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Rubem Alves: ostra de muitas pérolas

 

Rubem Alves. Foto: Instituto Rubem Alves

Rubem Alves. Foto: Instituto Rubem Alves

Ontem, recebi com pesar e surpresa a notícia da morte de Rubem Alves, escritor, educador, poeta, filósofo e tantas outras coisas.

Não o conheci pessoalmente, apenas pelos seus escritos e entrevistas. Mas foi o suficiente para me sentir cativado. Seja pela sua fala, ao mesmo tempo mansa e apaixonada pelos assuntos de que se ocupava. Seja pelo jeito singelo de tratar de questões tão profundas e complexas: Deus, a vida, religião, política, educação… tudo assumia uma impressionante simplicidade nas suas metáforas.

Uma das mais conhecidas é a da ostra e das pérolas. Justamente aquela que dá nome a um de seus livros mais populares: Ostra feliz não faz pérola. Segundo essa metáfora, uma ostra feliz, isto é, que não tem nada que a incomode, não produz pérolas. Pois as pérolas são produzidas por uma espécie de mecanismo de defesa, que procura envolver um corpo estranho que se aloja na ostra. Portanto, assim como as ostras, as pessoas sem algo que as incomode não são capazes de produzir uma pérola – uma obra de arte, um escrito, um pensamento, uma música, enfim, uma obra por meio da qual deixe sua marca. Para produzir essa obra é preciso que o sujeito tenha algum tipo de desconforto, que não é necessariamente um sofrimento doloroso, mas pode ser uma curiosidade inquietante.

E, sem dúvida, Rubem foi dessas ostras que produziram muitas pérolas. Ele soube transformar suas inquietações numa obra vasta e profunda – 160 títulos, publicados em 12 países –, que nos deixam muitos ensinamentos. Entre eles, a de que a morte não é algo a se temer: “Eu não tenho medo de morrer… Só tenho pena. A vida é tão boa…”, dizia ele.

Então, é uma pena que já tenha ido, Rubem. Mas você nos deixou muitas pérolas e, por isso, fica aqui minha gratidão: muito obrigado!

Entrevista de Rubem Alves a Antonio Abujamra no programa “Provocações”, da TV Cultura

* * *

 Há umas semanas atrás, andando no Parque do Taquaral, me deparei com uma exposição inspirada nos textos de Rubem Alves.

Abaixo, algumas fotos da exposição e dos textos:

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Como sempre, trabalhando como nunca

Primeiro de janeiro. Ano novo. Dia de comemorar, ou pelo menos curar a ressaca da noite anterior. Dia de fazer planos, ainda que promessas pouco factíveis de serem cumpridas. É, sem dúvida, um momento especial. Um novo ciclo se inicia e inspira as pessoas a sonhar com dias melhores e a celebrar essa chance de virar o jogo.

Em meio a esse clima festivo, no entanto, há gente que está, como sempre, trabalhando como nunca.

São as trabalhadoras e os trabalhadores da saúde, da segurança, da organização dos eventos, da limpeza, entre tantos outros que não abandonam a rotina nessa virada de ano. Ou melhor, saem da rotina ao trabalharem mais que o normal.

Garis trabalhando no ano novo. Foto: Blog do Milton Jung

Garis trabalhando no ano novo. Foto: Blog do Milton Jung

Em Copacabana, por exemplo, foram recolhidas 368 toneladas de lixo. Para sumir com tamanha quantidade de lixo, só com uma verdadeira mobilização de guerra.

Se não fossem esses heróis anônimos, estaríamos todos às voltas com nossos pequenos pesadelos do cotidiano: de não conseguir atendimento médico em caso de urgência a ficar sem papel higiênico por falta de quem vendesse.

Então, como estou meio sem imaginação para novas promessas e votos de feliz ano novo, vou começar 2014 fazendo algo mais útil — e mais justo também. Vou fazer um agradecimento especial a toda essa gente que trabalhou nesses dias de virada de ano. Talvez ninguém sonhe em trabalhar nessas datas. Não fosse esse sacrifício, porém, sequer seria possível sonhar ou festejar qualquer coisa. O ano novo só pode ser feliz por causa do suor dessa gente.

Embalagens, rótulos e conteúdos – ou digressões sobre o preconceito

Certo dia, quando conversava com minha irmã, ela revelou a apreensão de uma amiga sua. A amiga se via incomodada com as insinuações de que seu namorado era gay. Tais insinuações possivelmente levavam em conta a “fala mole” do rapaz. De qualquer forma, achei a preocupação sem pé nem cabeça, pelo menos nos termos em que foi formulada. Então repliquei perguntando se, afinal, a preocupação não era de que o namorado a estivesse traindo.

Aos curiosos de plantão, já adianto que não sei mais detalhes sobre o caso. O interessante dessa história, contudo, é justamente os termos em que o problema foi colocado. Afinal, a desconfiança pesava sobre a fidelidade ou sobre a sexualidade do rapaz? Eu, a princípio, pensei que uma preocupação sobre eventuais puladas de cerca tivesse sido traduzida numa contestação sobre o gosto por mulheres. Depois, refletindo com mais calma, levantei a hipótese de que o incômodo fosse provocado de fato pela “opção sexual” do moço – um rótulo, socialmente estabelecido.

Suponhamos que ele se mantivesse fiel à menina, pelo resto da vida. Mas que, numa enquete, se declarasse homossexual. Essa declaração, por mais que não interferisse efetivamente na vida do casal, provavelmente teria um efeito destruidor. Por outro lado, supondo o contrário, que ele tivesse suas escapadas, mas se declarasse hétero, muito macho: talvez essa postura, embora claramente desleal, fosse tolerada com mais condescendência.

Isso me faz pensar no peso que atribuímos aos rótulos, por mais que eles não digam tudo em relação ao conteúdo – muitas vezes, dizem muito pouco. O mesmo pode ser dito em relação à “embalagem”: como de dizia à respeito da mulher de César, não bastava ela ser honesta, ela tinha de parecer honesta.

O colorido da diversidade não cabe no preto e branco dos preconceitos. Créditos da foto: Dave Sowerby

O colorido da diversidade não cabe no preto e branco dos preconceitos. Créditos da foto: Dave Sowerby

Os rótulos – ou estereótipos – são a expressão mais cristalizada do preconceito. Preconceito, como já diz a palavra, é o conceito que temos estabelecido a priori a respeito de alguma ideia, algum fato, alguma pessoa. Nesse sentido, penso que não temos como evitar os preconceitos. Pois toda experiência é mediada por uma série de pressupostos – lógicos, cognitivos, culturais, psicológicos – que temos conosco. O preconceito é como uma bússola, que orienta nossas ações.

O problema é quando essa bússola está quebrada, sempre apontando na mesma direção, a despeito das nuances e das particularidades de cada situação. E isso acontece quando nos aferramos aos nossos preconceitos. Apegamo-nos tanto que eles, ao invés de orientarem nossa experiência com a realidade, substituem mesmo toda essa experiência. Sobrevalorizamos o rótulo e praticamente desprezamos o conteúdo.

E, como o rótulo é parte inseparável da embalagem, pode-se pensar de maneira similar em relação à aparência. Sobrevalorizamos a imagem, deixando de lado o que está por trás dela. Tudo parece lindo e resplandescente quando sentamo-nos à mesa de um luxuoso restaurante. A aparência nos encanta. Podemos sustentar com alegria essa ilusão. Basta não se atrever a conhecer a cozinha do restaurante – a surpresa pode não ser boa.

Ao fim de todas essas digressões só me resta lamentar que em pleno século XXI, depois de tantas transformações importantes, que vão da pílula anticoncepcional ao progressivo reconhecimento das uniões homoafetivas, nossa atitude perante o mundo esteja ainda tão pautada pelos preconceitos. Só me resta lamentar que demos mais importância ao fato de o sujeito se dizer bi, hétero ou homossexual do que à sua opinião sobre o que é uma vida que vale a pena ser vivida. Só me resta lamentar o daltonismo que não nos permite contemplar todo o colorido da diversidade, impossível de ser expresso nos termos monocromáticos dos nossos rótulos.

Novos votos para o ano novo

E hoje começa 2013. Mais um ano ficou para trás e um novo ciclo se inicia. Novo? Foi isso o que eu disse? A julgar pelos votos, feitos naqueles momentos que antecedem a virada dos ponteiros do relógio para a meia noite do dia primeiro, tudo parece uma eterna repetição. As pessoas desejam umas às outras saúde, sucesso profissional, sorte no amor, dinheiro no bolso ou, simplesmente, felicidade.

Acho tudo isso muito salutar e cordial. É bom ver que, pelo menos no plano do discurso, as pessoas adotam uma postura de respeito e estima pelo próximo.

Nessa passagem de ano, porém, confesso que senti uma certa dificuldade em proferir essas palavras melífluas. Gostaria de dizê-las com maior naturalidade, mas acho que meu lado ranzinza, além de um certo ceticismo diante dessa boa vontade entre os homens, detiveram um pouco esses tradicionais votos por um segundo a mais na minha boca, fazendo com que eles saíssem com um tom meio mecânico, por força do hábito.

Mas agora que estou escrevendo, e de certa forma posso me explicar, gostaria de fazer votos que posso expressar com mais sinceridade.

Continuo desejando saúde a todo mundo. Mas que ela não seja uma preocupação meramente individual. A saúde é construção coletiva. Não apenas por conta da conduta responsável que temos que assumir para evitar a disseminação de doenças. A saúde é também um direito e, portanto, uma garantia que oferecemos socialmente uns aos outros. Então, que lutemos por esse direito de todos os cidadãos e cidadãs!

Quanto ao sucesso profissional, à sorte no amor, ao dinheiro no bolso, todos me parecem votos extremamente voltados para um aspecto da vida privada de cada um. E não apenas isso, mas um aspecto que, no mundo em que vivemos, na maioria dos casos, implica numa relação de mútua exclusão. Ou seja, o sucesso profissional de um, não raro, depende do fracasso de outros. O que para um pode ser sorte no amor, para outro pode ser um tremendo azar. E, quanto ao dinheiro no bolso, dependendo da fonte dele, sinceramente, é melhor que ele desapareça.

Por fim, aquele voto que parece sintetizar tudo, o voto de felicidade. Pois deixo esse voto de lado neste 2013. “Mas que sujeito mal-amado, desgostoso da vida, amargurado para não desejar felicidade aos outros!”, devem estar bradando indignados os leitores mais sensíveis. Tentarei me explicar. Não sei se serei convincente.

Primeiramente, penso que, por mais tradicional que seja desejar felicidade aos outros, devemos pensar no que é a tal felicidade. A constatação mais paradoxal é que quase todas as pessoas querem ser felizes, embora essas pessoas não consigam oferecer uma mesma definição de felicidade. Apesar do caráter subjetivo, porém, o que se pode notar é que a felicidade, hoje em dia, converge para uma espécie de mescla entre hedonismo e consumismo. A felicidade tem a ver com a satisfação pessoal, isto é, com o aumento do prazer e a diminuição do desprazer. E isso, por sua vez, nos leva ao consumo, atividade tornada quase como a busca da salvação pelos magos da publicidade.

Diante dessa constatação, sou levado a pensar que a felicidade, na nossa sociedade consumista, tem o condão de criar cada vez mais indivíduos egoístas e, ao mesmo tempo, espaçosos. O céu é o limite para os delírios de consumo. E não só isso. A fruição não respeita os limites do outro, e quem dirá os da natureza. Os carros inundam as vias já saturadas de veículos. As músicas invadem o espaço alheio por meio das ondas sonoras amplificadas pela potência dos aparelhos de som, ligados no último volume. O lixo de toda essa fruição entulha as ruas. Como diz Ben Folds na canção All U Can Eat: “they give no fuck, they buy as much as they want / they give no fuck, just as long as there´s enough for then” (“eles não dão a mínima, eles compram o tanto quanto querem / eles não dão a mínima, desde que haja suficiente para eles” – numa tradução livre).

Ben Folds – All U Can Eat (ao vivo)

Os indivíduos “felizes”, tomados por uma satisfação instantânea no momento da compra, tentam afastar com esse comportamento expansivo, durante a fruição das suas santas mercadorias, o gosto amargo da frustração, o vazio que vem em seguida. A felicidade, em sua versão capitalista, é um sempre querer mais. Ou seja, é preciso sempre mais um pouco para estar na “zona de conforto”, na qual é possível deixar os problemas do mundo “do lado de fora”. No fim das contas, é, portanto, um sentimento de perpétua insatisfação – porque o que se tem nunca é suficiente para sentir-se pleno.

A felicidade, assim, parece ser uma grande armadilha. E por isso é que eu abro mão de desejar felicidade a quem quer que seja no ano novo. O que não quer dizer que desejo infelicidade aos outros. Pelo contrário. O que eu desejo é que, antes de buscarmos a tal felicidade, tenhamos consciência. Isto é, que nos preocupemos com aquilo que sentimos, mas também com o que pensamos. Que procuremos entender o que é e o que pode ser a felicidade.

Um exercício da consciência parece me indicar que a felicidade é algo que podemos apreciar em certos momentos da vida, quando estamos serenos para experimentar esse estado de especial alegria e singular harmonia. Algo que não depende necessariamente do que compramos ou exclusivamente do prazer que sentimos. A felicidade parece estar além de tudo isso. Contudo, ela é momentânea e não permanente.

Essa não é uma resposta definitiva, mas um esboço daquilo que eu entendo por felicidade. Somente por meio desse esforço consciente é que eu posso ter meus olhos abertos na busca dessa meta, que não é a única da minha vida – embora importante. Graças à consciência é que posso não ser um mero títere da lógica consumista, que sempre evoca novos prazeres e recompensas sentimentais que suas mercadorias podem trazer. De fato, a indústria capitalista não se preocupa com o que nós pensamos, mas com o que sentimos, e volta todo o seu arsenal de produção de realidades para os nossos sentimentos. A indústria capitalista se preocupa que ousemos pensar.

Por tudo isso, peço perdão aos que se aborrecem com a falta do meu voto de felicidade nesse ano que se inicia. Mas, para diminuir essa sensação de frustração, proponho uma troca: troco meu voto de felicidade por um voto de consciência. Que 2013 seja um ano em que a consciência das pessoas se expanda, permitindo-lhes compreender melhor o mundo em que vivem e o lugar que elas ocupam nesse mundo! E, como sempre, saúde como direito de tod@s! Esses são meus novos votos para o ano novo.

Sempre pronto para o fim do mundo

Segundo uma profecia dos maias, uma das civilizações mais prodigiosas que floresceu nas Américas, o mundo acaba amanhã. Preparem-se, pois. Nada mais haverá depois de 21 de dezembro de 2012.

Há quem se desespere diante do prognóstico maia. Não faltam seitas religiosas que se refugiam em seus “paraísos terrestres”, à espera da salvação. Outras, mais fanáticas, buscam a salvação em suicídios coletivos.

Por outro lado, há quem veja na proximidade do fim uma oportunidade para fazer tudo que sempre teve vontade de fazer: pedir as contas no emprego, pular a cerca com a vizinha, mostrar um cartão vermelho pro marido, estourar os limites do cheque especial e do cartão de crédito…

Por fim, há quem pense que, no fim das contas, é melhor que o mundo acabe mesmo. Afinal, a cada dia parece mais evidente que o ser humano não tem conserto. Vide a pobreza e a miséria que, a despeito de tantas novidades tecnológicas, continuam mais atuais que nunca no século XXI. Veja as guerras que pipocam aqui e acolá. Preste atenção na intolerância, seja ela racial, religiosa, de opção sexual, etc. que ganha força em toda parte. Entendo quem pense que um game over não seria nada mal.

Mas, como sou cético, acho que seria otimismo demais achar que o mundo acabaria assim, do nada. Não que os maias não possam estar certos. Levando em conta essa possibilidade é que eu escrevo essas linhas mal articuladas. Pelo sim, pelo não, melhor deixar algum registro. Quem viver, lerá.

Pronto para o fim do mundo? Créditos da foto: Cossue

Pronto para o fim do mundo? Créditos da foto: Cossue

 

Como estava dizendo, pessoalmente, acho que seria até bom se o mundo acabasse: seus problemas acabariam junto com ele. Não conto com isso, evidentemente. O fato é que todos nós vivemos nessa iminência do fim do mundo, porque todo mundo vive na iminência da morte. De fato, estar na iminência da morte é a prova mais manifesta de que estamos vivos.

Por isso, é preciso estar sempre pronto para o fim do mundo. E, na minha maneira de ver, isso significa ter, a cada dia, a sensação do “dever cumprido”. Sim, aquela sensação de que, na medida do possível, você agiu da forma correta, de acordo com suas convicções. A sensação de que, se você não conseguiu realizar tudo o que sempre sonhou naquele dia, ao menos não se desviou do seu caminho para essa utopia.

Isso significa que é preciso ter uma sabedoria para equacionar a relação entre passado, presente e futuro. Não se pode viver preso ao passado, sob pena de perder as chances que aparecem no aqui e agora. Mas tampouco se pode viver somente o momento presente, como se ele se esgotasse em si mesmo. O presente escorre, num movimento instável, para um futuro incerto. Focar-se demais no momento atual é tentar ignorar essa verdade muitas vezes inconveniente: a incerteza. E é olhando para essa incerteza que miramos o futuro, tentando definí-lo, tal como um escultor faz com um bloco de pedra bruta, tentando dar-lhe alguma forma. Nesse esforço de tentar moldar o futuro é que o passado pode ser uma importante inspiração para informar nossa ação.

Portanto, seja o fim dos tempos ou não, tenho a paz de espírito de que, ao menos, tentei. Tentei ser uma pessoa generosa, mas sem perder de vista as perversidades de uma generosidade exagerada. Tentei ser um bom filho, apesar de muitas vezes não entender os meus pais. Tentei ser um bom professor, não só ensinando, mas sobretudo aprendendo com os meus alunos do cursinho. Tentei escrever alguma coisa interessante nesse blog, fazer algumas reflexões, afirmar minha posição política, dar uma expressão para as palavras até então mudas no interior da minha mente.

Apesar de não ter alcançado tudo o que sonhei, sinto-me tranquilo. Acho que estou pronto para o fim do mundo. Caso ele não acabe neste dia 21, também não tem problema. Ainda existem muitas coisas a fazer para tornar esse mundo melhor. Ou, pelo menos, menos pior. A sorte está lançada.

Natal, a festa das ilusões – ou a “ideologia do Papai Noel”

Mais um ano, mais um Natal.

As multidões invadem as ruas e os shopping centers, à procura de presentes. Os enfeites se multiplicam: nos lares, nas lojas, nos escritórios e onde mais haja espaço. Tudo isso ao som daquelas canções já comuns nessa época do ano.

Pois eu não suporto mais tudo isso. Não bastasse o calor insuportável que faz nessa época, ter de conviver com esse congestionamento de gente, com o imperativo de “decorar” todo e qualquer ambiente com os badulaques natalinos e, o pior de tudo, com a trilha sonora que é sempre a mesma coisa – se ainda fosse boa, mas nem isso – é um desafio para a minha capacidade de ser compreensivo.

O fato é que, com três décadas nas costas, o Natal perdeu todo e qualquer encanto que um dia talvez tenha tido. Essa perda do encanto, contudo, não é questão de idade. Ainda hoje observo um monte de gente bem mais velha que eu maravilhada com o Natal. A perda do encanto é muito mais um efeito “inconveniente” que surge quando sua capacidade de perceber a realidade se amplia.

O exemplo mais clássico desse processo: a descoberta da verdade sobre o Papai Noel. Todo mundo, que um dia foi um pequeno burguês pequeno, já acreditou na existência de um bom velhinho que vivia no Pólo Norte, sabia sobre o seu comportamento ao longo do ano e que, de acordo com seu merecimento, traria um presente na noite de Natal – providencialmente enquanto você dormia, tivesse ou não lareira na sua casa.

O doloroso momento em que uma ilusão se dissipa.

O doloroso momento em que uma ilusão se dissipa.

Sinceramente, não me lembro qual foi minha reação quando descobri a verdade sobre o Papai Noel. Acho que eu já desconfiava de que havia algo errado com essa história. Minha mãe, por sua vez, conta que ela teve uma grande decepção quando ficou sabendo que era meu avô que comprava o presente e o deixava debaixo da árvore de Natal. O fim da “ideologia do Papai Noel” teve um gosto amargo. Acho que, de maneira geral, essa é a nossa reação quando conhecemos um pouco melhor a verdade: nos decepcionamos.

Sim, ficamos decepcionados por nem tudo ser tão lindo e tão brilhante como na fantasia. Decepcionamo-nos também com o fato de a vida não ser tão justa como, pelo menos idealmente, ela deveria ser. Ampliar o conhecimento sobre a realidade, isto é, amadurecer, não é coisa fácil.

Talvez por isso muita gente tenha preferido não querer saber mais nada sobre a verdade, além do fato de que não é o Papai Noel quem nos traz os presentes de Natal. De fato, é mais confortável acreditar que esse é um momento de fraternidade, em que os homens e mulheres se congraçam, trocando abraços, dando e recebendo presentes, acolhendo os mais necessitados, enfim, que o “espírito natalino” enche de bondade o coração de todos.

Há um tempo, contudo, percebi que a história não era bem essa. O consumismo chega às raias da insanidade, as pessoas adoram competições do tipo “quem faz a decoração de Natal mais bonita”, os pobres, depois da festa, continuam na rua da amargura. Há um tempo, descobri que há algo de errado com o tal “espírito natalino”. Há um tempo, cheguei à conclusão de que ele não passava de uma ilusão (da qual eu gostava, porque me dava um certo conforto espiritual). Mas a ilusão se dissipou. Só restaram o calor, a multidão, os delírios de consumo, a pirotecnia natalina, as musiquinhas irritantes… e uma pontinha de decepção.

Apesar da política, contra a política e por causa da política

Nesse domingo que passou, 2º turno de eleições municipais, fiquei surpreso comigo mesmo. Minha mãe e minha irmã assistiam ao “The Voice Brasil”, enquanto eu, não suportando aquela cantoria toda (ou seria tola?), procurava nas rádios e na internet alguma notícia sobre as votações. Surpreendi-me com meu interesse pela política e cheguei à conclusão que minha relação com ela sofreu uma mudança radical ao longo da vida.

Na minha infância de classe média, eu não poderia ser muito diferente do meio em que vivia. Hoje fico de cabelo em pé ao lembrar da minha admiração por figuras como o “rouba-mas-faz” Maluf e o ditador peruano Fujimori. Mas naquela época eu via com maus olhos o processo de elaboração de um consenso político: tudo não passava de uma grande embromação.

De fato, o meio social em que eu vivia não me fornecia uma imagem lá muito boa da classe política. Era preciso viver apesar da política: superar, pelo esforço individual, todos os obstáculos colocados pelo Estado e seus representantes — ou, como pensava naquele tempo, os sanguessugas do país. Eu via a democracia como um empecilho para o progresso e percebia a política como um grande fardo a ser carregado. Ou seja, corria pelas minhas veias um liberalismo misturado com o que há de mais autoritário na nossa sociedade. Percebeu algo em comum com o discurso que até hoje é sustentado por boa parte da mídia? Creio que não é mera coincidência.

Mas aquela visão de mundo, em alguns aspectos, revelava sua miopia, que eu não tardei a perceber. Minha relação com a religião, que eu lembre, estimulou muito meu sentimento moral. Fui até a primeira comunhão no meu catolicismo meio capenga, mas o suficiente para questionar as mazelas com as quais me deparava. Será que o mendigo era menos filho de Deus para estar naquela situação? Embora as pessoas ao meu redor parecessem aceitar de bom grado que a condição mendicante tinha algo a ver com os pecados do pobre homem, eu suspeitava que não era bem assim. Aliás, via que gente muito trabalhadora também se estrepava na vida, apesar da “santidade” do trabalho.

Esses questionamentos foram crescendo dentro de mim. Alguns filmes como Matrix e Clube da Luta conseguiram adubar um pouco mais essa “árvore da dúvida”, que florescia cada vez mais. Os frutos desses questionamentos, contudo, me conduziram a uma postura de negação radical da política. Tornei-me um anarquista. Pensava em direcionar meus esforços contra a política. Via nela e em sua forma mais elaborada, o Estado, o princípio e o fundamento da dominação de um homem pelo outro. Tinha para mim que enquanto isso durasse, a Humanidade jamais poderia viver em concórdia. Nessa época votei nulo como forma de expressar essa posição.

Lentamente, contudo, fui percebendo que chegar naquele “paraíso terrestre” não seria tarefa fácil, se é que possível. A vida real — juntamente com as Ciências Sociais — foi mostrando quão mais complexas são as coisas. Percebi que não se pode pensar a sociedade sem os seus conflitos. Entendi que não basta “boa vontade” aos homens e mulheres para viverem bem, em paz e harmonia. Pelo contrário, compreendi que o consenso, longe de ser regra, é a exceção. E os diferentes grupos procuram, cada qual com seus recursos, conduzir o destino de toda a comunidade.

Porém, a maior descoberta, se assim posso dizer, é que o individualismo liberal é uma farsa. Não vivemos isolados e, a menos que sejamos Robinson Crusoé, precisamos de um meio para convivermos civilizadamente uns com os outros. E, ao que parece, ainda não inventaram nada melhor para essa finalidade do que a política. Com essa constatação, aos poucos, meu sentimento em relação à política achou o caminho livre para mudar da água para o vinho. Entendendo que nessa esfera podemos encontrar um meio de expressar nossa vontade para construir um mundo melhor — ou, pelo menos, menos pior — , percebi que hoje vivo, entre outras coisas, por causa da política.

Tenho claro que não há acordo sobre o que seja “um mundo melhor”. Sei que existem aqueles que almejam voltar para um passado mítico, onde “tudo era bom quando cada um tinha seu lugar” (na casa-grande e na senzala). Há também aqueles que querem deixar tudo como está, pois, segundo eles, “ainda não inventaram nada melhor que o capitalismo”. Por fim, há os que, embora reconheçam os avanços trazidos por esse sistema, não toleram a lógica perversa do capital, segundo a qual para que uns possam ter, outros sequer podem ser. E é ao lado desses últimos que eu me coloco, na luta por uma outra realidade. Luta que passa necessariamente pela política. Não há como fugir.