Arquivo da tag: bicicleta

A abstinência do privilégio

Leio na internet, não sem uma dose de espanto, que a justiça paulista (a mesma do Pinheirinho) determinou que as empresas de transporte e caminhoneiros voltassem às atividades normais, a fim de evitar o desabastecimento de combustível na cidade de São Paulo.

Logo que me dei conta de que a ordem judicial, em que pese o pretexto de preservar o “interesse público”, quer mesmo é manter o privilégio de uma minoria, aquele espanto inicial passou. Lembrei-me que estou no Brasil. Mais que isso, que estou na terra dos bandeirantes — ou melhor, de gente que se orgulha desses “ilustres” homens que promoveram um verdadeiro etnocídio, varrendo do mapa quem lhe parecia diferente e inconveniente, os indígenas. Na prática, o comportamento do paulistano médio continua a refletir os ideais dos velhos bandeirantes.

Sexta-feira passada, a lógica do privilégio, que rege todo o mecanismo da circulação na capital paulista, fez uma vítima fatal. A bióloga Juliana Dias, que se deslocava com sua bicicleta, foi atropelada por um ônibus em plena Avenida Paulista. O fato mostra o quão incivilizadas são as relações no trânsito. Os veículos maiores, que a princípio deveriam zelar pela segurança dos menores, na prática adotam uma postura agressiva: quem quer que se coloque como obstáculo que saia da frente! (Por que será que os SUVs fazem tanto sucesso, apesar de as ruas estarem cada vez menores para tantos veículos?)

Há quem diga que a bicicleta não é um meio de transporte adequado para as vias de grande circulação. Então, qual a solução para o já tão caótico trânsito de São Paulo? Mais carros? E onde serão colocados esses milhares de novos automóveis que entram em circulação na métropole?

A resposta simplista do alcaide da capital é barrar a entrada de caminhões nos horários de grande circulação — além da já furada iniciativa de se fazer o rodízio de acordo com a placa dos veículos. Assim, em tese, haveria espaço para os novos carros que entram em circulação. Evidentemente, problema algum é resolvido com essas iniciativas. Quem sabe, a grande paralisação do trânsito de São Paulo é adiada por algum tempo. Até lá, Kassab já arranjou alguma boquinha em algum governo — tanto faz de que partido seja, já que a ideologia do seu PSD é estar no poder, esteja ele onde estiver.

Enquanto isso, a minoria privilegiada que faz uso do transporte motorizado individual vai — à maneira do prefeito paulistano — “empurrando com a barriga” a questão do transporte e da circulação na metrópole. Cada um busca sua própria solução individual, sem perceber que conjuntamente todos estão criando um problema coletivo. A ilusão do conforto, da potência e da individualidade proporcionada pelo automóvel parece falar mais alto.

Isso explica a histeria que tomou conta da “classe média sofredora” de São Paulo diante da ameaça de falta de combustível para abastecer os carros particulares. Diga-se de passagem, o abastecimento aos veículos dos hospistais, do SAMU, das polícias e outros serviços essenciais foi garantido pelo movimento grevista. Ainda, as empresas de transporte público contam com um suprimento próprio de combustível. O que efetivamente se viu prejudicado foi o abastecimento dos carros de passeio. O direito de ir e vir — a não ser dos transportadores — em momento algum se viu ameaçado.

Em suma, as reações iradas e a celeridade da justiça paulista — tão ciosa de proteger os privilégios de quem os detêm — só podem ter uma explicação: uma crise de abstinência do privilégio. Quando os motoristas individuais veem ameaçado seu privilégio de se impor aos outros agentes do trânsito mediante uma postura intransigente — que veio a resultar na morte da ciclista na Av. Paulista — , a frustração de não terem acesso àquela falsa liberdade proporcionada pelo automóvel se abate sobre eles.

E, desse modo, perde-se a oportunidade de se colocar em pauta um problema sério que afeta diariamente a qualidade de vida dos paulistanos, optando-se pela solução mais simples, que acalme os ânimos do “cidadão de bem”. De fato, a menos que se pense seriamente na melhoria do transporte público e em outras alternativas — entre elas, sim, a bicicleta — , será cada vez mais difícil se locomover na cidade de São Paulo. Boa parte dos paulistanos, ao que parece,  prefere esperar até o dia em que não consigam mais sair do lugar, dentro de seus carros, assistindo de camarote ao “grande congestionamento final”.

Anúncios

Dia mundial sem carro: fracasso aparente, fissura latente

Ontem, embora pouca gente saiba, foi o dia mundial sem carro. Aliás, o conhecimento sobre o dia mundial sem carro é cada vez maior, haja vista que a hashtag #DiaMundialSemCarro entrou nos Trending Topics brasileiros no Twitter. De todo modo, a julgar pela situação do trânsito nas grandes cidades, parece que a data foi solenemente ignorada.

Isso significa um fracasso? Não necessariamente. Minha opinião é de que, a despeito do fracasso aparente, há uma fissura latente na “cultura do automóvel”. Tentarei explicar essa tese logo a seguir.

A civilização brasileira do automóvel

O automóvel é o símbolo maior da modernidade capitalista. Não por acaso, foi um dos principais estandartes do desenvolvimentismo do governo JK, para quem governar era abrir estradas. De fato, instalar a indústria automobilística no Brasil foi uma verdadeira obsessão de Juscelino. Tal indústria carimbaria o “passaporte para a modernidade”, tirando o Brasil de sua situação de “atraso”. A fim de fomentar a indústria do automóvel, não bastaria, contudo, investir nos bens de capital que permitissem sua operação. Era preciso investir na infraestrutura, abrindo rodovias em detrimento das ferrovias.

Na prática, no entanto, esses benefícios da modernidade não favoreceram igualmente todos os brasileiros. À exceção das classes dominantes e das classes médias urbanas, poucos puderam usufruir do conforto, da velocidade e da comodidade do automóvel. A atividade da indústria automobilística, predominantemente de capital estrangeiro, tirou proveito da mão-de-obra barata como forma de ampliar seus lucros. A velocidade dos automóveis — em posse da minoria — , acabou por “deformar” as cidades, opondo o centro à periferia; desconectando os lugares do trabalho, do lazer, do convívio, da habitação.

Esse processo foi levado às últimas consequências nas grandes metrópoles, das quais São Paulo é exemplo paradigmático. E com esse desdobramento, todas as promessas do automóvel caíram por terra. A promessa da velocidade ficou presa no congestionamento. A promessa do símbolo de privilégio e do status social ficou ameaçada pela violência urbana. A promessa de uma vida mais prazerosa sobre quatro rodas foi solapada pelo ritmo frenético da vida cotidiana, ritmo este engendrado pelo mesmo capitalismo que tanto preza o transporte motorizado individual.

Sinal fechado: o que restou da sociabilidade na civilização motorizada

Em busca de novas soluções

Essas promessas não cumpridas, aliadas a outros efeitos nefastos causados pelo paradigma do transporte individual motorizado, notadamente a poluição atmosférica, levaram diversas cidades ao redor do mundo em busca de novas soluções para a mobilidade. Investir em transporte coletivo, seja ferroviário, metroviário, aquaviário, etc. passou a integrar a pauta das políticas públicas de transporte. Nesse contexto, inclusive a bicicleta passou a se apresentar como alternativa para o problema da circulação nos grandes centros.

Esse quadro de insatisfação com respeito ao automóvel enquanto solução de transporte criou as condições para a mobilização social em busca de alternativas, redundando na instituição de um dia mundial sem carro. O que não pode deixar de ser reconhecido como uma conquista: significa que o paradigma do transporte individual motorizado começa a ser questionado. A insatisfação com o atual modelo é tal que boa parte dos moradores de São Paulo estaria disposta a deixar o automóvel na garagem se tivessem uma alternativa eficiente de transporte coletivo.

Um desafio real

A realidade, no entanto, está impregnada com a modernidade do automóvel. Já foi mencionada “deformação” das cidades, processo que resultou numa desconexão geográfica entre os diferentes espaços da vida das pessoas, obrigando-as a vários deslocamentos ao longo do dia. Some-se a isso o insuficiente investimento no transporte público para dar conta da crescente demanda. O que se tem é uma sociedade refém do automóvel. Isto é, em muitos casos, deixar ou não o carro na garagem não chega a ser uma escolha — é uma imposição do modo de vida nas metrópoles.

A batalha está perdida? De maneira alguma. O primeiro passo é reconhecer o problema e ir em busca de uma resposta. Nesse sentido, creio que o dia mundial sem carro é a tentativa de uma resposta, a qual do silêncio passa a ser ouvida e conhecida cada vez por mais pessoas. Ainda que na prática seus resultados possam ser pífios, há de se reconhecer que essa ideia tem que vencer uma inércia que é reforçada pela falta de opção das pessoas. Mas estas, ao se verem nessa situação de impotência, devem se mobilizar a fim de exigir do poder público novas alternativas — aceitáveis — para o deslocamento na cidade. Porque lutar por uma alternativa ao automóvel é, no final das contas, lutar pelo direito de ir e vir.

P.S.: dois textos altamente recomendados sobre essa questão do automóvel: Energía y equidad, de Ivan Illich; e A ideologia social do carro a motor, de André Gorz

Volta do feriadão

Ouvindo o rádio fico impressionado com a situação das estradas na volta do feriadão. Praticamente todas as rodovias que levam a São Paulo apresentam, pelo menos, pontos de lentidão. As que voltam das praias então, nem se fala. Na Rio-Santos, os motoristas levam 5 horas para ir de Ubatuba a Caraguá! Acho que chegariam mais cedo se fizessem esse percurso a pé.

Congestionamento

Congestionamento na volta do feriadão

Esse tipo de situação é que coloca em xeque a racionalidade do transporte baseado no automóvel individual. Quando cada um quer ir mais depressa — individualmente –, todos são prejudicados, tendo que andar mais devagar — coletivamente. Até mesmo a comodidade é questionável, pois acho difícil que alguém goste de ficar dirigindo em 1ª marcha, avançando 100 metros, parando, avançando mais 100 metros e seguir nessa tocada por horas seguidas. Pensar mais coletivamente — ao invés de individualmente –, sem comprometer nossa autonomia individual: acho que esse é o grande desafio do nosso tempo. Fico pensando se houvesse uma boa infraestrutura de transportes coletivos, com trens, ônibus e até mesmo balsas (aproveitando os trechos navegáveis dos rios)… acho que esse caos no trânsito poderia ser minimizado.

Ivan Illich já dizia que o meio de transporte mais eficiente — que percorre uma maior distância por unidade de energia gasta — é a bicicleta. Concordo plenamente com ele. E vejo que cada vez mais a bicicleta ganha novos adeptos. Espero que as políticas públicas também estejam cada vez mais voltadas para incentivar o uso da bicicleta, bem como para a implantação de outros meios de transporte alternativos.