A repentina preocupação com a saúde pública

Estava a caminho do trabalho, quando passei em frente à Prefeitura. Avistei uma manifestação descendo a rua e resolvi esperar. Logo chegou um grupo de umas 300 pessoas, todas de jaleco branco. Vi os cartazes e entendi do que se tratava: era o protesto dos médicos contra a situação precária da saúde pública.

Naquilo que diz respeito à demanda por melhorias nas condições de trabalho e, portanto, de atendimento à população, me junto aos manifestantes.

O que me deixa curioso, porém, é a repentina preocupação da classe médica com a saúde pública. Influência das manifestações populares, acredito. Os médicos também devem ter sido contagiados por esse “choque de cidadania”, não?

Gostaria muito de acreditar nisso, mas alguns aspectos me deixam é com um pé atrás.

Primeiro, que todos os gritos se voltam contra a presidenta Dilma. Todos os gritos se levantam em defesa do SUS. Reconheço que a saúde pública está muito aquém do que a população merece. Mas, a julgar pelo protesto, a impressão é de que a calamidade na saúde tem um único culpado, o Governo Federal.

Outra coisa: não ouvi nenhum grito questionando as OSS (Organizações Sociais de Saúde), que na prática significam a privatização da saúde pública. A luta contra essa tendência, forte aqui no estado de SP, sempre foi bandeira de movimentos sociais e de uns poucos médicos que, já de outras estações, lutam efetivamente em defesa da saúde pública. Por pouco não tivemos 25% dos leitos do SUS “vendidos” aos planos de saúde aqui na terra dos bandeirantes.

Tudo isso me leva à triste constatação de que a classe médica brasileira, longe de querer defender seus pacientes, quer é preservar sua clientela.

Foi só a presidenta, em resposta às manifestações pelo país, falar em trazer médicos estrangeiros — para suprir a carência em localidades no interior do país e nas periferias –, que a classe médica, como num passe de mágica, passou a defender a saúde pública. De repente, os médicos ficaram indignados com a situação do SUS.

As associações médicas falam em deficiência na “gestão”. Sempre ela, a gestão ineficiente. Médicos, segundo eles, não faltam. Falta o governo “investir” mais na saúde, remunerar melhor os médicos, atraindo-os para as regiões longínquas do país. (Vale ouvir o que diz Henrique Prata, gestor do Hospital do Câncer de Barretos, que não consegue recrutar médicos oferecendo um salário mensal de R$ 30 mil.)

Trazer médicos estrangeiros pode colocar a saúde dos pacientes desassistidos em risco, segundo os representantes da classe médica brasileira. Ou seja, é melhor deixar o pobre morrer por falta de atendimento do que entregá-lo aos temíveis médicos cubanos — esses comunistas… são bem capazes de fazer o pobre acreditar que não precisa mais dos nossos medicamentos, dos nossos exames, da nossa medicina “de ponta”.

Para além do caráter xenofóbico da manifestação dos médicos brasileiros, é precisamente a concepção de medicina que está em questão. O que queremos: uma medicina “de ponta”, em sintonia com as últimas novidades da tecnociência médica, dominada por um pequeno grupo de “especialistas”, detentores do monopólio de dizer quem é saudável e quem é doente; ou uma medicina popular, voltada à prevenção, com a adoção de práticas simples e acessíveis, que estimula o povo a zelar pela própria saúde?

No fundo, essa é a questão que tanto incomoda a nossa classe médica. É mais do que uma “reserva de mercado”. É a defesa de uma “medicina de mercado”.

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