Viva o rolezinho! – ou, a gente não quer só comida

“Esse tal de  chopis centis / É muitcho legalzinho / Pra levar as namoradas / E dar um rolezinho”

Chopis Centis – Mamonas Assassinas

Com esses versos escrachados, os Mamonas Assassinas, pelos idos dos anos 1990, anteciparam o assunto do momento neste início de 2014: os rolezinhos nos shopping centers. Se naquela época o rolezinho era ridicularizado pela canção besteirol, hoje ele ocupa o centro das discussões mais acaloradas. De um lado, a elite e a classe média alarmadas, com medo de perder seu último “refúgio de tranquilidade”. De outro lado, os jovens da periferia tentando encontrar um lugar para se divertir.

De fato, as falas de quem participa dos rolezinhos parecem convergir num ponto: na falta de espaços de lazer, os jovens buscam compensar essa carência de opções indo aos shopping centers. Lá é possível encontrar os amigos e amigas, namorar, tomar um lanche…

Falando assim, você deve estar pensando: “mas o que há de tão ameaçador nesse divertimento juvenil?” É que estamos falando dos jovens da periferia: majoritariamente pobres e negros. E, por algum motivo, na cabeça de muita gente, negro e pobre é algo incompatível com o “ecossistema” do shopping center. A não ser, é claro, se estiver a serviço de alguém, empurrando um carrinho de bebê, limpando o chão ou cuidando da segurança. Qualquer situação diferente já é vista como um possível arrastão.

O pior de tudo é que essa gente que vê no rolezinho uma espécie de “invasão bárbara” é a mesma que entra em histeria com um possível aumento do IPTU. “Não, porque a prefeitura é incompetente e quer colocar a mão naquilo que é meu!” – assim pensa o “cidadão de bem”. Quando os jovens da periferia “invadem” seu shopping center, o mesmo sujeito – depois de chamar a polícia, é claro – reclama: “mas o governo não cuida desses meninos!” Também pudera: como fazer políticas públicas sem o dinheiro dos impostos? Acho que estou exigindo demais de quem só vê o Estado como provedor de segurança patrimonial. A julgar pelo comportamento da PM paulista no rolezinho do último fim de semana no Shopping Metrô Itaquera, há motivos para alimentar essa crença.

De qualquer forma, muito têm sido dito em favor dos rolezinhos, e eu tenho pouco a acrescentar. Só acho importante frisar que, embora originalmente não houvesse qualquer outra motivação além da busca de diversão, o rolezinho tornou-se um importantíssimo fenômeno social, com forte componente político.

Sim, pois embora não haja qualquer filiação político-partidária nesse movimento, ele coloca em questão a velha lógica de privilégios que está presente em nossa sociedade, desde que nos conhecemos por Brasil. O rolezinho perturba aquele sistema de valores fundado na divisão rígida entre a casa-grande e a senzala: um lugar para ricos, poderosos, dominantes; e outro para os pobres e subordinados. Os jovens da periferia, quando ocupam os shopping centers, recusam colocar-se no seu lugar, segundo a ordem tradicional. Assim, questionam esse lugar não só espacialmente, mas também seu estatuto na sociedade: não querem ser tratados apenas como mão-de-obra barata, como braços para trabalhar. Querem, também, o acesso ao consumo, à cultura e ao lazer. É como se entoassem os versos da canção dos Titãs:

“A gente não quer só comida/A gente quer comida/Diversão e arte”

Comida – Titãs

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