Unicamp: a PM no campus e outros equívocos

Na última semana a reitoria da Unicamp foi ocupada, bem como deflagrada uma greve dos alunos, em reação à decisão de permitir que a PM circule pelos campi da universidade, em Campinas, Limeira e Piracicaba. A autorização do acesso à polícia, por sua vez, ocorre em seguida à trágica morte do universitário Denis Casagrande, assassinado em uma festa “clandestina”, realizada no próprio campus de Barão Geraldo, em Campinas.

O policiamento do campus é só mais um dos equívocos que vêm se somando. A presença da polícia pode muito bem proporcionar uma maior sensação de segurança, principalmente naquele grupo social que é hegemônico na universidade pública: a classe média branca. Para os negros e pobres que conseguiram ultrapassar as barreiras sociais que os afastam daquele ambiente, a presença da PM deve representar mais um constrangimento para seu livre acesso à universidade pública. Ora, basta lembrar daquele caso em que os policiais responsáveis pela ronda na região do Taquaral foram orientados a abordar indivíduos “perigosos”: jovens negros do sexo masculino.

Ademais, a presença da polícia no campus pode ser muito útil à reitoria da universidade, ao demonstrar que “algo está sendo feito” após o trágico episódio de semanas atrás. A imagem da reitoria, com efeito, ficou desgastada diante da sua clara omissão perante a realização de festas no interior do campus. Pode ser que parte da opinião pública se convença de que essa providência irá, de alguma forma, resolver o problema da segurança na universidade. O que, evidentemente, não passa de um ledo engano.

Isso porque a universidade, por mais que tente se “encastelar”, não é um mundo isolado da sociedade que a envolve. E, se existe violência na nossa sociedade, essa violência também chegará à universidade.

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Por um lado, há a ilusão de que o proibicionismo resolve alguma coisa. Não bastasse o exemplo da malfadada guerra às drogas, que já dispendeu somas enormes de dinheiro e não conseguiu acabar com as substâncias ilícitas, ainda insiste-se muito nas proibições como forma de resolver certas questões. Proibir festas ou o consumo de bebidas alcoólicas dentro da universidade parece tão eficaz quanto proibir um adolescente de acessar a internet. De uma forma ou outra, as bebidas continuam entrando no campus e o jovem continua acessando a internet (pelo celular, pelo wi-fi do vizinho, etc.).

Seria melhor, portanto, tentar regulamentar essas questões: estabelecer limites ou contrapartidas. Por mais difícil que seja verificar que tais limites estejam sendo respeitados ou contrapartidas oferecidas, há um maior espaço para negociação. Além disso, “sair da clandestinidade” pode ser uma boa recompensa por respeitar esses limites ou contrapartidas. Ou alguém duvida que seria um bom negócio ter sua festa “reconhecida oficialmente”? Assim, ela poderia ser melhor divulgada e, inclusive, contar com mais segurança.

Além disso, mais produtivo que a militarização do campus universitário – com a presença de uma polícia que já se mostrou, em diversas ocasiões, despreparada para atuar num ambiente democrático –, seria o estabelecimento de mais mecanismos de participação e envolvimento da comunidade. Mecanismos nos quais fosse possível a participação de membros da comunidade acadêmica e de toda a sociedade civil, a fim de deliberar e implementar políticas que permitissem tornar o campus um local mais seguro e, ao mesmo tempo, mais aberto a todos. Assim, não haveria mais aquela dicotomia entre “dentro” e “fora” da universidade, uma vez que esta estaria integrada ao espaço social que a envolve.

Contudo, não há dúvida de que uma tal solução demandaria muito mais tempo e esforço para sua implementação. Demandaria, também, a superação do modelo elitista de universidade que ainda está vigente nos dias atuais. No fim, é muito mais cômodo trazer a polícia e oferecer aquela sensação de segurança, ainda que isso não resolva efetivamente qualquer problema.

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