Mata-mata de matar do coração

Por várias razões, acompanhei o jogo do Brasil de uma forma diferente. Apesar disso, não consegui escapar do sofrimento que, neste primeiro duelo do mata-mata, quase matou torcedoras e torcedores do coração.

Resolvi assistir a partida num shopping center, já que mais tarde eu teria que passar lá. Quis facilitar minha vida, mas faltou combinar com os russos. Isto é, com os administradores do estabelecimento. Apesar de a praça de alimentação estar aberta, não havia telão ou coisa parecida na área pública. Só alguns restaurantes, no seu espaço reservado, tinham uma TV ligada no jogo do Brasil.

Sem graça de filar a televisão desses restaurantes, resolvi dar uma volta pelas cercanias do shopping. Foi uma espécie de experiência antropológica ver o que acontece enquanto o Brasil está parado para acompanhar a seleção.

As ruas ficam praticamente desertas, e o sinal de trânsito não tem muita serventia nessa calmaria. Um ou outro ônibus circula enquanto a bola rola. Poucos carros transitam, alguns ao som de um batidão – para impressionar quem é a questão. Aliás, o que me impressionou foi um golzinho tocando Danúbio Azul (!?). Bom, tem mesmo louco pra tudo nesse mundo.

Mas em cada esquina tem uma padaria, um restaurante, um boteco, um salão de cabeleireira, todos ligados no jogo do Brasil. A voz do Galvão Bueno ecoa pela rua vazia. Mas os gritos da torcida surgem do nada, prenunciando um lance de perigo. O que eu não sei é se o Brasil passou perto do gol, ou se passou um susto.

Continuo andando e os rojões estouram não muito longe de onde estou. “Gol do Brasil”, logo penso. Ando mais um pouco, e mais rojões. “Esse jogo está no papo”, concluo. Mas não demoro a perceber que estava enganado. Passando em frente a um bar, ouço a narração: “trinta minutos do segundo tempo, Brasil 1, Chile 1”. Algum chileno andou estourando rojões.

Nessa altura já estou voltando ao shopping e, sinceramente, penso no pior. Ou, naqueles discursos que a gente elabora para se consolar. “Essa seleção era boa, mas não o suficiente pra aguentar toda essa pressão”, vou pensando. E, sem ser desmentido nem corroborado pelos fogos de artifício, retorno ao meu ponto de partida.

E, quando chego lá, o jogo já está na prorrogação. E continua um a um. O que mudou é que estou cansado e já não sinto vergonha de ficar filando a TV do restaurante, nem a da loja de eletrodomésticos, nem a da loja de materiais de construção. E, em cada uma delas, vou acompanhando o sofrimento brasileiro, junto com o pessoal que vem chegando para o trabalho – já que as lojas, em sua maioria, abririam em poucos minutos, às 16h.

E junto com esse pessoal, vibrei nos últimos minutos. Passei raiva com a incapacidade do time brasileiro criar chances de gol. Gelei com a bola na trave após o chute do atacante chileno, nos minutos finais da prorrogação. Vi, enfim, chegar a hora dos tão temidos pênaltis.

Aí não tinha mais o que fazer. E, nessa hora, todo mundo deu um jeito de parar o que estava fazendo para torcer pelos brasileiros e secar os chilenos. Quando um jogador de camisa amarela ia para a cobrança, o que se ouvia eram os gritos de “Bra-sil! Bra-sil! Bra-sil!” Por sua vez, quando era um boleiro de camisa vermelha, o grito era “Pra fora! Pra fora! Pra fora!” Não sei até que ponto isso dava sorte, mas ajudava a aliviar a tensão.

O Brasil até começou bem a série, acertando a primeira cobrança com David Luiz e, sobretudo, com Júlio César defendendo os dois primeiros pênaltis chilenos. Logo depois da segunda defesa, eu já estava aliviado.

Mas o alívio durou pouco. Foi só o tempo de Willian e Hulk desperdiçarem as cobranças pela seleção brasileira, e os chilenos converterem seus chutes, empatando a série. Em poucos minutos, eu que estava confiante, agora dava a derrota como certa.

Neymar foi o responsável pela última cobrança brasileira. Eu pensei que desta vez ele não daria conta do peso daquele Mineirão lotado sobre seus ombros. Ou melhor, do país inteiro. Mas, mais uma vez, a frieza e a personalidade do garoto me surpreenderam. E, com paradinha e tudo, ele converteu sua cobrança.

Assim, todo o peso foi parar nas costas do batedor chileno, cujo nome agora não recordo – e acho que ele deve estar me agradecendo por esse lapso. Isso porque ele correu pra bola, bateu forte, tirou do goleiro. Mas tirou tanto que a bola bateu forte na trave esquerda de Júlio César. Forte o bastante para fazer desmoronar o sonho chileno de seguir em frente na competição. Forte o bastante para o torcedor brasileiro soltar o grito de alegria entalado na garganta, depois de 120 minutos de jogo e de uma angustiante série de penalidades. Resultado: Brasil na próxima fase, batendo o Chile nos pênaltis por 3 a 2.

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