Copo pela metade

Hoje terminou a participação brasileira na Copa 2014. Uma campanha marcada por altos e baixos. E tantos foram os extremos que tenho dificuldade de dizer se o time brasileiro foi bem ou mal. É como um copo pela metade: uns podem ver como um copo meio cheio, outros como um copo meio vazio.

Antes, algumas palavras sobre o jogo de hoje.

A partida já começou emocionante, com um gol logo no início. Mas o gol foi holandês, para assustar o torcedor brasileiro e lembrá-lo do pesadelo dos 7 gols da Alemanha. Num pênalti mal marcado, em falta cometida sobre o perigosíssimo Robben, derrubado fora da área, Van Persie não desperdiçou a cobrança. Para desespero brasileiro.

Apesar de o time parecer menos perdido em relação ao jogo com os alemães, a zaga brasileira teve mais um apagão. Em que pese o fato de o lateral direito estar em situação de impedimento no lance que originou o gol, David Luiz rebateu a bola cruzada para o meio da área – um erro de principiante. A bola sobrou livre e o holandês Blind só teve o trabalho de empurrar para as redes. Holanda 2 x 0 Brasil.

No que veio a seguir, o time brasileiro até teve uma boa participação, principalmente no segundo tempo. Chances claras de gol, contudo, foram poucas. Uma bola cruzada que passou por Paulinho e Davi Luiz, que não conseguiram empurrar a bola para o gol aberto. O Brasil manteve um domínio estéril da partida, com maior posse de bola, mas sem levar perigo ao goleiro Cillessen.

A Holanda, por sua vez, aproveitou uma das poucas chances que teve. Numa bola perdida por Oscar, que tentou cavar uma falta, os holandeses armaram um contra-ataque fulminante, concluído com um chute de Wijnaldum no canto esquerdo de Júlio César. Placar final: Holanda 3 x 0 Brasil.

Assim, os holandeses ficaram merecidamente com o terceiro lugar da competição. Afinal, a Laranja não perdeu nenhum jogo, já que foi desclassificada pela Argentina nos pênaltis.

Para os brasileiros, o quarto lugar é um copo pela metade.

Para os otimistas, é um copo meio vazio, já que sonhavam com a conquista do Mundial em casa. A conquista da Copa das Confederações, no ano passado, alimentou essa expectativa. Uma expectativa dolorosamente frustrada pela goleada sofrida frente a Alemanha.

Para os pessimistas, pode-se dizer que o quarto lugar é um copo meio cheio. Dado que a seleção não mostrou padrão de jogo em momento algum do campeonato, não é exagero dizer que o time chegou longe ao atingir a fase semifinal. Ainda, considerando que a equipe viveu à beira de um ataque de nervos, diante de toda a pressão de conquistar a Copa em casa, era de se esperar que o desequilíbrio emocional fosse interferir dentro de campo em algum momento.

Então, com o fim da participação brasileira na Copa deste ano, fico com esse sentimento estranho. Não me sinto triste porque acho que o Brasil foi além do que, friamente falando, eu podia esperar. Por outro lado, não posso estar feliz diante das derrotas nesses últimos jogos.

Fico mesmo é com uma pulga atrás da orelha: será o Brasil capaz de reinventar-se? Os dirigentes terão capacidade de promover uma reestruturação do futebol nacional, começando pelas categorias de base? Será que nossa imprensa e nós, torcedores, seremos mais tolerantes com os fracassos imediatos, esperando por resultados em longo prazo (como é justamente o caso da Alemanha)?

Jogadores talentosos nós temos. Uma torcida apaixonada também.

Precisamos agora de humildade para aprender e acompanhar a evolução tática, técnica, física, etc. no mundo da bola. E necessitamos também de melhores organização e planejamento do futebol no país. Essa é uma corrida contra o tempo, que começa neste momento.

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Mineiraço e chuva de gols

A terça-feira começou fria e preguiçosa. Depois de um bom tempo, a chuva deu as caras. Não foi o suficiente para resolver os nossos problemas de falta d’água, mas a chuvinha insistente do início da manhã derrubou a temperatura. E tornou a ida ao trabalho um pouco mais difícil. Foi duro deixar as cobertas para trás e levantar da cama. Depois, foi complicado encarar o trânsito, com os carros extras de quem não queria se molhar. Mau sinal.

Com as ausências de Neymar e Thiago Silva, Felipão surpreendeu com a escalação de Bernard no lugar do principal craque da seleção.

A entrada do ex-jogador do Atlético Mineiro nos deixou com a expectativa de um time ofensivo. O técnico Scolari chegou a treinar a equipe com formações mais defensivas, mas privilegiou um jogador com características mais parecidas com as de Neymar.

Para o lugar de Thiago Silva, já era esperada a entrada de Dante, que atua no futebol alemão e conhecia a maioria dos jogadores da Alemanha, a adversária na tarde de hoje.

Malgrado as ausências de jogadores importantes, era de se esperar que o Brasil fizesse uma boa partida. Isso porque a Alemanha, apesar de ser um time altamente organizado e contar com jogadores de altíssimo nível, teve dificuldades em partidas com adversários menos tradicionais, como EUA e Gana.

Mas nem o torcedor brasileiro mais pessimista poderia adivinhar o que viria a seguir.

O Brasil começou o jogo com boa disposição, mas sem organização. Por outro lado, organização era o que sobrava na seleção alemã.

Enquanto o Brasil insistia em jogadas de ligação direta da defesa para o ataque, a Alemanha tinha uma equipe extremamente compacta, com jogadores próximos e dominando o meio campo.

A supremacia alemã não demorou a dar números ao placar. Logo por volta aos 10 minutos, aproveitando uma falha de marcação, Müller apareceu sozinho na área e escorou uma cobrança de escanteio, balançando as redes.

A equipe brasileira parece ter sentido o gol e não conseguiu se recuperar. Insistindo nas bolas longas, o time continuou sem jogadas de meio de campo. Assim, o domínio continuou sendo alemão.

Logo, a seleção alemã ensinou o significado da palavra Blitzkrieg (guerra relâmpago) e, em poucos minutos, demoliu o sonho do hexacampeonato brasileiro. Aos 21′, Klose balançou as redes, superando o recorde de maior goleador em Copas, anteriormente de Ronaldo Fenônemo. Em seguida, aos 23′, Toni Kroos ampliou a vantagem alemã. Logo em seguida, aos 24′, Kroos anotou mais um. Khedira fechou a humilhação brasileira no primeiro tempo aos 28′: Alemanha 5 x 0 Brasil.

Ninguém parecia acreditar no vexame que acontecia no Mineirão. Era de dar pena as crianças que foram ao estádio, chorando copiosamente diante da humilhação brasileira. Dava vontade de que a seleção brasileira nem voltasse a campo para não sofrer vergonha ainda maior.

Não tinha como ficar pior. Por isso mesmo, o Brasil que veio com Paulinho e Ramires no lugar de Fernandinho e Hulk, teve uma melhora aparente. Chegou a ameaçar o gol de Neuer, que foi obrigado a fazer uma ou outra defesa.

Mas, de fato, o domínio continuou a ser alemão. Desesperado para diminuir a diferença no placar, o time brasileiro deu todo o campo de defesa para o contra-ataque alemão. E não demorou para que os europeus ampliassem a vantagem. Schürrle ainda marcou dois gols, aos 23′ e 33′ do segundo tempo. Impressionante 7×0!

Diante de tamanho domínio alemão, o torcedor que foi ao Mineirão aplaudiu os gols de Schürrle. Depois, ainda gritou “olé” quando os alemães colocaram os brasileiros na roda, com sua troca de passes.

Você já ouviu a expressão “gol de honra”? Pois é. Nunca essa expressão fez tanto sentido. Aos 44′ da etapa complementar, Oscar diminuiu o vexame brasileiro.

Como disse um comentário no Twitter: O Maracanaço de 1950 virou um gasparzinho. Frente a esse Mineiraço, tomando 7×1 da Alemanha, não há dúvida.

O dia, que começou com uma chuva, terminou com outra: uma chuva de gols da seleção alemã. Uma aula de futebol. Que nós, brasileiros, tenhamos humildade para assimilar essa lição. E os alemães, certamente, chegam com muita confiança para a final desta Copa.

O gigante David

Todo mundo conhece a história de Davi e Golias. Do menino que derrotou o gigante, com muita coragem e uma funda nas mãos.

Pois bem. Hoje teve um David, um gigante e muita coragem. A diferença é que o personagem foi um só. E a pedrada não foi lançada pelas mãos, mas partiu do pé direito.

A história foi a seguinte.

O Brasil começou bem a partida contra a Colômbia. O time de Felipão começou sufocando o adversário, marcando pressão. E a estratégia do abafa deu resultado. Logo aos 7 minutos, numa jogada de escanteio, depois de a bola ser desviada no primeiro pau, Thiago Silva apareceu livre na segunda trave, só para empurrar para as redes e sair pro abraço. Gol do Brasil! Gol do “chorão” Thiago Silva, que se emocionou antes da decisão por pênaltis contra o Chile.

O gol deu tranquilidade à seleção brasileira. O que não significa que o time se acomodou e ficou todo encolhido, só segurando o resultado. Pelo contrário. O Brasil continuou a se lançar ao ataque e a marcar a Colômbia na saída de bola. A garra dos jogadores brasileiros também impressionou: David Luiz roubou uma bola no campo de defesa e foi levando, aos trancos e barrancos, até perto da área adversária.

Assim, o time deu algumas chances aos colombianos. Por outro lado, Hulk chegou com boas chances de marcar em três oportunidades. No fim do primeiro tempo, Neymar ainda teve chance de marcar numa cobrança de falta, mas bateu com muita força. Desse modo, o time brasileiro não conseguiu traduzir a superioridade em campo em um placar mais elástico.

Na segunda etapa, o time brasileiro não conseguiu manter o mesmo ritmo. A Colômbia, por sua vez, tinha que sair para o jogo, em busca do empate. Com todo esse ímpeto, o time colombiano tomou a iniciativa e ameaçou a meta brasileira em vários momentos.

A vontade de vencer das equipes acabou transbordando para a violência em muitas ocasiões. A arbitragem, por sua vez, se mostrou muito débil para coibir as jogadas ríspidas. A impressão é de que o juiz tinha esquecido o cartão no vestiário.

Mas não, o cartão estava no bolso. Num lance bobo, Thiago Silva ficou entre o goleiro colombiano e a bola na hora em que este ia chutá-la. O capitão da seleção tomou um pontapé e, de quebra, um cartão amarelo que o tirou da próxima partida.

Quando o torcedor brasileiro já ficava preocupado, eis que surge uma falta para o Brasil, a uns 30 metros da meta colombiana. E eis que surge o gigante David. O zagueiro David Luiz ajeitou a bola, tomou distância e, num chute “de chapa”, mandou uma pedrada. O goleiro Ospina bem que tentou ir na bola – e chegou mesmo a tocá-la com a ponta dos dedos. Mas foi insuficiente para desviar o projétil de David, que caiu no ângulo esquerdo do gol colombiano. Brasil 2 x 0 Colômbia.

A partida ainda reservou emoções.

Aos 35 do segundo tempo, o goleiro Júlio César cometeu pênalti. A jovem revelação colombiana, o meia James Rodriguez, correu para a bola e, a la Neymar, deu uma paradinha e empurrou a bola para as redes. E, assim, deu números finais à partida: Brasil 2 x 1 Colômbia.

No fim do jogo, o fato preocupante. Aos 42 minutos, num lance violento, Neymar tomou uma joelhada por trás de Zuñiga. O craque brasileiro ficou caído em campo e saiu da partida aos prantos. O jogador colombiano sequer cartão amarelo recebeu. Vamos ver o que a FIFA, tão rigorosa com a mordida de Luís Suárez, vai fazer nesse caso. Para os torcedores brasileiros, fica a apreensão com a situação de Neymar.

Depois de uma espera sofrida de 5 minutos de acréscimo, a torcida brasileira pôde, enfim, comemorar a classificação para as semifinais. Do lado colombiano, ficou a tristeza pela eliminação que interrompeu uma brilhante participação nesta Copa.

Neste momento, David Luiz mostrou novamente sua grandeza. Depois do apito final, ele acolheu o craque colombiano James Rodriguez, que chorava a desclassificação. David o abraçou, trocou camisas, e pediu que a torcida brasileira aplaudisse o atleta da Colômbia. Um gesto à altura do gigante David.

Mata-mata de matar do coração

Por várias razões, acompanhei o jogo do Brasil de uma forma diferente. Apesar disso, não consegui escapar do sofrimento que, neste primeiro duelo do mata-mata, quase matou torcedoras e torcedores do coração.

Resolvi assistir a partida num shopping center, já que mais tarde eu teria que passar lá. Quis facilitar minha vida, mas faltou combinar com os russos. Isto é, com os administradores do estabelecimento. Apesar de a praça de alimentação estar aberta, não havia telão ou coisa parecida na área pública. Só alguns restaurantes, no seu espaço reservado, tinham uma TV ligada no jogo do Brasil.

Sem graça de filar a televisão desses restaurantes, resolvi dar uma volta pelas cercanias do shopping. Foi uma espécie de experiência antropológica ver o que acontece enquanto o Brasil está parado para acompanhar a seleção.

As ruas ficam praticamente desertas, e o sinal de trânsito não tem muita serventia nessa calmaria. Um ou outro ônibus circula enquanto a bola rola. Poucos carros transitam, alguns ao som de um batidão – para impressionar quem é a questão. Aliás, o que me impressionou foi um golzinho tocando Danúbio Azul (!?). Bom, tem mesmo louco pra tudo nesse mundo.

Mas em cada esquina tem uma padaria, um restaurante, um boteco, um salão de cabeleireira, todos ligados no jogo do Brasil. A voz do Galvão Bueno ecoa pela rua vazia. Mas os gritos da torcida surgem do nada, prenunciando um lance de perigo. O que eu não sei é se o Brasil passou perto do gol, ou se passou um susto.

Continuo andando e os rojões estouram não muito longe de onde estou. “Gol do Brasil”, logo penso. Ando mais um pouco, e mais rojões. “Esse jogo está no papo”, concluo. Mas não demoro a perceber que estava enganado. Passando em frente a um bar, ouço a narração: “trinta minutos do segundo tempo, Brasil 1, Chile 1”. Algum chileno andou estourando rojões.

Nessa altura já estou voltando ao shopping e, sinceramente, penso no pior. Ou, naqueles discursos que a gente elabora para se consolar. “Essa seleção era boa, mas não o suficiente pra aguentar toda essa pressão”, vou pensando. E, sem ser desmentido nem corroborado pelos fogos de artifício, retorno ao meu ponto de partida.

E, quando chego lá, o jogo já está na prorrogação. E continua um a um. O que mudou é que estou cansado e já não sinto vergonha de ficar filando a TV do restaurante, nem a da loja de eletrodomésticos, nem a da loja de materiais de construção. E, em cada uma delas, vou acompanhando o sofrimento brasileiro, junto com o pessoal que vem chegando para o trabalho – já que as lojas, em sua maioria, abririam em poucos minutos, às 16h.

E junto com esse pessoal, vibrei nos últimos minutos. Passei raiva com a incapacidade do time brasileiro criar chances de gol. Gelei com a bola na trave após o chute do atacante chileno, nos minutos finais da prorrogação. Vi, enfim, chegar a hora dos tão temidos pênaltis.

Aí não tinha mais o que fazer. E, nessa hora, todo mundo deu um jeito de parar o que estava fazendo para torcer pelos brasileiros e secar os chilenos. Quando um jogador de camisa amarela ia para a cobrança, o que se ouvia eram os gritos de “Bra-sil! Bra-sil! Bra-sil!” Por sua vez, quando era um boleiro de camisa vermelha, o grito era “Pra fora! Pra fora! Pra fora!” Não sei até que ponto isso dava sorte, mas ajudava a aliviar a tensão.

O Brasil até começou bem a série, acertando a primeira cobrança com David Luiz e, sobretudo, com Júlio César defendendo os dois primeiros pênaltis chilenos. Logo depois da segunda defesa, eu já estava aliviado.

Mas o alívio durou pouco. Foi só o tempo de Willian e Hulk desperdiçarem as cobranças pela seleção brasileira, e os chilenos converterem seus chutes, empatando a série. Em poucos minutos, eu que estava confiante, agora dava a derrota como certa.

Neymar foi o responsável pela última cobrança brasileira. Eu pensei que desta vez ele não daria conta do peso daquele Mineirão lotado sobre seus ombros. Ou melhor, do país inteiro. Mas, mais uma vez, a frieza e a personalidade do garoto me surpreenderam. E, com paradinha e tudo, ele converteu sua cobrança.

Assim, todo o peso foi parar nas costas do batedor chileno, cujo nome agora não recordo – e acho que ele deve estar me agradecendo por esse lapso. Isso porque ele correu pra bola, bateu forte, tirou do goleiro. Mas tirou tanto que a bola bateu forte na trave esquerda de Júlio César. Forte o bastante para fazer desmoronar o sonho chileno de seguir em frente na competição. Forte o bastante para o torcedor brasileiro soltar o grito de alegria entalado na garganta, depois de 120 minutos de jogo e de uma angustiante série de penalidades. Resultado: Brasil na próxima fase, batendo o Chile nos pênaltis por 3 a 2.

Pra começar bem a semana

A semana começou preguiçosa nessa segunda-feira com jogo do Brasil. Fala sério, pra que expediente hoje? Como se alguém conseguisse ser muito produtivo em poucas horas de trabalho numa segundona. Quando finalmente consegui entrar no ritmo, já estava na hora de bater o ponto e ir embora. Mas se assim o deus-trabalho fica mais satisfeito, que seja feita a sua vontade!

Cheguei em casa, ainda deu tempo de assistir a etapa final de Holanda e Chile. Um jogo meio amarrado, com raras chances. Parecia que os jogadores ainda estavam com um pouco de preguiça, em ritmo de fim de semana. Também, ambos os times já estavam garantidos na próxima fase da Copa. A única coisa que estava em jogo era o primeiro lugar no grupo e, prevalecendo a lógica, quem evitaria enfrentar o Brasil já nas oitavas-de-final. A partida só ficou um pouco mais agitada depois que a Holanda abriu o placar. O Chile partiu para o ataque, tentando reverter a vantagem. Mas deixou espaço para o contra-ataque, e a “Laranja Mecânica” ainda anotou mais um tento.

O tempo custou a passar até o começo do jogo do Brasil contra Camarões. A espera pelo início da partida parece ter sido dura também para os jogadores. Foi só o juiz dar o apito inicial que os boleiros da nossa seleção se lançaram atrás da bola, com um apetite até então não demonstrado por esse time na Copa. Tanto que logo nos primeiros minutos o Brasil criou boa chance de marcar.

Mas esse ímpeto inicial, essa vontade de vencer, chegou mesmo a se confundir com afobação. O time brasileiro pressionava a seleção de Camarões, mas de forma desorganizada. Não demorou muito para que o time africano equilibrasse as ações no jogo. Os jogadores brasileiros, muito pilhados, erravam as jogadas e davam oportunidades ao adversário.

Eis que aparece o craque. Aos 15 minutos, numa jogada originada numa roubada de bola, Neymar recebeu o cruzamento de Luiz Gustavo e desviou com um leve toque, suficiente para tirar o goleiro e mandar a bola para a rede. O Brasil abriu o placar.

O Brasil se tranquilizou após o gol. Porém, insistiu em jogadas de lançamento, fazendo a ligação direta da zaga para o ataque, sem reter a bola. Isso dava chances para investidas de Camarões. Os africanos chegaram a acertar o travessão numa jogada de escanteio. No lance seguinte, aproveitando a desorganização da defesa brasileira, os africanos chegaram ao empate. Matip fez o gol camaronês, aos 25 minutos.

Após a igualdade no placar, a tônica do jogo continuou a mesma: o Brasil pressionando, mas abusando dos lançamentos; e os camaroneses tentando explorar as oportunidades de contra-ataque. Mais uma vez, quem tirou o jogo da mesmice foi Neymar. Enquanto os outros atacantes ficavam estáticos, esperando a bola chegar, ele se mexia, buscando as jogadas. Num lance em que Marcelo recuperou com rapidez a bola no campo ofensivo, ele recebeu o passe, conduziu a redonda pelo meio, se livrou do marcador e chutou firme, para anotar mais um gol na partida. Com mais esse trunfo, o jovem craque assumiu a artilharia do torneio.

E o Brasil foi para o vestiário com a vantagem no placar. Na volta para o segundo tempo, uma mudança: Fernandinho no lugar de Paulinho. A alteração deu mais consistência ao meio campo, tanto defensiva como ofensivamente. A seleção parou de abusar das ligações diretas, começando a tocar mais a bola de pé em pé.

Com a melhora evidente, as chances começaram a aparecer. Logo aos 4 minutos da etapa complementar, David Luiz se aventurou na ponta esquerda, cruzou para o meio da área e Fred, até então muito criticado, empurrou de cabeça para as redes. Foi o fim do jejum do camisa 9 nessa Copa.

A vantagem no placar deu ao técnico Felipão a possibilidade de tirar o craque de Neymar de campo, evitando que ele tomasse o segundo cartão amarelo no torneio e ficasse de fora da próxima partida. Mesmo sem a presença do craque, a seleção brasileira continuou a exibir um bom futebol, que foi recompensado com mais um gol: Fernandinho deu números finais ao placar, completando com oportunismo uma bela jogada do time canarinho.

Resultado final: Brasil 4 x 1 Camarões. Goleada da seleção brasileira, pra dar confiança nas oitavas-de-final. Jogo de bom futebol, pra começar bem a semana.

Desigualdade na capa da EXAME: o efeito Piketty

Dias atrás, estava na biblioteca para ler o jornal do dia. Como já havia gente lendo os jornais, busquei alguma revista para ler. Passando os olhos pelas capas das revistas, uma delas imediatamente chamou minha atenção. A chamada da capa era: Por que o capitalismo é tão injusto? Algo que seria normal numa publicação mais alinhada à esquerda, como Caros Amigos, Fórum, Le Monde Diplomatique ou mesmo Carta Capital. Imaginem qual foi minha surpresa ao ver que o tema desigualdade estava na capa da EXAME. Isso mesmo, aquela revista de negócios voltada para um público empresarial – ou, mais claramente, para uma audiência burguesa. Não resisti à curiosidade e fui conferir se o editor da EXAME estava doente ou se, finalmente, teria percebido que o capitalismo não é lá aquela maravilha toda.

Nem uma coisa nem outra. Ingenuidade minha de acreditar que uma publicação tão alinhada com o pensamento do mercado fosse desmerecer o capitalismo. De fato, o autor da matéria não se cansa de ressaltar que o capitalismo é uma espécie de “mal necessário”. Não fosse ele, muitos progressos jamais teriam sido alcançados, justamente como reza o credo (neo)liberal. Apesar de a crença na santa lei da oferta e da procura e na competição como motor do progresso permanecer inabalada, a crescente desigualdade social parece ser uma realidade cada vez mais incômoda. Até para os mais ferrenhos defensores do liberalismo econômico.

Não se assuste. Eu também estranhei, mas essa é a capa da EXAME.

Não se assuste. Eu também estranhei, mas essa é a capa da EXAME – edição 1067, de 11/06/2014.

E isso se deve, fundamentalmente, ao sucesso estrondoso – e improvável – do livro Capital no século XXI, do até então pouco conhecido economista francês Thomas Piketty. Best-seller nos EUA, a obra de Piketty talvez tenha recebido tamanha atenção deste lado do Atlântico justamente por abordar uma realidade cada vez mais inegável na América. Os 1% mais ricos se apropriam da maior parte da renda gerada a partir da recuperação da crise de 2008. E aí entra o livro de Piketty, com uma fartura de dados para sustentar a tese de que a renda do capital tende a crescer mais que a renda do trabalho. Em outras palavras, a riqueza tende a se concentrar nas mãos de poucos.

Em que pesem as controvérsias acerca dos dados usados por Piketty, parece que a desigualdade é um problema que veio para ficar. Se já estava – e sempre esteve – na agenda da esquerda, a desigualdade também passa a fazer parte das preocupações da direita. E, nesse sentido, a matéria da EXAME ajuda a entender por que.

Quando a desigualdade chega a patamares tão elevados, fica difícil sustentar um dos pilares da ideologia liberal: a meritocracia. Num mundo tão desigual, a posição social dos pais torna-se um fator determinante para o lugar que os filhos ocuparão. Nada que seja novidade no nosso Brasil (embora as políticas públicas implementadas nos últimos anos tenham timidamente tentado reverter essa tendência). Mas é, para dizer no mínimo, constrangedor para um liberal defender a ideia de que ricos e pobres têm as mesmas oportunidades de se darem bem na vida, dependendo apenas dos seus esforços, quando nem nos países centrais do capitalismo isso se observa. Quando isso acontece, não é possível invocar o “atraso” como causa dessa baixa mobilidade social. Pelo contrário, essa rígida divisão entre ricos e pobres é consequência de um superdesenvolvimento do sistema capitalista.

Capa da edição americana do livro de Piketty. Um best-seller improvável.

Capa da edição americana do livro de Piketty. Um best-seller improvável.

É bem verdade que os liberais, a exemplo da revista EXAME, continuam a fazer seus malabarismos para tentar explicar as perversidades do capitalismo. Para eles, a incapacidade de o Estado prover educação de qualidade para todos é o principal fator que explica essa injustiça, ao impedir a igualdade de oportunidades. Não há dúvidas de que a educação deveria ser melhor – além de pública e universal (e não mais uma mercadoria). Difícil é imaginar como um Estado mínimo poderia prover melhores serviços públicos. Para bom entendedor, meia palavra basta: o que se defende nas entrelinhas é a privatização desses serviços, com base em mais um dos dogmas neoliberais, a saber, que a iniciativa privada é mais eficiente e provê melhores serviços. Basta citar que o setor de telefonia no Brasil, objeto das privatizações no governo FHC, é um dos líderes em reclamações pelos consumidores. Acho que não é preciso dizer mais nada sobre a falsidade desse dogma.

Outro ponto, não menos relevante, é a posição dessa publicação – e, portanto, da classe que ela representa – diante do “remédio” apontado por Piketty para enfrentar a desigualdade. O economista francês propõe a taxação dos fluxos de capital no mundo. Nessa esteira, poderíamos pensar também na tributação das grandes fortunas. Mas a palavra tributo continua sendo um sacrilégio no culto liberal. Pronunciá-la é um verdadeiro pecado, e logo o autor da matéria procura nos dissuadir dessa ideia diabólica. Afinal, que culpa os ricos têm de ser ricos? Ok, acho que esperei demais da EXAME.

Não li o livro de Piketty, para julgar a qualidade da obra. Aliás, aguardo ansiosamente pela tradução, que deve sair em breve no Brasil, pela Intrínseca. De qualquer forma, a obra já tem um grande mérito. Graças a ela, a desigualdade social ganhou status de verdade científica, não podendo ser varrida tão facilmente para baixo do tapete. Pelo contrário, a desigualdade está no centro dos debates. Afinal, no elevado grau em que se encontra, ela é uma ameaça real à ideologia do capital. E, a julgar pelas tendências do capitalismo, não vai ser em breve que ela deixará de assolar as nossas sociedades.

A Copa e o que está em jogo

Que a Copa do Mundo de futebol é o maior evento esportivo do mundo ninguém duvida. O esporte bretão, por inúmeras razões, tornou-se a modalidade esportiva mais popular do planeta. Tanto que, salvo engano, até bem pouco tempo a FIFA tinha – e talvez ainda tenha – mais membros do que a própria ONU. Assim, não me parece fora de propósito dizer que os olhos do mundo estão voltados para o Brasil.

Diante de tamanha atenção, é óbvio que muita coisa está acontecendo além das quatro linhas. Se, por um lado, a possibilidade de vencer o torneio em casa agrega boa parte dos brasileiros na torcida pela seleção; por outro lado, a exposição midiática em nível planetário se apresenta como uma sedutora oportunidade de publicizar conflitos até então encobertos.

Fla-Flu político-ideológico

Nessa partida que se desenrola fora dos gramados, identifico dois embates transversais, de onde emergem três tendências principais.

Num dos embates, se contrapõem a posição radicalmente contrária à realização do Mundial no Brasil e aquela que apoia o evento – criticamente ou não. Os que se opõem absolutamente são os grupos ligados a partidos de esquerda mais radicais (PSOL e PSTU), e grupos de inspiração anarquista, como os que adotam a tática “black bloc”, por exemplo. Essa posição contrária está em sintonia com o princípio de negação do Estado burguês. Desse modo, a negação da Copa, por extensão, visa a contestar a própria forma do Estado que a promove.

Tal posição contestadora, embora numericamente e politicamente minoritária, ganha visibilidade na medida em que se aproxima de posições que, embora críticas ao torneio, não chegam a postular sua não realização. Essas últimas são, em sua maioria, as posições de setores conservadores da sociedade brasileira, que veem nas críticas à Copa do Mundo uma maneira de enfraquecer a popularidade do governo Dilma Rousseff e, desse modo, abrir possibilidades de retornar ao Palácio do Planalto.

Esses que criticam enquanto assistem de camarote ao Mundial, representam exemplarmente o “dilema” da burguesia nacional diante do torneio. Por um lado, correm o risco de inviabilizar negócios se criticarem demasiadamente o mundial. Se uma rede de televisão ou rádio que tenha os direitos de transmissão fizer uma propaganda muito negativa da Copa, poderá “estragar” seu produto, comprometer sua audiência e suas receitas de publicidade. Por outro lado, sua posição política não permite considerar o torneio como um sucesso e, por conseguinte, reconhecer um êxito do governo ao qual faz oposição. Assim, resta a essa burguesia prestigiar o evento enquanto vaia a presidenta – e finge estar preocupada com a saúde e a educação públicas.

Por fim, os apoiadores do governo Dilma se veem na posição de defesa do Mundial, ressaltando os aspectos positivos da Copa do Mundo no Brasil: visibilidade mundial, obras de mobilidade urbana, belas e modernas arenas, o aumento da autoestima do brasileiro, etc. Ao mesmo tempo, os defensores do torneio se põem a criticar os críticos.

Não é possível se omitir

E, em meio a esse Fla-Flu político-ideológico, é possível adotar uma postura neutra?

Como em qualquer conflito que envolva tantos interesses, cuja resultante irá determinar os rumos de toda uma nação – afinal, estamos em ano de eleitoral –, não é possível manter-se numa neutralidade suíça. A própria ausência de posição já é uma postura que pode definir essa partida a favor de um lado ou de outro. Afinal, um jogador que fica parado em campo pode estar dando condições de jogo ao adversário.

Diante das posições que se apresentam, refuto de antemão a posição de crítica cínica ao Mundial – ou seja, a posição burguesa. Posição que se alinha com aquele clamor genérico contra a corrupção e a favor da saúde e da educação. Obviamente, ninguém vai se dizer a favor da corrupção, ou vai? Evidentemente, todos somos a favor da saúde e da educação de qualidade. É preciso dizer de que forma as queremos: públicas e gratuitas, ou privadas e pagas? Pois é esse o ponto que separa a esquerda da direita.

No contexto da Copa, a questão que fica é se realizá-la é algo que afeta o orçamento das políticas sociais. Se considerarmos que os “gastos” (entre aspas porque boa parte do valor foi financiado, e deve ser pago nos próximos anos) com as obras para construção e reforma de arenas ficaram em R$ 8 bilhões – desde 2007, quando o Brasil foi eleito para sediar o torneio – parece bem pouco factível creditar ao Mundial o “desvio” de recursos para saúde e educação, já que essas áreas têm um orçamento da ordem de R$ 200 bilhões (juntas). Não que R$ 8 bilhões sejam um valor desprezível, mas ainda assim são menos que os R$ 10 bilhões anuais a menos para a saúde com o fim da CPMF (curiosamente, na época da derrubada dessa contribuição, “formadores de opinião” não pareciam muito preocupados com a saúde).

Por outro lado, embora tenha simpatia pela posição radicalmente contrária ao torneio da FIFA, naquilo que ela tem de contestadora do sistema capitalista, não a considero sustentável diante da atual “correlação de forças”. Não me iludo com a complacência e o espaço que os representantes dessa posição têm recebido da mídia tradicional. Trata-se, repito, de utilizar-se da boa fé e voluntarismo desses militantes contra o atual estado de coisas apenas para desgastar o governo petista.

Duvido, sinceramente, que com o poder nas mãos de um tucano haveria a defesa e, muito menos, a publicização da ação desses grupos radicais. Exemplo disso é a cobertura pífia que está tendo a greve dos professores e servidores das universidades públicas paulistas. Pelo contrário, a Folha de São Paulo insinua que, se a USP cobrasse mensalidades, estaria em melhor situação financeira. Ou seja, onde os aliados estão no poder, as ideias neoliberais podem ser defendidas sem grande constrangimento.

Diante desse quadro, me resta ficar ao lado dos que apoiam a Copa. Não que o Brasil esteja às mil maravilhas. Não que o atual governo do PT não mereça reparos. Não sem criticar os pontos que devem ser criticados: a submissão do Estado às exigências da FIFA, as remoções forçadas para a realização das obras para o evento, o caráter elitista do “padrão FIFA”, entre outros.

Mas é preciso reconhecer os pontos positivos. E valorizar a alegria que o futebol proporciona ao povo, muito embora este, em sua maioria, esteja do lado de fora das arenas. Devemos reconhecer, também, a capacidade de realização do povo brasileiro. Este talvez seja o elemento mais subversivo de uma Copa bem-sucedida. Porque, muito embora as elites tenham enchido os bolsos com o torneio, o povo pode se encher de orgulho e confiança – e, assim, continuar a virar o jogo contra secular desigualdade no Brasil.