K. Glosas Marginais ao Programa do Partido Operário Alemão. — os destaques em negrito foram meus)

Acho que tal distinção entre “dia do trabalho” e “dia do(a) trabalhador(a)” é mais fundamental do que nunca, sobretudo num capitalismo em que os trabalhadores são crescentemente cooptados pela burguesia, inclusive simbolicamente, quando são alçados à categoria de “colaboradores”.

Portanto, bom “dia do(a) trabalhador(a)”!

A perversidade da terceirização e a terceirização da perversidade

Em meio à euforia das festas de fim de ano, uma notícia grave – mas não incomum – passou quase despercebida: a construtora MRV foi incluída na “lista suja” do trabalho escravo. Essa lista, mantida pelo Ministério do Trabalho e Emprego, reúne as empresas que se valeram de trabalho em condições análogas à escravidão. A inclusão na lista, além dos óbvios prejuízos à imagem institucional das empresas que nela figuram, acarreta outros prejuízos como o impedimento da contratação de crédito em instituições financeiras públicas, como o BNDES e a CEF.

A MRV, uma das maiores empresas da construção civil no país, alega que o caso de trabalho em condições análogas à escravidão, ocorrido no Paraná em 2011, teria se dado em uma empresa terceirizada, com a qual a construtora teria rompido o vínculo. Casos análogos, no Brasil, ocorreram com a Zara (marca famosa da têxtil espanhola Inditex) e com a Cosan (empresa de açúcar e álcool). Mundialmente, causaram comoção os casos de suicídio na unidade chinesa da Foxconn, empresa responsável pela montagem dos eletrônicos da Apple, entre outras grandes empresas de eletrônicos.

Um padrão parece se repetir: uma grande empresa – uma das maiores em seu ramo – é flagrada na prática de superexploração do trabalho; no entanto, alega ter sido “vítima” da má conduta de uma empresa contratada para lhe prestar um serviço – uma empresa terceirizada. Estamos diante de fenômenos típicos do capitalismo contemporâneo: a perversidade da terceirização e a terceirização da perversidade.

Por um lado, a terceirização (outsourcing), na onda da acumulação flexível e do downsizing, tornou-se prática mais que comum, sob a justificativa de que iria promover uma alocação mais racional dos recursos humanos, ao desinchar o quadro de funcionários das empresas, retirando os trabalhadores não relacionados com a atividade-fim do negócio. Na prática, a terceirização significou uma vitória para o capital e uma derrota para os trabalhadores: para aquele, apresentou-se como a possibilidade de desembaraçar-se de encargos trabalhistas e de rebaixar salários; para estes, significou a precarização das condições de trabalho, a instabilidade no emprego e, consequentemente, a dificuldade de mobilização diante de toda essa precariedade.

Por outro lado, a terceirização permitiu que toda a perversidade da precarização do trabalho pudesse ser atribuída a um terceiro, resguardando a imagem de “socialmente responsável” da empresa contratante dos serviços terceirizados. Se a empresa terceirizada vai à falência, pobres dos funcionários, mas eles que corram atrás dos seus direitos – nós não temos nada a ver com isso. E com esse mesmo cinismo, as grandes empresas já mencionadas se posicionam diante da descoberta de trabalho escravo em sua cadeia de produção.

Felizmente, a justiça, os órgãos governamentais e mesmo os agentes de mercado têm sido intransigentes com essa tentativa de terceirização da perversidade por parte dessas grandes empresas. Em que pese esse discurso que tenta desvincular a superexploração do trabalho de sua imagem institucional, essas empresas têm sido responsabilizadas e penalizadas por essa prática tão vergonhosa. Seria melhor ainda se nós, consumidores, fôssemos mais atentos e adotássemos uma postura mais dura.

De qualquer forma, só resta às empresas serem mais cuidadosas na seleção e acompanhamento de sua cadeia de fornecedores. A tentativa de terceirizar a responsabilidade, como vimos, parece que não colou.

* * *

Clique aqui para ver um mapa com a atualização semestral da “lista suja” do trabalho escravo.

Novos votos para o ano novo

E hoje começa 2013. Mais um ano ficou para trás e um novo ciclo se inicia. Novo? Foi isso o que eu disse? A julgar pelos votos, feitos naqueles momentos que antecedem a virada dos ponteiros do relógio para a meia noite do dia primeiro, tudo parece uma eterna repetição. As pessoas desejam umas às outras saúde, sucesso profissional, sorte no amor, dinheiro no bolso ou, simplesmente, felicidade.

Acho tudo isso muito salutar e cordial. É bom ver que, pelo menos no plano do discurso, as pessoas adotam uma postura de respeito e estima pelo próximo.

Nessa passagem de ano, porém, confesso que senti uma certa dificuldade em proferir essas palavras melífluas. Gostaria de dizê-las com maior naturalidade, mas acho que meu lado ranzinza, além de um certo ceticismo diante dessa boa vontade entre os homens, detiveram um pouco esses tradicionais votos por um segundo a mais na minha boca, fazendo com que eles saíssem com um tom meio mecânico, por força do hábito.

Mas agora que estou escrevendo, e de certa forma posso me explicar, gostaria de fazer votos que posso expressar com mais sinceridade.

Continuo desejando saúde a todo mundo. Mas que ela não seja uma preocupação meramente individual. A saúde é construção coletiva. Não apenas por conta da conduta responsável que temos que assumir para evitar a disseminação de doenças. A saúde é também um direito e, portanto, uma garantia que oferecemos socialmente uns aos outros. Então, que lutemos por esse direito de todos os cidadãos e cidadãs!

Quanto ao sucesso profissional, à sorte no amor, ao dinheiro no bolso, todos me parecem votos extremamente voltados para um aspecto da vida privada de cada um. E não apenas isso, mas um aspecto que, no mundo em que vivemos, na maioria dos casos, implica numa relação de mútua exclusão. Ou seja, o sucesso profissional de um, não raro, depende do fracasso de outros. O que para um pode ser sorte no amor, para outro pode ser um tremendo azar. E, quanto ao dinheiro no bolso, dependendo da fonte dele, sinceramente, é melhor que ele desapareça.

Por fim, aquele voto que parece sintetizar tudo, o voto de felicidade. Pois deixo esse voto de lado neste 2013. “Mas que sujeito mal-amado, desgostoso da vida, amargurado para não desejar felicidade aos outros!”, devem estar bradando indignados os leitores mais sensíveis. Tentarei me explicar. Não sei se serei convincente.

Primeiramente, penso que, por mais tradicional que seja desejar felicidade aos outros, devemos pensar no que é a tal felicidade. A constatação mais paradoxal é que quase todas as pessoas querem ser felizes, embora essas pessoas não consigam oferecer uma mesma definição de felicidade. Apesar do caráter subjetivo, porém, o que se pode notar é que a felicidade, hoje em dia, converge para uma espécie de mescla entre hedonismo e consumismo. A felicidade tem a ver com a satisfação pessoal, isto é, com o aumento do prazer e a diminuição do desprazer. E isso, por sua vez, nos leva ao consumo, atividade tornada quase como a busca da salvação pelos magos da publicidade.

Diante dessa constatação, sou levado a pensar que a felicidade, na nossa sociedade consumista, tem o condão de criar cada vez mais indivíduos egoístas e, ao mesmo tempo, espaçosos. O céu é o limite para os delírios de consumo. E não só isso. A fruição não respeita os limites do outro, e quem dirá os da natureza. Os carros inundam as vias já saturadas de veículos. As músicas invadem o espaço alheio por meio das ondas sonoras amplificadas pela potência dos aparelhos de som, ligados no último volume. O lixo de toda essa fruição entulha as ruas. Como diz Ben Folds na canção All U Can Eat: “they give no fuck, they buy as much as they want / they give no fuck, just as long as there´s enough for then” (“eles não dão a mínima, eles compram o tanto quanto querem / eles não dão a mínima, desde que haja suficiente para eles” – numa tradução livre).

Ben Folds – All U Can Eat (ao vivo)

Os indivíduos “felizes”, tomados por uma satisfação instantânea no momento da compra, tentam afastar com esse comportamento expansivo, durante a fruição das suas santas mercadorias, o gosto amargo da frustração, o vazio que vem em seguida. A felicidade, em sua versão capitalista, é um sempre querer mais. Ou seja, é preciso sempre mais um pouco para estar na “zona de conforto”, na qual é possível deixar os problemas do mundo “do lado de fora”. No fim das contas, é, portanto, um sentimento de perpétua insatisfação – porque o que se tem nunca é suficiente para sentir-se pleno.

A felicidade, assim, parece ser uma grande armadilha. E por isso é que eu abro mão de desejar felicidade a quem quer que seja no ano novo. O que não quer dizer que desejo infelicidade aos outros. Pelo contrário. O que eu desejo é que, antes de buscarmos a tal felicidade, tenhamos consciência. Isto é, que nos preocupemos com aquilo que sentimos, mas também com o que pensamos. Que procuremos entender o que é e o que pode ser a felicidade.

Um exercício da consciência parece me indicar que a felicidade é algo que podemos apreciar em certos momentos da vida, quando estamos serenos para experimentar esse estado de especial alegria e singular harmonia. Algo que não depende necessariamente do que compramos ou exclusivamente do prazer que sentimos. A felicidade parece estar além de tudo isso. Contudo, ela é momentânea e não permanente.

Essa não é uma resposta definitiva, mas um esboço daquilo que eu entendo por felicidade. Somente por meio desse esforço consciente é que eu posso ter meus olhos abertos na busca dessa meta, que não é a única da minha vida – embora importante. Graças à consciência é que posso não ser um mero títere da lógica consumista, que sempre evoca novos prazeres e recompensas sentimentais que suas mercadorias podem trazer. De fato, a indústria capitalista não se preocupa com o que nós pensamos, mas com o que sentimos, e volta todo o seu arsenal de produção de realidades para os nossos sentimentos. A indústria capitalista se preocupa que ousemos pensar.

Por tudo isso, peço perdão aos que se aborrecem com a falta do meu voto de felicidade nesse ano que se inicia. Mas, para diminuir essa sensação de frustração, proponho uma troca: troco meu voto de felicidade por um voto de consciência. Que 2013 seja um ano em que a consciência das pessoas se expanda, permitindo-lhes compreender melhor o mundo em que vivem e o lugar que elas ocupam nesse mundo! E, como sempre, saúde como direito de tod@s! Esses são meus novos votos para o ano novo.

Natal, a festa das ilusões – ou a “ideologia do Papai Noel”

Mais um ano, mais um Natal.

As multidões invadem as ruas e os shopping centers, à procura de presentes. Os enfeites se multiplicam: nos lares, nas lojas, nos escritórios e onde mais haja espaço. Tudo isso ao som daquelas canções já comuns nessa época do ano.

Pois eu não suporto mais tudo isso. Não bastasse o calor insuportável que faz nessa época, ter de conviver com esse congestionamento de gente, com o imperativo de “decorar” todo e qualquer ambiente com os badulaques natalinos e, o pior de tudo, com a trilha sonora que é sempre a mesma coisa – se ainda fosse boa, mas nem isso – é um desafio para a minha capacidade de ser compreensivo.

O fato é que, com três décadas nas costas, o Natal perdeu todo e qualquer encanto que um dia talvez tenha tido. Essa perda do encanto, contudo, não é questão de idade. Ainda hoje observo um monte de gente bem mais velha que eu maravilhada com o Natal. A perda do encanto é muito mais um efeito “inconveniente” que surge quando sua capacidade de perceber a realidade se amplia.

O exemplo mais clássico desse processo: a descoberta da verdade sobre o Papai Noel. Todo mundo, que um dia foi um pequeno burguês pequeno, já acreditou na existência de um bom velhinho que vivia no Pólo Norte, sabia sobre o seu comportamento ao longo do ano e que, de acordo com seu merecimento, traria um presente na noite de Natal – providencialmente enquanto você dormia, tivesse ou não lareira na sua casa.

O doloroso momento em que uma ilusão se dissipa.

O doloroso momento em que uma ilusão se dissipa.

Sinceramente, não me lembro qual foi minha reação quando descobri a verdade sobre o Papai Noel. Acho que eu já desconfiava de que havia algo errado com essa história. Minha mãe, por sua vez, conta que ela teve uma grande decepção quando ficou sabendo que era meu avô que comprava o presente e o deixava debaixo da árvore de Natal. O fim da “ideologia do Papai Noel” teve um gosto amargo. Acho que, de maneira geral, essa é a nossa reação quando conhecemos um pouco melhor a verdade: nos decepcionamos.

Sim, ficamos decepcionados por nem tudo ser tão lindo e tão brilhante como na fantasia. Decepcionamo-nos também com o fato de a vida não ser tão justa como, pelo menos idealmente, ela deveria ser. Ampliar o conhecimento sobre a realidade, isto é, amadurecer, não é coisa fácil.

Talvez por isso muita gente tenha preferido não querer saber mais nada sobre a verdade, além do fato de que não é o Papai Noel quem nos traz os presentes de Natal. De fato, é mais confortável acreditar que esse é um momento de fraternidade, em que os homens e mulheres se congraçam, trocando abraços, dando e recebendo presentes, acolhendo os mais necessitados, enfim, que o “espírito natalino” enche de bondade o coração de todos.

Há um tempo, contudo, percebi que a história não era bem essa. O consumismo chega às raias da insanidade, as pessoas adoram competições do tipo “quem faz a decoração de Natal mais bonita”, os pobres, depois da festa, continuam na rua da amargura. Há um tempo, descobri que há algo de errado com o tal “espírito natalino”. Há um tempo, cheguei à conclusão de que ele não passava de uma ilusão (da qual eu gostava, porque me dava um certo conforto espiritual). Mas a ilusão se dissipou. Só restaram o calor, a multidão, os delírios de consumo, a pirotecnia natalina, as musiquinhas irritantes… e uma pontinha de decepção.