Brasil, mostra a sua cara!

Sete de setembro é, tradicionalmente, dia de desfile cívico: corporações militares, escolas e outras agremiações celebram o dia da nossa independência. A esse desfile, nos últimos anos, somou-se o grito dos excluídos: manifestação dos movimentos sociais, por meio da qual contestam o sentido dessa independência para os oprimidos da nossa sociedade.

Neste ano há ainda um novo elemento: os black blocs, como ficaram conhecidos pela mídia os grupos de inspiração anarquista, que se auto-organizam para contestar o sistema. A rigor, black bloc é uma tática de organização na qual os membros de uma manifestação se vestem de preto e cobrem seus rostos para dificultar a repressão policial. De qualquer forma, os black blocs são o elemento novo no 7 de setembro de 2013.

Numa democracia nada é mais caro que o direito de cada um expressar sua opinião, tomar partido de uma determinada causa e defendê-la publicamente. Nesse sentido, nada mais justo que as pessoas tomem as ruas para protestar, a fim de publicizar as suas demandas e, desse modo, tentar influir politicamente nas decisões que concernem à coletividade.

O problema é quando os protestos transformam-se em simples catarse “contra o sistema”, degringolando para o vandalismo. E, infelizmente, parece ser essa a dinâmica que tem acompanhado boa parte das manifestações dos black blocs. Os confrontos desses grupos com a polícia se multiplicam. A questão é ainda mais delicada porque, sob o véu do anonimato, é difícil distinguir vândalos de vítimas da polícia.

Mais que isso: os rostos cobertos com um pano preto ou com uma máscara do Guy Fawkes não permitem identificar quais são as demandas desses manifestantes. No fim, por mais diversas que sejam as razões que levem alguém a se mascarar e ir para a rua — da luta contra os abusos policiais à genérica causa anticorrupção — , todas essas motivações se misturam numa grande “geleia geral”, que pode tomar a forma mais conveniente para quem está de fora observando. Uns dirão: “eles estão contra o governo X”. Outros, por sua vez: “eles querem o fim do Estado e da propriedade privada”. Ou ainda: “são simples bandidos mascarados”. É como uma massa de modelar. E, evidentemente, quem dispõe de mais poder — político, econômico, midiático — terá melhores condições de imprimir a essa massa a forma que lhe parecer mais útil.

Na ânsia de “superar o sistema”, nossos ilustres mascarados podem, isso sim, acabar jogando o país no colo da direita. Ou alguém acha que com a derrubada de um governo extingue-se, como que por milagre, a corrupção? Ou ainda que, da noite para o dia, acabamos com o Estado e as pessoas vão se autogerir em comunas, em plena harmonia? Santa ingenuidade. Que tal tirarmos a máscara e adotarmos uma bandeira de luta?

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2 Respostas para “Brasil, mostra a sua cara!

  1. Concordo integralmente com você! Devemos nos articular para salvar a reforma política, só assim será possível. Eu tenho uma lista de itens que deveriam ser alterados:

    – fim do voto secreto em todas as votações do congresso ou sessões fechadas ao público ou imprensa – o eleitor tem direito de saber como seu representante age;
    – financiamento público de campanha – fim das contribuições de pessoas físicas ou jurídicas que geram compromissos futuros;
    – voto distrital – cada deputado seria eleito pela maioria dos votos de seu distrito eleitoral, seria o fim dos puxadores de votos (caso Enéas Carneiro e Tiririca);
    – mecanismos de democracia direta – facilitação da apresentação de propostas populares e o “recall” do mandato dos parlamentares (se não fizer o que prometeu na campanha, perde o mandato);
    – coincidência das eleições – teríamos eleições gerais a cada quatro anos, seriam escolhidos simultaneamente vereadores, prefeitos, deputados estaduais, governadores, deputados federais, senadores e presidente. Assim termina aquela história de abandonar a prefeitura para concorrer a outro cargo ou largar o mandato de deputado para concorrer a prefeito;
    – fim da reeleição para cargos executivos – reduziria o uso da máquina pública por parte dos prefeitos, governadores e presidente;
    – limite de dois mandatos legislativos consecutivos – estimularia a renovação na política.

    • É isso, Vicente.

      Não sei se concordo com todos os pontos da sua proposta, mas é indispensável ter uma para defender e levar às ruas.

      Infelizmente, as manifestações sem uma agenda bem definida estão, na prática, servindo como uma cortina de fumaça para deixar a reforma política na gaveta. (A imprensa, aliás, parece também não estar muito preocupada com a reforma política, a julgar pelo espaço que é dedicado ao assunto.)

      Abraço.

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