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A onda, a ressaca e depois disso…

Os preparativos

20 de junho, por volta das 16h. Estou apertado e procuro um banheiro. Vou em direção ao Palácio do Jequitibás, sede da Prefeitura de Campinas. Poucos carros trafegam pelas ruas. As pessoas passam ligeiras, querendo tomar logo o rumo de casa.

Chego na prefeitura. Grupos de funcionários deixam o trabalho mais cedo. Um homem de meia idade comenta: “vai ser uma grande baderna.” Sua colega, por sua vez, replica: “mas é uma causa justa; bem que eu queria estar nessa manifestação, mas tenho que pensar na minha família.” O banheiro público está vazio, e sou provavelmente um dos últimos a deixar aquele prédio.

Vagando pelas ruas, percebo praticamente todos os estabelecimentos fechados. Até um posto de gasolina, aberto 24 horas por dia, fecha suas portas. A cidade parece estar se preparando para um tsunami, um terremoto, uma catástrofe.

A uns quarteirões do prédio da prefeitura, encontro uma padaria aberta – mas, ao que parece, por pouco tempo. Apenas eu e um casal estamos sentados no balcão da padaria, enquanto a televisão mostra a insólita partida de futebol entre Espanha e Taiti. O jogo não empolga nem os espanhóis. O ar está impregnado de apreensão. Ninguém sabe o que esperar.

Manifestantes sobem a Barão de Jaguara, em direção ao Largo do Rosário.

Manifestantes sobem a Barão de Jaguara, em direção ao Largo do Rosário.

A onda

À medida que as 17h vão se aproximando, mais e mais grupos – na maioria, de jovens – circulam pelas ruas. Vê-se de tudo, mas principalmente gente de cara pintada, muitos com bandeiras do Brasil – um desavisado poderia pensar que já estamos em 2014, em plena Copa do Mundo. Um mar de gente vai escorrendo pelas ruas do centro da cidade.

Os grupos se aglomeram em várias partes: na praça da Catedral Metropolitana, no calçadão do chopp, no Largo das Andorinhas. Mas principalmente no Largo do Rosário, o local marcado para a manifestação. A quantidade de gente impressiona. Confesso que nunca ter visto tanta gente junta num mesmo lugar. Sinto uma palpitação no peito e uma estranha alegria. Penso que foi bom ter vivido até então para poder acompanhar aquele momento.

Não passa das 17h quando percebo aquela grande massa humana, barulhenta e heterogênea, começar a se mover na Av. Francisco Glicério. Atraído por aquele grande formigueiro humano, como que arrastado por uma onda, me somo à passeata. Procuro meus amigos, do Cursinho do DCE, e não tardo a encontrá-los perto de uma grande faixa vermelha.

Próximo ao prédio dos Correios, tomo um susto com um barulho de explosão. Penso imediatamente na polícia. Mas tudo não passa de um susto: o barulho vem de um rojão que algum manifestante lançou.

Concentração de pessoas em frente à Catedral Metropolitana

Concentração de pessoas em frente à Catedral Metropolitana

A ressaca

A passeata seguiu, pacífica e ruidosa, descendo a Moraes Salles. Muitas eram as palavras de ordem. Perto de onde eu estava, os gritos eram, em sua maioria, dirigidos contra o preço abusivo do transporte público: “mãos ao alto, a passagem é um assalto!”; “3, 3, 3 reais não dá! Eu quero passe livre já!”; e por aí vai. Vez ou outra, contudo, a sensação era a de estar no meio de uma torcida de futebol – ou qualquer outro esporte – brandando o surrado “eu sou brasileeeeeiro, com muito orguuuuulho, com muito amooooor!”

Logo dobramos à esquerda, descendo a Rua Irmã Serafina, indo em direção à Prefeitura. Na altura da Praça Carlos Gomes, uma primeira divisão: parte do grupo ruma para o Centro de Convivência, subindo a Rua Conceição, enquanto uma maioria segue reto, se dirigindo ao Paço Municipal. Circula a notícia da presença da Tropa de Choque no Palácio dos Jequitibás. Má notícia que deixa muita gente apreensiva, inclusive eu.

Depois de um instante de indecisão, em que fiquei assistindo a massa se dividir na praça, decidi seguir meus camaradas na subida da Conceição. Contornamos o Centro de Convivência, onde pude assistir ao primeiro ato de vandalismo: alguém acendeu uma fogueira no alto das arquibancadas do teatro de arena. A massa protestou: “sem vandalismo!”

Descemos a General Osório e ficamos parados em frente à entrada lateral do Colégio Carlos Gomes. A espera logo tornou-se longa, aumentando os temores de que havia algo de errado. E logo esses temores se confirmaram, com os primeiros barulhos de explosão, seguidos de gente correndo pelas ruas que dão acesso ao Paço Municipal. Os líderes do nosso grupo tentavam acalmar a massa de gente que estava lá, parada e temerosa de uma ofensiva policial. As famílias e idosos que acompanhavam a passeata percebiam que aquele lugar não era para eles. Com alguma dificuldade, já que havia muita gente, iam embora, atravessando a multidão.

Lá pelas 20h, o grupo decidiu dobrar a esquina e ficar na Av. Anchieta, em frente ao Colégio Carlos Gomes. Com lentidão fizemos essa manobra. E esperamos mais um pouco, ao som das bombas de efeito moral que a PM arremessava alguns metros adiante, logo ali em frente à Prefeitura. O som das bombas ia se aproximando. A multidão ficava cada vez mais agitada. Acreditávamos, ingenuamente, que os policiais não seriam capazes de usar suas armas contra aquela grande aglomeração.

Logo nossa ingenuidade se dissipou, enquanto uma nuvem de gás lacrimogênio nos envolvia. Era impossível atender à recomendação de não correr. Cada um tentava, em desespero, sair daquela fumaça sufocante. Enquanto meus olhos, narinas e garganta queimavam, eu tentava cambaleante, aos empurrões, não cair nem derrubar ninguém na minha frente. Qual foi o alívio quando consegui deixar a frente do Colégio!

Ainda com os olhos marejados, vejo uma pequena aglomeração em que as pessoas gritavam: “médico!” Alguém tinha passado mal, em consequência do gás. Gritei também, diante da cena desesperadora. Creiam, é desesperador ver alguém nessas condições, numa situação dessas. Não apenas desesperador, mas revoltante. A indignação era tamanha que gritei junto com o pessoal, a plenos pulmões: “ei, PM, vai tomar no cu!”

De fato, a ação da PM marcou o início do fim de uma manifestação popular e pacífica. Sob a justificativa de defender o patrimônio público e privado do vandalismo de uma meia dúzia, atiram-se bombas aos milhares. Como diz o grito, com ironia: “que coincidência, não tem polícia, não tem violência!” Mas a relação entre polícia e violência, meus caros, não é mera coincidência…

Manifestantes e policiais sobem a General Osório

Manifestantes e policiais sobem a General Osório

E depois disso…

Depois disso, a multidão se dispersou em vários grupos. Alguns ainda ficaram próximos à prefeitura, em confrontos com a polícia. Outros, e não poucos, voltaram para casa. O grupo em que eu estava passou a perambular pelas ruas de Campinas. Andamos um pedaço da Glicério, passamos pela Orosimbo Maia, caminhamos pelo Cambuí. O protesto, para nós, acabou no cruzamento da Júlio de Mesquita com a Silva Telles.

Chego em casa por volta da 23h, com o corpo moído e a cabeça a mil. Incapaz de pegar no sono com tanta adrenalina, sento-me em frente ao PC para acompanhar as notícias do protesto. A mídia, previsivelmente, enfatiza a violência e o vandalismo. Os números anunciados, porém, me surpreendem: 30 mil na manifestação, segundo a polícia. A julgar pela fonte, posso supor que éramos, pelo menos, uns 50 mil. O tamanho da mobilização popular, antes visto pelos olhos e agora corroborado pelos números, me deixa empolgado.

Mas a empolgação logo é sucedida pela preocupação. Leio relatos da manifestação em São Paulo e me decepciono com o rumo que as coisas tomaram lá, onde tudo começou. As notícias da capital dão conta da perseguição a manifestantes ligados a partidos políticos, sindicatos e movimentos sociais mais radicais – leia-se MST. Em nome de um falso apartidarismo rasgam-se bandeiras de partidos políticos, acusados de oportunismo. É evidente que não há apartidarismo nenhum, mas um antipartidarismo, dos mais autoritários. A ojeriza à política partidária – alimentada pelo senso comum – transborda em ódio. O “patriotismo pacifista” dá o tom antidemocrático da passeata, ao tentar reduzir todas as diferenças entre os participantes a uma arquibancada de jogo da Copa (apesar desta ser um dos principais alvos do protesto). Ao que tudo indica, o movimento na Paulista dobrou à direita.

O interesse da grande mídia na cobertura das manifestações, a passeata “coxinha” na Paulista, a nova embaixadora americana no Brasil (que estava no Paraguai quando Fernando Lugo foi derrubado), um comportamento estranho da PM, entre outros fatores, de fato causam muita estranheza. Tudo isso é tão estranho que não pouca gente fareja o cheiro de golpe no ar. Pode não passar de uma teoria da conspiração. Mas convém não descuidar. Já que a direita não está conseguindo chegar ao poder pelo voto, por que não tentar manobrar um povo, em grande parte, pouco afeito à política? Para a direita, talvez não custe nada tentar.

De tudo isso, fico com a impressão de que vivemos um desses momentos ímpares na História. Não se pode ignorar o grito que vem das ruas. Tanto que houve uma redução generalizada das tarifas do transporte público no país. Além disso, a presidenta, ciente dessa força que vem das ruas, se pronunciou em rede nacional. A questão é para onde esse grito popular vai nos levar. O momento, portanto, requer atenção. Essa grande onda pode nos levar a uma sociedade melhor, não há dúvida. Mas essa onda pode devastar a nossa jovem e ainda débil democracia. É preciso estar atento. Depois da euforia de estar na rua, convém passar um tempo em casa, refletindo. Não se trata de se isolar do mundo, mas de planejar os próximos passos.

Concentração para a manifestação no Largo do  Rosário

Concentração para a manifestação no Largo do Rosário

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Vai levantar poeira!

(Não, não é a Ivete Sangalo que vai se apresentar.)

Está confirmado: neste domingo, a rodoviária velha de Campinas/SP vai ser implodida. (leia a notícia no Cosmo On Line)

Como diria a Dona Armênia: “vão colocar a prédio na chon!”

Tomara que isso não vire um terreno baldio no meio da cidade!

De todo modo, deixo uma última foto de recordação da Estação Rodoviária Dr. Barbosa de Barros.

Rodoviária de Campinas

Rodoviária antiga: em breve, só em foto.

Tolerância zero – ou, a criminalização da pobreza

Desde outubro de 2009 a Prefeitura Municipal de Campinas (PMC) tem realizado uma série de ações no âmbito do programa Tolerância Zero, voltadas para a redução da criminalidade, por meio da repressão de práticas consideradas ilegais ou perturbadoras da ordem pública. Dentre essas ações, estabelecimentos como bares e boates têm sido lacrados por falta de alvará, por desrespeito à lei do silêncio ou mesmo por falta de atendimento às exigências sanitárias.

Mas a ação que mais tem chamado a atenção é a operação Bom dia morador de rua, por meio da qual os moradores de rua são cadastrados e passam por triagens, a fim de apurar de onde vieram — muitos vêm de outras cidades –, se portam armas ou drogas, se têm antecedentes criminais, se têm família, etc. Essa ação conta com a participação da Polícia Militar (PM), da Guarda Municipal (GM) e de assistentes sociais da prefeitura. Em princípio, o objetivo dessa operação é de retirar os indigentes da rua e tentar dar-lhes um destino: voltar para o município de origem, ser encaminhado a um albergue ou para a cadeia, no caso dos considerados infratores. Seria bom se esse tipo de ação pudesse dar a essas pessoas um lar, uma oportunidade na vida, enfim, dignidade — sem privar-lhes da sua própria liberdade. Na prática, o objetivo da ação é de promover uma “higienização” do centro da cidade, ocultando a “escória da sociedade” dos olhos da classe média — isto é, trata-se de uma estratégia para “acabar com a pobreza”, escondendo os pobres, com base no princípio de que “o que os olhos não veem o coração não sente”.

Ainda que as autoridades alardeiem que houve redução na criminalidade das regiões em que foi deflagrada a operação, o que tem se visto é que alguns dias, ou mesmo algumas horas após a operação, os moradores de rua estão de volta àquelas regiões. Ou então, o que também acontece com frequência, os indigentes migram para outras áreas da cidade, nas quais estão livres do assédio dessa operação — ou seja, acontece apenas uma transferência geográfica do “problema”. É evidente, pois não há como acabar com a pobreza escondendo os pobres.

A única forma de erradicar a pobreza é provendo uma renda digna para todos os cidadãos. O problema é que, em nossa sociedade do trabalho, sob a égide do workfare state, só merece renda quem tem um trabalho remunerado — por mais vazio de significado que seja esse trabalho. Contudo, em virtude da alta produtividade das máquinas e das novas tecnologias, cada vez menos o trabalho humano é necessário — e o desemprego se torna estrutural. Assim, numa situação de desemprego estrutural, quando a renda só é acessível por meio da venda da força de trabalho, a pobreza também se torna estrutural. Contudo, essa pobreza não pode desaparecer como num passe de mágica, para o incômodo daqueles que acreditam que tudo vai bem na nossa sociedade de trabalho, com exceção da pobreza dos “preguiçosos”. Então, eles tentam, sem sucesso, “maquiar” sua cidade, escondendo suas mazelas. Isso pode funcionar por algum tempo, mas jamais se resolverá até que seja reconhecida a necessidade de se dissociar a renda do trabalho; até que se reconheça o legítimo direito de todo cidadão à dignidade e, portanto, a uma renda básica de cidadania, independentemente do fato de ele estar “produzindo algo para a sociedade”.

Tolerância zero

Operação Tolerância Zero no centro de Campinas

E o pior: agora a intolerância se volta contra os guardadores de carros, os limpadores de pára-brisas, vendedores de balas nos cruzamentos e outros subempregados do capitalismo selvagem. Do que adianta proibir-lhes os trabalhos precários, se não lhe oferecem uma outra alternativa de ganhar o pão? Certamente essa ação será infrutífera. O melhor que poderá acontecer é que essa gente mude seus “locais de trabalho”, migrando para o primeiro semáforo longe dos olhos da fiscalização. Não bastasse o fato dessa gente estar nessa condição por falta de oportunidades, agora deve se preocupar em se esquivar dos braços da lei. Lei que se lhes apresenta na sua forma mais ameaçadora, nunca como fonte de direitos, de dignidade. Agora, é crime ser pobre — ainda que a sociedade não lhes dê condições de superar a pobreza.