A corrupção aos olhos míopes da classe média

Na próxima quarta-feira será proferido o aguardado voto do ministro Celso de Mello sobre a aceitação ou não dos embargos infringentes, para os réus condenados com quatro votos contrários, no julgamento da Ação Penal 470 — mais conhecido como julgamento do “mensalão”. Se mantiver a posição assumida anteriormente, o ministro deverá se posicionar favoravelmente aos embargos e, desse modo, viabilizar um novo julgamento dessas condenações. Por outro lado, diante dos holofotes que esse processo vem recebendo da opinião publicada — e dos setores que se deixam influenciar pelos veículos da grande mídia — , não seria de surpreender que o ministro revisse sua posição a fim de atender o clamor por rapidez e severidade no julgamento — que parece já ter influenciado outros de seus pares, em especial o presidente do STF, Joaquim Barbosa.

Para além da discussão sobre o caráter político do julgamento — o qual, sem sombra de dúvida, assume esse caráter — , eu gostaria de entender como uma versão abertamente tendenciosa, segundo a qual estaríamos diante do “maior e mais complexo escândalo de corrupção” da história do país, consegue assumir o estatuto de verdade para alguns grupos. 

Nesse sentido, me parece que olhar objetivamente para os fatos contribui muito pouco para entender esse fenômeno.Ora, somente o fato de um processo semelhante, o do “mensalão mineiro” (do PSDB), ter sido desmembrado com o envio do julgamento dos réus sem foro privilegiado para instâncias inferiores, enquanto o mesmo não ocorreu no caso do “mensalão do PT”, parece demonstrar exemplarmente a existência de dois pesos e duas medidas.

Desse modo, o que resta para entender como a tal versão do “maior escândalo de corrupção da história” pode ter credibilidade é tentar compreender a cabeça dos indivíduos que conseguem “comprar” essa narrativa como a verdade pura e simples. Resta, portanto, tentar entender o que há na cabeça do cidadão da classe média tradicional. E o que se vê, fazendo essa análise, é uma visão de mundo estreita e centrada no universo privado.

Estreita justamente porque não consegue olhar objetivamente para fatos semelhantes e o tratamento diverso que recebem por parte daqueles que se arrogam o direito de “formar opinião”. Fosse capaz de buscar outras fontes de informação para além dos meios tradicionais da grande mídia, seria fácil notar as “incoerências jurídicas” que apontam claramente para o caráter político do julgamento do “mensalão”.

Mas, na verdade, não há disposição para encarar a realidade objetivamente. Ao contrário, há um desejo de moldá-la a partir de certos axiomas, de certos pressupostos, os quais informam sua visão de mundo — uma visão de mundo centrada no universo privado.

Essa visão de mundo tende a considerar tudo como decorrência do interesse privado e da vontade do indivíduo. A partir desse ponto de vista, a corrupção só consegue ser vista como prática prejudicial na medida em que se constitui em roubo do dinheiro dos impostos que eu pago. Ou seja, se não pagasse impostos, provavelmente esse indivíduo pouco se importaria com qualquer corrupção, se esta não lhe causasse prejuízo.

Assim, o grande pecado do corrupto — o corruptor quase nunca aparece nessa representação classe-mediana — é o de se apropriar indevidamente do meu dinheiro. Não interessa se alguém tentou corromper o agente público com uma expectativa de obter vantagens indevidas. Pelo contrário, a obtenção de tais vantagens seria até mesmo perdoável, encarada como um recurso para sobreviver à “inelutável” concorrência do mercado.

Nem é preciso dizer que essa visão estreita é o que justamente potencializa o sentimento de aversão à política, vista como mera atividade parasitária. Em que pesem os desvios e os desmandos de vários elementos da classe política, toda ação que tem lugar no espaço público e não visa ao interesse próprio é vista com maus olhos e com desconfiança — pelo menos num primeiro momento. Isso explica por que a grande mídia e setores tradicionais da sociedade levaram tanto tempo para “entender” o que estava ocorrendo nas manifestações de junho. Explica a perplexidade diante de protestos que, para esses observadores, pareciam fazer muito barulho por tão pouco — “apenas R$ 0,20“. Fica claro como a indignação daqueles jovens não podia ser compreendida a partir da gramática da classe média voltada para o seu universo privado (na época ouvi muitos comentários do tipo “muitos dos manifestantes nem usam ônibus, não sei por que estão protestando”).

E essa aversão à política não permite a esse grupo perceber que um dos grandes males que está por trás do “fantasma” da corrupção é justamente a deficiência dos mecanismos de representação política. É esse “analfabetismo político” que os impede de perceber que o atual sistema de representação permite que o poder econômico “alugue” o poder político, fazendo com que este atue alheio aos interesses da maioria da sociedade. Em suma, não os permite perceber que de nada adianta ficar repetindo chavões moralistas contra a corrupção no país, como se isso os fizesse mais puros ou mais dignos — antes, seria mais produtivo informar-se melhor e lutar por uma reforma política que corrigisse as distorções do sistema que favorecem a instalação da corrupção nas instituições públicas. Mas, sem dúvida, é muito mais cômodo arranjar um vilão de ocasião — papel que coube a Zé Dirceu no julgamento do “mensalão” — , culpar-lhe por todos os males do país, ir tocando sua vidinha, e depois ainda dormir com a consciência tranquila.

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