Embalagens, rótulos e conteúdos – ou digressões sobre o preconceito

Certo dia, quando conversava com minha irmã, ela revelou a apreensão de uma amiga sua. A amiga se via incomodada com as insinuações de que seu namorado era gay. Tais insinuações possivelmente levavam em conta a “fala mole” do rapaz. De qualquer forma, achei a preocupação sem pé nem cabeça, pelo menos nos termos em que foi formulada. Então repliquei perguntando se, afinal, a preocupação não era de que o namorado a estivesse traindo.

Aos curiosos de plantão, já adianto que não sei mais detalhes sobre o caso. O interessante dessa história, contudo, é justamente os termos em que o problema foi colocado. Afinal, a desconfiança pesava sobre a fidelidade ou sobre a sexualidade do rapaz? Eu, a princípio, pensei que uma preocupação sobre eventuais puladas de cerca tivesse sido traduzida numa contestação sobre o gosto por mulheres. Depois, refletindo com mais calma, levantei a hipótese de que o incômodo fosse provocado de fato pela “opção sexual” do moço – um rótulo, socialmente estabelecido.

Suponhamos que ele se mantivesse fiel à menina, pelo resto da vida. Mas que, numa enquete, se declarasse homossexual. Essa declaração, por mais que não interferisse efetivamente na vida do casal, provavelmente teria um efeito destruidor. Por outro lado, supondo o contrário, que ele tivesse suas escapadas, mas se declarasse hétero, muito macho: talvez essa postura, embora claramente desleal, fosse tolerada com mais condescendência.

Isso me faz pensar no peso que atribuímos aos rótulos, por mais que eles não digam tudo em relação ao conteúdo – muitas vezes, dizem muito pouco. O mesmo pode ser dito em relação à “embalagem”: como de dizia à respeito da mulher de César, não bastava ela ser honesta, ela tinha de parecer honesta.

O colorido da diversidade não cabe no preto e branco dos preconceitos. Créditos da foto: Dave Sowerby

O colorido da diversidade não cabe no preto e branco dos preconceitos. Créditos da foto: Dave Sowerby

Os rótulos – ou estereótipos – são a expressão mais cristalizada do preconceito. Preconceito, como já diz a palavra, é o conceito que temos estabelecido a priori a respeito de alguma ideia, algum fato, alguma pessoa. Nesse sentido, penso que não temos como evitar os preconceitos. Pois toda experiência é mediada por uma série de pressupostos – lógicos, cognitivos, culturais, psicológicos – que temos conosco. O preconceito é como uma bússola, que orienta nossas ações.

O problema é quando essa bússola está quebrada, sempre apontando na mesma direção, a despeito das nuances e das particularidades de cada situação. E isso acontece quando nos aferramos aos nossos preconceitos. Apegamo-nos tanto que eles, ao invés de orientarem nossa experiência com a realidade, substituem mesmo toda essa experiência. Sobrevalorizamos o rótulo e praticamente desprezamos o conteúdo.

E, como o rótulo é parte inseparável da embalagem, pode-se pensar de maneira similar em relação à aparência. Sobrevalorizamos a imagem, deixando de lado o que está por trás dela. Tudo parece lindo e resplandescente quando sentamo-nos à mesa de um luxuoso restaurante. A aparência nos encanta. Podemos sustentar com alegria essa ilusão. Basta não se atrever a conhecer a cozinha do restaurante – a surpresa pode não ser boa.

Ao fim de todas essas digressões só me resta lamentar que em pleno século XXI, depois de tantas transformações importantes, que vão da pílula anticoncepcional ao progressivo reconhecimento das uniões homoafetivas, nossa atitude perante o mundo esteja ainda tão pautada pelos preconceitos. Só me resta lamentar que demos mais importância ao fato de o sujeito se dizer bi, hétero ou homossexual do que à sua opinião sobre o que é uma vida que vale a pena ser vivida. Só me resta lamentar o daltonismo que não nos permite contemplar todo o colorido da diversidade, impossível de ser expresso nos termos monocromáticos dos nossos rótulos.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s