Mexendo com a vaca sagrada

Nessa noite chuvosa, passeio pelas manchetes dos principais portais da internet. Em todos eles, invariavelmente, há uma chamada sobre o conflito entre PMs e manifestantes contra o aumento da passagem do transporte público na Avenida Paulista.

Nada é tão eficaz para dar visibilidade a uma demanda social quanto atrapalhar o trânsito: só mesmo mexendo com a vaca sagrada do apressado e cínico cidadão médio para fazê-lo perceber o mundo que existe além do próprio umbigo.

A grande impressa, como era de se esperar, coloca a ênfase na violência da manifestação: ônibus depredados, prédios pichados, fachadas de agências bancárias destruídas e por aí vai. Todos os manifestantes são colocados num mesmo balaio, sendo tratados como uma grande turba de vândalos aterrorizando o “cidadão de bem” da terra da garoa. A quem quisesse se dar o trabalho de entender o que acontecia, não seria difícil perceber a heterogeneidade da multidão, a despeito da reivindicação comum.

A propalada versão dos atos de vandalismo, por sua vez, serve de álibi à ação tradicionalmente truculenta da PM. Basta lembrar da ação espetaculosa para desocupação da reitoria da USP. Isso sem falar nas ações de reintegração de posse, que acontecem a todo o momento no Estado, aterrorizando a população pobre que é deslocada pela especulação imobiliária (quem não se lembra do Pinheirinho?). Mas os fins justificam os meios. E quando o fim é a proteção do direito de propriedade e do direito de ir e vir do “cidadão de bem”, nenhuma força é considerada excessiva — pelo menos é a impressão que a completa falta de indignação de amplos setores da sociedade diante deste tipo de ação policial me transmite.

A julgar pela fala do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, de que interromper o trânsito é “caso de polícia”, vê-se claramente que o direito de uns é mais importante que o direito de outros. Sim, pois o direito de ir e vir dos que se utilizam do transporte individual e motorizado não só é reconhecido como também é imediatamente restabelecido mediante o uso da força policial. Já o direito de ir e vir de quem depende do transporte público se vê subordinado ao interesse privado de empresários do setor de transporte. E qualquer tentativa de questionar efetivamente essa subordinação do interesse público ao privado, que constrange o exercício do direito de ir e vir, principalmente pelos mais pobres, é reprimida com cassetetes, gás lacrimogênio, balas de borracha, entre outros expedientes da PM.

Enquanto isso, no plano político partidário, o que se vê é um esvaziamento do debate de ideias, pelos menos entre os partidos detentores do poder. O pragmatismo político chega a níveis tão inimagináveis que é tarefa árdua apontar para diferenças práticas entre um partido e outro. Tudo fica reduzido ao plano da economia. Se ela vai bem, o eleitorado fica com o governo. Se ela vai mal, o eleitorado corre para a oposição. (Recomendo o comentário de Bob Fernandes sobre o assunto.)

O quadro, portanto, não é dos mais animadores. Os movimentos sociais, na condição de portadores e divulgadores de demandas da sociedade, se veem criminalizados por todos os lados — pelos grandes aparelhos midiáticos, pelo Estado, pelo cidadão médio. Além disso, os partidos políticos, mais preocupados com as receitas dos marqueteiros para manter a popularidade alta, se mostram em geral como canais pouco dispostos para a expressão das demandas sociais mais contestadoras da ideologia hegemônica. Diante dessa conjuntura, resta a alternativa de continuarmos saindo às ruas e mexendo com a vaca sagrada da nossa sociedade cínica e ensimesmada.

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