A família marcha-ré

Assistimos em diversas cidades do país a reedição da “Marcha da Família”, 50 anos após o Golpe de 1964.

Tanto hoje como há meio século atrás, os marchadores representam o que há de mais reacionário na sociedade brasileira. Tanto em 1964 como em 2014, a mesma histeria com a “ameaça comunista” – seja na “república sindicalista” de Jango, seja na “ditadura bolivariana” do PT, de Lula e Dilma. Tudo, evidentemente, fantasias delirantes de mentes doentias.

Porque o que há, tanto lá como cá, é ressentimento. As Reformas de Base anunciadas por Goulart, entre as quais a reforma agrária, eram a promessa de um país mais igual – ou menos desigual. A política de distribuição de renda dos governos petistas, cujo maior símbolo é o programa Bolsa Família – maldosamente chamado “Bolsa Esmola”, por essa gente que marcha -, contribuiu para a diminuição do abismo social no Brasil.

Na prática, uma sociedade mais igual, com maior mobilidade social, significa ameaça para os “estabelecidos”. O aeroporto deixou de ser lugar exclusivo para gente “importante” – ou seja, para a elite e seus puxa-sacos. A empregada doméstica deixou de ser aquele “membro da família”, dócil e obediente, para assumir o papel de uma trabalhadora com os mesmos direitos de qualquer outro trabalhador: horas extras, férias, fundo de garantia. O último refúgio dos “estabelecidos”, o shopping center, também não resistiu e foi “invadido” pela massa antes miserável, hoje remediada – a tal “nova classe média”.

Vendo seu lugar social ameaçado, os setores tradicionais mostram os dentes e rosnam. A direita mostra a sua cara, seja na mídia – cujo lugar de destaque é ocupado pela jornalista Raquel Sheherazade –, seja na política – com figuras como Jair Bolsonaro e Marcos Feliciano. O discurso é de defesa da família e dos valores morais. Mas o que se quer, sem sombra de dúvida, é perpetuar uma estrutura social marcada pela rígida estratificação.

Pois fala-se em defesa da família, por exemplo, opondo-se aos casamentos homoafetivos. Ora, uma família gay também não é uma família? Por que, para falar de família, temos de falar de um homem, uma mulher e seus filhos? Não vivemos na era das “famílias mosaico”? Essa insistência num modelo ideal de família revela a incapacidade de se lidar com os dilemas do nosso tempo, a partir daquilo que está dado em nossa época, apostando na possibilidade de se dar uma marcha ré na História, em busca de um tempo em que – supostamente – a vida era estável e feliz.

Ledo engano. Assim como se enganam aqueles que pensam termos vivido dias gloriosos na época da Ditadura, a despeito de “uma perseguição política ou outra” – afinal, segundo certo jornal, teríamos mesmo vivido uma “ditabranda”. Essa gente iludida agora clama pela volta dos militares, a fim de solucionar a “epidemia de corrupção” que tomou conta da política do país. Como se isso não existisse também durante o governo militar. A diferença é que nada se podia dizer a respeito. E, como diz o ditado, o que os olhos não veem o coração não sente. E, vamos combinar, existem certas coisas que determinadas pessoas preferem não ver.

Voltando à reedição da “Marcha da Família”, vejo uma diferença importante. Se em 1964 o movimento teve uma participação expressiva desses setores conservadores, em 2014 os reacionários que clamam por uma nova intervenção militar não passaram, em termos de representativade, de meia dúzia de gatos pingados. Oxalá tenhamos aprendido a lição depois de 21 anos de sofrimento. Tomara que os valores democráticos tenham fincado raízes profundas, quase três décadas após o fim do regime militar. E, assim, espero que a “Marcha da Família” edição 2014 não tenha passado de uma zombaria de mau gosto, um bloco carnavalesco de alienados, uma confraria de idiotas: a “família marcha-ré”.

Comentário de Bob Fernandes sobre a “Marcha da Família”

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