A banalização da truculência

Assistimos neste 13 de junho a mais um “espetáculo” deplorável da PM paulista. Desta vez, nem os repórteres dos grandes meios de comunicação foram poupados da truculência policial, velha conhecida de pretos, pobres, putas, moradores das periferias e marginalizados da nossa sociedade.

Chega a ser irônico: o editorial da Folha de São Paulo, que chegou às bancas pela manhã, clamava pela “força da lei” contra o “vandalismo” dos protestos na Av. Paulista. No mesmo dia, ao cobrir as manifestações contra o aumento das tarifas dos transportes, a repórter Giuliana Vallone, da Folha, é atingida no rosto — covardemente, segundo o relato de testemunhas — pelo tiro de uma bala de borracha da PM. Parece que a polícia entendeu, à sua maneira, o recado.  Mais que irônico: lamentável, já que a vítima estava apenas realizando o seu trabalho.

Repórter Giuliana Vallone é atingida por uma bala de borracha da PM.

Repórter Giuliana Vallone é atingida por uma bala de borracha da PM.

Mas não importa se o cidadão está trabalhando, protestando ou apenas “no lugar errado e na hora errada”, nada justifica a violência arbitrária e excessiva empregada pelo aparato policial. Nossa tradição autoritária, porém, explica muita coisa. Nenhum país passa incólume por uma Ditadura que cometeu graves violações contra os direitos humanos, ainda mais quando se esquiva de acertar suas contas com esse passado sombrio. A truculência da PM paulista — admirada, diga-se de passagem, pelos setores conservadores — é uma herança maldita desse passado.

O fato é que diante da banalização da truculência não podemos nos calar. Não podemos mais aceitar o abuso da força, assim como todas as tentativas de criminalizar os movimentos sociais. Não podemos, também, tolerar a covardia cúmplice daqueles que, em nome do pragmatismo político, assistem  em silêncio à institucionalização da violência.

Não podemos mais nos calar, pois quando nos dermos conta pode ser tarde demais. Uma situação que pode ser perfeitamente descrita pelos belos versos do poeta Eduardo Alves da Costa (versos que, erroneamente, foram atribuídos a Maiakovski, Brecht, García Márquez, entre outros):

“Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.”

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