A armadilha das causas genéricas

Nos últimos dias temos visto uma mudança no perfil das manifestações de rua. Se no início a demanda que puxava o movimento era a da redução das tarifas do transporte público e depois, no ápice dos protestos, o que se viam eram as mais variadas causas e uma heterogeneidade de grupos participando, agora nos deparamos com uma guinada à direita na maioria das passeatas. Não pelo fato de a maioria dos participantes adotar deliberadamente essa posição conservadora. A maioria faz isso involuntariamente, de bom grado, seguindo os cânones da ideologia hegemônica. Mais que isso: trata-se, a meu ver, de uma captura do movimento a partir do que eu chamo a armadilha das causas genéricas.

O principal alvo passou a ser o combate à corrupção. Pois bem. Gostaria que me apontassem alguma pessoa ou grupo que fosse capaz de fazer abertamente a defesa da corrupção. Nem mesmo Paulo Maluf iria tão longe, apesar de sua já tão conhecida cara-de-pau. A apologia à corrupção é, portanto, dentro da moral do nosso tempo, claramente insustentável no discurso público (ainda que, no domínio privado, observe-se, não raro, a corrupção microcósmica: tentativas de enganar o fisco com deduções indevidas do IR, estacionar na vaga reservada para portadores de deficiência sem ter ninguém nessas condições no carro, molhar a mão do policial para não receber uma multa, etc.).

Desse modo, a bandeira do “sou contra a corrupção” pouco ou nada diz sobre o projeto político de quem abraça essa causa. Não importa se sou da direita ou da esquerda, vou obviamente me declarar contrário a essa prática. Mais ainda: a causa é tão genérica que é possível mesmo declarar-se “apolítico”. Tal posição está em sintonia com a ideologia dominante, que identifica política com corrupção – o que explica, em grande medida, a perseguição aos militantes de partidos políticos presentes nesses eventos, como se pertencer a um partido fosse algo imoral.

Sinal da mudança no perfil dos manifestantes.

Sinal da mudança no perfil dos manifestantes.

Abre-se, portanto, uma oportunidade para manobrar o movimento. Basta colar  essa bandeira anticorrupção num culpado por essa mazela. E isso é o que os setores conservadores têm feito: associar a corrupção a um determinado partido, o PT. Não quero aqui fazer uma defesa do PT, mas a impressão que se tem, a partir dos protestos – e da cobertura da grande imprensa, que miraculosamente passou a apoiar os atos –, é que o partido detém o monopólio da corrupção de Estado. O que, convenhamos, não passa de hipocrisia e oportunismo, já que os casos de corrupção envolvem muitas outras legendas.

Daí a querer desestabilizar o governo Dilma é um passo. Em que pesem as insatisfações contra o governo da presidenta – em muitos casos justas, como em relação ao distanciamento dos movimentos sociais –, não custa lembrar que esse governo foi eleito democraticamente pelo voto popular. Vale recordar, também, que a eleição de Dilma provocou reações iradas de certos setores da sociedade – como no caso da então estudante Mayara Petruso, que não poupou ofensas aos nordestinos pela eleição da presidenta. Esses setores da sociedade esfregam as mãos no momento atual, vendo a possibilidade de se livrar do projeto “lulodilmista” – que merece críticas sim, mas promoveu transformações sociais importantes.

Diante desse quadro, destaca-se a postura lúcida do Movimento Passe Livre, de abandonar as manifestações, pelo menos por enquanto. O MPL captou a guinada à direita dos protestos e retirou-se da rua, a fim de evitar que, no fim das contas, a sua ação social se voltasse contra seus próprios objetivos. Ou alguém imagina que um governo de direita vá se preocupar seriamente com o transporte público? A precarização das condições de trabalho e de atendimento da crescente demanda no Metrô de São Paulo – em que pese a expansão das linhas, para a alegria das empreiteiras – nos dão ideia de quão preocupados estão os tucanos com o transporte coletivo.

Portanto, é preciso muito cuidado antes de empunhar uma bandeira e ir para a rua. É necessário tentar entender a situação e fazer um cálculo político dessa ação social. Por isso, quanto mais definida for uma demanda, mais segura será a nossa ação. E quanto mais segura a nossa ação, menos riscos corremos de bancar o aprendiz de feiticeiro, cujo feitiço se volta contra si mesmo. Essa é uma lição que os últimos dias nos ensinam.

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2 Respostas para “A armadilha das causas genéricas

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