A abissal diferença entre “dia do trabalho” e “dia do(a) trabalhador(a)”

1º de maio, para muitos é apenas mais um feriado. Os afortunados que não estão submetidos a um plantão ou a um trabalho precário podem deixar a rotina, pelo menos no dia de hoje. Sendo assim, à primeira vista, pareceria indiferente se o que se comemora é o “dia do trabalho” ou o “dia do(a) trabalhador(a)”. Afinal, o que importa é o dia de descanso.

Dado o caráter estressante e totalitário que o trabalho assume em nossos dias, não seria de se estranhar que um dia de labuta a menos seja tão bem-vindo — ainda que, invariavelmente, existam aqueles que achem paradoxal que se celebre o “dia do trabalho” com o tempo livre. Esse último ponto evidencia a diferença abissal que há entre o “dia do trabalho” e o “dia do(a) trabalhador(a)”. E a distância que há entre esses termos aparentemente intercambiáveis é a distância que separa uma classe da outra — sim, as classes existem!

Celebrar o “dia do trabalho” tem como pressuposto a inexistência das classes. Além disso, pressupõe uma atividade humana atemporal, que existe desde os neandertais e que estará presente daqui a milênios. Afinal, todos os homens e mulheres, efetivamente, trabalham. Mesmo quando contabilizam o lucro obtido com o trabalho alheio.

Comemorar o “dia do(a) trabalhador(a)”, por sua vez, promove o reconhecimento de uma determinada parcela da sociedade em detrimento de outra. Isto é, promove o reconhecimento da classe trabalhadora, aquela que vive sob o imperativo de vender sua força de trabalho. O “dia do(a)  trabalhador(a)” revela não apenas a existência desse grupo social, mas também como historicamente ele se constitui, principalmente por meio das lutas que promove. Revela, portanto, a existência de uma tensão, de um conflito social, de interesses diferentes em jogo.

Evidentemente, como a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante, insiste-se muito em dizer que hoje é “dia do trabalho” e, caso alguém queira contestar, que “dia do trabalho” ou “dia do(a) trabalhador(a)” são denominações muito parecidas e, no fim das contas, dá tudo na mesma. O que eu quis mostrar é que não são a mesma coisa, mas pelo contrário. Aliás, mudando um pouco aquele ditado popular, eu diria “diga-me dia do que é que eu te direi quem és”.

De todo modo, finalizo lembrando a primeira crítica que o velho Marx — sempre ele — fez ao programa do Partido Operário Alemão. Os operários alemães, logo no início do seu programa, se esmeraram em fazer uma apologia ao trabalho. Marx, muito lucidamente, apontou para a armadilha presente nessa apologia:

Primeira parte do parágrafo: «O trabalho é a fonte de toda a riqueza e de toda a cultura.»

O trabalho não é a fonte de toda a riqueza. A Natureza é tanto a fonte dos valores de uso (e é bem nestes que, todavia, consiste a riqueza material [sachlich]!) como o trabalho, que não é ele próprio senão a exteriorização de uma força da Natureza, a força de trabalho humana. Aquela frase encontra-se em todos os abecedários para crianças e está correcta se se subentender que o trabalho se processa com os objectos e meios pertinentes. Um programa socialista, porém, não pode permitir a semelhantes maneiras de dizer burguesas que silenciem as condições que lhes dão — só elas — um sentido. Só enquanto o homem, desde o princípio, se comporta para com a Natureza — a primeira fonte de todos os meios de trabalho e objectos de trabalho — como proprietário, a trata como pertencendo-lhe, o seu trabalho se torna fonte de valores de uso, portanto, também de riqueza. Os burgueses têm muito boas razões para atribuírem falsamente ao trabalho uma força criadora sobrenatural; pois, precisamente, do condicionamento do trabalho pela Natureza segue-se que o homem que não possuir nenhuma outra propriedade senão a sua força de trabalho tem que ser, em todos os estados de sociedade e de cultura, escravo dos outros homens que se fizeram proprietários das condições objectivas do trabalho. Ele só pode trabalhar com a autorização deles, portanto, ele só com a autorização deles pode viver.

(MARX, K. Glosas Marginais ao Programa do Partido Operário Alemão. — os destaques em negrito foram meus)

Acho que tal distinção entre “dia do trabalho” e “dia do(a) trabalhador(a)” é mais fundamental do que nunca, sobretudo num capitalismo em que os trabalhadores são crescentemente cooptados pela burguesia, inclusive simbolicamente, quando são alçados à categoria de “colaboradores”.

Portanto, bom “dia do(a) trabalhador(a)”!

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