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Nós, Daniel Blake

Assistir ao filme “Eu, Daniel Blake” nos evoca os mais diversos sentimentos: identificação, piedade, tristeza, indignação, acolhimento, esperança.

A película do diretor Ken Loach, vencedora da Palma de Ouro em Cannes, conta a história de pessoas comuns, gente que faz parte dos 99%, quase sempre ausentes de tela grande, embora seja a maioria esmagadora da população.

O cinema, meio por excelência de difusão da versão hollywoodiana de felicidade às massas, encontra em “Daniel Blake” um contraponto à narrativa e personagens hegemônicos.

Loach trata do drama de um viúvo impossibilitado de trabalhar em decorrência de um ataque cardíaco, e suas peregrinações pelos labirintos da burocracia, na tentativa de garantir seu direito a um auxílio-doença. E, durante seu calvário, o protagonista encontra Katie, uma jovem mãe que luta para criar sozinha duas crianças. Daniel, Katie e as crianças representam milhões de pessoas que ficam à margem da sociedade, desprovidas dos meios de viver com dignidade (faltam empregos, seguridade social, um teto para morar e até mesmo comida), à medida que o capitalismo em sua fase neoliberal promove o desmanche do Estado de bem-estar social (o drama se passa na Inglaterra), cinicamente responsabilizando os indivíduos por sua condição miserável.

Se por um lado o filme denuncia a humilhação a que são submetidos homens e mulheres marginalizados pelo sistema (o atendimento nada humano dos call centers, uma burocracia sem sentido, as intermináveis filas dos bancos de alimentos); por outro lado ele exalta virtudes humanas tão pouco valorizadas em uma sociedade individualista e ultracompetitiva: a solidariedade, a identificação com o sofrimento alheio, o compartilhamento do pouco que se tem –mesmo quando isso é quase nada.

Entre a indignação e a esperança, “Eu, Daniel Blake” revela nossos dramas nesses tempos de incerteza. Num mundo em que só há espaço para os vencedores, somos todos potenciais perdedores. Porém, um outro mundo é possível, quando tomarmos consciência de nossa força e nossa dignidade. Nós, os 99%. Nós, Daniel Blake.

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Clerks — ou, crônicas de uma geração perdida

Um dia desses assisti a dois filmes que há muito eu tinha curiosidade de ver: Clerks (título em português O Balconista, 1994) e Clerks II (O Balconista 2, 2006). O que havia me chamado a atenção era o slogan presente no poster de Clerks II: with no power comes no responsibility (sem poder não há responsabilidade). Claramente uma brincadeira com a frase que se tornou celébre no filme do Homem Aranha, quando o tio do herói, prestes a morrer diz: with great power comes great responsibility (com um maior poder vem uma maior responsabilidade).

Os dois filmes têm um enredo semelhante — se bem que cada um com suas próprias situações bizarras. Ambos contam um dia na vida de uma dupla de balconistas: Dante e Randal. O primeiro é um sujeito mais pacato e preocupado com os clientes, mas que vive às voltas com seus problemas com as mulheres. O segundo é o elemento desestruturador, que vive arranjando confusões e encrencas, cujas consequências recaem sobre Dante. O que eles têm em comum é a amizade desde os tempos do colégio, além do fato de estarem conformados com suas tranquilas vidas — ou nem tanto assim — de balconistas. Tirando os acontecimentos extraordinários — por exemplo, no primeiro filme eles vão ao velório de uma ex-namorada de Dante; no segundo, eles saem para andar de kart, depois de serem humilhados por um ex-colega do colegial –, a rotina dos balconistas é marcada por brincadeiras, conversas sobre filmes, sobre o comportamento dos clientes e, é claro, um atendimento ou outro.

A primeira impressão que se pode ter, a princípio, é de que esses filmes são mero besteirol. Mas, tomando-os um pouco a sério — quando isso é possível — pode-se perceber que eles não contam apenas a história de dois personagens caricatos. Os filmes tratam da história de toda uma geração, nascida e criada a partir da metade da década de 1970, adotando a ironia como recurso crítico.

Clerks: Dante e Randal discutem questões políticas de Star Wars

De fato, a partir da metade da década de 1970, o capitalismo passa por uma grande metamorfose. Passa-se de um capitalismo sob a égide do Estado de Bem-Estar Social, no qual os conflitos entre o capital e o trabalho são mantidos sob controle, para um modelo no qual o Estado abandona esse papel de mediação, tornando mais frouxo o pacto entre os empresários e trabalhadores, conferindo maior liberdade para a atuação do capital — modelo que o geógrafo marxista David Harvey, em seu livro A condição pós-moderna, chama de acumulação flexível. A virada dos anos 1970 para os 1980 é marcada pela ascenção do neoliberalismo, representado nas figuras da primeira-ministra britânica Margaret Tatcher e do presidente americano Ronald Reagan. Ambos serão lembrados pelas políticas desestatizantes, bem como pela desregulamentação das leis trabalhistas.

Ao mesmo tempo em que o Welfare State era atacado, as grandes corporações optaram por internacionalizar suas atividades, sobretudo as atividades de produção, em busca de mão-de-obra mais barata, além de legislações ambientais e trabalhistas mais lenientes — ou mesmo inexistentes. Como consequência, os países centrais do capitalismo passaram por um intenso processo de terciarização da economia, isto é, de migração das atividades do setor industrial (secundário) para o setor de serviços (terciário). Agora, lembremo-nos que tudo isso ocorre depois da consolidação das classes médias urbanas, fortemente apoiadas pelo Estado de Bem-Estar Social, que lhes possibilitava uma vida segura e confortável.

Clerks II: Star Wars ou Senhor dos Anéis?

E é nesse cenário que nascem e crescem nossos balconistas. Que expectativas eles podem ter em relação à vida quando os empregos bem remunerados e seguros tornaram-se coisa do passado? O que eles podem esperar do futuro quando se veem impelidos a passar o resto de seus dias atrás de um balcão de loja de conveniência ou de um restaurante de fast food — sendo mau remunerados e nunca sabendo se terão emprego no dia seguinte? É bem verdade que um ou outro sujeito da sua geração pode se destacar — como acontece no segundo filme, em que um ex-colega deles se torna um milionário da internet. Mas, via de regra, as perspectivas não são lá muito animadoras.

O que fazer diante desse panorama? Pegar em armas e fazer uma revolução? Não, isso hoje em dia parece antiquado. Talvez seja melhor tentar esquecer a pequenez da vida cotidiana e tentar aceder à grandeza dos espetáculos, do cinema, do mundo do entretenimento. Em suma, tentar evadir-se da realidade por meio da fantasia. Ou mesmo, por meio das drogas (Jay e Silent Bob estão sempre por perto).

Nesse sentido, não consigo ver Clerks como mero cinema de entretenimento, para passar o tempo. Pode até não ter sido essa a intenção de quem produziu os filmes, mas para mim Clerks tem um valor histórico: são as crônicas de uma geração perdida.

Zeitgeist

Para quem ainda não viu os documentários Zeitgeist (2007) e Zeitgeist Addendum (2008), não posso deixar de recomendá-los.

“Zeitgeist” é uma expressão em alemão que designa o espírito do tempo, o espírito de uma época. Nesse sentido, esses documentários se propõem a revelar quais são os mecanismos de dominação que envolvem nosso mundo, impedindo a humanidade de superar a miséria, as guerras e a desigualdade.

Você pode assistir os filmes pela internet, no endereço: http://www.zeitgeistmovie.com/

Se preferir baixar os filmes — ou tiver dificuldades com o streaming — baixe este torrent (com os filmes em divx e imagem de dvd, com legenda em português).

Ah, e dia 13 de março é o ZDAY2010.

Quando a vida imita a arte

Lendo as notícias pela manhã, uma particularmente me chamou a atenção, pelo caráter bizarro: Chinesa quer visual Jessica Alba para reatar namoro. Em resumo, uma chinesinha de 21 anos, cujo ex-namorado era aficcionado pela atriz Jessica Alba (do filme Quarteto Fantástico, Sin City, entre outros), resolveu se submeter a uma série de cirurgias plásticas a fim de ficar parecida com a atriz e — assim espera ela — reconquistar o rapaz.

Jessica Alba chinesa

Jessica Alba "made in China" - Foto: Reuters

Esquisitices à parte, eu fiquei pensando que já conhecia uma história assim de algum lugar. Então me lembrei que algo tão absurdo assim só poderia vir da ficção. Uma história bem parecida é a trama do filme coreano Shi Gan (conhecido como Time — O amor contra a passagem do tempo). (atenção: contém spoilers… quem quiser assistir o filme antes, não leia o que se segue, pois vou contar resumidamente a história)

Nesse filme, uma garota extremamente ciumenta, descontente com sua aparência, acredita que não atrai mais a atenção do namorado. Então, ela subitamente desaparece, sem deixar vestígio. Na verdade, ela se submete a uma série de cirurgias plásticas, perseguindo um padrão de beleza, com o qual ela acredita que será capaz de conquistar novamente a atenção do namorado. Tempos depois ela reaparece na vida do rapaz, sem revelar sua identidade, com sua nova aparência deslumbrante. De fato, no início, ela consegue o seu objetivo de seduzir novamente o namorado. Este, porém, mostra que continua apaixonado pela “antiga namorada”, ou seja, por ela mesma na sua aparência anterior. Nada poderia ser mais frustrante para a moça, que se vê às voltas com um ciúme de si mesma, ou de uma outra ela mesma. O namorado acaba descobrindo o segredo, e resolve fazer a mesma coisa: sumir e mudar de aparência. Agora é a garota que passa a procurá-lo, encontrando, no entanto, outros homens que não ele. Quando finalmente ela parece encontrá-lo, ele é vítima de um acidente. Sem mais perspectivas, a garota vai em busca de um nova identidade, se submetendo a novas cirurgias…

Não sei o que será da chinesinha. De todo modo, a história da Jessica Alba made in China e do filme Shi Gan só me convence cada vez mais daquela frase — do filme Matrix, se não me engano — , que diz: há um pouco ficção na sua realidade, e um pouco de realidade na sua ficção.