A idade da desilusão

Um dia desses completei trinta anos. Aí me perguntaram: “como você se sente?” Sinceramente, fiquei sem saber o que dizer. Não me sentia melhor nem pior pela idade. Embora tenha ficado sem palavras, fiquei com a pergunta na cabeça, ruminando um monte de pensamentos.

E pensar que já tenho três décadas nas costas é, por um lado, um pouco assustador. Ainda mais quando, seguindo a opinião comum, sou levado a pensar que fiz pouco ou nada de relevante nessa vida. Não me casei, nem tive filhos. Não consegui seguir uma carreira profissional que fosse. Fiquei à deriva, nesse oceano caótico que é o nosso tempo.

Por outro lado, sinto que os anos me tornaram mais tolerante com as frustrações. De fato, acho que a minha primeira grande decepção, se assim podemos dizer, foi quando fiz 18 anos. Sim, pois embora eu pudesse, a partir de então, tirar minha carteira de motorista, sabia que tendo essa idade muito dificilmente poderia ser jogador de futebol — eu já estava muito velho pra isso. Dessa idade em diante, a cada ano, ia sentindo que o leque de opções sobre o meu futuro ia progressivamente diminuindo. Não ia mais ser músico, atleta, um gênio da informática, celebridade, ou sabe-se lá mais o que. Mas assim, da mesma forma que se reduziam as possibilidades, reduzia-se também aquele sentimento de frustração. Por exclusão, o meu destino ia sendo traçado.

Chegando na casa dos trinta, penso que meu grande feito foi ter deixado de lado todas essas esperanças desnecessárias, todas essas expectativas que nos fazem adotar um comportamento adequado ao funcionamento dessa grande máquina do capital. Não acredito em sucesso individual, ainda mais quando este se dá às custas do fracasso alheio. Não me interessa ser alguém nesta terra de ninguém. Tampouco me entregar a uma busca interminável pela felicidade. Antes, quero ter a serenidade necessária para saber desfrutar dos momentos de contentamento, quando eles existirem. Pois, se a experiência serve de alguma coisa, ela me diz que esses momentos, longe de ser regra, são antes uma exceção. De modo que é importante estar com o coração sereno para gozá-los.

Em suma, de bom grado, troquei a busca da felicidade pela busca da lucidez, assim como a euforia pela serenidade. O que me importa agora é pisar esse chão com meus próprios pés e, dissipada a espessa névoa de ilusões, caminhar em frente. Caminhar tendo no horizonte uma utopia, um outro projeto de mundo, o qual, entretanto, só poderá ser atingido passando por cima da ordem atual das coisas. Não me iludo com a perspectiva de que tal caminho será necessariamente percorrido — necessário é tentar percorrê-lo.

Acho que é assim que me sinto com trinta anos: com menos sonhos, menos expectativas, menos ilusões, mas com os dois pés no chão. Estou na idade da desilusão.

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