Natal, a festa das ilusões – ou a “ideologia do Papai Noel”

Mais um ano, mais um Natal.

As multidões invadem as ruas e os shopping centers, à procura de presentes. Os enfeites se multiplicam: nos lares, nas lojas, nos escritórios e onde mais haja espaço. Tudo isso ao som daquelas canções já comuns nessa época do ano.

Pois eu não suporto mais tudo isso. Não bastasse o calor insuportável que faz nessa época, ter de conviver com esse congestionamento de gente, com o imperativo de “decorar” todo e qualquer ambiente com os badulaques natalinos e, o pior de tudo, com a trilha sonora que é sempre a mesma coisa – se ainda fosse boa, mas nem isso – é um desafio para a minha capacidade de ser compreensivo.

O fato é que, com três décadas nas costas, o Natal perdeu todo e qualquer encanto que um dia talvez tenha tido. Essa perda do encanto, contudo, não é questão de idade. Ainda hoje observo um monte de gente bem mais velha que eu maravilhada com o Natal. A perda do encanto é muito mais um efeito “inconveniente” que surge quando sua capacidade de perceber a realidade se amplia.

O exemplo mais clássico desse processo: a descoberta da verdade sobre o Papai Noel. Todo mundo, que um dia foi um pequeno burguês pequeno, já acreditou na existência de um bom velhinho que vivia no Pólo Norte, sabia sobre o seu comportamento ao longo do ano e que, de acordo com seu merecimento, traria um presente na noite de Natal – providencialmente enquanto você dormia, tivesse ou não lareira na sua casa.

O doloroso momento em que uma ilusão se dissipa.

O doloroso momento em que uma ilusão se dissipa.

Sinceramente, não me lembro qual foi minha reação quando descobri a verdade sobre o Papai Noel. Acho que eu já desconfiava de que havia algo errado com essa história. Minha mãe, por sua vez, conta que ela teve uma grande decepção quando ficou sabendo que era meu avô que comprava o presente e o deixava debaixo da árvore de Natal. O fim da “ideologia do Papai Noel” teve um gosto amargo. Acho que, de maneira geral, essa é a nossa reação quando conhecemos um pouco melhor a verdade: nos decepcionamos.

Sim, ficamos decepcionados por nem tudo ser tão lindo e tão brilhante como na fantasia. Decepcionamo-nos também com o fato de a vida não ser tão justa como, pelo menos idealmente, ela deveria ser. Ampliar o conhecimento sobre a realidade, isto é, amadurecer, não é coisa fácil.

Talvez por isso muita gente tenha preferido não querer saber mais nada sobre a verdade, além do fato de que não é o Papai Noel quem nos traz os presentes de Natal. De fato, é mais confortável acreditar que esse é um momento de fraternidade, em que os homens e mulheres se congraçam, trocando abraços, dando e recebendo presentes, acolhendo os mais necessitados, enfim, que o “espírito natalino” enche de bondade o coração de todos.

Há um tempo, contudo, percebi que a história não era bem essa. O consumismo chega às raias da insanidade, as pessoas adoram competições do tipo “quem faz a decoração de Natal mais bonita”, os pobres, depois da festa, continuam na rua da amargura. Há um tempo, descobri que há algo de errado com o tal “espírito natalino”. Há um tempo, cheguei à conclusão de que ele não passava de uma ilusão (da qual eu gostava, porque me dava um certo conforto espiritual). Mas a ilusão se dissipou. Só restaram o calor, a multidão, os delírios de consumo, a pirotecnia natalina, as musiquinhas irritantes… e uma pontinha de decepção.

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