Veja: a ética da hipocrisia e o espírito da classe média

Ao abrir meus e-mails ontem, deparei-me com uma mensagem cujo remetente era a revista Veja. A princípio, pensei que se tratava de mais uma daquelas ofertas para assinatura da revista, com descontos generosos — o que parece indicar que as vendas não vão lá muito bem. Para minha surpresa, a mensagem trazia a carta ao leitor da revista — muito embora eu não seja leitor de Veja. Sendo assim, da mesma forma que a referida publicação tomou a liberdade de enviar sua carta ao leitor na minha caixa de e-mails, tomo a liberdade de reproduzí-la logo abaixo:

Um norte ético

Coube à imprensa livre revelar que no coração do governo do ex-presidente Lula funcionava uma impressionante máquina montada para desviar dinheiro dos cofres públicos e, com ele, subornar parlamentares e comprar partidos políticos. Coube ao Congresso Nacional esmiuçar em uma CPI os caminhos tortuosos do escândalo que ficou nacionalmente conhecido como mensalão, o maior caso de corrupção política da história recente. À justiça, cabe agora punir os envolvidos. Temia-se que a tradição de impunidade prevalecesse. Na semana passada, porém, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) anunciaram os primeiros veredictos, condenando cinco dos 37 acusados, entre eles o deputado João Paulo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados, o petista Henrique Pizzolato, ex-diretor de marketing do Banco do Brasil, e o empresário Marcos Valério, apontado como o operador do esquema. Suas penas só serão anunciadas no fim do julgamento, mas a decisão dos magistrados já começa a romper um dos mais vexatórios paradigmas da cultura brasileira: o de que prisão não é lugar para os poderosos, principalmente se os poderosos também são políticos. A porta da cadeia enfim foi aberta para eles.

Ao anunciarem seus votos, os ministros surpreenderam os mais incrédulos. Não se limitaram a fundamentá-los tecnicamente. Externaram também uma enfática indignação com a ousadia patrocinada pelos ladrões de dinheiro público. “Agentes públicos que se deixam corromper e particulares que corrompem são corruptos e corruptores, os profanadores da República, os subversivos da ordem institucional, os delinquentes, os marginais da ética do poder, infratores do Erário que trazem consigo a marca da indignidade, que portam o estigma da desonestidade”, disse o ministro Celso de Mello, o decano do STF. Ainda falta muito para saber se a impunidade será inteiramente derrotada, mas as primeiras condenações são exemplares em sua essência e trazem um sentimento de alívio e alma lavada à opinião pública, já que apontam o inédito caminho da prisão para os corruptos poderosos – um feito histórico, que pode fazer o Brasil finalmente reencontrar o rumo da ética e voltar a distinguir o certo do errado.

Como se vê, quem dispõe de um mínimo de senso crítico percebe o caráter abertamente parcial do texto: por um lado, se esmera em acusar e condenar os políticos ligados ao PT, estejam ou não comprovadamente envolvidos na prática de atos ilícitos; e, por outro lado, procura louvar o comportamento da “imprensa livre”, esta a conhecedora do “norte ético”, portadora da bússola que permite à sociedade discernir entre o bem e o mal.

A bem da verdade, o tal “norte ético” está mais para um moralismo cínico, quando não um maniqueísmo infantil. Com efeito, falar de ética implica tratar das razões que fundamentam a conduta do ser humano para a obtenção de uma vida boa, mediante uma ação livre e responsável. Entretanto, a ética do tal “norte ético” restringe-se muito mais a uma série de preconceitos, facilmente identificáveis na carta ao leitor. Como, por exemplo, quando diz que “À justiça, cabe agora punir os envolvidos.” Ou seja, justiça boa é justiça que condena no atacado (melhor ainda se os condenados forem do PT). Ora, essa concepção mostra-se impregnada pelo mais elevado autoritarismo, marca do nosso passado colonial e escravista. Qualquer um que viva num Estado Democrático de Direito — e não num Estado de Exceção — deve convir que à justiça cabe julgar com imparcialidade e isenção.

Mas a referida publicação, que tanto gosta de adjetivos e de fazer sua a “opinião pública” — segundo ela, agora de “alma lavada” — , certamente não resiste à tentação de fazer seu o veredicto da justiça. Por isso, o tom efusivo da carta ao leitor. Tom que só não foi mais festivo porque “ainda falta muito para saber se a impunidade será inteiramente derrotada”. É bem verdade que o texto tenta disfarçar seu autoritarismo, clamando por justiça contra os “poderosos”. Quando  os “poderosos” são “amigos”, porém, a indignação com a impunidade se arrefece. Não por acaso, o mesmo órgão de imprensa que faz tanto alarde para tratar do “escândalo do mensalão” (do PT), silencia quando o assunto em pauta é o “mensalão mineiro” (do PSDB) ou a “privataria tucana”. Curioso, não? O tal “norte ético” parece apontar claramente para a hipocrisia. (A esse respeito, Bob Fernandes escreveu um excelente texto, A farsa e os farsantes.)

De fato, no mundo ideal de Veja, todos os “petralhas” estarão atrás das grades. E é dessa forma que essa revista se identifica tanto com certos ideais de uma determinada parcela da população: a classe média tradicional. Procedendo como Max Weber, podemos perceber as “afinidades eletivas” entre os valores dessa classe média e a linha editorial dessa publicação.

Essa classe média, tão bem descrita por Marilena Chauí (veja o vídeo abaixo), é marcada por um caráter autoritário, hierárquico — e, portanto, antidemocrático — , moralista, que coloca os interesses privados acima do interesse público. Não por acaso essa parcela da população se delicia com qualquer possibilidade de que o ex-presidente Lula esteja envolvido no “escândalo do mensalão”. Afinal, o torneiro mecânico que teve o “atrevimento” de tornar-se presidente da república, mesmo sem ter um diploma universitário, merece ser condenado por essa ousadia. Do mesmo modo, esses “petralhas” que permitiram que 40 milhões de pessoas deixassem a linha de pobreza para “invadir” os aeroportos, até então redutos da “nata” da sociedade, não podem sair impunes. Ou seja, qualquer um que ameace a “ordem estamental de castas”, típica da sociedade colonial, merece ser castigado.

Não quero com tudo isso tentar isentar de culpa quem quer que tenha cometido atos ilícitos, entre os quais desvio de dinheiro público. Mas é preciso, diante desse oba-oba midiático em torno do julgamento do “mensalão”, adotar uma postura crítica frente a essa tentativa de promover uma condenação sumária, motivada claramente por interesses políticos. Afinal, o julgamento — absolver ou condenar — cabe aos juízes, constituídos para tal.

De todo modo, essa carta ao leitor mostra claramente a parcialidade da imprensa, bem como os valores sociais que amparam essa postura. Pois o jornalismo ruim é um sintoma de uma sociedade com problemas a resolver. E a julgar pela má qualidade da nossa imprensa, a sociedade brasileira tem sérios obstáculos a superar, para que um dia seja uma sociedade verdadeiramente democrática.

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