Apesar da política, contra a política e por causa da política

Nesse domingo que passou, 2º turno de eleições municipais, fiquei surpreso comigo mesmo. Minha mãe e minha irmã assistiam ao “The Voice Brasil”, enquanto eu, não suportando aquela cantoria toda (ou seria tola?), procurava nas rádios e na internet alguma notícia sobre as votações. Surpreendi-me com meu interesse pela política e cheguei à conclusão que minha relação com ela sofreu uma mudança radical ao longo da vida.

Na minha infância de classe média, eu não poderia ser muito diferente do meio em que vivia. Hoje fico de cabelo em pé ao lembrar da minha admiração por figuras como o “rouba-mas-faz” Maluf e o ditador peruano Fujimori. Mas naquela época eu via com maus olhos o processo de elaboração de um consenso político: tudo não passava de uma grande embromação.

De fato, o meio social em que eu vivia não me fornecia uma imagem lá muito boa da classe política. Era preciso viver apesar da política: superar, pelo esforço individual, todos os obstáculos colocados pelo Estado e seus representantes — ou, como pensava naquele tempo, os sanguessugas do país. Eu via a democracia como um empecilho para o progresso e percebia a política como um grande fardo a ser carregado. Ou seja, corria pelas minhas veias um liberalismo misturado com o que há de mais autoritário na nossa sociedade. Percebeu algo em comum com o discurso que até hoje é sustentado por boa parte da mídia? Creio que não é mera coincidência.

Mas aquela visão de mundo, em alguns aspectos, revelava sua miopia, que eu não tardei a perceber. Minha relação com a religião, que eu lembre, estimulou muito meu sentimento moral. Fui até a primeira comunhão no meu catolicismo meio capenga, mas o suficiente para questionar as mazelas com as quais me deparava. Será que o mendigo era menos filho de Deus para estar naquela situação? Embora as pessoas ao meu redor parecessem aceitar de bom grado que a condição mendicante tinha algo a ver com os pecados do pobre homem, eu suspeitava que não era bem assim. Aliás, via que gente muito trabalhadora também se estrepava na vida, apesar da “santidade” do trabalho.

Esses questionamentos foram crescendo dentro de mim. Alguns filmes como Matrix e Clube da Luta conseguiram adubar um pouco mais essa “árvore da dúvida”, que florescia cada vez mais. Os frutos desses questionamentos, contudo, me conduziram a uma postura de negação radical da política. Tornei-me um anarquista. Pensava em direcionar meus esforços contra a política. Via nela e em sua forma mais elaborada, o Estado, o princípio e o fundamento da dominação de um homem pelo outro. Tinha para mim que enquanto isso durasse, a Humanidade jamais poderia viver em concórdia. Nessa época votei nulo como forma de expressar essa posição.

Lentamente, contudo, fui percebendo que chegar naquele “paraíso terrestre” não seria tarefa fácil, se é que possível. A vida real — juntamente com as Ciências Sociais — foi mostrando quão mais complexas são as coisas. Percebi que não se pode pensar a sociedade sem os seus conflitos. Entendi que não basta “boa vontade” aos homens e mulheres para viverem bem, em paz e harmonia. Pelo contrário, compreendi que o consenso, longe de ser regra, é a exceção. E os diferentes grupos procuram, cada qual com seus recursos, conduzir o destino de toda a comunidade.

Porém, a maior descoberta, se assim posso dizer, é que o individualismo liberal é uma farsa. Não vivemos isolados e, a menos que sejamos Robinson Crusoé, precisamos de um meio para convivermos civilizadamente uns com os outros. E, ao que parece, ainda não inventaram nada melhor para essa finalidade do que a política. Com essa constatação, aos poucos, meu sentimento em relação à política achou o caminho livre para mudar da água para o vinho. Entendendo que nessa esfera podemos encontrar um meio de expressar nossa vontade para construir um mundo melhor — ou, pelo menos, menos pior — , percebi que hoje vivo, entre outras coisas, por causa da política.

Tenho claro que não há acordo sobre o que seja “um mundo melhor”. Sei que existem aqueles que almejam voltar para um passado mítico, onde “tudo era bom quando cada um tinha seu lugar” (na casa-grande e na senzala). Há também aqueles que querem deixar tudo como está, pois, segundo eles, “ainda não inventaram nada melhor que o capitalismo”. Por fim, há os que, embora reconheçam os avanços trazidos por esse sistema, não toleram a lógica perversa do capital, segundo a qual para que uns possam ter, outros sequer podem ser. E é ao lado desses últimos que eu me coloco, na luta por uma outra realidade. Luta que passa necessariamente pela política. Não há como fugir.

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