A Copa e o que está em jogo

Que a Copa do Mundo de futebol é o maior evento esportivo do mundo ninguém duvida. O esporte bretão, por inúmeras razões, tornou-se a modalidade esportiva mais popular do planeta. Tanto que, salvo engano, até bem pouco tempo a FIFA tinha – e talvez ainda tenha – mais membros do que a própria ONU. Assim, não me parece fora de propósito dizer que os olhos do mundo estão voltados para o Brasil.

Diante de tamanha atenção, é óbvio que muita coisa está acontecendo além das quatro linhas. Se, por um lado, a possibilidade de vencer o torneio em casa agrega boa parte dos brasileiros na torcida pela seleção; por outro lado, a exposição midiática em nível planetário se apresenta como uma sedutora oportunidade de publicizar conflitos até então encobertos.

Fla-Flu político-ideológico

Nessa partida que se desenrola fora dos gramados, identifico dois embates transversais, de onde emergem três tendências principais.

Num dos embates, se contrapõem a posição radicalmente contrária à realização do Mundial no Brasil e aquela que apoia o evento – criticamente ou não. Os que se opõem absolutamente são os grupos ligados a partidos de esquerda mais radicais (PSOL e PSTU), e grupos de inspiração anarquista, como os que adotam a tática “black bloc”, por exemplo. Essa posição contrária está em sintonia com o princípio de negação do Estado burguês. Desse modo, a negação da Copa, por extensão, visa a contestar a própria forma do Estado que a promove.

Tal posição contestadora, embora numericamente e politicamente minoritária, ganha visibilidade na medida em que se aproxima de posições que, embora críticas ao torneio, não chegam a postular sua não realização. Essas últimas são, em sua maioria, as posições de setores conservadores da sociedade brasileira, que veem nas críticas à Copa do Mundo uma maneira de enfraquecer a popularidade do governo Dilma Rousseff e, desse modo, abrir possibilidades de retornar ao Palácio do Planalto.

Esses que criticam enquanto assistem de camarote ao Mundial, representam exemplarmente o “dilema” da burguesia nacional diante do torneio. Por um lado, correm o risco de inviabilizar negócios se criticarem demasiadamente o mundial. Se uma rede de televisão ou rádio que tenha os direitos de transmissão fizer uma propaganda muito negativa da Copa, poderá “estragar” seu produto, comprometer sua audiência e suas receitas de publicidade. Por outro lado, sua posição política não permite considerar o torneio como um sucesso e, por conseguinte, reconhecer um êxito do governo ao qual faz oposição. Assim, resta a essa burguesia prestigiar o evento enquanto vaia a presidenta – e finge estar preocupada com a saúde e a educação públicas.

Por fim, os apoiadores do governo Dilma se veem na posição de defesa do Mundial, ressaltando os aspectos positivos da Copa do Mundo no Brasil: visibilidade mundial, obras de mobilidade urbana, belas e modernas arenas, o aumento da autoestima do brasileiro, etc. Ao mesmo tempo, os defensores do torneio se põem a criticar os críticos.

Não é possível se omitir

E, em meio a esse Fla-Flu político-ideológico, é possível adotar uma postura neutra?

Como em qualquer conflito que envolva tantos interesses, cuja resultante irá determinar os rumos de toda uma nação – afinal, estamos em ano de eleitoral –, não é possível manter-se numa neutralidade suíça. A própria ausência de posição já é uma postura que pode definir essa partida a favor de um lado ou de outro. Afinal, um jogador que fica parado em campo pode estar dando condições de jogo ao adversário.

Diante das posições que se apresentam, refuto de antemão a posição de crítica cínica ao Mundial – ou seja, a posição burguesa. Posição que se alinha com aquele clamor genérico contra a corrupção e a favor da saúde e da educação. Obviamente, ninguém vai se dizer a favor da corrupção, ou vai? Evidentemente, todos somos a favor da saúde e da educação de qualidade. É preciso dizer de que forma as queremos: públicas e gratuitas, ou privadas e pagas? Pois é esse o ponto que separa a esquerda da direita.

No contexto da Copa, a questão que fica é se realizá-la é algo que afeta o orçamento das políticas sociais. Se considerarmos que os “gastos” (entre aspas porque boa parte do valor foi financiado, e deve ser pago nos próximos anos) com as obras para construção e reforma de arenas ficaram em R$ 8 bilhões – desde 2007, quando o Brasil foi eleito para sediar o torneio – parece bem pouco factível creditar ao Mundial o “desvio” de recursos para saúde e educação, já que essas áreas têm um orçamento da ordem de R$ 200 bilhões (juntas). Não que R$ 8 bilhões sejam um valor desprezível, mas ainda assim são menos que os R$ 10 bilhões anuais a menos para a saúde com o fim da CPMF (curiosamente, na época da derrubada dessa contribuição, “formadores de opinião” não pareciam muito preocupados com a saúde).

Por outro lado, embora tenha simpatia pela posição radicalmente contrária ao torneio da FIFA, naquilo que ela tem de contestadora do sistema capitalista, não a considero sustentável diante da atual “correlação de forças”. Não me iludo com a complacência e o espaço que os representantes dessa posição têm recebido da mídia tradicional. Trata-se, repito, de utilizar-se da boa fé e voluntarismo desses militantes contra o atual estado de coisas apenas para desgastar o governo petista.

Duvido, sinceramente, que com o poder nas mãos de um tucano haveria a defesa e, muito menos, a publicização da ação desses grupos radicais. Exemplo disso é a cobertura pífia que está tendo a greve dos professores e servidores das universidades públicas paulistas. Pelo contrário, a Folha de São Paulo insinua que, se a USP cobrasse mensalidades, estaria em melhor situação financeira. Ou seja, onde os aliados estão no poder, as ideias neoliberais podem ser defendidas sem grande constrangimento.

Diante desse quadro, me resta ficar ao lado dos que apoiam a Copa. Não que o Brasil esteja às mil maravilhas. Não que o atual governo do PT não mereça reparos. Não sem criticar os pontos que devem ser criticados: a submissão do Estado às exigências da FIFA, as remoções forçadas para a realização das obras para o evento, o caráter elitista do “padrão FIFA”, entre outros.

Mas é preciso reconhecer os pontos positivos. E valorizar a alegria que o futebol proporciona ao povo, muito embora este, em sua maioria, esteja do lado de fora das arenas. Devemos reconhecer, também, a capacidade de realização do povo brasileiro. Este talvez seja o elemento mais subversivo de uma Copa bem-sucedida. Porque, muito embora as elites tenham enchido os bolsos com o torneio, o povo pode se encher de orgulho e confiança – e, assim, continuar a virar o jogo contra secular desigualdade no Brasil.

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