A redescoberta das ruas

Junho de 2013. Um mês para ser lembrado. Dias que renderão algumas páginas da história dessas terras, em sua maioria, ao sul do Equador. Dias em que a multidão tomou conta das cidades brasileiras, movida por uma grande inspiração: a redescoberta das ruas.

Tudo começou com a luta contra o aumento das passagens do transporte público em São Paulo. A cada novo ato, o número de manifestantes aumentou. A cada novo ato, novas demandas foram se integrando à pauta de reivindicações. A cada novo ato, mais manifestações começaram a ocorrer em outros cantos do país: Brasília, Rio de Janeiro, Belém, Porto Alegre, Curitiba… o Brasil foi tomado por uma onda de protestos.

O que se vê hoje, dia 18, é uma grande efervescência social. O mito do brasileiro despolitizado e resignado foi, definitivamente, abalado. A passeata dos cem mil, a  campanha pelas Diretas Já, os caras pintadas pedindo o impeachment do presidente Collor já haviam caído no esquecimento de muitos. Mas agora todas essas mobilizações do povo brasileiro renascem na nossa memória.

O que há de novo nos protestos deste junho de 2013 é o seu caráter descentralizado, instantâneo e difuso. Vários grupos distintos e indivíduos atomizados se agregam, utilizando a internet e as redes sociais como instrumento de organização. O resultado são manifestações em que andam lado a lado as mais diversas agendas: a redução do valor da passagem de ônibus, a contestação dos gastos com a Copa do Mundo, a insatisfação com os impostos, o combate à corrupção, a oposição à PEC 37, a saída do Pastor Feliciano da CDHM, a democratização da mídia, a denúncia da violência da PM, etc.

O que pensam os manifestantes que sacodem o Brasil. Charge de Carlos Latuff.

O que pensam os manifestantes que sacodem o Brasil. Charge de Carlos Latuff.

Há, portanto, gente de toda parte do espectro político: de militantes de partidos a anarco-punks, passando por todo tipo de indignados. O que une toda essa gente é um sentimento de não representação nas instituições do Estado Democrático de Direito. Efetivamente, a democracia é subordinada ao poder econômico; e o Direito é, mormente, utilizado para reafirmar a dominação do capital. Essa realidade transparece nas opressões mais prosaicas da vida cotidiana: o transporte coletivo caro, ineficiente e desconfortável; um ícone da homofobia na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias; a Copa do Mundo que promove a remoção de milhares de pessoas de seus lares, para que o espetáculo da bola possa ocorrer. Uma hora, todas essas insatisfações, que não encontram um canal para se expressar, transbordam nas manifestações de indignação que assistimos agora.

Nesse sentido, apesar de todas as contradições presentes nessas manifestações — sem falar nas demonstrações de violência –, acho muito positivo que o povo tenha redescoberto as ruas. Que as pessoas tenham lembrado da possibilidade de agirem politicamente. Que o brasileiro tenha recordado que há vida além do espaço privado, em que pese nossa tradição ibérica. Enfim, que tenha ficado claro que o destino da sociedade não está traçado desde sempre, mas depende da participação ativa de cada um de nós.

Depois desse momento de catarse e de redescoberta das ruas, espero que os diferentes grupos consigam organizar-se politicamente de maneira mais consistente, a fim de se tornarem capazes de transformar efetivamente a nossa sociedade — e não apenas fazer barulho.

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