Polícia versus Black Blocs: o clássico da ignorância

 Nem começou a Copa do Mundo 2014 e o megaevento esportivo já nos proporciona um clássico. Só que não no campo de jogo.

Graças aos protestos contra o mundial de futebol, vemos cada vez mais acirrada a rivalidade entre duas “equipes” das mais truculentas.

De um lado, com uma longa tradição de desrespeito pelos direitos humanos – que passa pelo período da Ditadura Militar, chegando a episódios mais recentes como a desocupação da reitoria da USP, da “cracolândia” e do Pinheirinho –, está a Polícia, notadamente a Militar.

De outro lado, com um incrível retrospecto de destruição do patrimônio público e particular nas manifestações das quais participam, animados por um discurso que se diz anticapitalista, estão os black blocs.

Em comum, a intransigência. A polícia, com suas armas não-letais, não hesita em partir para o ataque antes de perguntar a quem – e por que – dirige sua violência. Os black blocs, tal como um exército messiânico contra o “sistema”, decreta: “Não vai ter copa”.

Eis a combinação perfeita para o clássico da ignorância. Um clássico em que, ao fim de cada embate, só há perdedores.

Perdem os manifestantes pacíficos, que – tenham ou não razão – estão nas ruas para exercer o seu legítimo direito de protestar e acabam sendo alvo das balas de borracha, cassetetes e bombas de gás lacrimogênio de policiais despreparados.

Perdem os cidadãos comuns, que vêm seu patrimônio, seja ele público ou particular (que o diga o dono do Fusca incendiado no protesto de 25/01), ser destruído pela estupidez de quem sequer tem a coragem de mostrar seu rosto – e, assim, se responsabilizar pelos seus atos.

Perde, enfim, a democracia. Uma questão que poderia gerar importantes debates sobre a gestão do dinheiro público acaba sendo obscurecida pela violência. E, assim, continuamos distantes de qualquer mudança efetiva na sociedade brasileira.

Fusca incendiado na manifestação contra a Copa de 25/01, em São Paulo. foto: Rodrigo Paiva/Estadão Conteúdo

Fusca incendiado na manifestação contra a Copa em 25/01, em São Paulo. foto: Rodrigo Paiva/Estadão Conteúdo

No mais, me parece insensato querer impedir a realização da Copa, ainda mais agora, nos 45 minutos do segundo tempo. Agora que a maioria das arenas já está pronta, e muitas obras em andamento, parar tudo é que seria um grande desperdício de dinheiro – justamente o que os protestos, ao menos explicitamente, dizem querer combater.

De todo modo, continuo sonhando com o dia em que vamos conseguir transformar todo esse voluntarismo em neurônios e, da maneira mais racional possível, vamos expor nossos pontos de vista divergentes e debater republicanamente o futuro do país.

Por enquanto, temos que aguentar mais algumas rodadas do clássico da ignorância.

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